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sábado, janeiro 21

Chuvas de Fevereiro

Numa noite entre cigarros, boa conversa e muitos poemas. Foto: Cris Lima e Diego Pires.

Não quero chuvas em meu quintal de concreto e lodo

Quero a brancura do teu ser em minha rede

Escutar Elizeu Cardoso e Chico Buarque sem teus ouvidos

É como morrer de depressão no século XXI



Saiba, quero ver-te aqui, pregado em minha casa

Contemplando as chuvas de Fevereiro

que caem em meus versos cheios de ti.



Teu jeito de príncipe medieval

Come tartarugamente as pretensões minhas de ser livre

Tenho a sabedoria de teus livros

Latejando em minhas orelhas.



Queria mesmo era que as noites não findassem

Para ter-te sacrificado em minhas pernas roxas

As chuvas de Fevereiro cessaram

E o que me restou foi a saudade das cinzas do teu cigarro solitário.

domingo, janeiro 15

A mini-saia de Solange

Andava meio cabisbaixo pelas ruas da Praia Grande, sorriso daqueles bem assim de...
             - É... tudo bem! Não deu mesmo, deixa pra próxima. Próxima o caralho! Que piquena mais safada marcou comigo e me deu o bolo. Bolo? Hum...Não seria mal um pedaço de bolo pra aliviar a porra da decepção.Cacete tava todo empolgado com aquela amiga da Bete, Safada! Desgraçada! Bem que papai disse: “Meu filho mulher é bicho estranho”. Me lembrei agora do filme de Almodóvar Fale com ela. Era tudo o que eu queria fazer. Falar com ela. Vou ligar? Será? Vou ligar porra nenhuma, alias nem crédito tenho. Vou é pro bar do Porto, dançar reggae, fumar unzinho e esquecer do bolo dessa desgraçada!!  
          Marcelo percorreu as pedras de sabão da Praia Grande rumo ao bar do Porto.
- Que aziação! Cadê o povo daqui?!
          Não tinha ninguém. Marcelo desejou não ter saído de casa, gastado passe à toa, por culpa daquela tal de Solange! Sol! Sol o caralho! È chuva que caí agora nessa merda de ilha do Amor. Amor?? Droga! Exclamou Marcelo. O que isto? Não sei.Amor????
Marcelo já havia tomado umas, fumado uns, mas aquela cara de decepção ainda estava lá.

          - Bete? Bete?

          - Cadê Sol? Sol?

          - Que Sol, porra?

          - Solange

          - Cara essa piquina é doida daqui a pouco ela aparece. Me dá um trago ai?

         A Bete era assim meio mística sei lá, Paz e amor essas coisa de hippie. Gostava de curtir um reggae as sextas-feiras, e fumar unzinhos, usar umas roupas diferentes, transadas...

         - Bete?

         - Que é?

         Marcelo estava com aqueles olhos de Silvestre Stalone que só ele tinha...Estava caidinho devia ser o efeito da erva

         - Bete, tô querendo puxar o carro...

         - O que, porra? Agora que o negócio tá ficando bom...Tu vai sozinho.

         Bete não ia mesmo ainda mais que de repente o bar começou a ficar cheio e por entres as pessoas ela havia visto um cara que ela estava afim a um tempinho.

         - Cara, Marcelo, olha o Vitor ali!

         - Que Vitor, Bete?

         - Aquele carinha fofo de dreadlock no cabelo!

         - Dread... O que? Que diabo é isto?

         - Ah! Me poupa Marcelo! Aqueles chumaços de cabelo que os “rasta” usam.

         - Que desgraça é isso de “rasta”?

         A Bete era inteirada nesses assuntos sobre reggae, quem foi não sei quem, quando morreu, onde surgiu o reggae. E Marcelo só sabia uns passinhos tímidos e olhe lá. Na verdade o Marcelo só pensava na Solange que não chegava nunca, ou será que um dia ela ia chegar.

         Marcelo já tristinho “mas sem graça do que a top model magrela na passarela”. Decididamente estava pronto a ir embora e mandar a Solange plantar coquinho, mas tudo na vida precisar de paciência e tempo, como, diz Chico Buarque: “Não se afobe não que nada é pra já”... Quando...Marcelo sentiu nas calças algo vibrando incessantemente era a droga do celular: Solange chamando. E como um súbito rompante de alegria teceu um sorriso maroto e sacana no rosto em Marcelo.

