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segunda-feira, outubro 29

Por que Latino é um Gênio?


A arte não tem a menor utilidade. Ponto. É preciso ter coragem para dizer isso, mas trata-se da mais pura verdade. O mundo gira, as lojas abrem, Luan Santana cantará independentemente das galerias do Louvre...

O que acontece hoje na cena contemporânea (digo, na cena atual) é que a arte encontrou um “departamento” na sociedade. Encontrou uma maneira de ser auto-referencial, auto-suficiente, enfim, autônoma, divorciando-se do público...

Quando vejo alguns espetáculos contemporâneos, dança e pintura, percebo que se criou uma “coisa”, uma maneira de entender essa “coisa” e, ainda, um meio de gostar desta “coisa”.

É como o cigarro: você é uma pessoa normal sem nunca ter tido a necessidade de fumar, daí você fuma um cigarro, dois três, quatro, e cria o costume de fumar, esse costume vira uma necessidade e, depois, você não consegue viver sem o dito-cujo.

O mundo sem cigarro e o mundo sem arte... Não é difícil intuir que ele seria o mesmo, pois a arte e o tabagismo são, no séc XXI, necessidades fabricadas!

A arte que basta por ela mesma.
O teatro que se completa no próprio teatro.
A dança que existe apenas na dança.
O ator que, na cena, é ator do ator...

Há uma enorme preocupação em revolucionar a estética, um desespero em dizer o que é arte e o que não é, de criar o que é arte, mas não o que essa arte tem a dizer...
Em meio a esta invaginação da produção, cabe à crítica, às galerias, aos patrocinadores, aos colecionadores, aos teóricos dizerem o que é para ser visto, o que é bom, o que é útil...

Eles explicam e direcionam. No jogo do bicho, eles são as grandes cafetinas!

O curador é o grande homem. É ele que vai selecionar o vai ser exposto. Da mesma forma, a televisão é quem vai por Latino para circular em todas as casas, para dizer que esta é a música do momento.

O que consagra Latino é o que põe em evidência o artista contemporâneo: o barulho que se faz em volta daquilo, e não, aquilo!

A arte está nas mãos dos vinculadores. Ele pertence aos intermediários. São eles que a “traduzem” para público...
No mundo da informação, aqueles que fazem as “pontes” são os grandes ditadores.
Negar que os mecanismos da arte são diferentes daqueles da cultura de massa é ignorar o mundo midiático em que vivemos.
Latino é um gênio, pois, ao contrário dos “Duchamps” que saíram de moda, dos “Brechts” que vão e voltam, mas nunca ficam, Latino faz sucesso desde 1994 num mundo de sucessos efêmeros.
É de se admirar, no mínimo, ou de se suspeitar, ao máximo...
Mas qual seria a saída para toda essa realidade fictícia, para as necessidades inventadas, para os ídolos impostos?

A caixa cênica é uma máquina debulhadora. Ele precisa, mais do que nunca, funcionar de fora para dentro. O que pode fazer a arte entrar no jogo do mundo é trazê-lo para cena, transformá-lo e pô-lo de volta para circular. Não se trata de colocar qualquer coisa do cotidiano no palco para “ilustrar” a realidade - os jornais podem cuidar disto. É preciso processar! Debulhar! Reformular a linguagem para colocar outra em circulação!

O que me envolve enquanto expectador são elementos que nunca pensei sendo utilizados de forma surpreendente, quebrando a ordem dos signos justamente para me transmitir uma mensagem que, talvez, já conhecesse, mas, quando processadas daquela maneira, surtiram outro efeito, causaram-me um incômodo ou um encanto, uma vontade de reagir de alguma forma...

Se a caixa cênica é utilizada no movimento inverso da debulhadora, se for trabalhado de dentro para fora, o resultado será saturações estéticas, o teatro do teatro que só serve para o teatro, a pintura da pintura que só serve para pintura e que precisa, assim como o Latino, de uma mídia que o re-afirme, que diga “não gente, é um macarrão na parede, mas arte”.

O pior de tudo é que toda essa autonomia inútil que se faz das produções artísticas é encoberto pelo mito de que “o artista é o porta-voz do sentimento” e de que a “arte é o bem supremo”.
Um nuvem de blá, blá,blá que molha um monte de blá, blá, blá...
Vamos ao prático: pra que tudo isso serve?

