pra quê? - a pergunta fundamental de um auto-abortado social. pra quê escrever? se a morte escorre por cima dos ombros e logo alagará tudo à sua volta e te estrangulará em algum ponto do tempo? lúcido, compreendendo tal futilidade, tentará escrever contra o decesso. e aí não será mais você escrevendo sobre a morte, será ela esculpindo as suas decadências verbais. e a morte tem senso de humor caso saiba acolhê-la em sua casa. te fará rir dos rancorosos que escrevem há milhares de anos sem compreender o quão pouco valiam as palavras. compreenderá que a escrita é uma enganação. porém, estamos de acordo em nos enganarmos agora, meu caro amigo que eu não conheço? então me diga, que lhe importa mais saber? de ideias geniais? a descrição de uma caminhada por uma estrada deserta? quanto às ideias, por que não bola as suas próprias? quanto à caminhada, bem, jamais saberá se não pegar a estrada. então morra, amigo, e saberá o gosto da morte, morra numa calçada, morra sujo de esgoto, mas não morra numa cama confortável, morra sozinho. só quem morre sozinho teve uma morte decente. morra confrontando-se. não deixe que impeçam que seus demônios te incomodem nos últimos minutos de vida. só quem conhece o vazio sabe definhar, só quem conhece a pobreza pode falar da raiva espiritual. e depois levante-se e fale da morte no passado, como quem a ultrapassou e agora caçoa dela no retrovisor. porque, ao contrário do que acreditavam alguns filósofos, acredito que vivemos no instante, e no instante é, de alguma forma, impossível morrer. por mais que se queira - e é preferível que se queira. devemos à isso essa sensação de uma farsa, não acha? não que a vida seja patética, mas apenas trágica e potencialmente engraçada.
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domingo, dezembro 8
terça-feira, julho 30
Navegante
navegante
a noite
nos olhos
e uma lâmpada
tentando iluminar
a escada duma
enorme caixa d'água
na beira da estrada
os pés no chão
e uma vontade irreprimível
de partir
um caminhar desdenhado de tudo
um sorriso-escudo
um sorriso que abre caminho
me poupa
de perguntas irrespondíveis
um desconhecido
que me aperta a mão
e me empresta o fogo
os sorrisos anêmicos
e aéreos das virgens
e os contidos e desajeitados
das interioranas
enquanto uma
sensação de finitude
toma conta
toda vez
que me vêm à cabeça
as imagens
de seus rostos felizes
como se me dissessem
para guardar segredo
e não pensar nisso agora
não pensar no quão pesado
é o nosso fado
fragilidade esvoaçante
olhos que estampam abismos
molhados
redemoinhos transbordam
a garganta
como uma agonia
uma irremediável vontade
de contemplação
meu último cigarro
um sorriso de volta
compactuando silenciosamente
ninguém precisa saber
é sempre um naufrágio
que nos espera.
sábado, julho 20
Vira- Latas
vira-lata assistindo aula de filosofia na UEMA (Universidade estadual do MA)
Na antiguidade, esses
sábios viviam como animais abandonados e vagabundos, mendigos e miseráveis sem
nenhum bem. Acreditavam que o principal ensinamento que a filosofia lhes
proporcionava era estar preparado para tudo na vida. Você não precisa ser
exatamente pobre, mas precisa saber que é capaz de viver sem desejar o que não
precisa. Eles ficaram conhecidos como "cínicos", o que literalmente
significa "cães". Sempre me agradou a imagem de vira-latas pelas ruas
da cidade. Quando me dou de cara com uma criatura iluminada dessas, sinto mais
admiração do que pena. Não há nada mais sagrado do que a serenidade e
sinceridade dos vira-latas pelas calçadas, ignorados e expulsos do mundo dos
homens, mas muito mais reais do que nós, muito mais saudáveis, verdadeiros, honestos
consigo mesmos e, talvez até, infinitamente mais felizes. Todo vira-lata tem
algo de imortal, voraz, imprevisível - morde quando dá na telha, quando decidem
que querem. Latem quando acham melhor e, sempre latem. Isso não quer dizer que
não possam demonstrar paixão (em todos os sentidos da palavra) quando sentem
necessidade. Alguns homens jamais chegarão aos pés dos vira-latas. Eles não
possuem pátrias - vivem no mundo. Não precisam de cultura - a única verdade
está no universo. Não precisam da cidade, da sociedade, da política - não
possuem uma identidade social, porque não precisam disso - o mundo inteiro é o
mundo. E só. Os cães dormem nas portas das igrejas e acreditam que os homens
tenham construído justamente para os vira-latas relaxarem na sombra de uma
laranjeira numa tarde qualquer de verão. Aí está no que a humanidade é superada
mais uma vez - esse sentido de realidade está muito mais presente nos
vira-latas. Também sua imunidade às besteiras humanas - não possuem esperanças
de imortalidade, ambições, qualquer tipo de arte, riquezas, carreiras, ideais,
ideias, ambição, deveres. Às vezes me sinto um vira-lata abandonado mas não
acho ruim. Vira-latas não se lamentam, ao invés disso, nós, bons vira-latas,
temos o espírito mais claro, a nossa alegria é de viver. Somos livres para sermos sós.