         - Bete! Bete!

         - Que foi, cara?

         - Sol ta chegando...

         - Sol? Que Sol caralho? Tá chovendo pra cacete!

         Bete estava viajando mesmo, mas era nos dreadlocks do Vitor. Marcelo não cabia em si de tanta felicidade e pensou consigo mesmo:

- Essa piquina é doidinha mesmo, está vindo agora 1:30 da madrugada! To decidido é ela que vou amar!

         - Bete, acho que tô gamado na Solange!

         - Heim! Fala alto, porra!

         TÔ GAMADO PELA SOL. TÔ MESMO.

         Marcelo nunca havia amado ninguém, parecia que agora ia ser para valer. Bete, mesmo nunca tinha visto ele tão empolgado por nenhuma menina antes. Ela sempre o achou superficial, mas a Solange havia balançado mesmo.
         - Que horas que essa doida vem?

         - Não sei. Ela me ligou e disse que já tava saindo há uma hora...

         - Sol é doidinha mesmo! Acho que ela já deve tá por ai.Vai lá ver.

         E Bete, tinha toda razão. Quando Marcelo dirigia-se a porta do Bar do Porto, eis como numa cena de cinema, Solange. Com a sua mini-saia da Damyller, entrando triunfalmente, como uma rainha. Os olhos de Marcelo eram todos na direção da mini-saia dela.
         Que saia! Marcelo suspirou. Como um jovem que era sentiu todos os hormônios de seu corpo entrarem em ebulição quando ela disse com aquela vozinha que toda mulher usa quando quer derrubar o cara:
         - Oi, Marcelo! Desculpa, pela demora, mas é que chegou um pessoal lá em casa e só deu pra sair agora...
E tacou um beijo no rosto de Marcelo todo espinhento. Pronto! Marcelo não tinha o que fazer mais, a não ser deixa-se dominar por completo pelos encantos de Solange.
         E como tudo tem que ser, depois de algumas Bahamas ,umas ervas e muito reggae, enfim, Solange deu aquele beijão na boca do Marcelo e Bete na, de Vitor. E o resto vocês podem imaginar...

segunda-feira, janeiro 2

BABOSEIRAS ROMÂNTICAS

Outro dia estava lendo algumas coisas escritas pelos homens; coisas de amor, saudade, coisas, como posso dizer, bonitas, lindas que fazem agente suspirar. Ai! Ai! Outro dia, eu também estava escutando as canções mais lindas, mais dor de cotovelo, que o meu até doeu tanto, que mal pude acabar de escutar. Reparei que os homens são uns bobos quando estão apaixonados. Quanta idiotice! Como dizia Drummond: “Todas as cartas de amor são ridículas”... E são mesma, quanta bobagem! Vocês devem está pensando que não sou romântico?! Na verdade, literariamente, eu sou mais simbolista-decadentista com pintadas realistas e naturalistas.

Aquele amor arrebatador, de Tristão e Isolda, de Romeu e Julieta, de Dante e Beatriz, de Ana Amélia e Gonçalves Dias de... Ah bom! Eu teria que listar todos os amores arrebatadores aqui ai teria que precisar do livro Paixões: amores e desamores que mudaram a história de Rosa Montero, que, aliás, muito bom. Vale à pena! Mas o assunto em questão são as baboseiras românticas, como eu diria: “mamão com açúcar”, que enchem o saco. Conheço um cara que, pelo amor de Deus, Zé cueca. A garota não quer mais ele, disse com todas as letras do alfabeto: EU NÃO QUERO MAIS! E ele insiste. Idiota! Outro ,este dá pena, a moça foi embora com outro, deixou um dívida enorme para o coitado pagar e ele até hoje fica procurando um moça com as mesmas características da outra.EU NÃO AGUENTO! È muita burrice! Os casos são enormes tem outros, este não existe, a esposa pinta e borda com ele. Aliás quem pinta e borda é ele mesmo. O cara faz tudo em casa. Tudo mesmo! E o moçinho fala 24 horas sobre a mulher. Ela é isso. Ela faz isso! Ela é...Mas como ela faz tudo? Se ele é quem faz? Não entendi!

