terça-feira, novembro 22

JÁ TE CONTEI DA PRIMEIRA VEZ QUE FIZ UM PROGRAMA?

           

Na época as coisas estavam um pouco apertadas. Parece um bom argumento: a necessidade. Mas não era para tanto. Não passava fome. Apenas sentia o golpe profundo e covarde do dinheiro do aluguel. Uma espécie de extorsão velada: paga ou vai dormir na rua.

Volto a insistir, as razões que me levaram a prostituição foram de outra ordem.
Na verdade, foi mais um acidente.
Foi Cristiane.
Perfil de Cristiane: Uma coroa. Uns quarenta para cinqüenta.  Conservada (se fosse um carro). Gostosa (se fosse mais nova). Rica (Aqui não cabe compações).

Encontramos-nos certa vez. Ela me sorriu. Aliás, Cristiane tinha o poder de se comunicar por seus sorrisos. Através deles, ela podia convidar para o motel, dizer que não gostou de determinado comentário, conversar sobre Foucault por duas horas e meia. Falei que eu era estudante de história. Ela sorriu. Falei que morava em uma república. Novo sorriso. Disse que me interessava por cinema e que arranhava um violão e que detestava crianças. Ela não sorriu. Eu sorri. Ficou um clima...

- Quer uma cerveja?
- Sim... Ela voltou a sorrir. A música do bar voltou a tocar. As pessoas voltaram a circular. A conversa fluiu. Fomos para cama. Foi uma noite perfeita. Sexo, embriaguês, carona para casa – no carro dela, é claro.

Saímos durante umas três semanas. Ela pagava o jantar. Iámos para boate. Ela dizia “Não, eu faço questão”. Eu, “tudo bem”. E assim nos entendíamos. A situação não me incomodava. Quer dizer. A única coisa que me incomodava, de certa forma, era o fato de eu não me incomodar. Estava mais do que claro que eu era um liso e que ela queria a companhia de uma rola a qualquer custo. As mulheres dessa idade, quando se permitem, se agarram a um pau como se segurassem uma bóia de salva-vidas. Elas transam com uma espécie de furor. Fazem de tudo como se quisessem recuperar o tempo perdido ou como se não tivessem mais tempo.

Safada...

No entanto, ela consumia quase todo meu tempo. Era uma espécie de fogo inextinguível. Tinha impressão que me comia vivo. Que tentava, nesse querer desenfreado, sugar minha alma através de seus orifícios. Creio até que emagreci, veja só! Precisava de espaço, de tempo. Pela primeira vez, senti saudades do meu curso de história e, por incrível que pareça, saudades de entregar meus trabalhos dentro do prazo.

- Cris... Não posso mais sair...
- Ah... O que foi, gatinho?
- Preciso... eh... preciso... eh...
- Hum...
- Terminar a resenha de um livro...
- Ah, que penah!...
- Pois é...
- Logo hoje que eu... (Censurado)

E depois dessa noite decidi não mais encontrá-la. Ela insistia, por seu turno. Mas eu fui resoluto. Não, definitivamente, não! Mas ela ligava. Todo dia. Duas vezes por semana. Uma vez. De vez quando. Quando o telefone tocava já sabia quem era. Ficava olhando para visor do celular tentando esboçar alguma desculpa. Eu perguntaria sobre sua vida. Ela, sobre a minha. Respondia tudo automaticamente, como se estivesse ligado no modo “seja simpático!”. E certa vez, não sei exatamente como fomos parar neste assunto, conversamos sobre dinheiro, mas precisamente, sobre minha situação financeira. Ela ficou sabendo que eu era um liso (fingindo que isso se tratava de uma novidade) e que eu, por incrível que pareça, tinha algum orgulho e que a situação de estar saindo com ela – ela pagando tudo – me incomodava.

- Que besteira...

- Eu sou homem, entenda...

Apesar de ser homem, era a primeira vez que falava isso, assim, diretamente, quase francamente. “Eu sou homem”, fiquei repetindo isso na cabeça, como se fosse ao mesmo tempo homem de fato e uma criança de 10 anos com um lençol amarrado no pescoço me imaginando o próprio superman.

- Vamos transar, deixa de ser bobo, é só umazinha...
- Eu já disse, Cris, não posso voltar atrás... Eu sou um h...
- Eu pago!
(pausa)...
(pausa de novo)
- Você louca... Eu não aceitaria esse tipo de...
- trezentos reais!
(pausa)...
(pausa novamente)
(só mais um pouquinho)
- Você está de brincadeira...   
- Falo sério!...
- Não posso aceitar...
- Trezentos!
- Que horas?
- Dez e meia... Você quer que eu te busque?
- Pode deixar... Pego um taxi!
(Claro que iria de ônibus. Falei taxi para parecer um pouco mais independente)

 Estava, a partir daquele instante, contratado. Pensei em pegar o telefone e cancelar. Mas desisti. Já tinha bancado o menino demasiado. Já era hora de agir com veemência. Chegar e lhe dizer...

- 20 comer e pegar o dinheiro, ordinária!

Fiquei refletindo da vez em que fui assaltado e o assaltante me chamava apenas de vagabundo. “Passa o dinheiro, vagabundo!”. Quando na verdade era ele que... enfim, ele estava com uma arma e não quis corrigi-lo. Ao me tratar assim ele esquecia que era de fato um bandido. No lugar disso, ele cumpria uma espécie de dever que lhe fora imputado por não sei quem. Não sei por que faço essa analogia. Mas o interessante é que, na hora em que fui contratado para ser michê, tive o ímpeto de chamá-la só de puta! De bater em seu traseiro chamando-lhe de puta. “Tu é puta, sabia? Tu puta!”. Dizendo isso com a entonação de um ator pornô com um sotaque carioca, com a voz meio nasalizada, fazendo chiar o ‘s’ e estendo a última sílaba como se houvesse a letra ‘h’ no final de cada palavra.  “Tu uma putah! Cashorrah!”.