quarta-feira, julho 10
Abismo
Era uma dessas padarias com mesinhas de plástico espalhadas na beira da calçada. Já estava ali quando chegamos, a padaria. Existem mais padarias assim no bairro que, inclusive, são muito maiores e mais bonitas do que essa. Pela arquitetura comum, acredito que antigamente foi uma casa e o dono havia começado pela garagem mas com o tempo, por parecer um negócio promissor e também por capricho, expandiu. Talvez este mesmo dono tenha a vendido e ido embora, pois não há, pela expressão do seu José, que é o atual dono da padaria desde que a conheci, nenhuma expressão de quem queira expandir mais ou investir nisso. Ou talvez seu José tenha sido sempre o proprietário, mas algo fez com que se acomodasse, estacionasse nesse ponto. Cansaço? A idade o teria deixado menos otimista? Ou até uma decepção amorosa, quem sabe? Eu que não sei, nunca vi seu José com mulheres nesses últimos anos que tenho freqüentado sua padaria. É uma padaria, mas é dessas que têm mesas de bilhar, café, lanches, tudo feito pelo seu dono/padeiro e mais uma funcionária que eu não sabia o nome. Estou escrevendo daqui agora, se é que já não perceberam isso. Estou esperando uma pessoa. Tenho dúvidas com relação a ela. A conheço há muito tempo, mas acredito que as dúvidas que possuo nunca irão cessar. Não apenas porque ela é mulher e todas as mulheres são ininteligíveis, porque embora geralmente não nos compreendamos, continuamos unidos por alguma vontade estranha, como se a incompreensão nos encantasse apesar de nos fazer discutir e passar raiva seguidamente. É como se ainda tivéssemos esperanças um no outro, até mesmo porque ninguém consegue desistir de um ser que é capaz de te ferir com tanta leveza, com tanta beleza. E, também, é bem verdade que não passamos todos nós de seres distantes e estranhos uns para os outros. Seguidamente nos vimos tomados por um sentimento de estar perdido num deserto de lobos uivantes. A distância entre o lobo e a lua é muito menor do que a que existe entre cada um de nós e um uivo diz um milhão de vezes mais do que um poema. Enfim, não digo isso por rancor, até mesmo porque jamais pensei em sentir algo negativo em relação a ela. Outro dia, nesse mesmo lugar, ela chegou e sentou-se enquanto continuei lendo um livro de receitas em espanhol, sei que é estranho mas passei a tarde toda entretido naquilo e, sem parar de ler, a ouvi colocando as duas mãos cruzadas na mesa e dizer:
- Quem será que inventou a palavra “abismo”?
- Como assim? - respondi sem tirar o olhar do livro.
- Uma vez eu viajei de carona pela América do Sul. Acontece que foi uma idéia imbecil demais. Quando cheguei na Colômbia estava doente, faminta e falida. Caminhei 4 kilômetros por uma auto-estrada na serra cheia de neblina por todo lado, curvas e mais curvas -- que, somadas ao meu estado, me torturavam ainda mais, eu ficava tonta e as vezes me esquecia de quem era. Bem, não sei direito o que aconteceu naquela noite, só sei que a coisa seguinte que me lembro era de já estar de carona numa Kombi de estudantes que estavam em viagem por ali. Desci, a salvo, na rodoviária e voltei para casa.
- E não lembra de nada que aconteceu entre a neblina e tal?
- Branco total.
- Acho que isso deve ser normal.
- Bem, sei lá. Só sei que ontem sonhei que estava naquele mesmo lugar e subi na mureta de concreto que separava a estrada de um abismo enorme e sem fundo, olhava para baixo e tudo era tão escuro, mas não um escuro qualquer, como a sombra duma árvore numa noite de carnaval, mas um escuro vivo, que se movia e parecia possuir personalidade própria, como um ser, como o escuro que fica dentro de uma casa abandonada no tempo, como aquele que fica debaixo da nossa cama quando a gente é criança, é diferente de qualquer outro escuro. Eu me inclinei tanto que era impossível não estar sonhando. Eu estava de pé, mas na horizontal, como se a gravidade não existisse mais e eu estivesse nos braços do abismo vivo, que me abraçava e me beijava de língua. Então acordei. Arrumei o cabelo, escovei os dentes, lavei o rosto, tomei um banho, vim para cá e agora nada mais faz sentido. Não que seja O SONHO o culpado disso tudo, pois é só um sintoma. Um sintoma de que mais nada tem feito sentido. As vezes me dou com uma esquina e sinto vontade de sair correndo. E você aí com esse livro, sei que está me escutando. É tão estranho, porque é a única pessoa que sei que está me escutando quando falo e isso é muito raro. É como se as outras me dessem o olhar, as mãos, o tempo, menos os ouvidos.
Fechei o livro. Ela parecia tomada por um desespero absoluto mas concentrado -- o que pode parecer estranho, porque é possível que algumas pessoas pensem que todo desespero é explosivo e incandescente. E com certeza essas pessoas não conhecem o desespero. Pedimos dois cafés. Continuei em silêncio com a xícara na mão, analisando os desenhos da cerâmica. Parecia uma xícara caseira, branca com flores desenhadas em tons de rosa, violeta e verde-escuro, mas já desbotados. Talvez eu também estivesse desesperado. Essa era minha forma de desespero. Depois, seguimos para casa e até nos damos as mãos no meio da rua...
- O desespero passou -- disse um de nós, só não lembro quem. E o outro respondeu:
- É.
Caímos na cama e ficamos olhando pela janela, chegava o meio dia.
- Tá vendo? -- eu disse.
- O quê?
- O céu.
- Tô.
- O céu é um abismo lindo.
domingo, junho 9
Sobre o Amor ao Absurdo da Existência
Podemos ouvir os passos da morte subindo o mundo. Observamos, estáticos,
o horizonte. O grandioso, o sublime, o perfeito e mais forte dos medos outrora
tomava conta das civilizações. Agora não há mais o medo. Esperamos ansiosos a
sua chegada. Antes, criavamos odiosas criaturas para representá-la. Hoje, os
monstros que odiamos são exatamente os que nos querem impedir de morrermos de
uma vez, os que pretendem nos deixar vivos para sofrer os minutos e as horas.
Somos inimigos do sofrimento mas não o enfrentamos mais. O isolamos num pântano
escuro qual evitamos olhar para dentro. Colocamos placas de perigo e proibimos
as crianças de entrar. Tentamos seguir a vida e construímos cidades ao redor da
escuridão, é por isso que ela está à espreita sem nunca nos abandonar, sendo
carregada por nós rumo ao futuro. Um futuro que nos prometemos alegre e
pacífico. Eu vou lhes dizer o que fazer - tirem as placas e a cerca elétrica ao
redor do pântano. Guiem suas Ferraris ao abismo e admirem-no. Observem o fundo
do copo e sintam aquele odiar eterno inexplicável de tudo e todos - e da morte
inclusive. Sobrevoem o precipício com seus aeroplanadores. Sintam as explosões
estrelares megatômicas de dentro de seus telescópios. Que as criaturas
selvagens dos pântanos internos de cada um possam estar em liberdade para
sempre. E que selvagem não seja uma palavra ruim. Que o sexo seja selvagem. Que
desejemos que a morte não surja no horizonte, não agora. Que o absurdo da
existência prevaleça, apenas por amor ao absurdo. E que o amor seja escancarado.
