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sábado, maio 26

O samba cool de Adriana Calcanhotto

                                                                        Divulgação - Site Adriana Calcanhotto

Aquela vontade insistente de sair pra sambar, cometer um desatino e experimentar um amor de carnaval é narrado pelas letras e pelo violão de Adriana Calcanhotto no disco O Micróbio do Samba (2011). Bichinho danado, cheio de ritmo, que incentiva os sentidos para cantar o mesmo tema de sempre: o amor e suas desventuras brejeiras. O micróbio multiplicou-se rápido e, antes mesmo de ser lançado, já era motivo de comentários, expectativas e boas críticas dos ouvidos mais atentos espalhados nas redes sociais.

quarta-feira, outubro 12

Descobri ser um anjo


Não há outra explicação: eu sou um anjo. Todos sabem, menos eu. Talvez nem saibam também, apenas sentem isso. Nada de anjinho de auréola ou com longas asas nas costas. Dizem que a auréola virou farinha e pintou alguns fios brancos nos cabelos. Cada vez mais presentes, cada vez mais atraentes. Dizem que as asas ausentes foram circuncisadas, para poder ter os pés no chão e olhar a vida como os humanos. Aprender a vida tocando o chão. Pés no chão, cabeça nas nuvens. Está na memória. Anjo com vontade de tatuar as asas na costa. Talvez seja mesmo um anjo barroco, malicioso, daqueles que sorri com gracinha, mas sem maldades. Anjo não tem maldade. Pode provocar situações, pode se embaraçar todo, mas não tem a vilania como caráter. Um anjo sem grandes ambições, com a única missão de ajudar a vida alheia, de cupido a mensageiro, no melhor papel de anjo. Dentro da legião celeste, não fui expulso do céu, apenas cedi à curiosidade de experimentar o que tem abaixo dele ou ao lado. Sou do coro de anjos, mas estou perdido. Fiz amizade com os exus. São mais divertidos, incisivos e sabem cobrar por suas tarefas e missões. Tenho aprendido com eles sobre o sentido do prazer. Eles estão mais perto dos homens e sabem de todos os prazeres mundanos, do sexo ao ócio. Mas anjo não tem sexo, surge híbrido. Anjo confunde sentidos e intenções, porque nós, anjos, temos muito amor, somos divinos, é nossa essência. E amor na terra tem valor semântico de todo jeito, de toda forma. Sou anjo porque sei falar com deus, sei encontrá-lo onde ele se manifesta. Mas a gente enche o saco também. Não estou mais no céu. Só que quando a gente se olha no espelho entende que não dá para ser diferente. Anjo não chega a ser diabo, nem deus. Anjo não amadurece, cumpre a missão, que nem sabe qual é. Agora que me dou conta da minha natureza divina, quero experimentar o humano. Quero experimentar dos prazeres como os homens, errar e aprender, ter projetos, planos, entender o que é a rotina dos dias. Quero ser ambicioso, ter família, entender o tédio como antítese. Mesmo anjo torto, safado, buarquiano, predestinado a ser errado, quero ir até o fim.




(fevereiro de 2011)

sábado, setembro 24

À merda, Igor Nascimento!

Desejei merda à francesa ao parceiro deste blogue, Igor Nascimento, em expectativa para a mais recente produção teatral escrita e dirigida por ele, a peça Um dedo por um dente, apresentada na última quinta-feira (22), no Teatro Alcione Nazaré.

Os comentários posteriores à minha saudação cordial provocou uma antropofagia discursiva entre os outros parceiros, e a merda elogiosa e refinada foi interpretada e saudada por eles com a mesma força expressiva dos que sofrem de prisão de ventre, expelindo a merda escatológica - no sentido fedorento mesmo da bosta, cocô, fezes ou tolete - para divertirem-se e lambuzarem-se na piada. Gostei mais ainda de poder escrever aqui por isso.

[Sou interrompido nesta parte do texto pelo telefonema de André Lisboa, a respeito de um artigo de Roland Barthes com um trecho que diz em determinado momento: “O funcionamento ideal da língua seria por meio do rumor”. Acaso?]