Dou um biscoito para minha cachorra quando ela está muito agitada. Dizem que, se você é um artista, você é um ser humano especial. O “status”  basta. O cara se acalma, faz o trabalho dele, vai para São Paulo fazer o curso e o que ele muda no contexto em que vive? Nada, pois ele é um ser especial, deslocado do mundo e, para o qual o mundo tem que se direcionar e entender. Convenciona-se o que é ser artista, dar-se isso para o infeliz e ele para de latir...

Se eu sou artista, Latino também é! Por que não? Sou democrático!


O que o teatro precisa é reprocessar o mundo que descortina em sua frente e tomar o poder que foi dado aos críticos, às galerias, aos curadores, às instituições, voltando a ser capaz de espalhar boatos do tipo “a vida não é o que dizem, a arte também”...

O que faz a arte contemporânea e o pop star Latino serem, no fim das contas, a mesma coisa é que ambos entendem que o barulho que se faz em torno da conversa é mais importante do que o diálogo.  

E ficamos depois deste texto com uma Homenagem a Latino



terça-feira, junho 5

Por quê, às vezes, saio do teatro com a sensação de não ter gostado e sem coragem de dizer: Isso é uma merda!

Ilustração Diego

Sobre o conteúdo e a forma
Tratando-se de arte, a palavra superação é muito delicada. Dizer que o romantismo foi uma superação do classicismo é um tanto perigoso. Mas, antes de entrar nessa seara, nos perguntemos o que é arte, com letra minúscula mesmo, sem grandes elucubrações. Não coloquemos esta esfera do conhecimento humano em um grande plano, inalcançável, transcendental, onírico. Isso traria muita margem para licenças poéticas e, licença poética, em um universo objetivo, dá tanto trabalho quanto erva daninha... O que é arte? Trate de achar a primeira palavra que vem à cabeça, sei lá, sem muito refletir, sem muita filosofia, sem muita xerox de universidade... Quando penso em arte sem muito pensar me vem a seguinte frase: “qualquer coisa”. Arte, portanto, é “qualquer coisa”. Não deixa de ser um pouco categórico, quanto mais se, no final deste artigo, eu não colocar “Igor Nascimento, doutor em estudos do diabo a quatro”. No entanto, hoje em dia, no cotidiano onde a metodologia, abstração do senso comum transformada em método, método transformado em teoria, que, por sua vez, é transformada em conhecimento científico que é destilado do conhecimento empírico, para se tornar obsoleto, voltando ao senso comum para ser dali abstraído, transformado em método e..., ser  categórico pode ser uma grande virtude, uma economia de tempo, desde que amparado, é claro, por uma boa metodologia, menos científica e mais libertária. 
Vamos à ela!

terça-feira, maio 29

A Lambida


Ilustração de Diego 

Foi assim que a conheci: carente, precisando de companhia. E lá estava eu, na hora e no local certo. Foi uma espécie de amor a primeira vista, pelo menos assim queria eu entender, no entanto, sabia que seria muito difícil que ela gostar de mim, embora não fosse impossível - a realidade pode ser dura, mas tem seus caprichos, vez ou outra se maquia de sonhos para sair escondida...

“Vou tê-la pra mim”, disse convicto, mesmo que seja contra a sua vontade, mesmo que não ame, mesmo que não se agrade da idéia. Ela será minha, pois, tratando o meu amor como um fato concreto, não preciso de uma recíproca, uma vez que tudo que preciso já foi constatado. Portanto, empiricamente, em outros termos, mais cedo ou mais tarde, ela iria gostar de mim. Disso eu tinha certeza. Basta ela saber que eu sou o grande amor da vida dela. Se ainda não me ama é por façanha da ignorância. Coitada, ela não tem culpa...   
            

terça-feira, maio 22

A MENTIROSA

Ela sempre falava, “eu nunca minto”, e o pior: não era mentira. Anabela só dizia a verdade. Nem mesmo a mentira mais inocente, como dizer que ia à casa de uma amiga para ir à casa do namorado, ou dizer que já almoçou, quando na verdade se empanturrou de sorvete na rua; a menina não era capaz de fazer. Os lábios tremiam, as sobrancelhas assumiam não sei qual trejeito, não adiantava. Mesmo se quisesse mentir, por algum princípio psicossomático, não conseguiria, não o saberia.