Que sejamos fortes o suficiente para aprendermos a amar sozinhos, para poder
então amar a tudo com saudades - não somos pários para a morte. Depois, amar
alguém. E que esse alguém seja sintoma de que a vida ainda está.
domingo, abril 7
Carta
A vida ficou nua na minha frente e eu sequer olhei. Meu olhar atravessou
e atingiu outro lugar, ou lugar nenhum. Foi como olhar para uma parede branca.
A vida atirou cores em mim. Colocou reflexos da luz do sol nos vidros das
casas. Despejou folhas secas em calçadas. O vento se jogava no meu rosto,
perfumado. Levantei a gola da camisa contra o frio e continuei andando de
costas para o pôr do sol. Mastiguei as suas frutas e não senti gosto algum.
Sentei-me no cordão da calçada e as pessoas se apressaram na minha frente. Ao
mesmo tempo, não vi ninguém, muito menos fui visto. Achei melhor assim. Eu vi
um cavalo em Turim às chicotadas e provavelmente não reagi - talvez até tenha
ajudado a dar as chicotadas. Céus! Por um minuto (que talvez tenha durado 20
anos) tudo era irreal. Foi apenas luz. Sem matéria. Insípida. Luz, apenas. Eu
não sei se você me entende, também não espero que entenda. Estou esquentando a
água para um café preto. Se quiser, pode se sentar na sala e beber comigo. Mas
te conheço a ponto de saber que não irá ficar. Se levantará e sairá pela porta.
Entende? Acredito que não. Ainda ouço seu salto alto atravessando o corredor
até o elevador. A chaleira com a água quente começa a ferver. Amanhã vai
chover. Será um dia cinza. De emoções cinzas. Olho para a sacada e lembro que
preciso regar a minha horta. Você não entende. Nunca irá entender. Eu só quero
regar os meus pés de alface.
domingo, março 31
"o olho roxo até que nos acentua a beleza da face…” (Mirtes Rodrigues)
Eu amava as literaturas
pornográficas de pouco sucesso e com ortografia problemática, que ao mesmo
tempo possuíam um ar de dor e desespero honestos e sinceros, inocentes insanos
melancólicos contemporâneos - mas que devem ser atemporais e sempre devem ter existido.
De vez em quando atravessava crises existenciais e me recusava a escrever, não
havia um comportamento padrão para essas crises e nem um tempo certo para
durarem. Quando acontecia as vezes eu saía fazer algo que raramente fazia,
quebrar a rotina, caminhar por becos escuros (pode-se dizer que isso não passa
de uma vontade de morrer, impulso religioso, que um cão raivoso me encontre)
mas não era isso que queria. Mergulhava de bico na dor sem sentido que sentia e
esses mergulhos quase me matavam realmente de dor. Ainda lembro de deitar
olhando para o teto sem saída e sem poder fazer muito mais do que arranhar as
paredes, sentir a respiração ficando falha. Nosso espírito é mesmo poderoso.
Pensar no amanhã é terrível. A morte trazendo champagne numa bandeja
cintilante, por que não? É só uma jogada criativa, tornando os bares mais
coloridos para poder continuar frequentando-os. O mijo nas paredes das
esquinas, à meia luz porta adentro, corpos curvados sobre mesas e garrafas,
copos plásticos, música ruim, piadas ruins, garotinhas sem cérebro com uma
vontadezinha dionisíaca de dar o cu e contar pras amigas, sem mais. A invontade
de admitir que estamos perdidos, a literatura underground, os poetas do
ceticismo orgulhoso de mula empacada. Os que não escrevem e também não vivem.
Os que nunca mudaram de cidade. Os caipiras de Soledade. Os animais selvagens.
A vontade de me perder em estradas de chão. A Kombi estacionada na garagem do
meu avô antes assassinado por um motorista bêbado. Eu não vejo e nem quero ver nada.
Não ouso adentrar no bar. Não suportaria um olhar de qualquer um lá dentro. Sou
fraco. Covarde. Vou comprar a Kombi do meu avô e viajar por aí. Ainda não fui.
Continuo aqui, sem mais me esquivar da vontade de chorar. As pessoas tentam
conversar comigo e escuto a sua voz baixinha como se estivessem distantes
demais. Tento gritar mas parece que o som se distorce no caminho. Estamos todos
perdidos uns dos outros num deserto infinito, meus caros. Estamos sós nessa. A
solidão é algo com o que já nascemos e passamos o resto da vida tentando
maquiar como uma cicatriz horrível no rosto. Só que está por dentro. Estamos
por dentro, por trás, por baixo. Nunca sobre a pele. Mas que beleza, isso tudo.
Bukowski sorri para mim ao lado do teclado virando uma taça de vinho. Seus
olhos quase não existem, mas são de uma tranquilidade organizada, como se
soubesse a verdade do universo. E talvez seja assim mesmo. A vida é um tigre
que te devora. Mas que beleza possuem os tigres correndo pelos campos e
dormindo nas árvores! Nada mais bonito que um felino sob a sombra de um
coqueiro lambendo o sangue das patas.
domingo, março 24
Mirtes
a fumaça subia para a luz dos postes e ganhava o mesmo tom laranja das
lâmpadas. era só fumaça, reflexo, química. tentei escrever. escrever é inútil
para quem não possui certezas — as palavras apenas substituem as coisas — como
a verdade que destrói a esperança toma o seu lugar com a mesma energia, a mesma
vitalidade. queimei a ponta do papel com o cigarro e fiquei olhando ele pegar
fogo. é a vida. o fim da escrita. o fim da literatura. e não é de hoje que se
fala nisso; no quão miserável e inútil é todo pensamento, toda arte, toda a
verdade. bem, que se dane tudo isso. levantei da calçada e subi para o meu
quarto. lixo atômico espalhado no chão. coloco o pen-drive no som e começa a
tocar um estilo eletrônico que conheci conversando com um cara num bar. não lembro
bem de como ele definiu esse estilo, só que se chamava Vaporwave e era foda.
