terça-feira, dezembro 30

Madrugada Cinza

                 Na tua carne plácida
                              encontro uma nação
                           na tua alma cálida
                    enfrento um inferno
                                 O que hei de encontrar na tua boca
                           escancarada esperando por um beijo ardente?

               Vejo que me perdi
         na malevolência de teus braços
                     no redemoinho torpe dos teus pensamentos
              agora sou um viajante de tua insensatez
                 herdeiro de tuas mágoas
     desperto sem qualquer garantia
                         de prazer e mansidão
       aguardo no teu colo
                           somente um furacão embriagado
                                                    que me consumirá sem pena

                                                         No teu ártico abraço
                             me envolvo num lençol
                                                  manchado por desejos imundos
                 já não espero sutilezas
                                  e nem uma taça de vinho
                                                  apenas espero um punhal
                      nesta madrugada tão cinza


                                                                                                João Pessoa, 2013

domingo, novembro 16

Veleiro

                        velejo no teu corpo adormecido
                                                feito veleiro sem rumo
                                      em um mar tempestivo
                               com meus dedos escorrendo macios
             e apalpando zonas áridas de tua pele
                                  
                             uivo dentro desta noite
       meus segredos mais ocultos
                       e por um momento
            não desejo mais nada
                           apenas um deserto me comove
      
vejo navalhas afiadas
              cigarros apagados
                                      em cinzeiros rachados

                          e um livro de Anaïs Nin...

                                bebo vodka sem parar
                         e já me sinto entorpecido com teu cheiro
                                                     um blues cairia bem
                                  nesta hora tão taciturna
            
meus dedos seguem como serpentes
                              pelas tuas regiões mais abissais
         observo agora teu corpo 

               como um cadáver estendido
                          na cama banhada em desejos
                                   em desejos líquidos


Paço do Lumiar, 2008

segunda-feira, novembro 3

Suave é a noite...

                              suave é a noite que chega
               para nos agasalhar
                         enquanto a ventania agita
                                os galhos das árvores chorosas

                     aprisionados nesta masmorra

         lamentamos nossos desejos
                                 tão singelos e levianos
                  que nos condicionam aos lençóis manchados

                         não espero uma cerimônia
        bastante ideal para sepultar
                      nossos instintos mais secretos
             neste quarto à meia-luz

                             agora da janela entreaberta
 vejo a lua em seu domínio
                iluminando as esquinas sujas
                                   onde transeuntes em conversas insensatas
                     digladiam-se mutuamente

                                a cama está em repouso
esperando os convivas
                          participarem de uma festa íntima
             na qual os travesseiros servem
                                           como testemunhas fiéis

                                               estou preparado para o ato
         e já me sinto por demais excitado
                        e depois do ato consumado
                                                      vou embora como um estranho
              levando minhas tristezas mais profundas


Paço do Lumiar, 2008

terça-feira, outubro 28

Gabriela chorava tempestades


    Na aurora melancólica, no momento em que o sol desperta ébrio no horizonte, Gabriela chorava tempestades lembrando de sua infância, de sua infância carcomida por tristezas e por mágoas bordadas no mármore da memória. Ela não teve um mar para vislumbrar e nem pegadas na areia macia da praia para desmanchar ao cair da tarde. Seu pai foi bastante rude. Constantemente ele pedia-lhe sempre que ela beijasse os pés anciões e que lavasse trapos imundos. Ela ainda tinha que cortar as unhas dele em joelhos num chão irregular. 
 
    Apesar das amargas tarefas, brotava nela os sonhos mais esplêndidos, quando a noite surgia vestida em diamantes. Ela gostava de pensar na lua incendiada. Um dia ela sonhou que sereias cantavam junto com os galos roucos numa madrugada rósea.

    Ela só desejava encontrar um caramanchão ou pelo menos um jardim formoso com flores exalando perfumes exóticos. Ela só almejava navegar em veleiros velozes, que cortam feitos navalhas o véu do mar. 
 
    Gabriela não podia brincar. O pai carrasco não deixava. Uma corda poderia encontrar suas costas, caso ela desrespeitasse o ancião. Todavia, tudo mudou no dia em que Gabriela encontrou um livro de poesia esquecido em um armário.  A vida brotou radiante a partir desse momento iluminado. Era o Poema Sujo.

    Depois da doce leitura, que fez escondida do pai em um sótão abandonado, poemas jorravam de sua cabeça. Ela passava noites em claro a rabiscar versos. Amanhecia em sonhos. E dali em diante, ficava sempre a contemplar o nascer do sol, assim como estava fazendo no instante em que chorava tempestades.

quarta-feira, outubro 22

In Memoriam

                                     
                                       minhas memórias
                                                       seguem no acaso das horas
                      junto ao anjo esquálido
                                                  que morreu no berço da noite

                     minhas lembranças
                                       brotam no ventre das esquinas
             entre bêbados bailarinos
                                             e prostitutas bestiais

                          minhas saudades
                                               adentram catedrais sonâmbulas
                                 a recitar em latim
                                                     um réquiem para minha dor

terça-feira, outubro 14

Por que votar na Dilma Rousseff?

Por William Washington de Jesus
Passado o primeiro turno das eleições, estamos diante de mais um embate de dois partidos, o PT (Partido dos Trabalhadores) e o PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira), e essa disputa será bem mais acirrada que nas anteriores, com possibilidade dos tucanos voltarem ao poder em virtude dos petistas estarem há 12 anos no governo.

Se fizermos uma análise política, econômica e social, nenhum dos dois mereciam estar no segundo turno, pois ambos já governaram o país, e tem a política econômica praticamente a mesma, e as mudanças tão propagadas de fato está longe de ocorrer.

Entretanto, já que os dois partidos novamente estão na disputa, cabe a nós fazer uma análise bem minuciosa, principalmente nos governos incluindo o atual. A política econômica do PSDB e PT é praticamente a mesma, quem fala que o governo do PT é comunista/socialista e quer transformar numa Cuba da vida, é neurose e esquizofrenia da direita conservadora e reacionária que não consegue ficar muito tempo fora do poder.

Nos anos do Fernando Henrique Cardoso de 1995 a 2002, foi marcado por estabilização da economia e combate à inflação em virtude da criação do plano real, privatização das estatais, como a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), bancos estatais como o BEM (Banco do Estado do Maranhão) e outras de vários estados federativos.

