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domingo, agosto 7

Antônio Almeida, o inço das artes no Maranhão

Como planta daninha que se agarra despretensiosamente ao solo modificando a paisagem natural, saiu do Jacaré, em Barra do Corda, desbravando caminhos até alcançar São Luís, onde denunciou sua vida e a de milhares de famílias do interior do Maranhão sem deixar escapar o amarelo que queimava o verde e secava o azul, o colorido da cultura e a palidez do sofrimento que lavrava a terra árida de fome e seca por onde passava.

Do chão infecundo, fez brotar arte. Nunca aceitou sair de sua terra para viver uma cultura solitária avessa a sua natureza de homem simples. Suas mãos colhiam da natureza inspiração como raízes que buscam no âmago da terra os nutrientes necessários à sobrevivência. Indiferente ao dinheiro, o enriquecimento que desejava era intelectual e artístico, trabalhava pelo valor que a arte tinha pra si mesmo: a busca pela perfeição, no entanto, com ela pagava o leite e a boemia: nutria seus dez filhos, e quando dava, rematava a conta do bar.

Sobrevivente da seca castigado pelo sol, a escuridão tomou conta de seus dias. As madrugadas, companheiras de insônia, ouviam-no em silêncio, enquanto travava discussões com seus próprios pensamentos. No dia seguinte... prosas e poesias com o cheiro de terra através do olhar de um menino autodidata de nascença que crescera sob instrução de seus instintos, mas, sobretudo, de um artista nervoso que desafiou até a cegueira tateando pensamentos e redesenhando palavras, sementes essas lançadas no chão fértil de suas limitações criativas, esse era o Almeida: uma raiz amarga difícil de ser tragada, mas que se ramificava.

Aos 27 de maio deste ano completaria 89 anos, se não tivesse sido desentranhado da terra em Janeiro de 2009, a facão! Sua sede de viver era tamanha que teimou com a vida agarrando-se a cada sopro dos ventos até o silêncio pintar o leito de paz. Hoje, suas estirpes ainda permanecem entranhadas na terra que amou, ilustrou, pintou, xilografou... verdadeiras barrigudeiras espalhadas pela cidade, murais que deveriam ser tombados pelo valor histórico e cultural, testemunhas sol a sol do caminhar de um homem franzino e inquieto que germinou arte no Maranhão.


Alice Almeida, Nascimento

Há muitos anos atrás, eu e meu avô, em sua casa no Monte Castelo, guardiã de seus dias de vida 



Quase Epitáfio
No meio do caminho que caminho
a cova
Em que me planto regermino sonho
Que é vida sempre sol a sol a caminhar
Antônio Almeida
( 1922-2009)

(Texto publicado no Jornal Pequeno revelando o descaso das obras do falecido Almeida pelo poder público, como o Painel em Azulejo do antigo Banco do Estado do Maranhão; murais no Parque do Bom Menino, dentre muitas outras obras.)

terça-feira, julho 26

Recorte

Estaria no lugar certo? Duvidou por alguns instantes. A confirmação dera-se pela presença dele, ou deles, já não tinha certeza se era um, ou alguns, mas duvidou que fossem todos. Havia se preparado para aquele momento, já sabia que encontraria hostilidade e simpatia. Serviu-se da simpatia dos garçons: uísque com algumas pedras de gelo, e aguçou hostilidades dos demais depois da segunda dose. Sim, ela preferia uísque, forte, ácido, antídoto perfeito para suportar aquela noite venenosa.

As palavras fluíam através de sua voz segura e agradável enquanto o choro do malte parecia incomodar o passeio que os demais realizavam pela carta de vinho. Na curva, ela e seu copo. Silenciou-se.

A noite prosseguia aborrecida com as conversas que calavam a música entre pessoas e garrafas vazias. Os brindes eram inexistentes, até o santo fora esquecido. Este não saberia apreciar o vinho, escolher a safra, seguir os rituais catedráticos das vinícolas, como cheirar a rolha, segurar a taça com maestria, sacudindo-a antes de sentir o aroma e enfim degustar. Jamais derramariam o do santo no chão. Lugar luxuoso, ambiente inóspito e pessoas indiferentes. De fato o santo estaria nos botequins com os passarinhos e suas águas entre poesias, cheiros e sabores.