comecei a ouvir e ele tinha razão mesmo, parecia música feita dum quartinho por
um maluco que nunca saía de casa. abri a geladeira, peguei uma cerveja e não
acendi as luzes. liguei a televisão no mute e fiquei olhando as imagens,
ouvindo aquela música. parecia fora de mim. me via iluminado pela luz do
monitor com a latinha na mão. me surgiu na cabeça um pensamento único,
perfeito, sozinho, como um tiro no deserto: “Mirtes”. Bukowski dizia que
existem tantas mulheres legais no mundo que ele até tinha conhecido uma ou 2. a
Mirtes era a única que eu conhecia. de tantas outras. “Mirtes, Mirtes, Mirtes,
Mirtes”. a luz cintilante da televisão. a janela atrás de mim. mitch murder tocando.
eu nunca fui dos escritores malditos e nem dos benditos. Mirtes. a única que
sabia sobre o amor. a única com quem eu ainda tinha paciência de conversar.
peguei o telefone e pensei em ligar. mas não liguei. ela vai chegar às 11 da
noite. eu espero. a minha garota. que não é minha. porque não posso ter nada.
de repente a tevê e o som desligam. a luz acabou. eu fico sentado no escuro com
essas batidas na cabeça. eis o nada que sou. o nada que nem sempre fui. espero
que ninguém se importe com a minha mania de escrever sempre sobre mim. mas o
que eu teria que saber dos outros? a luz volta. o som fica piscando. a tevê
acende. e a Mirtes entra pela porta. “Oi” ela diz. o meu sorriso daria um final
feliz para um livro qualquer. eu ligo o som e a gente fica ouvindo mitch murder
juntos. sei que ela tem medo de relacionamentos e dias calmos demais, por isso
segurou a minha mão com força até pegar no sono.
domingo, março 17
“não consigo dormir com esse cheiro de fumaça”
“mas foi você quem
fumou”
“eu sei, espertão, mas
eu não tava mais acostumada”
“mas fumou”
“eu quis”
“você sempre faz tudo o
que quer. ótimo, só que quem fica te ouvindo reclamar depois sou eu”
“eu sei… desculpa?”
“pra quê? você não vai
parar”
“e deveria?”
“você acha que tá certo reclamar assim o tempo todo?”
“não… mas é que…”
“o quê?”
“você precisa encarar o
mundo… mas olhar dói. sentir dói. o mundo é feio. não pela ausência de beleza,
entende? mas pela ausência de tudo. até de uma falta necessária ou algo do
tipo…”
silêncio.
“o cheiro de fumaça tá
foda mesmo, a gente não devia fumar esses cigarros de mal gosto”
ela se levanta da cama e caminha até o banheiro.
ele fica deitado olhando
para o teto. para a luz acesa. fica pensando nos formatos que a lâmpada vai
assumindo conforme o tempo passa.
domingo, março 3
descrição
Tem
esses caras que estão de saco cheio de tudo. Eu era um desses. Existem muitos
assim, por aí. Essa noite não me sentia bem. Quando lembro dos sonhos que tenho
sempre me sinto mais maluco do que o normal. Acho que é impossível ser
completamente diferente de todos. Assim como não da pra escrever um livro sem
que haja outro parecido. Não da pra pensar demais sem ficar dando loops
infinitos. Estes loops me estonteavam, me sentia caindo girando num poço úmido
feito de pedras; naturalmente, estava o tempo todo com essa sensação de
desconforto — mas foda-se, sentir-se confortável é um sintoma de morte. Se você
é incapaz de ouvir lobos uivando toda semana, é um sintoma de morte. Se não
sente sua cabeça pesada, como se houvesse um machado enorme de um lenhador
descendente de Nazistas do Rio Grande do Sul cravado na parte de trás do seu
crânio; Se não sente constante vontade de morrer, está morto; A vida como um
amontoado de percepções. Conversas com aranhas que moram na parede do banheiro.
Livros intermináveis. O sangue no espelho. Videogames. Amor. — Amor também é
uma ilusão, a única que vale a pena (até mais que o álcool). Trabalhar num
supermercado. Ver caras roubando cachaça no supermercado e quando seu chefe
perguntar porque você não disse nada, dar uma resposta certa e firme. Estar
cheio de dúvidas. Mulheres suicidas em mesas de bar. Autossabotagem. Tristeza.
Angústia. Ânsia de vômito. Parecer feliz. Feliz! A dor nos olhos, por não
dormir. Música eletrônica. Parecer perdido. Não parecer perdido. A rua. O sol
piscando entre as grades do quintal da fábrica de pedras. Olhar pro céu e levar
concreto nos olhos. É só a vida. Não que eu dê bola. Só quero escrever.
domingo, fevereiro 24
A Terra deve ser o lugar mais bacana do universo
Por Lucas.