Sai de casa.

Peguei o ônibus.

Desci do ônibus.

Parei por um instante na calçada. Olhei o veículo indo embora e desaparecendo na esquina. Estava sozinho. Fiquei nervoso. Só tinha um texto ensaiado. Uma três frases mais ou menos. Quer dizer, uns três palavrões (vagabunda, ordinária, puta). De resto, bastava assumir uma postura de quem não está nem aí. De quem só veio para comer mesmo, enfim.

Mas eu não conseguia entrar no clima. O que se apossava de mim era um enorme receio. Ia para casa dela para cumprir um serviço. Ela me contratou. Eu teria que ir lá. Teria que fazer valer trezentos reais de sexo, puta que pariu, como contar? Se for por metida, quanto será que vale uma metida? Dois reais? Cento e cinqüenta metidas será o suficiente para satisfazer uma mulher? É melhor ficar em cinquenta centavos. Seiscentas metidas. Não é possível... Acho que basta. Esse é meu preço! Uma pirocada: cinqüenta centavos. 

Merda!

Sem mais tempo para pensar.

Toquei a campainha. Uma vozinha lânguida saindo pelo interfone disse “Tá aberto” - rindo logo em seguida, querendo dizer que também tinha falado uma sacanagem. Ela estava no ponto. Eu... Eu tinha esquecido meu texto e a única coisa que sabia repetir para mim mesmo era “o que que eu estou fazendo aqui!”.
Ela abre a porta...

– Boa noite...

Ela estava tentando ser sexy. E, talvez, por perceber esta tentativa enquanto uma tentativa, eu, definitivamente tinha travado.

- Com licença...

Entrei de uma vez, antes que, na porta mesmo, tivesse que mostrar o meu serviço, se de fato tinha as qualificação para tal empresa, se valia este empreendimento, se estava preparado de fato para enfrentar os desafios do mercado de trabalho.

- Você quer beber?

- Quero!
(“Pelo amor de deus”. Foi o resto da frase que não disse.)

Estava sem reação.  Ela voltou. Reparei que usava um chambre preto, meio transparente. Que era muito baixa sem o salto, que os peitos, sem o sutiã, pareciam mais caídos e que a maquiagem não escondia perfeitamente os traços da velhice.

- O que você tem?
- Eu? Nada...
- Você está meio assim...
- Tive um dia ruim, é só isso...
- Você tem certeza que quer fazer isso?
- (hesitante) Sendo sincero eu acho que...
- Você prefere o pagamento antes, ou depois?
- (convicto) Antes!
- Está aqui...

É preciso ter muito virtude para recusar dinheiro. Principalmente quando o caráter é flexível e a moral é subornável. Aceitei automaticamente. Coloquei as notas no bolso, socando-as para dentro, querendo que essa parte do pagamento, a mais humilhante, passasse o mais rápido possível. Terminado isso, me transformei em um produto. Era dela e teria de fazer o que pedisse.

- Tire a roupa   
- Pois não!
- Você está sendo muito profissional...
(Nesse métier de garoto de programa ser muito profissional é uma crítica)
- Desculpe, senhora... (merda!)

Para compensar a polidez, a peguei pela cintura e afundei minha cara em seus seios. Tinha que prolongar ao máximo esse impulso repentino que tive e aproveitar meu lapso de ereção. Tirei rapidamente sua roupa. Ignorei seus protestos. “Calma!”, “Calma, gatinho”. Foda-se! Porra de gatinho! Fui com tudo. Dei tudo que tinha. Usei o que restava do meu instinto animal e a comi tal qual um bicho no cio.

- Já?

Envolvido no ímpeto de possuí-la, não me dei conta que não tinha dado nem dois minutos e que passava longe das seiscentas metidas prometidas que valeriam os trezentos reais. Desarmado, desabei na cama.
- Já?

            Essa palavra monossilábica torturante dava o tom do fiasco. Estava rendido.

            - Já?
           
           Ela perguntava, passando gradativamente da interrogação para exclamação.

            - Já!
            - Desculpe...

            Ela riu. Passou a mão na minha cabeça. Não pude evitar a consolação. Coloquei minha cabeça entre seus seios e falei com a voz abafada “desculpe!”, “desculpe!”. Ela disse que tudo bem, que isso acontecia - mas no fundo estava puta de raiva. 

Só me restava o último golpe de dignidade, embora tardio.

            - Vou devolver o seu dinheiro
            - Não precisa...
            - Não posso aceitar...
            - Fique...
            - Aceite, insisto...
            - Fique para você...
            - Mas...
            - Pegue um taxi...
           
Voltei de ônibus.
           

6 comentários:

Anônimo disse...

Hahahaha! Eu AMOOOOO esse Igor! Me divirto pacas!

Anônimo disse...

meu pau teu cu caralho
vai te fuder
hahahahahahaha
bicho tu é louco, massa, muito massa.

diego

Anônimo disse...

"Não tenho tudo que como, mas como tudo que tenho". um lema p esse cabôco aí....

Italo

Jacqueline Lemos disse...

Muito bom!

Anônimo disse...

Há tempos não lia algo que me fizesse sorrir tão prazerosamente... adorei a transferência e a mais valia super humorada.
parabéns!

Anônimo disse...

GOSTEI! MAS DEPOIS, OQ ACONTECEU????? Manlio