 Bom e o Amor? Onde ele está? Não sei, juro. Acho que ele é uma invenção da literatura, da música, das artes plásticas para venderem coisas. Estou sendo amarga, talvez sim! Mas é que os homens escrevem cada baboseira de Amor e o pior de tudo é que agente ainda curte, gosta e cai nesta baboseira e fica perdidinha, principalmente, quando eles não ligam. Haja baboseiras românticas! Estou precisando, alguém???

sexta-feira, novembro 25

Teus olhos de mar

Eu na terra e minha linha n’água”


(Fala de um pescador desconhecido na Beira-Mar)



Dá uma vontade quase mortal

De ser o mar...

E de me encontrar em ti.

Navegar de manso igual a calmaria

que mareja teu olhar, teu ser.

O sabor marítimo que lança teus dedos

Joga-me contra as pedras da beira-mar.

Olha-me como ondas mais violentas de um mar revolto.







domingo, novembro 20

Aventuras na madrugada fria de São Paulo

 

Entrada do Estádio do Morumbi. Foto: Cris Lima.

Saí de casa, de casa não porque estava há milhares de quilômetros de casa, mas chamei casa porque estava morando ali, por um curto período, ás 15.00 rumo ao Estádio do Morumbi. Eu estava toda arrumada, vestindo uma leg, quem diria, eu usando leg, que usei no máximo nas sessões de fisioterapia, uma bata indiana, uma olha só! Uma bota! Sim, eu calçava uma bota, cano meio longo. Como diriam na minha terra: Toda estilosa! O cabelo impecável tinha feito uma escova aproximadamente quatro dias e já durava que era uma beleza. Pois desde que cheguei não havia derramado nenhuma gota de suor, nenhumazinha. Que maravilha! Por isso também, caprichei na maquiagem, leve é claro, não queria ficar com cara de drag queen. Levava comigo minha mochila, companheira de inúmeras aventuras.
Percorri alguns quilômetros pela aquela cidade fria, agitada, como, todos dizem: “cosmopolita”. Observando o comportamento de algumas pessoas na rua, nos ônibus, nas paradas, nos carros. Aquilo tudo era novo para mim. Mas, o Estádio do Morumbi, parecia não chegar nunca. A cada cinco minutos perguntava para o motorista, se já estava perto. Ele dizia pacientemente: Cinco minutos! Poxa, este cinco minutos duravam uma vida toda! Estava ansiosa para chegar e olha que faltavam 5 horas para o show do Pearl Jam começar.
Quando desci do ônibus, notei aquela multidão de jovens, usando blusas pretas com o nome: PEARL JAM, alguns bebiam, outros fumavam, aliás, como aquele povo fuma. Procurei meu lugar de entrada no estádio era o de número 6. Fui logo tirando da mochila minha máquina fotográfica. Tirei algumas fotos da entrada. Estava me sentindo uma fotografa profissional e acho que por isso, uma policial queria encrencar comigo. Ei! Ei! Venha cá, pode já apagar estas fotos, minha foto não, moça apague logo. Nossa me senti oprimida, pela atitude aquela policial. Eu não estava tirando foto dela. Ora bolas, tinha mais coisas interessantes para fotografar do que aquela policial, mas tudo bem. Fiz o que ela pediu, pediu não, ordenou. Encrencas finalizadas. Tratei de procurar o melhor ângulo para assistir ao show, as arquibancadas já estavam quase cheias. Sentei quase, timidamente, ao lado de um rapaz aparentemente com cara de metido, um tipo playboy. Pedi licença para sentar e perguntei se havia alguém lá ele disse que não. Puxei logo conversa, ele era bem bonitinho, louro, olhos verdes, cheiroso, e usava um ósculo  Ray Ban. Eita, maroquei tudo! Conversamos sobre inúmeras coisas, e o tempo parecia não passar ainda faltava muito para o show começar. Ele era carioca e logo percebi pelo sotaque e porque não possuía aquele ar frio dos paulistas, trancados em seus livros, em seus phones, em seus casacos. Era bem simpático. E eu que pensei que ele era metido. O carioca foi uma boa companhia, até demais. Ele era meio assim atirado, peguei algumas vezes ele admirando meus seios que vamos dizer assim: são fartinhos! Mas também ele não deixava escapar nenhuma “mina”. Olhava para todas.
Enfim, no meio de tanto falatório, foi anunciado à entrada do Pearl Jam. Nesta hora meu coração acelerou eu ia ver Ed de perto, ou melhor, não tão perto assim, mas já estava valendo. Quando eles entraram foi aquela loucura; não sabia se pulava, se tirava foto, se gritava, se chorava, se dava uns beijos no meu mais recente amigo carioca. Estava extasiada. Pelo meio do show comecei a chorar muito, não acreditava que eu estava ali. Uma maranhense, professora, filha de gente humilde, no meio aquele povo todo com cara de gente bem rica e bem metida. Lembrei de papai que diz: “gente rica agente conhece pela pele”. E por falar em pele, a minha estava toda detonada de tanto frio e poluição paulista. Aff! E eu que pensei que ia chegar em São Luís com a pele de pêssego, cheguei mesmo foi parecendo uma cobra toda despelando.
O show foi ótimo, maravilhoso, emocionante, sei lá mais que adjetivo usar. Mas tudo que é bom dura pouco. O espetáculo já ia findando e era hora de voltar. Meu mais novo amigo carioca. Digo amigo, porque em São Paulo é difícil se fazer amizade, as pessoas são muito na delas, sem aproximação, é como o clima frio, é diferente do Maranhão que, agente faz amizade que parece que conhecemos a pessoa há séculos, coisa de vidas passadas. Ele me convidou para sair devagarzinho do estádio. Estávamos meio indolentes, inebriados, como na saída de uma sessão de cinema. O frio parecia muito mais forte lá fora. Tirei mais que depressa meu casaco da mochila. Conversamos mais um pouco e foi a hora da despedida. Ele me laçou aquele abraço bem quente, um beijo na bochecha e foi ai que lembrei do clima lá de casa, do calor, do sorriso das pessoas. Tive vontade de chorar, mas não chorei. Trocamos e-mails e ele sumiu no meio da multidão. E eu voltei a realidade, tinha que achar um táxi para voltar para “casa”. Não havia nenhum, comecei a ficar desesperada. Eu ali sozinha como diz Zeca Baleiro: “ eu tava só sozinho mas sem graça do que top model magrela na passarela...”Andando no meio aquele povo todo em busca de um táxi no maior frio do mundo, completamente só, com minha mochila, com fome, com minhas botas meio cano longo. Andei no meio da multidão sozinha por pelos menos uns 30 minutos e o desespero batia em meu peito E nenhum taxi! Nenhum! Lembrei do meu carrinho estacionado lá no terraço de casa, poxa que falta senti dele. Lembrei de papai e mamãe, uma hora daquela já estavam dormindo tranquilos e sua única filha perdida na madrugada fria de São Paulo.