A Terra deve ser o lugar mais bacana do universo, eu pensava, enquanto escrevia — essa merda vicia mais que cerveja — num pedaço de papel (na verdade uma página arrancada dum livro do Dostoiévski) que me apareceu assim que acordei. A vista ainda embaçada não me deixava identificar o lugar exato onde estava. Não encontrava na memória onde era aquilo ali. Um quartinho bacana - sabia que já havia estado nesse quarto antes, mas não lembrava quando e nem o motivo. A Terra deve ser o lugar mais bacana do universo - escrevi,. Um mundo virgem azul úmido que não usa calcinha e que nunca antes foi lambido por uma língua comprida extraterrestre, mas que tem sonhos eróticos e caóticos como uma teenager que ainda acha que a sua primeira foda será mágica como o caminho dourado para o céu. Então começo a me lembrar aos poucos de onde estou. O quarto da Ana! [Uma maluca estudante de direito e com uma tatuagem de uma passagem bíblica nas costas (céus! onde fui me enfiar!)] E porque estou — mas isso não é importante. Visto as roupas e vou para casa. Se eu tivesse algum dinheiro comprava uma garrafa de vinho e tentava escrever algo foda, ou pelo menos aproveitaria a viagem ficando bêbado e me achando o cara mais radical da cidade. Fazendo sombras em neons e músicas eletrônicas gravadas por psicóticos anônimos. Com o braço pra fora da janela do ônibus cortando o vendo e deixando que a cidade fale um pouco mais que eu. Gosto de halls de hortelã na boca e a visão tranquila das pessoas normais na calçada. Abutres sacanas com espingardas de dois canos sobrevoando a avenida. Uma prostituta apaixonada e uma jornalista que não acredita no amor. Amor? Mas do que estou falando? Mantenha o espírito, boy, a suave melancolia está morta de bruços no banheiro. (puts, passei do ponto). A longa caminhada se alonga. Escadarias são coisas tristes demais — mas aí eu me lembro que confundo tristeza com cansaço. Já estou dentro de casa. As luzinhas do modem piscando felizes por me ver. Fones de ouvido embolados numa caixa de sapato. Preparo um café. Olho pela janela. Quem sabe um dia passe um meteoro? Ana manda um SMS: “Tô preocupada, você sumiu!”. Não se preocupa, que já enrolei o pacote de bolachas pra que não ficassem murchas demais. Quem sabe a gente ainda possa dormir e acordar na escadaria do teu prédio. Talvez eu escreva aquela carta que pensei em escrever. Ou quem sabe eu não te ligue mais. Pense nos campos de trigo e no orvalho de manhã. No suor dos nossos corpos em um verão perto do mar procurando um posto de gasolina pra comprar uma garrafa de tinto seco. A Terra é o lugar mais bacana do universo pra gente morrer de amor. Sou um mágico maluco. Pouco mágico e muito maluco. Mas aí, eu sei, isso é divertido.
domingo, fevereiro 17
Círculo
Por Lucas
Quoos.
noites
insones e poemas ainda úmidos da impressora à jato. cafeína e crystal castles
(bandinha ruim da porra). ilustrações arrancadas de um livro infantil
espalhadas no rack e uma camiseta do palmeiras comprada em 2010 por quinze
reais (preço acima da média) em santo amaro na zona sul de um puteiro chamado
São Paulo (também existe uma cidade com esse nome), com cheiro de mijo seco e
pomba assada. desço direto em direção à um sebo chamado “Sebo” (pelo menos é o
que a placa em cima dizia). acho um livro com a capa preta e rosa sob o desenho
de uma arma apontada pra uma loira de salto alto, abro e leio uma frase
aleatória: “Ah Louise, sua puta desgraçada, eu te amo!” ah, não fode porra. só
podia mesmo ser do século passado esse livro. saio de lá e dou de cara com ela.
a vaca, a filha da puta, a minha ex namorada chupadora de pirulitos POP (ainda
existe essa merda?). graças à mim comprei um livro grande do Freud e pude
colocá-lo descaradamente no rosto e atravessar a rua antes que… merda, ela me
viu. anda anda anda. não dá mais. ela tá vindo. ê, caralho. um helicóptero
podia cair em cima dela (“háa sempre a pequena chance de o impossível
rolaaaaar”).
“e aí, cara! como vai?”
“ah, não vem me foder com a tua simpatia”
“ih, ó lá, já vi que continua o mesmo mau humoradão uhhh”
“não fode, meeeu. tô indo pra casa”
“eu também”
“me mudei, to morando no Grajaú”
“mentira, acabei de passar na sua casa e a vizinha disse que você já
voltava”
“ave”
“que cê tá lendo?”
“Freud”
“ave”
chegou a lotação. a porra da perua do
Jd. Nakamura consegue ficar lotada até no domingo. mas como a gente pegou no
terminal, deu pra ir sentado de boa. no começo foi bacana. eu curtia ficar
olhando pela janela o pessoal no terminal. vendedores de salgadinho e latas de
lixo. churrasco grego e sacolas do Brás. máquinas de recarregar o bilhete único
e deficientes mentais pedindo esmola. uns caras dando risada alto pra chamar a
atenção e uma mina silenciosa feito um monge achando que sabe algo da vida (vai
que, né? / mas também foda-se). tava lindo, mas aí a ex resolveu puxar assunto.
“larguei o emprego”
“pra quê?”
“virei artista”
“duvido”
“sério, porra, leva a sério”
“duvido. me mostra”
“não dá, sou pintora agora, só pinto
quadros e eles não cabem na minha bolsa”
“é (vai saber) acho que não mesmo”
“mas eu te mostro, assim que a gente
chegar na sua casa”
“ok”
escondo a chave num esconderijo num
tijolo quebrado perto da porta. ela foi direto nele. abriu a casa e foi pegando
as garrafas de cerveja que eu tinha deixado espalhadas no quarto entre copos e
uma toalha de mesa suja de geléia de uva. um ventilador esquelético e uma
chuteira de futebol com os meiões dentro. desodorante rolon e Tony Hawk’s Pro
Skater. deitei na cama que por incrível que pareça estava arrumada. enquanto
Marina (eu ainda não tinha dito o nome dela, né?) foi pegar o tripé na sua
casa, já que é minha vizinha.
Voltou.
Colocou o tripé no meio do quarto.
Começou a desenhar.
Fiquei olhando.
Terminou. Virou o tripé com o desenho pro lado da cama.
“É um círculo”, eu disse “você desenhou um círculo numa tela quadrada”
“aham, lindo né?”
“você é maluca”
“não, presta atenção. a maluquice é uma linha reta”
domingo, fevereiro 10
diário
Por Lucas Quoos
8 de maio de 2011
144. Fiquei um tempo sem prestar atenção em nada até ela levantar um pouco a voz, Lucas, acorda, eu perguntei no que você estava pensando. Eu estava olhando a marca dos copos, nada, tava pensando em porra nenhuma. Você esconde os seus demônios, né? — disse isso e bebeu todo o copo de vinho de um só gole. Não respondi nada. Estávamos sentados os dois no último degrau duma escada de ferro nos fundos da casa, que vinha do segundo piso ainda em construção. Dava de frente prum muro, seguido por um terreno abandonado e uma árvore que balançava com o vento quente que vinha do mar. Lembrei de três caras me chutando enquanto eu tava caído pra me roubar trinta e cinco reais numa ruazinha em Santa Catarina; Dela me dizendo algo sobre como eu ficava quando ria sem perceber; Das noites caminhando sozinho, das conversas que tive sobre a busca da paz. Às vezes tenho a impressão de que minha vida são flashes de luz, lhe disse depois de um tempo; ela não disse nada; Sabíamos que depois ao deitarmos em camas desconfortáveis ou então sentarmos em quintais ou em janelas de ônibus, um clarão iluminaria o horizonte e uma tempestade se apresentaria, por mais de uma vez, a vida continua.