Um dedo por um dente conta a história de duas caveiras, Torquato e Procópio. Elas desejam manter a dignidade que lhes falta no vazio da morte representada por um pequeno detalhe. Torquato quer recuperar o único dente na boca vazia. Procópio o anel no dedo, símbolo de sua memória. As caveiras existenciais refletem sobre vida, morte, amizade, apego, gênero, bondade, perversidade e até mesmo sobre o porvir. Tudo isso com um tom divertido, irônico e melancólico. Não sei se isso representa o tal ‘teatro do absurdo’, não entendo de teatro e suas teoria, mas sou profundo entusiasta do poder da representação e suas linguagens.

A voz de Igor anuncia o início da peça. Em quase tudo está o nome dele. Talvez essa repetição tenha me causado incômodo, talvez. No cenário, esquadrias de alumínio em formas retangulares penduradas por fios que compunham um curioso quadro concretista. Funcionou bem como recurso expressivo para a movimentação dos atores e marcação das pausas na narrativa, junto com o trabalho de iluminação como mais um componente dramatúrgico, ora quente e amarelada, ora fluorescente e fria, ora ausente, apagada. A luz exprimia a sensação das caveiras, por vezes, muito confusa.

Admiro e respeito o trabalho de todo e qualquer ator no oficio de materializar com seu corpo e voz um texto e uma boa estória. No caso dos dois jovens atores, Nuno Lilah Lisboa e Luiz Ferreira, foi irresistível: fui envolvido pela história absurda mais pelo exaustivo e diversificado exercício dos dois em buscar a entonação adequada para cada frase do que pelo texto em si. Meus companheiros de plateia também recebiam a peça com desprendimento. André celebrando o teatro como uma grande arte que precisa ser mais estimulada, praticada, e Paulo negando o teatro em prol da força do texto escrito.

Saí do teatro com a satisfação de quem curtiu um bom espetáculo. Houve inclusive abraços efusivos, apoio moral dos colegas aos artistas, e até mesmo um discurso clichê do autor na defesa da produção teatral maranhense, desnecessário.


O que importa nesse texto todo é a afirmação que farei após os dois pontos: Igor Nascimento é verdadeiramente um agressivo e talentoso dramaturgo. E está claro que ele não tem a menor dúvida quanto a isso. Postura dele que me irritou quando ouvir falar dele pela primeira vez. Na ocasião, tive que entrevista-lo na função de assessor de imprensa da Feira do Livro de São Luís, quando ele proferiu palestra junto com o ator Geraldo Iensen sobre o tema ‘teledramaturgia’. A má-vontade e as respostas evasivas me tiraram do sério, silenciosamente, e guardei um rancor que contrastava com a beleza cativante dele.

Quando nos conhecemos pessoalmente no encontro dos blogueiros ‘pretensiosos’ do Ponto Continuando fui armado de contra-expectativas. Bastaram algumas cervejas, um debate surreal sobre os comentários anônimos feitos ao último texto que compartilhei aqui e discussões divertidas sobre planos de uma atitude avant em promover uma cena cultural na cidade para eu mudar meus pré-conceitos. Igor Nascimento e sua trupe são jovens iluminados e encantadores na sua ideologia teatral. Não há presunção que não seja perdoada pela força do talento. Eles me ganharam com a peça. E vou desejar profundamente que seu trabalho seja tão autoral quanto a necessidade dele afirmar seu nome como dramaturgo. Não quero que nosso dândi, como diz Natan Castro, se torne mais uma vítima do êxodo cultural maranhense. (É o máximo que consigo escrever politicamente, rs)



Senti falta de todos vocês naquela noite.



Alberto Júnior





PS. Procurei outros sinônimos fétidos para a merda brasileira e – pasmem! – não estão registradas a palavra cocô, merda ou bosta no Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, de Francisco da Silveira Bueno, edição de 1983. Ou seja, um indício de que Ministério da Educação e Cultura confia na educação oral paralela e subversiva de quem aprende português do caralho. Uma boa ideia para quem deseja criar o Dicionário ‘Crazis’ de Língua Portuguesa, hein, Diego!

domingo, setembro 4

Apeixonadamente, Letuce*



Para as novas formas de ouvir canção há também novas formas de cantá-las. De todos os nomes femininos que cantam a música brasileira nesta década, são poucas aquelas que retomam a tradição do canto para fora. Ser cool  hoje é cantar preguiçosamente.