Mas em contrapartida, foi marcado por desemprego altíssimo, arrocho salarial a servidores públicos e poucas realizações de concursos públicos, que contribuiu e muito para o aumento da desigualdade social e concentração de renda que já era gritante, apesar da criação de programas sociais como o Bolsa Escola, Bolsa Alimentação, Vale Gás e outros.

O Partido dos Trabalhadores (PT) com o Luís Inácio Lula da Silva assumiu a presidência da república em 2003, manteve a política econômica para não contrariar os interesses das classes dominantes em virtude do pacto feito com a parte das elites em 2002 que resultou na eleição presidencial.

E mesmo com o mantimento da política econômica, o governo petista não abriu mão de implantar políticas sociais para beneficiar as classes mais baixas na tentativa de reduzir a desigualdade social, juntou os programas sociais do governo anterior como o Bolsa Escola, Bolsa Alimentação e outros, e criou o Bolsa Família ampliando e expandindo o programa para as regiões mais pobres do país, principalmente no Norte e Nordeste.

Muitos criticam o programa, o chamam de “bolsa esmola”, ‘programa assistencialista’, “comprador de votos”, “que leva o povo ao comodismo” e muitas outras denominações que por trás é carregado de preconceito e discriminação, principalmente por aqueles que nunca passaram fome, sempre tiveram ao alcance das mãos e dos pés, nunca faltou nada e não sabe o que é necessidade e muito menos o que é fome.

Eu também por muitas vezes critiquei o Bolsa Família, cheguei a chamar o programa de “bolsa esmola”, principalmente nos meus tempos de faculdade e militância do movimento estudantil, e hoje peço desculpas por ter dito muitas vezes que o programa é uma esmola, compra de voto, comodismo e outras denominações.

Hoje como professor e viajando por esse imenso Maranhão afora, eu vejo de perto a pobreza e a ausência do Estado, tanto do poder municipal quanto estadual em políticas públicas no combate à pobreza, e essas famílias em maioria vivem da assistência do Governo Federal, justamente do Bolsa Família.

O outro elemento que faz ser importante este programa social é a baixa expectativa das pessoas que vivem nas cidades pequenas, falta de emprego em que o empregador é a prefeitura municipal ou o comércio, eu mesmo conheço uma pessoa que recebe por mês 400 reais no seu emprego, a maioria dos comerciantes nas cidades pequenas pagam mal os seus funcionários para ficar o dia todo trabalhando, sem poder comer em casa, sendo humilhado pelo patrão e clientes, enquanto o dono do estabelecimento tem carro, moto, boa quantia de dinheiro na conta bancária e todo o final de semana está na beira do rio ao lado de amigos, família e/ou belas mulheres regado a uísque, caipirinha e cerveja, enquanto o seu funcionário da loja e/ou do comércio conta o que vai fazer com os 300, 400 ou 500 reais até o fim do mês, sendo que o mínimo é 724 reais, que é também desumano.
O que seria destas pessoas se não fosse o Bolsa Família?

Pra você que nunca passou fome pouco importa, mas para essas pessoas, esse programa é uma bênção, e nessas cidades que não há policiamento, não há delegados, não há médicos, não há enfermeiros, não há professores (não é à toa que eu viajo pra lecionar em cidades do MA) e nem advogados (e quando há, são todos ao lado do prefeito e ocupam importantes cargos).

Leis trabalhistas são ignoradas e desrespeitadas, quando o funcionário é demitido, este é impedido de entrar com uma ação na justiça contra o ex-patrão por medo de represálias e outros comerciantes da cidade não o empregam como forma de retaliação e corporativismo existente entre os lojistas e empresários, o que seria destas pessoas se não fosse o Bolsa Família?

Isso tô falando do Maranhão, imagina a realidade no Piauí, Ceará, Alagoas, Paraíba, Pará, Amazonas, Tocantins, Pernambuco... Eu afirmo sem medo, o Bolsa Família é importante, há erros na forma como é distribuído o programa, mas é de suma importância para as famílias pobres.

A Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou recentemente o ranking de países que estão no mapa da fome, e a novidade é que o Brasil pela primeira vez desde a fundação da entidade em 1948, ficou fora desse mapa, e o que se deu para que o Brasil saísse no mapa da fome? O Bolsa Família, que contribuiu momentaneamente para a erradicação da fome no país.

Algumas emissoras de tv divulgaram em seus telejornais, mas a Globo não. Por quê? A revista Veja não estampou na sua capa, os jornais Folha de São Paulo e o Estado de São Paulo também não, se divulgaram foi dentro das páginas e de forma tímida para não chamar muita atenção do leitor.

É verdade que o PT está há doze anos poder, não vou aqui enganar você ao afirmar que o Brasil está uma maravilha, claro que não, há muita coisa errada que deve ser corrigido. Entretanto, houve certas melhoras e conquistas que deve ser apontada, não graças ao governo, mas sim o fruto da própria sociedade que há anos exige por melhoras.


Um dos setores mais visíveis foi a educação, e eu saliento e afirmo sem medo, a educação no país em termo de quantidade e números, melhorou significativamente, o acesso ao ensino superior foi ampliado, aumentando a possibilidade do negro, pobre, favelado, branco pobre e favelado e dos próprios indígenas de ingressar a uma universidade, seja pública ou privada.

A educação no país durante anos/séculos era prioridade e privilégio para poucos, especialmente para os ricos e brancos, os governos que passaram se negaram em investir e incluir os pobres no ensino público, ainda mais no ensino superior, isso se deu graças a política de cotas sociais que visou integrar os brancos pobres oriundos de escola pública e raciais para diminuir a desigualdade racial existente no nosso país, em que a escravidão pendurou por quatro séculos.

Aumentou o número de estudantes universitário nos últimos 10 anos, principalmente vindo de escola pública, diminuindo a desigualdade social e racial, foram criadas novas universidades federais por esse Brasil afora, aqui no Maranhão não foi criada nenhuma universidade, mas a Universidade Federal do Maranhão (UFMA) se expandiu para Grajaú, Codó, São Bernardo, Chapadinha, Bacabal, Pinheiro, Balsas e outras cidades que no momento não me recordo.

Em Imperatriz que antes eram apenas os cursos de Direito, Ciências Contábeis e Pedagogia, contém hoje uns 20 cursos que foram criados incluindo Medicina, que também há em Pinheiro o curso de Medicina, que até a pouco tempo nesse imenso Maranhão, o curso de Medicina havia apenas na capital, São Luís.