145. Eu tô com
aquela sensação qual os bêbados conhecem bem, quando se acaba de chegar de uma
festa chata onde a única coisa boa que acontece - depois de ir pra casa - é que
se pode beber o suficiente pra ficar chapado. Acho até, que foi por isso que
saí. Bem, uns conhecidos metidos a poetas revolucionários me chamaram pra ir
pra uma festinha deles e, - céus! - eles me convenceram a ir, mas tudo bem,
tudo bem. Não me lembro de cem por cento mas sei que vi um cara com a sua bunda
gorda sentada na frente de uma tela de computador escrevendo algo. Não me
chamaria a atenção não fosse tamanha energia que dedicava sobre aquilo. Tomei o
que restava da minha latinha e sentei numa beliche que ficava ao lado do
computador. Tá fazendo o quê? perguntei. Tô escrevendo algo aí, ele respondeu,
sobre tristeza. Autobiográfico? Ele riu da minha pergunta, mas foi séria, ele
disse que mais ou menos… e o papo não evoluiu mais do que isso e, também,
depois de um tempo me senti atrapalhando e saí fora. Ele ficou lá pensando,
aposto, em abismos. Posso culpá-lo? Mas o que me deixou perplexo até agora, foi
o quanto pareceu culto, com base nas poucas palavras que trocamos. Ele me falou
de Nietzsche e Schopenhauer, Sartre e Cioran. Depois, começou a discursar como
um sapo de banhado sem parar, ouvi que a vida era uma merda e o quanto tudo era
vazio e sem sentido. Disse-me, também, que quem acorda para a realidade está
fadado ao pessimismo, à angústia, agonia. Também pensava assim, lhe respondi,
mas ainda bem que deixei de ser tão mesquinho comigo mesmo! Como assim?! Então
você se considera feliz, sabendo de toda a farsa qual o mundo em que vive está
envolvido? Sabendo do quão hipócrita é nossa sociedade? A sua boca quase
espumou e senti a sua respiração acelerar enquanto balançava os braços como um
Zeus gordo soltando raios em forma de perguntas. A sociedade, essa cerveja que
tá na minha mão, essa música, essa festa e essa falsa felicidade, a
sociedade, respondi — por mais que tivesse raiva de usar essa palavra, estava
bêbado e não pude pensar em outra — não é menos hipócrita que o que você chama
de tristeza, de dor, de agonia por estar vivo e ser um “conhecedor” das coisas,
agindo e falando como alguém que vive noutro mundo e tempo. É incapaz de
aceitar a realidade porque esta não lhe torna especial. Tristeza? É o tempo que
perdemos nos lamentando inutilmente, enquanto os dias se passam! Ele não
entendeu, o deixei terminar de escrever e vim para casa. Eu ainda não encontrei
a paz; Eu nem sei mais o que quero…
24 de agosto de 2011
298. Menti tanto hoje
que nem sei mais separar a verdade. Eu sou um filho da puta. Tenho
automaticamente a mania de preparar planos B, C, D pra tudo que faço. As
pessoas não deveriam gostar de mim, elas nem sabem quem sou. Sei que, no fundo,
por mim, nem eu mesmo quero saber. Nesse momento, estou confuso entre a verdade
e essa coisa que sobra. É a mesma que está me prendendo na coleira feito um
cachorro enquanto possui o controle de tudo. E eu deixo. Está indo bem, até
agora. Não pensar em nada, ajuda. Mas me pergunto, até quando? Eu sou tão bom
em persuadir, que passo o tempo todo persuadindo a mim mesmo até me convencer
de que o babaca que estou sendo é na verdade um cara legal. Mas, caramba, o
mundo anda inebriado, estranho, distante. E eu embebido em cansaço e solidão. Escrevi
muito e, não disse nada, porra, e — enfim, e — preciso ir.
26 de agosto de 2011
299. Hoje tirei as roupas no meio da noite e corri pelado até o mar. Eu
sou maluco. Todo mundo me acha maluco. Sou tão feliz que irrito a mim mesmo.
Todo mundo percebe que sou mais triste que feliz. Mas é isso que faço com ela —
a tristeza — a jogo na areia junto com as minhas roupas. Consigo
irritá-la, mais do que ela a mim; A gente se ama, afinal. Coloco o som a toda
altura e de tão brava ela se manda. Tem dias que fica, deita comigo e a gente
faz amor até dormir. Tem dias que não aguento e ligo pra todo mundo. A tristeza
me lembra muito a morte as vezes, saio correndo em busca de vida em algum lugar
e me sinto vazio. Só quero ter onde ir quando ela chegar, ou que alguém chegue
onde estou, só pra não me deixar sozinho aqui com isso tudo.
domingo, fevereiro 3
Espelho Quebrado
Por Lucas Quoos
eu escrevo porque escrever é cuspir na cara de Deus. é impossível ser
submisso à qualquer coisa e, ao mesmo tempo, escrever. não consigo compreender
a escrita de outra forma senão “eu” sendo o centro do mundo. megalomania? bem,
que se dane. escrevo por retaliação, pra me vingar de ter que viver uma vida
sabotada. pra que mais escreveria? já não vejo mais utilidades pra tantos
livros no mundo. não fosse a minha estupidez, minhas loucuras, restos estúpidos
de noites num quarto pequeno e só, livros, paredes, vinho, não escreveria. se
eu me sentisse bem, completo, conhecedor de mim mesmo - não escreveria. ainda
se eu houvesse matado os demônios, mas ao invés disso, os alimento mais ainda.
escrever não tem nada a ver com Deus - exceto pelo fato de competirmos com ele
- mas sim com o inferno. a escrita só prospera verdadeiramente naqueles que
estão à beira do abismo, sendo abraçados pela escuridão, seduzidos por uma
vertigem magnífica. escrever é não condizer consigo mesmo, é bater de frente
num espelho já quebrado.
domingo, janeiro 27
I
I
a única coisa que se
vê é o breu. o escuro. o nada. o vazio. abre-se uma porta que se fecha
rapidamente. ouve-se o barulho dos meus passos sobre o assoalho de madeira. uma
luz enfraquecida começa a iluminar calmamente o lugar. ainda pouco se vê.
apenas vultos. há uma cadeira. sento-me. bebo de uma garrafa de vinho que surge
da escuridão aos meus pés.
