terça-feira, junho 4

Movimento Sebo No Chão no Jornal Impresso

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Ode para Edgar Allan Poe

Por Paulo Dias

I
Ao longe avista-se o triste vale da inquietude
Onde o silêncio lá habitava em tamanho conforto
Com o sol a adormecer no horizonte ensanguentado
Nem o vento agora toca nossas faces macilentas
Apenas as lembranças sutis sentimos em formosura
Há neste vale somente gigantes de pedra e cimento
A torturar nossas almas calientes com tanto desprezo
Nem uma árvore desponta com seu cume altaneiro
E tampouco as flores exalam suas essências íntimas
Não se vê nesses céus poluídos as estrelas gemerem
Como pirilampos em uma noite vestida de ébano
Sem o luar para nos mostrar os caminhos revelados
Agora nossos sonhos de concreto se amontoam
Nas ruas onde transeuntes cegos digladiam-se
Ferozmente feito leões famintos e lobos carniceiros
Agora, ó poeta, nem as musas vêm beijar nossos rostos
Pois elas temem nos visitar nesses tempos medonhos
Onde soldados amputados agonizam nas trincheiras
II
Quando o vento místico vem nos consolar de antigos males
Um lago selvagem de águas soturnas transparece
Na superfície plana próxima às pedras nuas e negras
Onde demônios à noite em luto tomam banho sereno
Mergulhando no fundo abismo desse lago taciturno
Fazendo das horas de recreio seus momentos de glória
Afinal até os corvos podem em ares tão remotos
Voar com suas asas negrejantes como mortalhas
Murmurando aos céus seus hinos frios e ardentes
Ó pensamento funéreo que vem dissipar os sonhos!
Outrora nossos olhos se enfeitiçavam por uma beleza
Que irradiava de uma forma tão esplendorosa
Annabel! Annabel! Venha para o colo do poeta
Venha deste reino ao pé do mar para os braços
Daquele que te espera ao longo dos tempos
Sentado a ver as ondas tocarem os teus pés
Os anjos embravecidos por um amor incomum
Tiveram que ti arrancar dos abraços e outros beijos
Do poeta que tanto lamentou em teu sepulcro
Agora ele apenas ouve o murmúrio tristonho do mar
III
Ó versos malditos que abrasam os meus olhares
E minh’alma se desprende de suas raízes profundas
Fico atormentado diante desses versos abençoados
Tanta inspiração nasceu em ti como a lua atônita
Que encanta os amantes ainda com grande fervor
Esses versos me entorpecem e sonho com mundos
Que desconheço por completo no espaço purpúreo
A santa inspiração te acompanhou por essas estradas
Cheias de lama onde boêmios viajam em caravana
Em busca de orgias que enrubescem suas almas
E eu nem comento tua prosa rica e extraordinária
Só quero antes elogiar teus versos tecidos no escuro
De noites ermas onde anjos se põem a chorar
Quero cantar para as tempestades tuas glórias poéticas
Gritar ao vento furioso das tormentas tuas proezas
Mesmo com a chuva rude a castigar meu corpo
Eu iria te homenagear, ó poeta infernal, em cantos mil
Sob o túmulo perdido de Ulalume que surge na alvorada
IV
De onde vem o corvo a trazer nossas mágoas de outrora?
O pássaro negro vem à meia-noite no dezembro frio
Pousa em nossos umbrais trazendo as trevas dúbias
Entre o bico pontiagudo sussurra: Nunca mais! Nunca mais!
E sentimos um frio a gelar nosso espírito demente
A ave infernal sorri a velar nossas angústias
Esqueceu-se de voltar para a noite tenebrosa
Onde anjos caídos choram incessantemente em dor
Lá está o corvo a cravar suas garras em nosso peito!
Eu queria ao menos ouvir o canto de Israfael
Brotar das fibras de seu coração feito alaúde
E tenho saudades de uma noite de outubro
Com um céu decorado de um cinzento funerário
Onde eu estava solitário a ler páginas de ouro
A meditar no drama singular do verme vencedor
E eu também estava a esperar a bela Vésper
Com sua chama de volúpias e de cadências
Quando escutei o lamento ululante de um sino
Ò poeta! Quando o corvo voará para sua eterna morada?