Av. Paulista. Foto de Cris Lima.

Caminhei por mais alguns minutos quando avisto um taxi descendo pelas ruas arborizadas do Morumbi, fiquei tão alegre que saltitei, como uma gazela nas savanas africanas. Me aproximei do taxista. Nossa! Como ele era lindo e cheiroso, seu perfume agente conseguia sentir há quilômetros. Logo eu pensei: Hum! Acho que devem está fazendo alguma filmagem de novela por aqui. Este cara tá mais para ator do que para taxista. Olhei para um lado e para o outro para ver se enxergava alguma câmera, mas não vi nada. De repente eu estava atrapalhando alguma cena da novela das oito, ou algum comercial. Não queria, só queria chegar logo no hotel e sair daquele frio todo, mas se bem que não seria mau eu passar na televisão inda mais ao lado aquele lindíssimo taxista. Hum! Gostei da ideia! Eu sempre quis ser atriz e aquela poderia ser minha oportunidade. Mas para meu azar ou sorte mesmo, ele era apenas um taxista bonitão e cheiroso que me salvou. Ele estava livre e perguntou para onde eu iria. Além de lindo, cheiroso era muito educado. Ai, me apaixonei! Será que ele era casado, noivo? Não vi aliança nenhuma, depois de minhas últimas desventuras amorosas, a primeira coisa que reparo num homem é suas mãos se tiver um bambolê, tô fora! Não tinha nada, mas ele deveria ter uma namorada, uma ficante ou um FGTS, (aprendi esta gíria em Sampa), não posso dizer o que significa por causa da censura, mas aviso que não tem nada haver com Fundo de Garantia por Tempo de Serviço.
Fomos conversando o caminho todo, eu já estava pensando em nossos filhos, como seriam nossos filhos. Meu Deus! Minha imaginação é tão fértil! Ele me contou de uma namorada que ele teve, que era maranhense, fiquei toda animada. Pensei: ele gosta de nordestina. Aliás, temos fama lá no Sudeste. Quando contou este fato seu sorriso de malícia saltou dos lábios e que boca e que dentes! Ai! Ai! Falou que era formado em Direito, mas não exercia a profissão que ganhava mais como taxista do que como advogado. Contou que pretendia um dia conhecer o Maranhão. E eu pensei comigo mesma: seria ótimo! Eu poderia mostrar os lençóis maranhenses para ele. Ai meu deus, com ele era lindo, cheiroso e educado! O genro que mamãe pediu! Nesta hora minha imaginação já beirava, nós dois, velhinhos contemplando nossos netos e bisnetos como na música de Nando Reis.