Na terceira dose, o gelo beijava-a com doçura tocando-lhe os lábios. O copo demorava cada vez mais a retornar a mesa, enquanto as sinuosas taças de vinho, abandonadas, soberbamente, o observava. Estariam elas enciumadas por não serem tocadas, por não sentirem o calor daquela boca, a maciez de suas mãos, e, sobretudo a admiração dos seus olhos? Permaneceu em silêncio. O malte percorria suas veias provocando-lhe um leve torpor pelas frágeis palavras que circundavam aquela mesa quadra. Entre uma dose e outra, água... talvez o que de mais puro houvesse entre a mesa e as cadeiras, o gelo não, esse se misturava ao malte e continuava a furta-lhe beijos cada vez mais ousados chegando a tocar a ponta de sua língua macia...assim como seus lábios. A língua já não se continha, desfilava sensual sobre os lábios sugando o malte que escapara do copo deixando rastros em sua boca... Já estava na quarta dose.

Garrafas vazias sobre a mesa, muitas pessoas vazias sobre as cadeiras cenário perfeito para a  futilidade proporcional ao preço do vinho consumido e apreciado com refinamento. As taças suntuosas inquietaram-se. Frases suicidas começaram a ser vomitadas sobre a mesa. Ela, impávida, ouvia, embora tentasse se distrair com o gelo que nadava no uísque.

A primeira frase cortou-lhe os pulsos, não acreditava estar ali. Recolhera as mãos. O gelo sozinho continuava o movimento. A segunda a asfixiara. Passou a mão direita pelo pescoço como se procurasse a corrente inexistente para se enforcar, como não percebera isso antes? A terceira, uma adaga no coração! A mão escorregara pelo decote chegando a tocar o próprio seio na tentativa de estancar o sangue que se espalhara em todo o ambiente, o que lhe segurava? O despedaçar da taça de uma mesa vizinha, a trouxe de volta. Os cacos estavam espalhados por todos os lados.

As taças vazias sorriam e espelhavam seu rosto incrédulo. O lápis preto que contornava perfeitamente seus olhos poderia saltar em linha enquanto sua língua sarcástica costurava a boca de algumas pessoas num esforço sobre humano de lhes fazer um favor, era como se prendesse o botão que fugira de sua casa para nunca mais sair.

Bebida e inteligência; aperitivo e prato principal; um estimulante, o outro afrodisíaco, juntos, potencialmente destrutivos, sobretudo na presença de desconhecidos. Ela sutilmente sedutora e fatalmente educada. Levantou-se bruscamente sob o olhar controlador das taças, beijou o gelo longamente, pegou a bolsa que dormia sobre a mesa e pediu licença.As cadeiras arrilhiaram-se. Era possível ouvir o burburinho das taças. Caminhou lentamente e sem dizer nada a ninguém, abriu a porta da gaiola de ouro e foi em busca dos passarinhos, de suas águas e de todos os santos.

O silêncio trincou as taças. Nada a segurou, nem o copo de uísque. O gelo derretera.


Alice Nascimento

alice por alice

sexta-feira, julho 22

Rabiscos IV - Riso

Alice por Alice



Entre duas covas,o riso.
A morte da dor

O sepultamento da lágrima

Riso



riso


Para um amigo que me faz sorrir

quinta-feira, julho 7

Vida em uma lauda: A vitrola

Entre, disse a ela suavemente na penumbra de uma tarde preguiçosa, ou de uma manhã sonolenta. Queria dizer-te mais do que posso, falou-lhe ao ouvido enquanto ele fechava a porta e um novo mundo abria-se... sem espelhos, já se conheciam tão bem, um ao outro e a si mesmos. Limitou-se a frases conhecidas e sofreu por isso. Mudou de assunto: Lembra dos dias azuis e serenos que tivemos? Continuou a lhe sussurrar, enquanto ele delicadamente a beijava e desabotoava suas luvas, tão macias quanto suas mãos. Poderia afundar-se nelas.