sexta-feira, maio 18

DAMA do INFERNO


Antes rainha da noite,
Agora pedinte de meio expediente.
Vivendo das migalhas daquele passado
Em função de qualquer trocado presente
Nem parece que foste tão bela!
Suja e maltratada
Não é mais do que a rua esburacada
Não é menos do que uma cadela!
Cá, eu, enquanto poeta,
Vítima também do descaso
Sabido que a desgraça é certa
E felicidade é mero acaso
Entendo do cheiro da merda
E encontro sentido no estrago
Ah! Como a vida é mais fluída depois primeiro do trago!
O espírito encontra mais sentido na insensatez
Agora livre da pungente rigidez
É um corpo vazio que clama por gozo
Carne que inflama em alvoroço
Pensamentos que disparam em revoada
Euforia que corre nas veias a troco de nada
Olhos vermelhos de fumaça
Que ignoram a febre o tóxico
Que choram para dentro
E riem o mais puro ópio...
Portanto, se se vai morrer de qualquer jeito
Arranjem-me um leito qualquer
Para que possa mamar em teus peitos
Sugando a mesma claustrofobia do teu cachimbo
Permanecendo nesse mesmo limbo
Casarão abandonado em clausura
Abrigo da leptospirose e da loucura
Santuário da felicidade carcomida, corrompida,
Sugada, assim, de cada rachadura
Pois não sou eu, infelizmente,
Não sou eu,
Aquele que vai execrar os excessos da fissura
Não!
Não vou ser o falso Cristo das bocadas,
Condenando os que nas esquinas se consomem
Não sou aquele que vai dizer, dama do inferno,
Que nem só de crack vive o homem!

segunda-feira, maio 7

QUANDO A INVEJA NOS ATACA NO QUARTO DE MOTEL


           
          Estávamos lá. Ambos muito tímidos ainda. Estávamos ali para aquilo, sentido isso, mas não falando disso. Disfarçando ao máximo nossas intenções para não deixar as coisas muito na cara. Viemos, é claro, para trepar, mas nossas intimidades ainda não escalaram grandes alturas. Portanto, qualquer empolgação desavisada pode acabar com tudo aquilo, sem isso, por causa disso.
            Se ela veio até este local, era por que também queria algo a mais, ou a menos. No entanto, seu jogo consistia em dizer:
- Bem, eu estou aqui mas não sou safada, viu?
Eu, por meu turno, tentava expressar nas entrelinhas.
- Veja, eu estou doido para te comer, mas não sou um tarado, tá me ouvindo?
 A pior parte, a mais difícil, já tinha passado. O convite foi feito e aceito. É certo que sem muito mérito da minha parte, já que o nome do motel ajudou: “Depois te conto”.
- Vamos para um lugar mais reservado, que tal?
- Onde você quer me levar, hein?
- Depois te conto!

sábado, março 24

Não Sei Você

Não sei você, mas às vezes eu rezo para que o mundo acabe, não por completo, mas apenas seja talhado, logrado o suficiente para se ter um novo começo, que uma onda gigante, um terremoto, um vulcão, sei lá, que o cocô de um pombo, o que quer quer seja, contanto que extermine tudo!  e que se dane os mortos, as criancinhas, as grávidas morrendo no meio do pandemônio, daria tudo só para ver esse novo começo, sabia? Esses novos primórdios. E os filantrópicos iram me dizer, “vai recomeçar a carnificina, o pecado original, as guerras”, tanto faz, serão guerras novas com seus respectivos mortos e sobreviventes, ao invés da maçã, a banana, é mais sugestivo, “e os direitos humanos?”, uma hora ou outra hão de criar algo parecido, “mas isso não é uma repetição?”, é justamente aí onde eu queria chegar, sem me contradizer, que se repita, aos diabos! O importante é recomeçar, é simplesmente apagar tudo e ter nas mãos, não o começo de uma nova era, de um novo império, e sim, de um novo mundo, criado no meio dos destroços, só por meia dúzia de sobreviventes que talvez, diante do escarro desta catástrofe, tenha que inventar até a roda, já pensou, que espetáculo?

terça-feira, novembro 22

JÁ TE CONTEI DA PRIMEIRA VEZ QUE FIZ UM PROGRAMA?