O Instituto Federal do Maranhão (IFMA), antigo CEFET, se expandiu para São Raimundo das Mangabeiras, São João dos Patos, Codó, Coelho Neto, Santa Inês, Zé Doca, Buriticupu, Campus do Maracanã na zona rural de São Luís, Bacabal e muitas outras cidades que no momento não me recordo. Antes o campus do IFMA só havia em São Luís no Monte Castelo e em Imperatriz.

O que faziam os estudantes nessas cidades citadas que antes não havia o Campus da UFMA ou do IFMA? Iam para Imperatriz ou em São Luís estudar, quando não, iam para Teresina – PI, Palmas – TO e Belém – PA, e eu estou citando capitais mais próximas, não tô citando cidades do interior de outro estado que também se torna referência quando vai pra fora estudar, como Parnaíba – PI, Araguaína – TO e Marabá - PA.

E quando não quer a proximidade, acaba optando a ir estudar em Brasília – DF, Goiânia – GO, São Paulo – SP e Rio de Janeiro – RJ, e aí só vai quem tem melhores condições financeira para manter os seus filhos estudando.

E você ainda acha que o PT acabou com o Brasil? Olha que eu estou falando dos feitos realizado aqui no Maranhão, que toda semana eu viajo e percorro esse estado e tenho observado de perto a realidade das pessoas.

Mas no governo do PT há muita corrupção. Mas qual governo não há corrupção? Eu afirmo sem medo, o governo é corrupto e é inegável, mas não comungo que é o governo mais corrupto da história. A diferença é que a grande mídia nunca deu tanta cobertura, denunciando as falcatruas do governo como agora.

Você lembra do escândalo do Senado Federal em 2009 quando José Sarney era presidente, que o mesmo era acusado de nomear aliados e parentes seus sem ser publicado no diário oficial que ficou conhecido como ato secreto? Pois bem, essa prática já havia desde que foi presidente do Senado em 1995, e quem era presidente naquele período (Fernando Henrique Cardoso)? Por que a mídia não denunciou na época? A venda da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) até hoje é questionada principalmente pelo baixo preço que foi privatizado. 

A imprensa não dá nem um piu sequer e até hoje nunca foi investigado como está sendo no caso da Petrobrás que a imprensa divulga todos os dias a exaustão o caso de corrupção envolvendo os diretores da empresa, como o Paulo Roberto Costa, que está preso e respondendo judicialmente.

O projeto de lei que dá direito a reeleição que beneficiou o Fernando Henrique que se candidatou a reeleição em 1998, até hoje se suspeita que para aprovação dessa lei, se deu comprando uma parte da bancada dos deputados, principalmente os que eram contrários, compra com dinheiro que é conhecido como prática de mensalão. A imprensa até hoje não dá um piu sequer sobre o assunto. Por que será? Por que a imprensa não deu tanta cobertura e denúncias de corrupção de governos anteriores pós-ditadura (exceto Collor)? Se as denúncias foram feitas, não foram investigadas, e se não foram investigadas, com o tempo caíram no esquecimento, que é também aliado a impunidade.

Infelizmente a corrupção sempre fez parte dos governos, isso vem desde a colonização, passando por império até no regime republicano em dias atuais. Não se combate a corrupção com palavras bonitas e nem com palavras doces.

A vantagem de todas essas denúncias que vêm sendo feitas nos últimos anos, é porque nenhuma praticamente ficou impune ou engavetada e debaixo do tapete. Presenciamos várias operações deflagradas pela Polícia Federal que prenderam políticos, empresários, funcionários corruptos e autoridades.

Só aqui no Maranhão presenciamos operações como Navalha que algemou o ex-governador do Maranhão José Reinaldo Tavares, Rapina que prendeu prefeitos e ex-prefeitos, Astiages que também prendeu prefeitos e por último, a operação Boi Barrica que investigou nada mais e nada menos, o filho do ex-presidente da república e irmão da atual governadora do Maranhão (Roseana Sarney), o Fernando Sarney.

Desde quando presenciamos a polícia federal a investigar e deflagrar operações para prender autoridades, governantes, funcionários de alto escalão, empresários e filhos, parentes e amigos destes envolvidos com a corrupção?

A impunidade sempre foi o instrumento utilizado pelas classes dominantes para acobertar os seus crimes ou colocar a culpa para os mais fracos, ou seja, aqueles que tem menos poder e influência pagavam pelos crimes.

E foi a primeira vez na história presenciamos o julgamento dos envolvidos de corrupção que faziam parte do governo, como foi o caso do José Dirceu, José Genoíno, Delúbio Soares, Marcos Valério e muitos outros envolvidos, sendo que os três primeiros fizeram parte do governo e são filiados do PT.

E quem o julgou pela condenação foi indicado pelo governo e pelo próprio PT, o Joaquim Barbosa, indicado para o cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) em 2004 pelo Luís Inácio Lula da Silva, José Dirceu e José Genoíno, presidente da república, ministro chefe da Casa-civil e presidente nacional do partido dos trabalhadores na época, respectivamente.

Sendo os dois últimos foram acusados de corrupção ativa, passiva e tráfico de influência, foram julgados e condenados à prisão, um marco na história do país. Joaquim Barbosa rompeu o paradigma do homem cordial, do camarada, que tinha tudo para não ser o relator do processo e também por optar pela absolvição.

Porque foi o governo e o PT que o indicou para o cargo de ministro do supremo, e como recompensa pela nomeação, se esperava pelo não julgamento dos envolvidos e consequentemente a absolvição, porque essa é a prática corriqueira dos poderes legislativo, executivo e judiciário neste país.

O atual governo pode se orgulhar de ter rompido com esse conceito, a própria Dilma Rousseff ao longo do seu governo não acobertou os envolvidos em corrupção e demitiu todos, foi assim com o Antônio Palocci na Casa-civil logo no primeiro ano de governo, depois o maranhense Pedro Novais no turismo, Alfredo Nascimento do transporte e assim sucessivamente.

Todos esses feitos não é a forma de combater a corrupção? A corrupção nunca vai acabar, mas a melhor forma de combater a corrupção é denunciando e punindo os responsáveis e dando mais autonomia política e administrativa a órgãos de fiscalização e segurança, como a Polícia Federal e Civil dos estados federativos, Ministérios Público Federal e Estadual, Tribunal de Contas da União e dos Estados, Procuradoria Geral da União e dos estados federativos e outros setores, acabando assim com a impunidade.

