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quinta-feira, outubro 18

Eutanázio


“Maravilhoso”, “fenomenal”, fantástico”. Eram o que diziam de Eutanázio, desde que começara a escrever, seus textos encantavam a todos que os liam. A maneira canhestra de escrever, o texto, pesado, denso, mórbido, sombrio, quase selvagem, agradava a todos e rapidamente o elevaram aos mais altos patamares da literatura. O que eles não sabiam  era que aqueles textos que eles tanto apreciavam, na verdade eram os reflexos da alma amargurada de Eutanázio, assombrada por seus inúmeros demônios, demônios esses, que ele tentava afastar escrevendo como um louco, tentando tirar de si um pouco daquela agonia que sentia e transplantá-la para o papel, na pobre ilusão de se livrar daquilo que o perseguia.

Enquanto Eutanázio gritava  num pedido mudo de socorro, as pessoas o aplaudiam, alheios aos seus gritos, exaltando sua genialidade, sem saber que desespero não é genialidade. Seus livros foram publicados e suas estórias ganharam o mundo, enquanto isso Eutanázio se afundava mais em seu sombrio mundo particular, longe de tudo e de todos, isolado, as pessoas achavam um certo charme um escritor recluso de textos sombrios. Estavam muito longe da verdadeira realidade, nunca entenderam Eutanázio e seus textos, bebiam da sua agonia, devoravam seus fantasmas a custa de muita luta pregados com tinta no papel, e isso tudo sem perceber as dores de quem escrevia... Se desmanchando pouco a pouco a cada estória contada.

Certo dia, estranharam a falta dos textos de Eutanázio, fazia algum tempo que ele não escrevia nada, não havia mais estória novas... decidiram então procura-lo. Encontraram-no sentado no escuro, em meio a um enorme poça de sangue, com os pulsos cortados e um caderno aberto numa pequena mesa à sua frente, nele, escrito num vermelho vivo do mesmo sangue que alagava o chão ao redor, tinha a seguinte frase: “Por favor, alguém... façam isso parar!”

terça-feira, outubro 16

O mendigo




Certo dia enquanto esperava pra resolver um probleminha meu no centro, fui abordado por um certo mendigo me pedindo algumas moedas, dei alguns trocados pra ele (sempre que posso, dou umas moedas para mendigos, não resolve, mas alivia – e falo isso por mim, não por eles.) Ele pegou o dinheiro e se afastou um pouco, eu então, fiquei observando aquela pessoa... Apesar de todas as mazelas que a vida lhe impôs, ele tinha algo de diferente... Algo que me pareceu como uma sobriedade, uma resignação... Ele do alto de sua mendicância parecia ter uma certa nobreza de espírito. Observei mais um pouco e senti uma inquietação por dentro do peito ao ver a maneira com que ele olhava as vitrines, as pessoas bem vestidas entrando e saindo das lojas, ele quase não era notado, como se fosse um ser invisível. E quando o notavam a reação era de receio, esquiva ou quase sempre de indiferença. Notei que ele não pedia nada a ninguém, estava absorto, parado olhando alguma coisa, segui seus olhos e vi que ele admirava uma pequena caixa de musica ricamente decorada, com uma bailarina a rodopiar ao sabor da melodia que de lá saía. Os olhos dele então passearam pela vitrine cheia de todo os tipos de coisas belas e caras... Ele ficou um tempo ali, parado, olhando, e depois algo mudou. Dos seus olhos brilhantes rolaram duas grossas lágrimas, escorrendo pelo rosto, ele as limpou com as costas das mãos sujas, e lentamente virou-se, ao fazê-lo, percebeu que eu o observava de longe. Olhou pra mim e fez um sinal de “joinha” com o polegar levantado, deu um sorriso que até hoje eu não consigo explicar, pegou a trouxa que carregava e seguiu seu rumo, desaparecendo na multidão de gente que lotava a rua.


sexta-feira, setembro 21

Dinheiro do além



Ora vejam só... fui agraciado pela sorte e a fortuna, achei R$ 2,00 ontem quando ia pra casa.


O achado desta grande soma de dinheiro, me lembrou de uma história passada ainda nos meus tempos no ‘exílio’ quando eu morava em uma pequena cidade do interior do estado.

O quintal da minha casa lá, era grande e quase totalmente tomado por um vasto bananal. Certa tarde, lá por voltas das cinco ou seis horas, eu resolvi apanhar alguns cachos de bananas, vesti uma bermuda, peguei um facão e fui pro quintal a procura de algum cacho maduro pra cortar. Andei por alguns minutos de cara pra cima procurando e nada, aí de repente baixo a cabeça e avisto no chão uma nota de R$ 2,00. Abaixei e peguei a nota, na hora supus que algum dos filhos dos meus vizinhos que viviam pelo meu quintal caçando pipiras azuis, a tivessem perdido numa dessas andanças por lá. Coloquei a nota no bolso e segui em frente na procura de bananas. Ando alguns passos, paro um pouco pra olhar em volta e quando abaixo a cabeça, algo no chão me chama a atenção, era outra nota de R$ 2,00. Dessa vez fiquei desconfiado, achar uma nota de R$2,00 no meio de um bananal era até certo ponto normal, mas daí a achar duas? Olhei em volta cuidadosamente procurando algum movimento suspeito que denunciasse se estava lá sozinho ou não, mas não vi nada, tornei colocar a nota no bolso e segui a diante. Mas confesso que a essa altura eu já andava com um olho nas bananas e outro no chão. Foi aí que quase em baixo dos meus pés vi algo que fez meus pelos arrepiarem, lá estava, mais uma nota de R$ 2,00.

Dessa vez eu tinha certeza de que alguma coisa não estava certo. Parei olhei ao redor e disse em voz alta que se alguém estivesse de brincadeira comigo ia se dar mal e ainda perderia o dinheiro, pois eu não ia devolver. Mas novamente só o silêncio me envolvia alí naquele bananal. Já começava a escurecer, então subitamente comecei a ficar meio apreensivo (pra não dizer com medo) ora bolas, era muito estranho achar dinheiro assim, vai lá saber quem era que estava “me dando” esse Dinheiro??? Assim por assim, achei melhor dar o fora daquele bananal o mais depressa que pude, entrei em casa, tranquei a porta dos fundo e fui para o quarto contar o dinheiro, meti mão no bolso e entendi tudo. Não deu pra controlar o riso diante da minha solitária pagação de mico.

Era meu bolso que estava furado.