terça-feira, junho 18

Mamãe eu vou pra Rua / Mamãe não sou da Lua

Mamãe eu vou pra Rua
Mamãe não sou da Lua

Mamãe faz o café bem forte
que to indo comprar os pães
preciso forrar o estômago
e fumar um caipora

Mamãe eu vou pra Rua
Mamãe não sou da Lua

se você me ver na TV
e me chamaram de vândalo
é mentira deles
acredite em mim

Mamãe eu vou pra Rua
Mamãe não sou da Lua

Não se preocupe vou tomar um banho
e por um jeans usado e um tênis de futsal
mas vou amarrar a camisa no rosto
vai que eles jogam gás lacrimogênio

Mamãe eu vou pra Rua
Mamãe não sou da Lua

- Thau, mãe!
- Vai com a pomba e o divino espirito Santo!
- Na hora.
- E penteia esses cabelos.
- Deixa assim mesmo.

Do Coração e da Mente


 Por Maria Ligia Ueno

O meu coração é como um desses relógios velhos, cheio de engrenagens interligadas que só funcionam em conjunto. Por isso digo que não adianta roubar umas poucas delas, só poucas não fazem meu coração bater. Mas o fazem parar. E quando ele para minha vida perde a cor, sem sangue bombeado para alimentar os olhos, nem as pernas para andar e olhar em outras direções.

Mas como um velho relojoeiro, conserto o coração, invento novas engrenagens, gambiarro as interligações, e ponho tudo a perder de novo. Coração batendo, vida seguindo, lágrimas rolando. E assim meus passos seguem, robotizados, afinados e sintetizados por um coração cheio de engrenagens.

O coração cantarola sua música enferrujada, rangendo sua amargura e entoando seu triste canto por todos os cômodos que entra. A presença de tal ruído assusta num primeiro momento, depois desanima todos os seus expectadores e os transporta a um estado de plena compaixão e melancolia.

Pobre coração, esse meu. Todo reinventado para continuar batendo, todo cheio de peças não-originais, fora de seu modelo e que não encaixam tão bem. Todo remendado, costurado, superbondado para ficar inteiro, parece uma dessas obras de arte feitas com cascas de ovo, que se encaixam, mas não estão mais contínuas. Ah sim, porque hoje eu estou cheio analogias, e de neologismos, mas tudo tem sua razão. Por hoje minha voz foi cortada sorrateiramente, e tudo que é importante para mim se tornou seu gole amargo de café frio.

E nisso minha mente constrói grandes pontes e arranha-céus, tentando olhar de longe e de cima, de uma nova perspectiva para entender o que se passa com esse coração. E minha mente é um helicóptero, um mosquito grande e audaz, que é capaz de parar no ar, voar para onde quiser e pousar em quase qualquer lugar.


Minha mente é um helicóptero de guerra, armada, com metas e objetivos, bombas e soldados. Minha mente é feita para a guerra.

Mas não qualquer guerra, mas a guerra de pensamentos, de argumentos, de encanamentos e de chamamentos. E eu perco, perco mais e mais. Batalhas e mais batalhas perdidas, mesmo as ganhas. Porque não sinto que as ganhei. Talvez nem queira sentir o sabor da vitória da guerra , ou talvez já senti e não gostei. Não sei.

É essa a guerra entre a mente e o coração, os dois sentem que perdem, e os dois caem ao final. belo espetáculo. 

Ode para T.S. Eliot

Por Paulo Dias
I
Aqui é um lugar de desamor e não há nada para chorar
O tempo corroeu as expectativas deste lugar, ó poeta
Onde há somente ganância, sofrimento e intemperança
As almas daqui são escravizadas pela hipocrisia
Até parece que não sentem suas vidas esvaírem ao vento
A decadência vive pelas proximidades em lento processo
Nesta terra desolada onde os anjos não pisam
Apenas o sol que queima a pele dá a certeza de chegar
Acho que todos rastejam para um abismo raso
Que brotou radiante próximo aos seus pés
Todavia há aqueles que encontram rosas no deserto
E que enxergam o futuro mesmo no escuro
E não findam seus dias a contar estrelas
E nem a sorrir para um espelho que não reflete
Penso que neste mundo não há lugar para sonhos vãos
Entretanto dentro de mim há tua benigna inspiração
E tua metafísica me engrandece até os dias de hoje
II
O presente, o passado e o futuro estão entrelaçados
Num mesmo bordado, esculpidos na face do tempo
E cada princípio é um fim que esperamos chegar
Em passos silentes, calmos como uma tempestade
Sei que não posso ficar preso no arcabouço da melancolia
Tenho agora que ver meu futuro galopando no horizonte
E ler os Quatro Quartetos no fim do dia quente
Esses poemas têm tanto a dizer e refletem harmonia
E quase não acredito que tais poemas foram escritos
São monumentos erigidos para uma breve eternidade
Como estátuas visualizando o horizonte ao longe
E eu como crianças ocultas na folhagem
Sorrindo felizes no jardim da inocência
Fico a observar a beleza posta em frases lapidadas
Ó grande poeta! Ensina-se a revelar as palavras
Pois o teu dom divino desperta até as pedras
Quem ouve teus poemas sussurra como um anjo
Que se viu ancorado diante de um mar de maravilhas
III
Somos homens ocos, destituídos de sentimentos
Nossos corações bailam na arena da razão
E nossas emoções são esquecidas na esquina
Há um crime na catedral do nosso peito
Somos levados por vendavais selvagens
E estamos sujeitos a enganos e mentiras
E apenas tenciona-se adquirir o óbvio
As mãos sangram por um pouco de riqueza
Que só engrandece aqueles que não têm alma
Somos homens vazios e não acreditamos em milagres
Mas os milagres estão nas ruas aos nossos olhos
Que estão vendados ante um precipício sem fim
Então diga-me, ó poeta, qual a razão para tudo isso?
Apenas massacrar a beleza que há na madrugada
E fenecer algum mistério por detrás das cortinas
Que se abaixam no magnífico teatro da vida
Quero apenas seguir junto a ti enquanto o poente
No céu manchado de arrebol além se estende
IV
O calor do outono persiste em nos aquecer
Em nos mostrar uma fragrância que vai ao longe
E que não podemos sentir o aroma por estamos presos
Talvez nossa angústia seja por não acreditarmos
E somente ouvir as palavras sem sentido algum
Tanto espaço para que o vácuo nos preencha
O tempo e o sino sempre a sepultar o dia
Com uma nuvem negra demais cobrindo o sol
Que nos fortalece e nos alimenta no passar das horas
Ademais quero ouvir o retinir dos pássaros formosos
Nas florestas ocultadas por muros infinitos
Quero me descolar como uma palavra ao vento
Ouvir a música ecoar por mais tempo nos meus ouvidos
Feito um lamento de uma criança que perdeu o doce
Onde está o princípio para encontrar o fim?
Não sei enxergar além do horizonte revelado
Somente tu, ó poeta, enxergou aquilo que era o início
Ou o fim que deveras revelará algo por se descobrir
Por ora não cessarei a exploração ante o desconhecido
Ó poeta! Quando o fogo e o teixo irão ser somente um?