Show do Pearl Jam. Foto de Cris Lima.
Ele foi bem gentil me mostrou a marginal Tietê e Pinheiros e me explicou o significado de marginal, mostrou a Rede Globo, o parque Ibirapuera e outros pontos de São Paulo e eu nem ligava se o taxímetro marcava já uma pequena fortuna que ia ter que pagar. Eu estava embriagada pelo perfume que vinha daquele taxista bonitão. Ele me chamava de moça: Moça chegamos! O quê? Não! Não me acorda, não! Moça chegamos no seu hotel! Ah tá! Poxa o sonho estava tão bom, mas como eu disse tudo que é bom, dura pouco e à vezes caro. A corrida me custou 150,00 reais e um coração partido. E nem o MSN, ele me deu.
 

terça-feira, outubro 11

A espera

A espera.

A espera ardida.

Do fogo que consome o ser.

Do vento quente no estomago infeliz.



A espera

A espera sucinta,

Translocada,

Serena

Do mar batendo em pedras.,

Da verdade tão cruel que dilacera.



A espera

A espera ferida,

Gemida na noite marcada,

Dos lances incendiários

Espelhos sem tetos.



A espera

A espera do livro.

Do cigarro no cinzeiro

Do chiclete mascado

Da vida parada

Na doida não falecida, não vivida...

A doida nua, insana

Que corre da madrugada.



A espera

A espera tão fugaz,

Tão silenciosa,

Tão gostosa.

Do nada,

Dos sentimentos mutilados

Do sexo cheirado.



A espera

A espera negra

Branca,

Mulata,

Crioula.

Do ônibus,

Do banco,

Da calçada.

Da sala de espera do consultório.

A espera

A espera que é penetrante

Que é lasciva

Que é perversa

Que é ninfomaníaca



A espera

A espera que é tão espera

Insuportável

Inaudita

Inalada

Inofensiva.


Cris Lima.

sexta-feira, setembro 30

MINHAS SINCERAS CONDOLÊNCIAS À EDUCAÇÃO BRASILEIRA

Meus amigos, é com muito pesar que digo: A Educação brasileira está morta ! E, ops! Não fui eu que matei. È de lamentar as cenas que vi hoje pela manhã dos professores do Ceará. Como não dá para descrever aqueles policiais, puxando, agredindo quem um dia ensinou eles. È triste, meus amigos! Não tenho nenhum adjetivo agora que melhor qualifique tal ato. Logo, eu uma professora de língua portuguesa, mas minha língua parece que calou-se em meio ao caos da Educação Brasileira, me desculpem.