Você ainda acha que o atual governo acabou com o Brasil?

Muitas conquistas realizadas não se devem ao governo, mas sim aos movimentos sociais, uma delas é a cotas sociais e raciais nas universidades e concursos públicos, porque o estado brasileiro reconheceu a sua dívida histórica com os pobres (incluindo os brancos), negros e indígenas, e devemos isso ao movimento negro que há anos vem lutando, passados governos que negaram e recusaram a dialogar com o movimento, alimentando o discurso falacioso da democracia racial que nunca existiu.

PSDB e DEM são contra as cotas sociais e raciais, porque eles negam a história e representam aqueles que sempre tiveram privilégios a custo da impunidade, pobreza, miséria, violência e escravidão, esta que pendurou por quatro séculos, e ainda hoje em pleno séc. XXI no ano de 2014, eu afirmo categoricamente, a sociedade brasileira além de racista, ainda é escravocrata, e faz questão de manter resquícios herdados da escravidão.

A escravidão é a causa e origem de todos os problemas do nosso país, analfabetismo, concentração de renda, desigualdade social e racial e a concentração fundiária, e eles são contra as cotas sociais e raciais. Por quê? As cotas vão gerar ódio e a segregação racial? É muito cinismo e cara de pau. Pois as favelas nas grandes cidades são a prova da segregação racial e a desigualdade,  são a prova do ódio que impede os negros e pobres neste país de não terem oportunidades. Mas eles são contra as cotas porque defendem a minoria que sente falta dos tempos da escravidão em que o lugar dos pobres é servir o senhor e os negros na senzala.

A Lei das domésticas é uma outra reivindicação dos movimentos sociais, para acabar com a herança escravocrata em que as empregadas eram tratadas como fossem propriedade de seus patrões/senhores, trabalhavam sem direitos durante anos na casa e enganadas com a falácia de que faziam parte da família do sinhô e da sinhá. Com a lei, as empregadas trabalham com todos os direitos trabalhistas, com a jornada diária de 8 horas e sem dormir no trabalho.


Graças a cotas sociais e raciais, pobres (incluindo os brancos) e negros neste país podem sonhar em ser um doutor. Você acha mesmo que o governo tá gerando o ódio, preconceito e a discriminação racial?

A Lei Maria da Penha é também resultado de anos de luta das mulheres que vem lutando contra o machismo e a violência doméstica, lutando para acabar com a impunidade.

A Lei 10.639 que cria o ensino de História da África para que seja incluído nas escolas pública e privada, é também uma luta do movimento negro que há anos veio lutando. Esse item na lei visa recontar ou contar a outra história do Brasil e também da África, vista de baixo para cima e como forma de resgatar aqueles que foram impedidos de contar a sua própria história e que contribuíram bastante para a formação da nossa sociedade, os escravos.

Essas foram algumas das conquistas realizadas porque o atual governo resolveu ouvir e atender as reivindicações, não surgiram do nada e muito menos surgiu de cima para baixo.
No atual governo, mesmo com todas as contestações e insatisfação, há canal de diálogo, e isso não pode ser negado.

A inflação voltou e está levando muitas famílias a cautela nos seus orçamentos domésticos. Essa crise é mundial, e vai passar como passou outras crises econômicas, mas não chega nem perto do período da década de 1980 no governo Sarney em que os preços aumentavam manhã, tarde e noite, a década de 1970 foi marcado pela crise do petróleo, se dizia que era o fim do capitalismo, que os Estados Unidos perderia o posto de maior economia do mundo, que a União Soviética seria a maior potência mundial e ocuparia o lugar dos americanos.

A crise do petróleo passou, os Estados Unidos não perderam o posto de maior economia do mundo e a União Soviética foi extinta em 1991. Essa crise é mais uma como as outras que passaram e as que estão por vir, faz parte do sistema capitalista com a economia globalizada.

sábado, outubro 11

Joy


                                  entre sussurros e arrepios
            vou bordando minha noite
                                             e testemunhando tuas poses sensuais
                       no escuro deste quarto macilento

              enquanto teu perfume se alastra
                                pelo teu cárcere privado
                     minhas mãos percorrem incólumes tuas coxas
                                                 em direções aleatórias

                 (agora as páginas de um livro
                             agitam-se com o arrastar do vento
           que transborda da fresta da janela)
                        
                  por um momento            
                            teus olhos ímpios seguem minhas mãos
       quando trafego na beira do precipício
                                      para mergulhar sem asas
               em tua profundidade abrupta

                                em agonia

                                        garimpo sensações nada evasivas
                          pela tua pele adentro
                                           nos teus becos & cavernas
                                    e encontro prazeres ocultos
                            nesta escuridão ebúrnea
                                 
                    ó minha Joy Laurey
                                   faça-me um rei
             ao menos nesta noite estraçalhada
                                por metralhadoras de desejo


terça-feira, outubro 7

Caso Patrícia Moreira: uma reflexão!

Por Willian Washington de Jesus

No dia 28 de agosto num jogo entre Grêmio – RS e Santos – SP na arena do olímpico, estádio do clube gaúcho, válido pela Copa do Brasil, aconteceu mais um episódio de racismo envolvendo um jogador negro, e nessa vez foi o goleiro do Santos, o Aranha que foi xingado, insultado e chamado de “macaco” por torcedores do Grêmio, visto que o mandatário da partida estava perdendo no placar de 2 a 0.

Este não é o primeiro e nem será o último episódio racista no nosso futebol, mas ao longo deste ano que ainda não acabou presenciamos vários fatos ocorridos, entre eles envolvendo o Arouca, volante do Santos em que atua o Aranha, na partida com o Mogi-Mirim pelo campeonato paulista, o árbitro que estava apitando uma partida no campeonato gaúcho neste ano entre o Esportivo e o outro time que no momento não me recordo, e após a partida ao ir a estacionamento que estava o seu carro, viu bananas jogados em cima do seu veículo. A torcida do Esportivo que praticou atos racistas não foi punido, mas o clube foi rebaixado à segunda divisão do campeonato gaúcho no ano que vem.


E também num jogo entre Grêmio e Internacional pelo campeonato gaúcho em que a torcida do gremista xingou e insultou o zagueiro Fernando do Internacional, o chamando de “macaco”, e sem contar episódios ocorridos no exterior, entre eles o Daniel Alves do Barcelona em que a torcida jogou banana em sua direção e o mesmo a comeu como forma de ironizar os que jogaram, e ao longo do campeonato espanhol houve vários atos racistas envolvendo torcidas de vários times.