Como faz a Letícia, a quem tenho dedicado meus ouvidos nos dois últimos dias. A moça comprida feito a girafa que ela tem tatuada no corpo forma o projeto musical romântico Letuce, junto com o namorado Lucas. No último programa Som Brasil, que homenageou a compositora Marina Lima, os dois protagonizaram a performance mais bonita que já vi na TV. (vídeo)



Ouço o disco Plano de Fuga Pra Cima dos Outros e de Mim (2009). Da capa com foto na piscina - que lembra o meu disco preferido de Gal, Água Viva (1978) – às letras despretensiosas e poéticas, tudo vai ganhando um colorido divertido a cada faixa. As canções tem o encantamento de um novo namoro, com intenções e promessas de afeto.


A Letícia é atriz. O Lucas, guitarrista e arranjador. O canto frouxo dela é abraçado pelos timbres do instrumento dele, que protege a voz da amada com camadas sonoras vigorosas, sustentando a alegria alegórica que a atriz-cantora experimenta no palco.

O som de Letuce tem a duração e a vibração do amor. Pode durar um carnaval ou a vida inteira. Desejo um eterno verão aos dois.



*O neologismo do título cabe aos piscianos românticos.

(os grifos em vermelho são links)


quinta-feira, agosto 11

Sagat e a gangue da bota preta em Londres

Confronto generalizado em Londres. A violência na região britânica subverte a tradição histórica da terra da elegância e dos bons modos. A polícia, sociólogos e políticos procuram um responsável. Até uma menina de 11 anos foi responsabilizada. Eu tenho uma teoria: a de que a extinta gangue da bota preta foi para Londres.

Para quem tem menos de 20 anos pode até ser que o caso da gangue não lhe diga nada. Mas a nós, companheiros balzaquianos, que na década de 90 sabíamos de cor todas as narrativas de Gabriel O Pensador, que curtia se drogar com a suposta presença de cocaína nos chicletes e tatuagens adesivas vendidas na porta das escolas, que tinha a opção de ‘gazear’ aula para se aventurar em alguma matinê no Cine Passeio, que abria o apetite antes do almoço se lambuzando com o recheio de doce de leite do churros quente enquanto fazia algazarra até o ônibus ‘escolar’ Cohatrac-João Paulo chegar e fazer coro nos refrãos dos pagodes e dos gritos de guerra contra ‘pipira azul’, ‘bananas de pijama’, ‘periquito verde’, entre outros, você com certeza vai se lembrar da gangue da bota preta.

Reza a lenda que, nos finais da tarde, eles apareciam na porta das escolas para promover a balbúrdia e assustar as moças virgens. Mamilos arrancados com canivete. Psicopatas com seringas contaminadas com o vírus da Aids. Confrontos entre galeras. E um grande personagem central que desafiava autoridades e exibia sua marca nos prédios mais altos da cidade: o terrível SAGAT. Homenagem ao personagem dos jogos de videogame, outra mania da época.

A marca de SAGAT estava pichada em quase todos os muros da cidade. Entre as meninas, o tesão em conhecer e ser a namorada do terrível pichador. Entre os rapazes, o desafio de quem conseguiria ir além dos limites do personagem invisível.

Nunca vi, nem em reportagem policial, nem nos programas locais matutinos uma foto, imagem ou fato vinculado ao SAGAT. Até hoje ele permanece no meu imaginário adolescente. Imaginava-o menino doce e magricela, com algumas tatuagens feitas com caneta bic e olhar agressivo e assustado.

Qual destino ele teve ao longo dos anos? Será um pastor evangélico? Será um agente penitenciário? Será um agente educacional da FUNAC? Será bandido, artista ou pai de família? Será ele um dos leitores anônimos deste blogue?

Quem souber o paradeiro ou foto, comente.