           

Na época as coisas estavam um pouco apertadas. Parece um bom argumento: a necessidade. Mas não era para tanto. Não passava fome. Apenas sentia o golpe profundo e covarde do dinheiro do aluguel. Uma espécie de extorsão velada: paga ou vai dormir na rua.

Volto a insistir, as razões que me levaram a prostituição foram de outra ordem.
Na verdade, foi mais um acidente.
Foi Cristiane.
Perfil de Cristiane: Uma coroa. Uns quarenta para cinqüenta.  Conservada (se fosse um carro). Gostosa (se fosse mais nova). Rica (Aqui não cabe compações).

Encontramos-nos certa vez. Ela me sorriu. Aliás, Cristiane tinha o poder de se comunicar por seus sorrisos. Através deles, ela podia convidar para o motel, dizer que não gostou de determinado comentário, conversar sobre Foucault por duas horas e meia. Falei que eu era estudante de história. Ela sorriu. Falei que morava em uma república. Novo sorriso. Disse que me interessava por cinema e que arranhava um violão e que detestava crianças. Ela não sorriu. Eu sorri. Ficou um clima...

- Quer uma cerveja?
- Sim... Ela voltou a sorrir. A música do bar voltou a tocar. As pessoas voltaram a circular. A conversa fluiu. Fomos para cama. Foi uma noite perfeita. Sexo, embriaguês, carona para casa – no carro dela, é claro.

Saímos durante umas três semanas. Ela pagava o jantar. Iámos para boate. Ela dizia “Não, eu faço questão”. Eu, “tudo bem”. E assim nos entendíamos. A situação não me incomodava. Quer dizer. A única coisa que me incomodava, de certa forma, era o fato de eu não me incomodar. Estava mais do que claro que eu era um liso e que ela queria a companhia de uma rola a qualquer custo. As mulheres dessa idade, quando se permitem, se agarram a um pau como se segurassem uma bóia de salva-vidas. Elas transam com uma espécie de furor. Fazem de tudo como se quisessem recuperar o tempo perdido ou como se não tivessem mais tempo.

Safada...

No entanto, ela consumia quase todo meu tempo. Era uma espécie de fogo inextinguível. Tinha impressão que me comia vivo. Que tentava, nesse querer desenfreado, sugar minha alma através de seus orifícios. Creio até que emagreci, veja só! Precisava de espaço, de tempo. Pela primeira vez, senti saudades do meu curso de história e, por incrível que pareça, saudades de entregar meus trabalhos dentro do prazo.

- Cris... Não posso mais sair...
- Ah... O que foi, gatinho?
- Preciso... eh... preciso... eh...
- Hum...
- Terminar a resenha de um livro...
- Ah, que penah!...
- Pois é...
- Logo hoje que eu... (Censurado)

E depois dessa noite decidi não mais encontrá-la. Ela insistia, por seu turno. Mas eu fui resoluto. Não, definitivamente, não! Mas ela ligava. Todo dia. Duas vezes por semana. Uma vez. De vez quando. Quando o telefone tocava já sabia quem era. Ficava olhando para visor do celular tentando esboçar alguma desculpa. Eu perguntaria sobre sua vida. Ela, sobre a minha. Respondia tudo automaticamente, como se estivesse ligado no modo “seja simpático!”. E certa vez, não sei exatamente como fomos parar neste assunto, conversamos sobre dinheiro, mas precisamente, sobre minha situação financeira. Ela ficou sabendo que eu era um liso (fingindo que isso se tratava de uma novidade) e que eu, por incrível que pareça, tinha algum orgulho e que a situação de estar saindo com ela – ela pagando tudo – me incomodava.

- Que besteira...

- Eu sou homem, entenda...

Apesar de ser homem, era a primeira vez que falava isso, assim, diretamente, quase francamente. “Eu sou homem”, fiquei repetindo isso na cabeça, como se fosse ao mesmo tempo homem de fato e uma criança de 10 anos com um lençol amarrado no pescoço me imaginando o próprio superman.