A diferença do episódio no jogo entre o Grêmio e o Santos foi a reação do goleiro santista ao reagir de imediato ao ser insultado e xingado, paralisou a partida, chamou o árbitro para denunciar e este pela omissão não colocou na súmula e após a partida foi a delegacia fazer a denúncia.


A repercussão foi intensa principalmente por causa da reação do Aranha que não se acovardou e muito menos encarou como algo natural que infelizmente nós negros estamos habituados a situações como essas e levarmos em conta que não passa de uma brincadeira ou no calor da emoção, não sabendo que o racismo se manifesta justamente desta forma.


Com a repercussão midiática, tanto na tv quanto na internet, câmeras foram mostradas para identificar os torcedores que praticaram atos racistas, entre eles/elas, foi flagrada a linda jovem, a Patrícia Moreira, que antes do jogo tinha uma vida normal e tranquila de uma hora pra outra passou ser reconhecida nacionalmente e internacionalmente, passando ser vista única e exclusivamente como símbolo da discriminação existente no nosso país.


Ela derrubou o discurso que durante anos pendurou no Brasil, que o “racismo não existe”, “negros e brancos vivem harmoniosamente em virtude da miscigenação”, “não existe ódio e segregação racial, e sim preconceito de classe entre ricos e brancos” e muitas outras falácias, o movimento negro do Brasil durante anos foi criticado e até mesmo de forma leviana e difamatória ao alegar que o movimento quer implantar no país o ódio e a segregação racial igual à dos Estados Unidos e África do Sul na época do Apartheid e de promover a guerra étnico-racial.


Dizia-se que o Brasil é o país de paz, o futebol e o samba era símbolo da alegria, harmonia e a paz do povo, o Pelé foi usado como símbolo desta falsa paz existente, a Patrícia Moreira derrubou todo esse discurso, não estou aqui a demonizando, até porque ela não é única, a torcida do Grêmio tem o histórico de praticar o racismo, até mesmo o próprio estado do Rio Grande do Sul.


A mídia mostrou a exaustão a sua imagem chamando o goleiro Aranha de “macaco”, com isso perdeu o emprego de auxiliar de dentista, a sua vida social ficou à estaca zero com medo de ser xingada e até mesmo linchada, e passou a viver as escondidas de tudo e de todos, inclusive a sua família ficou fortemente abalado com a reclusa dela após o fato.


Nunca na história deste país ao longo dos 5 séculos, vimos um/uma racista ser penalizada(o) de forma tão cruel pela imprensa, opinião pública e a sociedade em geral, a sua casa em Porto Alegre que ela e sua família havia abandonado por causa do medo e represálias de populares revoltados foi incendiado criminosamente, deixando mais ainda a garota e toda a sua família abalados, o Grêmio, clube do seu coração, foi excluído da Copa do Brasil pelo julgamento de auditores do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), não havendo a necessidade do jogo da volta na Vila Belmiro em Santos – SP.


A exclusão do clube gaúcho causou a ira ainda maior da torcida, que num jogo pelo campeonato brasileiro entre Santos e Grêmio no mesmo estádio que ocorreu o episódio, o goleiro santista, o Aranha, foi hostilizado pela torcida gremista, não o chamaram de “macaco”, mas o chamaram de “branca de neve”, que eu considero uma forma de racismo velado e camuflado para despistar as autoridades, em virtude do racismo ser crime de acordo com a lei.


Com o passar do tempo após tanto desgaste a garota, a mesma imprensa resolveu aliviar a situação dela, primeiramente numa tentativa de encontro dela com o goleiro, o que não aconteceu com a recusa do atleta, em seguida ao conceder a entrevista coletiva perante o seu advogado com pedido de desculpas e afirmar que não é racista porque tem amigos negros e já se relacionou amorosamente com os negros e por último, apareceu num programa de tv da Rede Globo pra ser entrevistada reforçando a tese do seu pedido de desculpas e que não é racista, e agiu com o calor da emoção.


Aranha, o goleiro do Santos é agora hostilizado pela opinião pública e torcedores e indiretamente pela imprensa, quanto a Patrícia Moreira é vista agora como coitada e que merece a segunda chance. E ela não merece uma segunda chance? Todo ser humano merece uma segunda chance.


A sociedade, opinião pública e a imprensa que estão querendo dar a ela uma segunda chance, é a mesma que não perdoa o ladrão de galinha ou sujeito que rouba o pão da padaria e ainda quer reduzir a maioridade penal. Aquele jovem de 15 anos no Rio de Janeiro, dependente químico, de origem pobre na favela e vive de pequenos furtos pra sustentar o vício, que teve o seu pescoço preso ao poste com a trava da bicicleta teve a segunda chance?


Querem perdoar a Patrícia Moreira, a maioria dos jovens que são linchados por populares, são negros e pobres, quem rouba galinha e comete pequenos furtos, são negros e pobres, e pegam penas severas das leis, da polícia e da própria sociedade que anulam o direito de defesa e ter a segunda chance.


O sistema prisional brasileiro não ressocializa ninguém, tornou-se a verdadeira escola do crime em que os ladrões de galinha se tornem bandidos bem mais perigosos e ainda querem reduzir a maioridade penal sem discutir a realidade dos presídios brasileiros, reforçando ainda mais a escola do crime.


Pra mim a Patrícia Moreira deve ser presa e pagar por seus crimes de injúria racial, é a primeira vez na história do Brasil ao longo de seus cinco séculos, uma pessoa pode ser condenado por crime racial de acordo com a lei, e a tendência é só piorar, pois o racismo só vem aumentando ultimamente, tanto dentro quando fora de campo.


Se a justiça não agir com rigor, mais casos de racistas serem apedrejados e terem suas casas incendiadas aumentarão, pois essas práticas são resultado da impunidade do próprio estado que não pune os réus e os que cometem este crime, e não vale alegar revanchismo e nem mesmo ódio racial como alguns cínicos e cretinos querem alegar.