As trilhas sonoras esgotaram-se, estão cansadas de nossos ouvidos. Será por isso que está tudo tão silencioso? Questionou-o sentindo a mudança naquele ambiente, embora houvesse sons no silêncio...

Ainda guardas os LP’s? Insistiu enquanto era conduzida em direção à janela. Apoiou as duas mãos sobre o mármore frio e úmido sentindo a brisa que invadia o quarto. Ele, delicadamente desatou o nó de seus cabelos vermelhos que ela insistia em esconder. O fogo alcançava os seios dela e as labaredas espalhavam-se queimando docemente a pele branca do corpo dele. Ele a ouvia enquanto tentava controlar o fogo que lhe consumia. Queria vê-los tocando mais uma vez... talvez não eles, mas ver o teu ritual de fazê-los tocar... assim como me apresentastes a vida... Contar-me sobre os podres de alguns cantores, alertando-me para a natureza humana até então para mim mascarada, mostrar-me os bastidores e seus segredos. Ela continuou sentindo a pressão do corpo contra a janela... Vê-lo passar os dedos por sobre as pontas dos LPs já gastos pelo tempo, um a um: a infinita contagem dos amores colecionados...quantas histórias até encontrar o que queria, fazendo-me refletir sobre escolhas e caminhos, e no final, sempre havia os três preferidos, mas era o terceiro que tocava, assim como a mulher que marcara sua vida... Tirá-lo da capa, virá-lo de um lado a outro sem nenhum pudor, sorrir com tamanha satisfação... e com o olhar, tirar-me para dançar...

Fale-me, ela insistiu, sentindo o calor que já escapava pela janela, o que houve com os dias azuis? Transformaram-se, disse ele, e continuou...não vês, frágil era a agulha que deslizava sobre o vinil, era o único mundo que ela conhecia, não resistiu ao tempo e se rompeu, cansou das mesmas coisas, gira e volta, eram sempre os mesmos discos, quando irritada, arranhava-os. E não a substituístes? Aflita, ela indagou... Não, respondeu ele, não a fabricam mais. Era uma agulha rara... e tão sensível, talvez única, mas imutável. Na verdade, acredito que com o passar do tempo ela quisesse evoluir, mas não resistiu...diferente de ti. Tu evoluístes amor, e não perdestes tua sensibilidade, continuas apaixonante. O que dura, é o que é capaz de se transformar, de interagir com a vida, entendes? Por isso não precisamos dos LPs, temos todas as melodias... ouvimos quando nos queremos, finalizou.

Mas, e a vitrola? Ela quis saber... A vitrola já não existe, ele respondeu. Não faria sentido sem a agulha. Ele esticara os braços dela sobre a janela prendendo-os com uma das mãos, enquanto a outra se misturava as chamas. Aquecendo-lhe o pescoço, segredou a pérola  presa a orelha dela, cúmplice daquele momento: Amor hoje, cada dia possui sua própria cor, seu ritmo e sons, vivemo-os de formas diferentes. Esqueça a vitrola, e o azul dos dias, estes têm agora as cores que queremos dar para eles...Venha, dance comigo!

Os sons do silêncio incendiaram-se!

Alice Nascimento


quinta-feira, junho 23

Vida em uma lauda - A porteira

Pensou na vida, mas não olhou pra trás. As lembranças já não faziam parte dos seus planos, não havia o que recordar, nem infância tivera. Na mala praticamente vazia, o futuro: um espaço a ser preenchido. Vestida de coragem, calçada de garra, deu o primeiro passo: encarar o mundo. No bolso, identidade para lembrar quem era; sobrenome para jamais esquecer suas origens, mesmo com todo o sofrimento, afinal cada um carrega consigo uma história difícil de ser apagada, e, além de algum dinheiro entregue por seus irmãos da venda de carvão, não levou mais nada, nem fotos; a da identidade era mera formalidade, já não se reconhecia ali.