- Vamos transar, deixa de ser bobo, é só umazinha...
- Eu já disse, Cris, não posso voltar atrás... Eu sou um h...
- Eu pago!
(pausa)...
(pausa de novo)
- Você louca... Eu não aceitaria esse tipo de...
- trezentos reais!
(pausa)...
(pausa novamente)
(só mais um pouquinho)
- Você está de brincadeira...   
- Falo sério!...
- Não posso aceitar...
- Trezentos!
- Que horas?
- Dez e meia... Você quer que eu te busque?
- Pode deixar... Pego um taxi!
(Claro que iria de ônibus. Falei taxi para parecer um pouco mais independente)

 Estava, a partir daquele instante, contratado. Pensei em pegar o telefone e cancelar. Mas desisti. Já tinha bancado o menino demasiado. Já era hora de agir com veemência. Chegar e lhe dizer...

- 20 comer e pegar o dinheiro, ordinária!

Fiquei refletindo da vez em que fui assaltado e o assaltante me chamava apenas de vagabundo. “Passa o dinheiro, vagabundo!”. Quando na verdade era ele que... enfim, ele estava com uma arma e não quis corrigi-lo. Ao me tratar assim ele esquecia que era de fato um bandido. No lugar disso, ele cumpria uma espécie de dever que lhe fora imputado por não sei quem. Não sei por que faço essa analogia. Mas o interessante é que, na hora em que fui contratado para ser michê, tive o ímpeto de chamá-la só de puta! De bater em seu traseiro chamando-lhe de puta. “Tu é puta, sabia? Tu puta!”. Dizendo isso com a entonação de um ator pornô com um sotaque carioca, com a voz meio nasalizada, fazendo chiar o ‘s’ e estendo a última sílaba como se houvesse a letra ‘h’ no final de cada palavra.  “Tu uma putah! Cashorrah!”.

Sai de casa.

Peguei o ônibus.

Desci do ônibus.

Parei por um instante na calçada. Olhei o veículo indo embora e desaparecendo na esquina. Estava sozinho. Fiquei nervoso. Só tinha um texto ensaiado. Uma três frases mais ou menos. Quer dizer, uns três palavrões (vagabunda, ordinária, puta). De resto, bastava assumir uma postura de quem não está nem aí. De quem só veio para comer mesmo, enfim.

Mas eu não conseguia entrar no clima. O que se apossava de mim era um enorme receio. Ia para casa dela para cumprir um serviço. Ela me contratou. Eu teria que ir lá. Teria que fazer valer trezentos reais de sexo, puta que pariu, como contar? Se for por metida, quanto será que vale uma metida? Dois reais? Cento e cinqüenta metidas será o suficiente para satisfazer uma mulher? É melhor ficar em cinquenta centavos. Seiscentas metidas. Não é possível... Acho que basta. Esse é meu preço! Uma pirocada: cinqüenta centavos. 

Merda!

Sem mais tempo para pensar.

Toquei a campainha. Uma vozinha lânguida saindo pelo interfone disse “Tá aberto” - rindo logo em seguida, querendo dizer que também tinha falado uma sacanagem. Ela estava no ponto. Eu... Eu tinha esquecido meu texto e a única coisa que sabia repetir para mim mesmo era “o que que eu estou fazendo aqui!”.
Ela abre a porta...

– Boa noite...

Ela estava tentando ser sexy. E, talvez, por perceber esta tentativa enquanto uma tentativa, eu, definitivamente tinha travado.

- Com licença...

Entrei de uma vez, antes que, na porta mesmo, tivesse que mostrar o meu serviço, se de fato tinha as qualificação para tal empresa, se valia este empreendimento, se estava preparado de fato para enfrentar os desafios do mercado de trabalho.

- Você quer beber?

- Quero!
(“Pelo amor de deus”. Foi o resto da frase que não disse.)

Estava sem reação.  Ela voltou. Reparei que usava um chambre preto, meio transparente. Que era muito baixa sem o salto, que os peitos, sem o sutiã, pareciam mais caídos e que a maquiagem não escondia perfeitamente os traços da velhice.

- O que você tem?
- Eu? Nada...
- Você está meio assim...
- Tive um dia ruim, é só isso...
- Você tem certeza que quer fazer isso?
- (hesitante) Sendo sincero eu acho que...
- Você prefere o pagamento antes, ou depois?
- (convicto) Antes!
- Está aqui...