Pois os negros infelizmente se acostumaram a sofrerem discriminação sem revidar e nem mesmo ter o apoio e o amparo de quem quer que seja, e graças a Deus, pessoas como o Aranha fez a gentileza de não se calar e revidar a altivez ao preconceito e a discriminação.
Se o estado através do poder judiciário não agir dentro da lei pra punir os criminosos e racista, que negros e negras reajam no combate ao racismo, preconceito e a discriminação racial.

sábado, outubro 4

Ode para Dylan Thomas

I
outubro vem sangrando no horizonte embravecido
raios e trovões anunciam mortes e entradas ao longe
na tempestade apenas escutamos os murmúrios das flores
que exalam um estranho perfume que nos embriaga
e o vinho antes doce agora amarga em nossas bocas
estamos nas dobras do mar em naufrágios constantes
lentamente jazendo a observar tantas catástrofes
o mundo por certo é um lugar por demais perigoso
criminosos vagam sem piedade nos olhos à luz da lua
trazendo em seus espíritos a chama intensa da morte
nas ruas rios de sangue passam pela sarjeta imunda
agora reina em nossos domínios a intemperança
pois o futuro é amplo e cheio de dor e dúvidas
por isso ó poeta quero somente ler teus poemas
carregados de palavras cortantes como navalhas
quero admirar sem cessar teu verbo tão alucinante
em que teus versos aparentam estar iluminados
pelo sol imperioso que brota no litoral longínquo
II
vejo a lua enfurecida a iluminar os amantes
que seguem de mãos dadas e acorrentados pelo amor
outrora eu sentia um repúdio tão voraz
percorrendo em fúria inebriante minhas veias
agora posso sentir um jovial sentimento
dominando-me por estes dias tão levianos
ó poeta! ainda posso vislumbrar em meu coração
a arte taciturna que me conduz pelas noites
onde solitário eu traço tantos destinos solenes
ardentemente eu espero alguma inspiração
para poder bordar perfume em papéis avulsos
que são carregados pelo vento da discórdia

trabalho sem recompensa assim como tu ó poeta
e sem ninguém a admirar meus versos rudes
no entanto sigo com desejo pelas ruas desertas
ouvindo o choro dos amantes abandonados
e não paro para lamentar os tempos idos
pois sei que o sangue de meus sonhos percorre
ainda embravecido as minhas veias mais ínfimas
III 

almejo tantas vicissitudes e estradas ao pôr do sol
qualquer verão que me dilacere totalmente
ou simplesmente um beijo pudico no rosto
vou gritar ó poeta nestas noites silenciosas
até o irromper da luz onde nenhum sol brilha
vou correr pelos campos insensatos da paixão
e pular em lagos límpidos ao entardecer

desejo com ardor ó poeta tuas páginas de espuma
teus versos únicos traçados em noites invernais
buscarei teus poemas nos desertos e nos prados
minha jornada terá êxito e clamarei aos céus
que tua poesia se propague pelos quatro cantos do mundo
pois tuas linhas irradiam beleza e verdade
tenho a sina de um nômade a vagar pelas areias
sonhando serenamente sob a lua de asfalto
sei que encontrarei abismos e pântanos
mas não esmorecerei diante de tantas dificuldades
pois eu sou um argonauta em busca dos versos d'ouro
IV 

outubro é verdadeiramente o mês mais sublime que há
os ventos nesta época arrastam lembranças febris
para o recanto mais escondido do meu coração
ó quantas emoções me aguardam lá na esquina
tenho que apenas louvar estes dias de outubro
já que as árvores festejam ao passar do vento
nada irá me levar aos portos da melancolia
vou somente reverenciar os pássaros cantantes
que voam livres nos céus mais azuis
nem gaiolas de pensamento irão prender
meus voos sob as encostas mais afastadas
nem ouvirei salmos e rouxinóis dos mortos
que descansam em mausoléus esplendorosos

talvez eu encontre o eterno movimento
que há por trás de tua poesia iluminada
lembro uma noite que eu sonhei sem jactância
com tua declamação diante de um oceano em luto
ó poeta! quando a morte perderá seu domínio?