— estava discutindo
sobre você, meu querido personagem, antes de adormecer na cama e vir parar
aqui. sinto sua presença. deixe-me vê-lo enquanto não me acordo desse sonho
maluco. preciso ver a mim mesmo, esquecer-me-ei depois, eu juro! mas por um
instante, me permita admitir a mim tudo o que me falta.
II
apareço diante de
mim e percebo que estou diante do mais óbvio espelho.
caio no abismo da
lucidez. tenho tentado me encontrar, mas encontrar a quem? sei que não posso. o
desejo do encontro não passa de uma fuga deste encontro. uma fuga da
existência. e essa fuga, que tenho realizado há tanto tempo, aonde me levou?
uma dor imposta por anjos de asas quebradas e olhos furados pela chama da
criação, da felicidade da multidão, do brilho de bilhões de estrelas apagadas
toda manhã pelo despertador, invade minha alma e me torna esse alguém tão
paradoxal por dentro. eu não faço sentido. tudo pode acontecer em mim, tudo,
pois sinto o vazio onipresente da vida. o devir de um tempo que não existe, não
pode existir. ainda ouço o ecoar do big bang. ainda possuo o caos das explosões
vulcânicas agitando meus átomos. ainda sinto-me arrastar para o mar, com o
desejo de um rio de sangue que sonha em levar tudo consigo. mas não posso, o
nada é o que restará em mim. é para o nada que quero caminhar. só assim, tenho
em mim todas as possibilidades como um Álvaro de Campos.
III
levantei-me da
cadeira e me vi parado diante de um imenso abismo escuro no qual saltei sem
pensar, sem mais delongas desapareci na ubiquidade. o que vi, não tenho como
explicar."
domingo, janeiro 20
Escrever
a madrugada se fez solitária. os
pensamentos que há dias têm girado feito sirenes estonteantes dentro de mim
acalmaram-se. um funk de 1982 toca suave no rádio. As janelas — estão fechadas.
a madrugada se fez solitária. posso
despir-me de ideologias — não há ninguém vigiando: posso deixar de escrever
sobre a falta ou o excesso de alegria, posso não me preocupar em ser o herói ou
o anti herói, qualquer outra coisa que agrade qualquer um.
o cão que ladra… sento-me na cama e
olho fixamente para lugar nenhum. estou com a mesma sensação de quando cruzava
por baixo das luzes dos postes em uma cidade longe de casa, em uma rua deserta
qualquer. o cão silencia. passo a mão vagarosamente pela barba — e me lembro
que já deveria tê-la feito há dois dias — é a insônia. por que eu estava
chorando no chuveiro? caralho, será que tô enlouquecendo? ando agindo
estranhamente, de modo insano, como quem está para partir. e quem disse que não
estou? afinal, quem não está? oh, isso me atormenta. escrevo contra mim — não
gosto de poetas: são uns filhos da puta egocêntricos. veja bem, todos os que
conheço que se dizem poetas estão reunidos agora em algum grupo, se encontram
apenas com outros poetas e então postam no facebook suas poesias, depois —
céus! essa é a pior parte — eles ficam elogiando uns aos outros.
não. se precisar disso pra ser lido,
então não quero ser. deixe-me aqui, no meu quarto, escrevendo raramente. em
madrugadas vazias de calor humano. deixe-me escrever sobre a saudade de um
abraço, de um olhar de admiração — colocarei a culpa de tudo no sono.
bem, se é a tristeza de um verão
chuvoso que insiste em tomar conta da minha alma agora, o que posso fazer? ao
menos não estou mais em uma ruazinha deserta longe de casa e — há uma cama
desta vez, e o que me resta é deitar-me sobre ela. tristeza? acredito que não
seja a palavra certa, mas acontece que estou desacostumado com essa
tranquilidade toda, a paz que se deita nua sobre minha cabeça e beija o céu dos
meus sonhos — quem disse que isso é bom? mas eu me acostumo, ah sim…
segunda-feira, janeiro 14
1.500 D.C.
estou íntimo
das paredes do quarto
fiz uma melodia no violão
e pensei nessa situação toda
já namorei uma vocalista
que fez uma canção pra mim
e uma poeta que fez um poema pra mim
uma atriz que encenou promessas pra
mim
uma louca que deitou no meu peito e chorou de madrugada
uma estranha que foi embora quando o telefone tocou
uma empregada da Tam que gastou as milhas pra viajar
mais de mil quilômetros pra dormir comigo
e todas elas eram
tão tristes e
sozinhas
e procuravam apenas
aconchego
e no final das contas
isso não tem nada a ver
com
amor.
segunda-feira, setembro 17
breves considerações sobre beber sozinho
faz tempo que queria
escrever este. há tempos que não tenho conseguido reservar um minuto para
valsear a sós com uma garrafa de whisky.
***
“Um
Martini bem-feito ou Gibson, corretamente refrigerados e bem servidos, têm sido
mais frequentemente meu amigo verdadeiro do que qualquer criatura de duas
pernas.” (M. F. K. Fisher)
***
todo homem possui o mundo dentro de si. o poeta é um homem que
aprendeu que sentimentos como angústia, amor, ódio, desejo, felicidade, paixão
são completamente internos. um poeta jamais colocará sua felicidade em algo
externo, como um objeto ou uma pessoa. beber sozinho é sentar-se em companhia
do mundo imerso dentro do seu ser. um homem tem o mundo dentro de si. um
poeta sente o mundo dentro de si. a felicidade do homem está nas coisas
externas, o que, na visão do poeta, é impossível. a felicidade está dentro de
cada um. ao exteriorizar a minha felicidade, dando-a forma e significado - e um
corpo, torna-la-ei incompleta. dizem para que eu faça mais do que apenas
existir. certo… mas só existo de forma completa dentro do meu ser - fora dele,
sou apenas vultos de luz, o ecoar quase imperceptível de gritos de loucura
interior.