O que posso, apenas, dizer é que nos meus pequeninos oito anos, como professora, nunca sentir tanta vergonha em dizer: SOU PROFESSORA Por que recordo-me de meses atrás quando, nós professores do Maranhão, fizemos greve e fomos reprimidos, não com tamanha violência como nossos colegas cearenses. Mas, pudemos sentir na pele os olhares dos policiais e das autoridades governamentais lançarem para nós um olhar de quem fala: BANDIDOS! MALANDROS! VAGABUNDOS! È verdade! E tudo por causa de uns míseros 1, 187 reais e alguns centavos que me recuso a escrever. È por isto que lutamos, por este pequeno piso para alguém que ENSINA, que EDUCA, que leva CONHECIMENTO a toda uma nação. E como disse nossa colega potiguar em um discurso visceral no palanque da câmara em Natal, que esta pequenina remuneração, não compra se quer um paletó, um terno e uma gravata de um excelentíssimo deputado brasileiro. Que me desculpem, mais uma vez, um parlamentar (que não são todos), que esquenta a bunda em Brasília, enquanto, nós professores estamos à mercê de sermos mortos, mutilados, espancados por policias. Estes, meus amigos, recebem um talzinho de não sei o que insalubridade e um acrescimuzinho no salário porque é uma profissão de risco. E nós professores? Podemos trabalhar em escolas que o nível de insalubridade nem se pode medir? Podemos ser assassinados (e olha que nem temos colete à prova de bala e nem porte de arma), ou até mesmos correr o risco de a escola vir abaixo em nossas cabeças?

È lamentável! É urgente, meus amigos, não somos bandidos. Somos professores! Será que alguém tem um dicionário ai para saber o que significa PROFESSOR? Minhas sinceras condolências à Educação brasileira.



Cris Lima.

quarta-feira, setembro 21

GELÉIA DE PILHAS

Gelo com cheiro de doce.

Beleza perdida,

Máquina digital com gripe,

Fogo na Savana,

A velha mulher catando carangueijos no meio  do fim dos dias.

Que calor na Sibéria do teu coração seco!



Pente de madeira,

Para teus cabelos com odor de fruta podre.

Cimento “Poty” para casas de pau,

Iogurte de morango “Paulista”

Que gosto tem tua boca?



A TV29 polegadas com AIDS

A modelo de pernas de vidro morreu!

“Neston” com banana no teu peito nu para eu comer.

Camisinha sabor menta para o nosso desespero

Talco “Barla” para a coceira no pescoço

Caneta “Bic” para a dor dos poetas

Camisa de flanela para os “grunges”

Minha mão para teus seios de princesa impura.



Sódica caustica para teus versos

Nimbos em meu cérebro de louca

Video cassete aposentadoria no INSS

Torta de camarão  com bateria de lítio

Vinho “Piagentini” para minha ânsia

De está no meio da tua língua tão ácida.

Exame de fezes para teu ser superficial.



Céu de Cris para os meninos no Sertão

Bicicleta “Caloi” para os pés rachados dos pedreiros

Cigarro de maconha para ver Deus sambar.

Teu “blue eyes” atiçam meu desejo de penetrar tua vida

Geléia de pilhas no mar do Calhau

O mundo rotação de Vênus na tua falocracia



Meu bem! Meu bem!

Aparelho de surdez para teu coração mudo

Meu bem! Meu bem!

Sinfonia de vassouras para o enterro dos teus olhos tão banzeiros.


sexta-feira, setembro 16

ILHA MARGINAL




Passando pela ponte política

Revejo milhões lameados

Debaixo de prédios de luxo



Na rua entorpecida

Entorpeço-me no semáforo da Cohab

Escuto. O não negativo do dedo polegar

Negando minha vida pequena



No ônibus da Maranhense

Vendo: Jujuba , Halls e Trident

Sem dente rio da desgraça da sorte do camelô na Rua Grande.

Gritando: DVD ! CD! È pirata!



Piro na insanidade quase louca dos casarões da Praia Grande

Pra turista gringo digitalizar

E o sorriso de satisfação revela a lava-racial

Da coreira em transe do Tambor de Crioula.



E, eu menino, moleque, pivete, trombadinha, cheira cola, ladrão - mirim

Dezenas de sinônimos da miséria-capital

Jogo meu corpo meio infantil

No Rio Anil

Pra sonhar com o entorpecente na ponte surreal

Da minha ilha Marginal.









Cris Lima.
Nascer do Sol na ponte José Sarney. Foto de Cris Lima.

sexta-feira, setembro 2

A FACA TRAMONTINA DE MAMÃE

Veias entupidas
Vidro no túnel
Lápis quebrado,
Gritos de criança

Coração num pedaço de papel
Lixo no fundo do quintal
Roupa com cheiro de "Omo"
Verbos nas paredes.