Paço do Lumiar, 2005

segunda-feira, setembro 29

Três é Demais: Mutantes

Para o ateu psicodélico Arnaldo Baptista

Às vezes, o Brasil não reconhece seus próprios artistas, não cultua com a devida proporção os artistas pioneiros que transgrediram o status quo e que revolucionaram o cenário musical com genialidade e inovação. Com certeza absoluta, um grupo que deve ser incessantemente venerado é os Mutantes - uma das bandas mais importantes da música brasileira ao lado dos Secos & Molhados e Novos Baianos -, que é/foi cultuado por David Byrne, Peter Gabriel, Kurt Cobain, Sean Lennon, Beck e outras personalidades do mundo afora. Com efeito, Mutantes é sinônimo de qualidade musical nos Estados Unidos e na Europa. O nome da banda adveio, por sugestão de Ronnie Von, do livro de ficção científica "O Império dos Mutantes" (La Mort-Vivant) de Stefan Wul, obra famosa no Brasil na década de 1960. Inicialmente, os Mutantes eram constituídos pelos excêntricos irmãos Baptista, Arnaldo (baixo, teclado, vocal) e Sérgio Dias (guitarra, vocal), e pela cativante Rita Lee (vocal, flauta), compondo o grupo mais inovador do rock 'n' roll tupiniquim. Por trás dos Mutantes, há duas personagens essenciais: o maestro Rogério Duprat e Cláudio César (irmão-inventor dos Baptistas). O primeiro é considerado o George Martin brasileiro e o segundo é um grande luthier e Professor Pardal que construía para a banda inúmeros instrumentos eletrônicos, tais como caixas acústicas, pedais de distorção e amplificadores. Tanto Duprat como Cláudio foram importantíssimos para o desenvolvimento musical de Rita, Arnaldo e Sérgio. Isso ajudou o grupo a rivalizar em criatividade com os grupos dos EUA e da Inglaterra. No catálogo dos Mutantes, há álbuns extremamente geniais, a começar pelo homônimo lançado em 1968 em pleno período da Psicodelia e sob o sol da Tropicália. Em 1969, veio a lume o segundo disco, dando continuidade às pérolas sonoras. Com o álbum "A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado" de 1970, Arnaldo e companhia atingiram o El Dourado da música.
Abrindo com chaves de ouro "Os Mutantes" de 1968, a composição de Caetano Veloso e Gilberto Gil, "Panis et Circenses" tem todo um mostruário de tropicalismo e irreverência. Com um arranjo fabuloso de Duprat, essa canção está entre as melhores da música brasileira. Em seguida, "A Minha Menina" - composição de Jorge Ben - é uma das canções mais conhecidas dos Mutantes pelo mundo. O próprio Jorge Ben toca violão nessa faixa, que apresenta ainda um som de guitarra bastante psicodélico de Sérgio Dias. Com a balada "O Relógio", o trio mutante arregaça as mangas em uma composição própria. O canto de Rita Lee nessa canção é bastante singelo. Na sequência, a releitura do baião de Humberto Teixeira e Sivuca, "Adeus, Maria Fulô", tem a experimentação característica dos Mutantes: canto de passarinhos, cuíca, xilofone, batidas em objetos de vidro, etc. A peculiaridade nessa canção é que não há a presença de sanfona e nem de guitarra. Caetano Veloso mais uma vez dá o ar da graça na composição em "Baby", que é um dos pontos fortes do álbum. A guitarra ácida de Sérgio Dias é o carro-chefe dessa faixa cantada por Arnaldo. Com mais uma canção autoral, "Senhor F", os Mutantes expõem o lado hilário/crítico da banda. As mudanças de ritmo também são uma marca peculiar no som do trio paulista, além do uso de instrumentos não convencionais. "Bat Macumba" (composição de Caetano e Gil), despeja ritmos de candomblé aliado à guitarra delirante de Sérgio Dias. Logo depois, Rita canta o clássico francês "Le Premier Bonheur du Jour", na qual o grupo utiliza uma bomba de inseticida para fazer papel do chimbau. Com forte experimentação no arranjo e quebras de ritmo, a nona faixa "Trem Fantasma" (composição de Caetano e dos Mutantes) abre como uma banda de pífanos. Rita canta essa canção em parceria harmoniosa com Arnaldo. A faixa seguinte "Tempo no Tempo" é uma versão de “Once Was A Time I Thought” do The Mamas & The Papas. A letra dessa versão teve ajuda do pai-poeta de Arnaldo e Sérgio, César Baptista, que faz uso constante de aliterações.  Em "Ave Gengis Khan", o solo de guitarra tresloucado de Sérgio e o teclado alucinado de Arnaldo encerram o debut. Com produção de Manoel Barembein e fortemente influenciado pelo Beatles da fase psicodélica, os Mutantes estrearam com um álbum espetacular, unindo pop e rock com música erudita (graças ao maestro Duprat). O álbum de estreia do grupo foi eleito pela revista MOJO um dos discos mais inovadores da história.
    O segundo trabalho de inéditas dos Mutantes de 1969 é uma continuação criativa do primeiro álbum. O trio afastou-se da dupla Caetano-Gil para se aproximar do tropicalista Tom Zé. Iniciando o álbum com "Dom Quixote", novamente com a ajuda do pai-poeta de Arnaldo na letra repleta de aliterações, o arranjo de Duprat mergulha na temática quixotesca. A guitarra excepcional de Sérgio Dias é um dos destaques nessa faixa. Na sequência, "Não Vá Se Perder Por Aí" é uma composição de Raphael Vilardi e Tobé, dois velhos conhecidos do trio mutante. Essa canção tornou-se clássica na mãos do grupo, com direito a um som espetacular de guitarra por parte de Sérgio Dias e um trabalho fino de vocal de Rita e Arnaldo. Em seguida, "Dia 36" apresenta o efeito eletrônico na voz de Rita criado por uma engenhoca de Cláudio César. O rock psicodélico-caipira "Dois Mil e Um" é uma joia seminal, que mistura viola caipira com guitarra. Nessa composição dos Mutantes e Tom Zé, Rita e Arnaldo em parte cantam de forma a reproduzir o modo de falar caipira.  Na sequência, a cativante "Algo Mais", ecoando paz & amor, traz as conhecidas mudanças de ritmo e o trabalho competente de vocal do grupo. Para muitos, "Fuga N° 2" é uma das melhores canções dos Mutantes. Isso muito se deve ao arranjo esplêndido de Rogério Duprat. Depois, há a releitura mutante da canção eternizada por Celly Campello, "Banho de Lua" - hino da jovem guarda. A faixa "Rita Lee" tem influência velada dos Beatles enquanto a lisérgica "Mágica" é uma fusão de sons extravagantes, tendo no final referência explícita a "(I Can't Get No) Satisfaction" do Rolling Stones. Com mais uma composição creditada a Tom Zé e Mutantes, "Qualquer Bobagem" é uma peça de ouro de quilate infinito. Rita, com sua técnica no vocal, canta gaguejando essa canção acompanhada com o teclado rasgante de Arnaldo. Para finalizar o álbum, "Caminhante Noturno", de autoria de Rita / Arnaldo / Sérgio, é uma canção muito "viajante" e com letra poética. No álbum com a produção novamente de Barembein, há a participação do baterista Dinho Leme (irmão do comentarista de corridas automobilísticas Reginaldo Leme) e do baixista Liminha, que viria a ser um grande produtor musical.
O terceiro álbum do grupo paulista é "A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado", lançado em 1970. A abertura realizada por "Ando Meio Desligado" desfila a guitarra de Sérgio alinhada com a percussão de Naná Vasconcelos. O teclado freak de Arnaldo também faz parte do show, além do vocal magnífico de Rita. Preste atenção ao final no solo estupendo de guitarra. Em seguida, "Quem Tem Medo de Brincar" apresenta o vocal criativo de Rita, as mudanças de tempo característicos e as experimentações sonoplásticas da banda. Em "Ave, Lúcifer" - um verdadeiro poema -, os Mutantes fazem referência ao famoso livro de Dante Alighieri, "A Divina Comédia". Na sequência, "Desculpe, Babe" é uma das melhores canções da carreira da trupe mutante. Tudo funciona em perfeição nessa faixa: a guitarra de Sergio, os vocais de Arnaldo e de Rita e a percussão novamente de Naná Vasconcelos. "Meu Refrigerador Não Funciona" dá dicas da futura sonoridade calcada no rock progressivo que a banda embarcaria nos anos vindouros. Parece que no vocal Rita faz uma homenagem a Janis Joplin. O trabalho instrumental nessa canção é de causar arrepios. A próxima faixa, "Hey Boy", é um rock no feitio da década de 1950, criticando a vida burguesa inútil dos jovens. A canção da dupla Roberto-Erasmo, "Preciso Encontrar Urgentemente um Amigo", entra no álbum para mostrar a versatilidade de Sérgio Dias na guitarra e o teclado majestoso de Arnaldo. A regravação com toque hilário de "Chão de Estrelas" - clássico de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa - é um dos momentos altos do álbum. A começar pelo canto choroso de Arnaldo, a experimentação ocorre em sintonia com a letra. Logo depois, "Jogo de Calçada" não deixa o som diminuir e nem a qualidade. O início dessa faixa aparenta um ritmo de capoeira, enquanto "Haleluia" parece com um hino psicodélico. Para encerrar o álbum, "Oh Mulher Infiel" é uma jam session alucinada e caótica, na qual Arnaldo dilacera o órgão Hammond e Sérgio ejacula sons titânicos de sua guitarra envenenada, acompanhados pela bateria nervosa de Dinho e o baixo de Liminha. Um verdadeiro Gran Finale. O álbum bastante autoral da banda foi produzido por Arnaldo Sacomani e tendo efetivamente Dinho Leme e Liminha como integrantes constantes não creditados. De fato, esse álbum está entre os melhores da produção dos Mutantes, com um desfile formidável de canções laboriosamente esculpidas. Arnaldo e companhia se superaram técnica e criativamente no genial "A Divina Comédia ou ...".
Sem sombra de dúvidas, Mutantes está entre as grandes bandas da história. A mistura de rock com música brasileira (tal como samba, baião, música caipira, etc.) e arranjos eruditos fazem deles um dos grupos mais originais e criativos do mundo, levando em conta que se encontravam no Brasil mergulhado na Ditadura Militar, que podava energicamente os artistas naquele momento negro de nossa história. Com efeito, Mutantes não devia em nada comparado aos grupos estrangeiros. Verdadeiramente, eles fizeram uma música universal, que merece ser cultuada nos quatro cantos do mundo e principalmente com mais intensidade no próprio Brasil. A influência dos Mutantes na música brasileira é avassaladora. Artistas e bandas como Pato Fu, Mopho, Chico Science & Nação Zumbi e Zeca Baleiro (só para citar alguns) devem imensamente aos Mutantes. Também, cantoras como, por exemplo, Fernanda Takai e Paula Toller devem favores eternos ao talento inconteste de Rita Lee. Indiscutivelmente, Mutantes é uma das maiores criações artísticas do Brasil.
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sábado, setembro 27