***
“Era
bom estar solitário num lugarzinho, sentado, fumando e bebendo. Sempre tinha
sido uma boa companhia para mim mesmo.” (Charles Bukowski)
***
encontre-se em alguma esquina dentro do frasco e tenha uma boa
conversa. por mais paradoxal que seja, espere encontrar um desconhecido. talvez
um perdido, um fodido… alguém totalmente diferente do que você esperava de si
mesmo. acontece. beba com ele até perceber que você é o estranho, o tolo, o
falso, que não sabe o que faz. deixe-o tomar o controle - talvez, em algum
momento do passado, enquanto bebia, ele tenha assumido o controle. mas algo deu
errado. o fato de não se conhecerem faz com que ele (o estranho dentro da
garrafa) não se importe com você e vice-versa. eis o problema de beber em
público - quem está a nossa volta, acaba nos conhecendo melhor do que a nós
mesmos. Charles Russel dizia que você não sabe nada sobre um homem até que você
tenha ficado bêbado fedendo com ele. por isso, a conversa é necessária. troquem
socos, facadas, insultos e não seja simpático no início. um discurso rude pode
significar muito mais do que qualquer discurso.
***
“Para
não sentirdes o horrível fardo do Tempo, que vos abate e vos faz pender para a
terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar[…]” (Charles Baudelaire)
***
o único meio de alcançar
alguma grandeza espiritual se dá através da loucura, acompanhada de devastação
e sacrifício. os poucos que alcançaram tal patamar, não estavam interessados,
talvez, na grandeza da sua alma, mas sim, tomados pela angústia de estar em
meio à tanta podridão e espíritos pequenos vivendo como se nunca morressem…
tente mostrar para alguém a sua insignificância no universo e sentirá a brisa
leve, fria e cruel do sentimento de deslocamento - pois te darão aquele olhar.
bem, que se dane. ainda lhe resta a garrafa. ainda lhe resta a si mesmo. tudo é
em vão. a vida que os universitários levam é em vão. o motorista de ônibus. o
frentista. a mina que da o cu no banheiro da balada. não há nada mais vão que a
vida e, ao mesmo tempo, não há compensação - talvez uma vida feliz. até a
felicidade é vã. a vida apenas é. assim como todas as coisas são. assim como
essas palavras são vazias. mortas. e eu nem estou bêbado. ainda. não vou a
lugar algum - mas vou ficar embriagado. de vinho, de poesia, de virtude e -
acrescento - de um bom blues. e depois, vou vomitar tudo numa sarjeta qualquer.
há muito lixo dentro de qualquer homem para ser vomitado.
***
na manhã seguinte, evite pensar por qual beco escuro você pode
ter ido sem sair do quarto.
nunca nos esquecemos do
homem que nos faz companhia enquanto bebemos sozinhos. enquanto estivermos
bêbados no meio dum bar lotado, será possível vê-lo no reflexo no fundo do
copo.
sábado, setembro 1
São silenciosas as janelas do Povoado
me mudei pra essa cidadezinha no interior gaúcho. aqui as pessoas são diferentes. mas não é das pessoas que quero falar, e nem da cidadezinha. há um cheiro diferente de primavera entrando pela janela. sou esse cara estúpido que sai nos finais de semana e se embebeda. nunca dei opinião sobre nada. sou o pior tipo. sem religião. sem necessidades maiores... - apenas o pó da estrada. é. se o destino são três velhas parcas sacanas que querem que eu escreva, aqui estou. fora isso, meu coração se divide entre a vontade de estar no céu e a condenação de viver num inferno particular. há raiva suficiente dentro de mim, servindo de combustível pra uma chama rasa. procuro não despejar tudo de uma vez. talvez eu não exploda assim. sabe, estar no inferno não significa que não possa colocar minhas músicas favoritas à toda altura e cantar sozinho feito um louco. não quer dizer que não se possa ter um pouco de dignidade e chorar por coisas que me habitam. que a tristeza corra. que o fogo se espalhe e não me deixe morrer de pé, trabalhando oito horas por dia. ando bêbado por aí, o final é o mesmo, acredito eu, se cruzar a estrada cambaleando ou não. o rumo que pego pelas madrugadas escuras e muitas vezes frias dessa cidadezinha não tem a menor importância. o vento molhado distancia o horizonte, a cidadezinha desaparece num sonho ou numa nuvem e sinto como se nunca houvesse existido. embora minha vida esteja aqui agora, cheia de paradoxos com os quais faço amor toda noite em meio a loucuras e solos de sax. dando socos na parede, esperando a dor passar e dando socos de novo. enquanto houver uma palavra, quero escrevê-la. ter em mim todos os sonhos do mundo, tá ligado aquela parada do Álvaro de Campos, né? não sou nada e não tenho a intenção de ser. mas então quem é este com quem danço na sala? - uma valsa com a minha confusão. deixo que ela me leve. quem precisa de um final? tudo que quero dizer, está aquém. estou de volta na cidade, o horizonte se faz sólido, o frio faz doer os dedos. aqui estou. e não estou. nunca estarei. um momento é tudo que tenho. a vida é aquele "uhuu" infinito. poderia uma coisa ser e não ser ao mesmo tempo? ignorante sobre o tempo e o ser, farei como poema que Lorca escreveu, onde ignorante da água, vou buscando no mar uma morte de luz que me consuma.
quinta-feira, agosto 16
Ideal
é quase impossível que
alguém se apaixone por você
talvez pela imagem que fez
de você
mas não propriamente
do que realmente
é
porque o que
você diz
nunca é
o que realmente
você quer dizer
e o que
você faz nunca é
o que realmente quer fazer
mesmo que diga
que alguém se apaixonou pelos teus sonhos
no fundo
todos nós sabemos
que a possibilidade maior
é de que nossos sonhos
sejam apenas sonhos
e que passemos
o resto da vida
em torno da mesma órbita
do brilho de um ideal
qual somos apenas
sombras borradas
manchadas de luz.
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