O sol estarrecido acompanhava-a de perto sem deixar que nenhuma nuvem lhe tampasse a visão. Colocou a mala no chão e abriu a porteira retirando a corrente que se agarrava a cerca impedindo sua passagem. Parou. Contemplou por alguns instantes aquele céu tão azul que seria capaz de respingar sua cor em qualquer coisa. O calor intenso ultrapassava sua pele e alcançava o sangue que corria por suas veias. Era chegada a hora de partir o cordão umbilical com os dentes antes que a parteira do vilarejo cortasse os seus sonhos de ir embora daquele chão, pois antes dos dezoito anos, as barrigas das meninas já despontavam, enquanto os pais dos rebentos embrenhavam-se na roça, isso quando não eram vendidas aos fazendeiros por punhado de terra ou de dinheiro, como ocorrera com duas de suas irmãs. Quanto valeria? Desviou o pensamento e seguiu em frente. Nenhuma lágrima. Ninguém a levara até a saída do vilarejo. Iria ser mulher da vida, sua mãe dizia. O pai reforçava a ladainha chegando a ameaçá-la com o cipó, como o fizera em toda sua infância. Não se intimidou. Apressou o passo e chegou ao pequizeiro, local onde o pau de arara passava para recolher os desistentes, como o povo chamava quem ia embora. Para ela, os libertados.

Ao longe a nuvem de poeira avisava: é chegada a hora de partir! Respirou fundo. Engoliu a saliva forçosamente como se um nó na garganta impedisse o acesso... Pisou firme no primeiro degrau. Jamais teria o destino que lhe traçaram. Fechada a porteira, renascera.

Alice Nascimento


segunda-feira, junho 13

Não me fales de amor!

Por favor, não me fales tu de amor, não agora, nem por esses dias. Não sobre esse idealizado pela literatura e cinema decodificado em trilhas sonoras, ou engarrafado em frascos de remédios como cura para solidão culturalmente inventada. Sobre esse amor eu não quero ouvir. O amor é uma dimensão maior, difícil de ser narrado, especificado e já o vivestes em tantos momentos... esquecestes? O amor é livre... livre foram teus passos pelo mundo... livres foram as tuas formas de amar. Não podes querer viver um amor de frascos, de álbuns limitados em páginas amarelas de sorrisos emoldurados, lindos e vazios. A tua natureza de amar é muito maior! O amor não é unidade, é extensão. Vê aquele pássaro flutuando no céu lilás em perfeito ballet moderno? Tanta flexibilidade, encantamento...consegues perceber? Pois tu não és o pássaro, tu és o céu. 

O céu é o teu limite!


Alice Nascimento

quinta-feira, junho 9

Guignol

A reencontrava todos os dias. Anos itinerantes de existência mórbida em miséria e falsas promessas. Peregrina de corpos, mutante em sentimentos febris. Pele marcada do tempo e de frases duras de uma vida refugiada na sobrevivência da qual fora obrigada a viver, expelida órfã em um mundo que não pediu. Filhos? Frutos de ocasiões, cada um de um homem, qualquer um, tanto faz, no fim todos vão embora. Proteção? Só de Deus se é que algum dia olhou para aquela criatura. Trabalho? Árduo, qualquer coisa, ou nenhuma coisa. A vida a mastigava enquanto ela engolia a fome e se nutria de esperança... Prazer? só o da carne mitigado em mentiras, única verdade que conhecia... Dias melhores? Nem a chuva trazia mais, inundava o que lhe restava. Dignidade? Nunca conheceu, nem sabia o que era, assim como Direitos, só Cidadania quando aprendeu a escrever seu nome e se viu obrigada a votar manipulada por frases que lhe soavam bem aos ouvidos.  E ela continuava ali... um mamulengo humano nesse teatro de horror, por todos os lugares, todos os bairros, todas as ruas, todas as cidades em todo o mundo...subvivendo.





Foto: Gilson Camargo

domingo, junho 5

Rabiscos I

Foto: Alice, reticências e... etecétera
Era madrugada. O sol preguiçoso não dava sinais de vida e a escuridão se arrastava infinitamente me tirando o sossego. A única luz que parecia existir era de algumas estrelas, assim como eu, solitárias. Era um dia qualquer, de um ano qualquer... Eu, a insônia e as estrelas. Estávamos ali na janela do mundo, a data era indiferente quando recomecei a escrever.