Colagens

I

                                                             Meu ser em vertigem
                                                 já não suporta
                                                                 as ventanias que arrastam
                                                       árvores esculpidas em minha mente


II

                                            Quem sabe o passado não desmorone 
                       junto com as cartas empilhadas sobre a mesa
                                            Quem sabe a primavera não desmaie 
                       junto com as virgens em cio nas esquinas

III

                    O que restará das manhãs que faleceram antes do Sol vir à tona?
                    O que restará das flores que não germinaram e nem deram viço?
                    O que restará das estradas que teceram rumos perante a madrugada?
                    O que restará das estrelas que se apagaram em um céu em chamas?
                    O que restará das covas que não receberam os cadáveres esperados?
                    O que restará das noites que se perderam diante de uma lembrança?


IV

                                                            Meu ego ainda
                                                              se inflama
                                             com a chegada do amanhecer
                                                          e cada orvalho
                                                            me fascina
                                                         e cada espelho
                                                            me ensina
                                                 a afastar minhas dores 

V

                                                  Vou escrever um conto policial
                                  Vou rodar um filme noir
                                                  Vou ganhar um prêmio em Cannes
                                  Vou me tornar quem já fui
                                                  para ver se eu paro de sonhar


João Pessoa, Março 2011

quinta-feira, setembro 25

Days of Abandon - O Terceiro Álbum do The Pains of Being Pure at Heart

 
O Indie Rock é o celeiro das melhores bandas da atualidade (ao menos para alguns). Inúmeros grupos desse cenário, que conta com gravadoras independentes, têm surgido nos últimos tempos. The Pains Of Being Pure at Heart é, sem dúvida, um belo exemplo de uma banda de Indie Rock. Formada em 2007 na cidade de Nova York pelo guitarrista (e vocalista) Kip Berman, pelo baterista Kurt Feldman, o baixista Alex Naidus e a tecladista Peggy Wang, The Pains (daqui por diante) lançou o álbum homônimo em 2009, que recebeu ótimos elogios pela imprensa especializada. O segundo álbum, Belong, de 2011 veio a confirmar a sonoridade que traz noise pop, shoegaze e rock alternativo. Apesar da saída de Peggy Wang e Alex Naidus, Kip Berman compôs uma nova leva de canções para o terceiro álbum, Days Of Abandon, que foi lançado recentemente em 2014 pelo selo Yebo Music. Com Days Of Abandon, Berman e companhia desfilam canções extremamente elegantes e melódicas.
Abrindo Days Of Abandon, temos "Art Smock" levada ao violão e teclados incipientes. Em seguida, a energética "Simple and Sure" dispara os versos confessionais: "It might seem simple but I'm sure I just want to yours". O vocal exasperado de Berman cadencia nossos sentimentos nessa faixa. Na sequência, a participação da vocalista Jen Goma (da banda A Sunny Day In Glasgow) no vocal principal de "Kelly" nos embala ritmicamente, soando como uma canção da banda novecentista The Sundays. A guitarra límpida em "Beatiful You" parece difundir os sentimentos de perda propagados por Berman. Certamente, essa canção é um dos destaques dentro do álbum. Depois, há a lírica "Coral and Gold", na qual Berman declara saudade do ser amado. Essa canção começa lenta, mas aos poucos vai acelerando harmoniosamente. Em "Eurydice", temos The Pains assemelhando-se profundamente com The Sundays. A canção com teor smithiano "Masokissed", que parece trazer o dedilhado característico de Johnny Marr,  dá espaço para "Until The Sun Explodes" - um dos grandes momentos do álbum -, que emblematicamente mistura shoegaze (de bandas como Ride e My Blood Valentine) com uma melodia à la The Cure. Novamente, Jen Goma toma as rédeas do vocal em "Life After Life". A terna “The Asp at My Chest” encerra com chaves de ouro Days Of Abandon.
Com certeza, a maturidade de Kim Berman é o ponto essencial do último trabalho de inéditas do The Pains. Não por acaso, as letras confessionais de Berman chegaram ao ápice, estando mais direcionadas para adultos jovens do que para adolescentes. Apesar do leve abandono do noise pop, Berman e companhia tecem canções exuberantes, tendo uma sonoridade guinando para o pop rock, com guitarras melodiosas e teclado bem ameno. Emoções genuínas ainda fluem do canto exasperado de Berman. Não existem argumentos plausíveis para que você não ouça Days of Abandon. Dixi.
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