É preciso ter muito virtude para recusar dinheiro. Principalmente quando o caráter é flexível e a moral é subornável. Aceitei automaticamente. Coloquei as notas no bolso, socando-as para dentro, querendo que essa parte do pagamento, a mais humilhante, passasse o mais rápido possível. Terminado isso, me transformei em um produto. Era dela e teria de fazer o que pedisse.

- Tire a roupa   
- Pois não!
- Você está sendo muito profissional...
(Nesse métier de garoto de programa ser muito profissional é uma crítica)
- Desculpe, senhora... (merda!)

Para compensar a polidez, a peguei pela cintura e afundei minha cara em seus seios. Tinha que prolongar ao máximo esse impulso repentino que tive e aproveitar meu lapso de ereção. Tirei rapidamente sua roupa. Ignorei seus protestos. “Calma!”, “Calma, gatinho”. Foda-se! Porra de gatinho! Fui com tudo. Dei tudo que tinha. Usei o que restava do meu instinto animal e a comi tal qual um bicho no cio.

- Já?

Envolvido no ímpeto de possuí-la, não me dei conta que não tinha dado nem dois minutos e que passava longe das seiscentas metidas prometidas que valeriam os trezentos reais. Desarmado, desabei na cama.
- Já?

            Essa palavra monossilábica torturante dava o tom do fiasco. Estava rendido.

            - Já?
           
           Ela perguntava, passando gradativamente da interrogação para exclamação.

            - Já!
            - Desculpe...

            Ela riu. Passou a mão na minha cabeça. Não pude evitar a consolação. Coloquei minha cabeça entre seus seios e falei com a voz abafada “desculpe!”, “desculpe!”. Ela disse que tudo bem, que isso acontecia - mas no fundo estava puta de raiva. 

Só me restava o último golpe de dignidade, embora tardio.

            - Vou devolver o seu dinheiro
            - Não precisa...
            - Não posso aceitar...
            - Fique...
            - Aceite, insisto...
            - Fique para você...
            - Mas...
            - Pegue um taxi...
           
Voltei de ônibus.
           

quarta-feira, novembro 16

AINDA É TEMPO




Tarde da noite. Lá pelas duas horas da manhã. Já cansada. Com a luz do monitor massacrando os olhos.

Gisa espera que Clô dê um sinal de vida...

Só a conhecia pela internet. O site de relacionamento dizia que as duas eram amigas. Mas o contato era apenas superficial. Ela não poderia simplesmente ligar. Sabia seu endereço, mas não poderia bater em sua porta. Estava virtualmente limitada, esperando que Clô desse um sinal de vida on line e que, enfim, um suspiro binário de seu computador aparecesse na frente de seus olhos.

Clô entrou...

Gisa digita...

GISA – Olá...

Clô foi olhar primeiro a caixa de e-mails. Demorou a responder. Não estava tão ansiosa quanto Gisa. Foi para a internet como quem brecha a porta da rua apenas para ver o que está acontecendo. Para se sentir, uma vez vendo todos os seus contatos no lugar, que estava informada e que, portanto, fazia parte do mundo. 

Clô digita (graças a Deus!)... 

CLÔ – Olá!!
GISA – Esperei por você a noite toda...
CLÔ – Sem sono?
GISA – Pois é... Rs...

         O que se instaurou ali não foi o silêncio, e sim, uma ideia de silêncio. Ambas estavam em cômodos isolados de suas respectivas casas. De barulho, apenas alguns grilos que se perpetuavam noite afora e alguns carros perdidos na madrugada. O silêncio era a impressão que algo tinha que ser dito e não o foi. O silêncio era o incômodo da falta de palavras, do diálogo lacônico, do contato perdendo seu contraste... 

GISA– Como é que está aí, onde vc mora...
CLÔ – Mais ou menos e vc?
GISA – Meio mais ou menos também...
CLÔ – O q foi?
GISA – Descobri que meu tempo de vida está acabando...
CLÔ - Hã?
GISA – Vou morrer...
CLÔ – Mentira... Não brinque com isso...
GISA – Falo sério... Tenho pouco tempo... Por isso te esperei a noite toda... 