Alice Nascimento



sexta-feira, junho 3

Vida em uma Lauda - O Vinho

Encontraram-se casualmente em um bar, mas o destino tratou de apresentá-los em outra ocasião. Ambos resignados com a vida e fragilizados emocionalmente, cúmplices de amores falidos: ele vulnerável acorrentado em um amor dissolvido, ela desiludida, com a chave e o cadeado em mãos, presa a um amor desacreditado. Ambos “adulteceram” precocemente: tiveram a adolescência usurpada por responsabilidades. Cada um em sua bolha de sabão, imaculadamente, inabalável. Ledo engano. Ventos mudam a direção, bolhas rompem-se. Fora delas, ou se abandona o estado de latência ou se reinicia o ciclo vegetativo de viver. A frente de tudo isso, a decisão de cada um...como provar ou não aquele vinho.

A madrugada engolia a noite e já respirava o ar do amanhecer refrescando o sofrimento que se derramava sobre a mesa, como o suor escorrido das taças com vinho tinto abandonadas pelo calor da conversa que se desenrolava ali. Nos olhos dele angústia, nos dela, acalento. A conversa prosseguiu em caminho de formigas, um monólogo extenso até se perderam em olhares. O silêncio descarrilhou as formigas. O tempo parou. A vida parou. A respiração falhou. Só o pulsar do coração a trouxe de volta. Ela desviou o olhar, era possível ver a lua de sua taça. Imaginou se São Jorge a estivesse vendo... quem sabe a levaria dali antes que se apaixonasse novamente? São Jorge contra o amor, ou a ilusão, só queria ser protegida contra sofrimentos. Já nem sabia o que representava o amor. Levantou a taça, sentiu o leve aroma das uvas... pobres e deliciosas uvas, colhidas, amassadas, fermentadas e servidas em vinho. Pensou ser assim o viver, aprendemos com a vida depois que nos permitimos processar, mas diferentemente do vinho, não somos melhores à medida que envelhecemos, o amadurecimento é compreender que se deve colher o que a vida tem para nos oferecer e apreciar as parreiras, as uvas e o vinho. Pela primeira vez, sentia que abrira o cadeado de sua própria prisão.

O silêncio se estendera inquieto. Ele dobrava e redobrava a ponta do guardanapo abaixo da taça, totalmente encharcado, poderiam ser suas lágrimas, imaginou. Por que o amor acabara? Por quê? Examinou o resto do vinho que se refugiava no fundo da taça, era como os relacionamentos, não se evaporam totalmente, sempre ficava algo... Tudo lhe parecia mais lúcido:O fim é também recomeço, pensou levantando a taça ainda vazia. Pegou a garrafa naufragada no balde de gelo. Observou-a com delicadeza... perdeu-se no rubi de sua cor... que uva seria aquela? O sabor, o aroma, agora tudo lhe seduzia. Serviram-se de mais vinho.  

As taças se beijaram ao amanhecer.

Alice Nascimento

Foto Alice - Esmalte e vinho, tintos

segunda-feira, maio 30

Protesto ao sono!

Hoje, só hoje, não quero dormir. Quero exaurir a madrugada com meus monólogos internos. Da minha cama palco, dos fantasmas platéia, do pensamento meu discurso. Me recuso a encerrar as pálpebras como se findasse o espetáculo. Que se mantenham abertas as cortinas, para na penumbra declamar ... Ode ao Silêncio, quero me libertar!