Rádios, canções.
Bares, copos cheios outros meio vazio.
Pilha "Panasonic" para o controle remoto da Tv "Phillips"
Linha, pano, agullha...
Ai! Ai! Meu dedo mamãe!

Cigarros para os jovens
Saia curta para pernas grossas
Aranha-carangueijeira esmagada no asfalto do “IPTU”
Coitadinha!!!

Batida de mãos na porta...
Ah!...
“Não é mamãe”
Foi o correio”
Papel de “icekiss” no chão
O vento quebrou na Beira-Mar
O caminhão da “Skol” passou,
Do lixeiro, ainda não.
-“Mamãe! Mamãe! Faz beiju?”
-“Teu pai chegou?”

Livros na estante,
Pó no pé
Pé-de-moleque cheio de bicho
Coitadinho!

Saudade do perfume de mato do teu sorriso!
Mato queimado.
Barulho de patins na rua
O gato miou,
Miau! Miau!

Guaraná Jesus na porta da geladeira
Ai! Ai! Que fome!
-“Mamãe, cadê o beiju?”
-“Teu pai já chegou?”

Barbeador no banheiro
Peixinhos no azulejo
A vizinha na cadeira de plástico
-“A novela já começou?”
-“Menino! Menino! Já pra dentro!!!

Vestido azul no varal
Vassoura atrás da porta,
O gás da “Butano” do lado do fogão da “Continental”
A formiga tá no açúcar,
O amaciante exalou na blusa velha do Che Guevarra
Cheiro de erva-doce com bolo de tapioca
Ai! Ai! Que fome!
-“Mamãe! Fez o beiju?
-“Teu pai já chegou?”
-“Não, mamãe!”
-“Mamãe! Mamãe!
-“Cortei meus pulsos com tua faca “Tramontina”...
Ai! Ai! Coitadinha!!!
Faca Tramontina de Dona Fátima. Foto de Cris Lima.

quarta-feira, agosto 24

MORANGOS NUM DEPÓSITO SUADO




Em cinco minutos havia comido toda a comida, que mamãe preparou. Estava fria, o suor do depósito escorria, igual ao o meu, em dias muito quente. Observei as coisas ao redor, os recados no quadro de recados, os livros espalhados nas estantes de ferro e pela janela vi as crianças semi-nuas que brincavam sem noção do mundo lá fora. Desejei roubar, sorrateiramente, suas inocências, suas fantasias e seus sonhos modestos.

Morangos no depósito plástico. Foto de Cris Lima.

Ouvi vozes por toda a parte, vozes que eram conhecidas, vozes que queria esquecer por um segundo, minuto, horas, semanas, meses, não sei anos....talvez. Queria mandar todas aquelas vozes irem embora. Tive raiva, muita raiva daquelas vozes. Por que não procuravam ir para suas casas? Por que não procuravam descansar ou simplesmente ficarem caladas, como eu? Como eu estava inerte, parada, flanando no sofá laranja, com o meu cordão de pérolas pretas?
Estava só, sozinha nesta hora do dia em que eu podia ser eu mesma. Quando estamos completamente só é quando somos verdadeiramente, nós. Despidos diante de um espelho cuja imagem somos nós mesmos, mais ninguém. Não precisamos representar, não precisamos sorrir e nem fazer a sala para ninguém estamos só. Não precisamos ser atores.
Encontrava-me sozinha no meu palco sob a luz de meus olhos, sentindo o barulho do mar e o dançar das árvores valsando ao som do vento quente de Agosto. Observei mais uma vez as crianças, agora era apenas uma e ela estava, completamente nua segurando um saco plástico. Ela corria e corria pelo quintal , sem preocupação, sem pudores, só ela. Eu quis tanto e tanto ser aquela criança e comer o peixe , que a mãe preparava no fogareiro. Peixe quentinho e simples! Lembrei da mesa lá de casa do sorriso escandaloso de mamãe e da cara rabugenta de papai e  quis fugir, mas não pude. Então, lembrei dos morangos baratos no depósito suado que mamãe havia colocado.