          Clô passa a mão no teclado. Não sabe o que dizer. Está perplexa. Espera inconscientemente que as palavras isquem seus dedos. Que uma frase saia pronta só pelo simples fato de ali conter todas as letras e as possibilidades de combinação. Exercício inútil. Não consegue digitar uma palavra. Tudo que escreve, apaga logo em seguida. 

GISA – Vc é casada?
CLÔ – (depois de um tempo) Viúva...
GISA – Que bom...

          Clô, obviamente, estranhou. Gisa era casada e não parecia ser do tipo que gosta de aventuras de caráter libidinoso. Já tinha visto as fotos dela com o marido. Felizes, ou pelo menos, aparentando felicidade para os amigos. Já matinha contato com Gisa há mais ou menos seis meses. Tinha se identificado com ela. Trocava receitas. Compartilhava seus problemas. Divulgava seus planos. Combinaram, inclusive, de se visitarem um dia, quem sabe. Não insistiram muito neste assunto. Ficou apenas uma idéia subtendida de que o dia as duas iria se encontrar. Esse dia chegou.

CLÔ – Não posso...
GISA – Mas por quê? Faz um esforço...
CLÔ – Tenho coisas para resolver...
GISA – Você disse que viria um dia...
CLÔ – Por estes tempos a situação está meio difícil...
GISA – Você não quer, é isso?
CLÔ – Claro que quero... Apenas não posso...
GISA – Te arranjo as passagens...
CLÔ – O problema é tempo...
GISA – Estou morrendo Gisa...
...
CLÔ – Não posso me casar com seu marido!
GISA – O que você tem a perder?
...
CLÔ – Pq você quer fazer isso?
GISA – Por que ele é teimoso feito uma mula. Tenho medo que ele morra. Talvez de tristeza. Talvez por esquecer-se de tomar o remédio para o coração. Ele não pode viver sozinho. Ele precisa de alguém sempre ao lado...
CLÔ – Eu não tenho mais idade, Gisa...
GISA – Quem não tem mais idade é quem está prestes a morrer... 

Clotilde não responde. Apenas olha a sala vazia. A tela do computador iluminando os móveis. As fotos ao lado do filho. Um retrato em preto e branco do marido fixado na parede. Bastava escrever ‘sim’. Precisava de um homem. Não queria morrer sozinha. Cada filho tomava seu rumo e ela, cada vez mais só, e mais rabugenta, se afogava em suas próprias rugas. Levantou-se por instante. Resolveu ir para o banheiro. Acendeu e luz. Olhou seu reflexo no espelho quadrado. Esboçou um sorriso. Olhou-se de perfil e ajeitou os cabelos. Ainda tinha um traço de vaidade. Ainda não tinha traçado completamente a fronteira entre a mulher e a velha. 

 CLÔ – Ok!

Adalgisa teve um acesso de tosse. O câncer dava seu aviso. O marido veio ao seu encontro. O soro estava pela metade e não precisava ser trocado. Ele passou as mãos nas costas de sua senhora. Aquele gesto, de alguma maneira, tinha o dom de aliviar a tosse. Fez menção de pô-la para deitar agarrando-lhe levemente os ombros, com a intenção de conduzi-la para cama. Ela,  recompondo-se, recusou gentilmente. Ela se levanta com dificuldade. Antes que o marido viesse ampará-la, levantou o braço como se dissesse “deixe estar, estou bem”. E com a mesma mão, apontou para cadeira. Ele se sentou. 

ADALGISA – Essa aqui é Clô... Uma amiga... Ela cuidará de você quando eu partir...
AGENOR – Não diga isso, Gisa... Você não vai a lugar algum...
ADALGISA – Você é tolo...
AGENOR – O que eu faço?
ADALGISA – Diga alguma coisa para ela...
AGENOR – Não falo disso...
ADALGISA – Digite algo, por favor...
AGENOR – Você está bem?
ADALGISA – “O”, “L”,acento agudo, “A”...
AGENOR – Eu não sei usar essas coisas...
ADALGISA – É só escrever como se fosse uma máquina de datilografar...
AGENOR – Digitei...
ADALGISA – Aperte ‘enter’.
...
AGENOR – (com lágrimas nos olhos que descem com dificuldade, se infiltrando pelos traços do rosto marcado pelo tempo) Eu te amo, Gisa...

Clô está digitando...

ADALGISA – Eu também... Mas faça apenas o que eu te peço...