Alice Nascimento


Foto cedida por Lívia Parente em uma de suas apresentações
Simplesmente, Deslumbrante!

sábado, maio 28

Novo conceito: Tecnodemagogia


Quatro paredes abandonadas pelo descaso. Luz fracionada, natural, que invade o espaço esmagada entre as telhas. Ventilação? Quando em surto alguém corre. No recreio? Não, não há espaço para recreio, esse intervalo é furtado dos alunos, mas para pegar a borracha emprestada ou aquela folha extirpada de algo parecido com um caderno sofrida pelos rabiscos inelegíveis quando atirada ao cesto de lixo...sim, há ventilação. Livros? Dizem que há uma Política Nacional do Livro, mas não se sabe ao certo. Ali os livros nunca chegaram. Não, minto, sim, já chegaram: foram colhidos em depósitos. Eram antigos, mofados, incompletos, três por aluno, dois por aluno, nenhum, tanto faz, eles nunca sentiram o cheiro de um livro novo, como cheiro do café passado no coador de pano, instigador de sentidos que faz o imaginário brotar uma mesa com pães frescos, bolo de milho, cuscuz e beiju...mas não, nada de ilusão, é realidade mesmo! Biblioteca? Pra quê? Quatro paredes sem alunos, sem fardas, sem cores, sem voto? E computadores? Jamais! Despertam mentes curiosas e investigativas, é melhor não ousar. Detalhe, o enfarte desse conglomerado de paredes de cimento e tijolo seria inevitável, a fiação jamais suportaria essa tecnologia.O fato é que acaba de ser aprovado na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), do Senado Federal, o projeto de lei que altera a Política Nacional do Livro, e que será votado em meados do ano. Então serão garantidos livros aos alunos? Não, isso já é, ou deveria ser. O que muda? Em era de evolução tecnológica, onde jumentos são utilizados como bibliotecas para transportar livros, caixas de papelão são improvisadas para o mesmo fim, livros nem chegam as escolas e computadores não relíquias sem conexão com internet (na maioria, grande maioria das escolas, até inexistem)... agora os E-readers, mais conhecidos como Ipad, equipamentos sofisticados, leitores de livros digitais, serão equiparados a LIVRO !!!!
                                                          
Multiplicam-se quatro paredes, multiplicam-se alunos, multiplicam-se votos, multiplicam-se espaços coletores, armazenadores chamados de escola. Inova-se no conceito: tecnodemagogia! 

quinta-feira, maio 26

Guie-me à vida

Procuro desesperadamente um guia. Não sei se pessoa ou mapa, algo que me apresente à vida. Que junto a mim faça projetos e que sejam executados e registrados na certeza que passei pela vida! Quero ver o calor do reagge e das pessoas que ali se misturam, as umbigadas entre tambores, o bater das matracas e o esquentar dos pandeirões, ver o dia amanhecer ouvindo poesias, acender uma fogueira na praia ao som de um violão – quem sabe até aprenda a tocar violão, pode ser uma só música, ou várias -, sentar debaixo de uma mangueira e ouvircausos ou comer juçara batendo papo furado. Quero botar o pé no chão, andar descalça nas calçadas das casas do interior, ou quem sabe tentar malabaristicamente andar no meio fio das calçadas, como fazia quando criança, mas sem ousar furtar manga da casa do vizinho pra comer com sal e pimenta do reino, pois as asas dissolveram-se com o tempo, nem pegar sorrateiramente aquelas laranjas enormes que abríamos com as mãos para comer aos gomos das barrigudeiras, essas, já não existem mais, ou até mesmo, descer escorregando morro abaixo engolindo terra e rasgando as roupas e a pele nas pedras - Não havia dor mais deliciosa do que aquela! Quero sentir o cheiro da chuva e da terra molhada, catar canapun na beira das estradas, visitar feirinhas com gente de verdade, comer milho cozido enrolado na palha, bolo de tapioca frito com café preto entre uma conversa e outra, sentir o calor humano das pessoas entre cores, cheiros. Quero levar comigo  uma rede para nas viagens embalar meus sonhos conhecendo também novos escritores e canções. Quero conhecer os interiores e seus moradores... conversar, infinitamente conversar, ver a vida sob os meus olhos e o olhar deles e então... respirar a vida, experimentá-la, brincar e chorar com ela...observar o humano e o desumano...questioná-los até alcançar o mundo: cidades que ainda não fui, países que ainda não conheci... cultura... arte... Sim, eu preciso de um guia! 

Talvez, sejam os meus próprios pés!


Alice Almeida Nascimento