terça-feira, dezembro 17

Beatles, Bob Dylan, Paulo Coelho ou o Raulseixismo - PARTE 03

Por Natan Castro

"Se você não está dentro da Sociedade Alternativa, a Sociedade Alternativa sempre esteve dentro de você." Raul Seixas


Raul Seixas estava então o artista agora descoberto por si e pelos outros, com a certeza de uma carreira pela frente no inicio dos anos setenta. Beatles sempre foram a inspiração para a primeira banda de Raul Seixas, eles forjaram conceitos, pontos de vistas, grandes canções e essas mesmas canções dos Beatles tiveram uma modificação brutal em forma de conteúdo quando na metade dos anos sessenta os Beatles deixaram os temas juvenis e mergulharam de vez nos temas universais. Diz à lenda que o encontro dos Beatles com Bob Dylan teria modificado a forma, as vias que seriam percorridas até ali rumo a novas canções, dizem ainda que foi Bob Dylan que ofereceu o primeiro baseado aos FAB-FOUR. Sem dúvidas depois de 1964 com o lançamento de “Rubber Soul” as letras começaram a tratar de assuntos mais sérios bem longe dos devaneios adolescentes do inicio, é incontestável a influência do cancioneiro de Dylan na dupla Lennon & McCartney. E foi também nesse período senhores que Raul Seixas leu numa revista que tratava de assuntos místicos um artigo sobre Discos Voadores escrito por um cara chamado Paulo Coelho. O assunto interessava tanto Raul Seixas que ele foi até a redação da revista à procura do autor do artigo, lá chegando conheceu Paulo Coelho que era à época um hippie, estudioso de misticismo e ex-diretor de teatro. Esse encontro tal qual o encontro dos Beatles com Bob Dylan foi crucial para o desenrolar da história do rock nacional e decerto para a música popular brasileira, houve logo de inicio uma afeição de duas cabeças que segundo eles mesmo se completavam, ainda que com conflitos que duram até os dias atuais. Raul Seixas prometeu ensinar Paulo Coelho a compor canções e Paulo Coelho prometeu iniciar Raul Seixas nos assuntos místicos. E de fato iniciou-se uma viagem dessas que somente os anos setenta eram dignos de acompanhar, os dois juntos de Marcelo Motta fundaram uma sociedade místico-libertária baseada nos ensinamentos do mago inglês Aleisteir Crowley chamada a Fraternidade do Relâmpago Dourado. Ainda nesse período tal Fraternidade ganhou de presente um terreno no estado de Goiás onde ia ser construída a “cidade das estrelas” nessa cidade os valores estariam todos invertidos, segundo Raul Seixas o advogado seria o não-advogado e assim por diante. Essa seria a Sociedade Alternativa toda baseada de fato no livro da lei de Aleisteir Crowley, porém no ano de 1974 a ditadura militar percebeu que aquelas ideias estavam cada vez mais levando pessoas aos shows de Raul e esse público se mostrando cada vez mais aberto as tais mudanças cantadas nos versos das músicas. Conforme Raul Seixas costumava dizer nesse mesmo ano ele foi convidado a se retirar do país, seu exilio se deu em Nova York nos E.U.A, a essa altura do campeonato aquilo que conhecemos como Raulseixismo, ou seja, a filosofia desse tal Raul Seixas estava bem definida e trouxe com ela uma massa gigantesca de seguidores do Brasil inteiro, todos os álbuns da parceira com Paulo Coelho serviram para a consolidação dessas ideias, claro que Raul Seixas teve outros grandes parceiros musicais, mas foi o principio com Beatles, Bob Dylan e Paulo Coelho que houve a  personificação do mito Raul Seixas junto de uma filosofia que até hoje não para de crescer no país inteiro.





domingo, dezembro 8

Sampaio Correa: os melhores do Brasil no Norte e Nordeste


Sempre tive certeza que o Sampaio Correa está entre os melhores clubes do Brasil na região norte e nordeste junto com o Clube do Remo – PA, Paysandu - PA, Nacional – AM, São Raimundo – AM, Fortaleza – CE, Ceará – CE, América – RN, ABC – RN, CRB – AL, CSA – AL, ASA – AL, Botafogo – PB, Treze – PB, Campinense – PB, Santa Cruz – PE, Náutico – PE, Sport – PE, Bahia – BA e Vitória – BA, sendo que os quatro últimos estão sempre disputando a elite do futebol brasileiro e tem no currículo o título nacional ou o vice-campeonato.

O clube maranhense tem no currículo três títulos nacionais de todas as divisões que já disputou (exceto a série a), sendo duas de forma invicta a de 1997 na série c e a série d em 2012, desde o rebaixamento a série c no qual esteve disputando à série b em 2002 e o rebaixamento à série d em 2008 quando estava disputando a série c.

Sampaio Correa passou por crise financeira quase sem fim a ponto de muitos jogadores e treinadores oriundos do eixo sudeste e sul do Brasil não quererem vir para o clube devido à má fama de não pagar os salários por causa de dirigentes irresponsáveis que muito se promoveram à custa do clube, o que resultou no rebaixamento que foi citado anteriormente.
Um clube que já disputou a Copa Conmebol em 1998 chegando até a semifinal, sendo eliminado por nada mais e nada menos que o Santos, é digno de mostrar a sua grandeza que enche de orgulho a sua torcida que infelizmente só aparece nos momentos quando o time está no auge, daí é de certa forma plausível a critica de torcedores de times rivais classificarem estes como torcedores modinhas, mas também não deixa de ser uma inveja.
A conquista da série d em 2012 de forma invicta, com jogadores genuinamente maranhenses na maioria do seu elenco, ao contrário de 1997 quando conquistou a série c de forma invicta, era formado majoritariamente por jogadores do eixo sudeste e sul do país, a conquista do ano passado fez aproximar ainda mais os torcedores com o clube e os jogadores, por serem maranhenses em maioria, eles definitivamente entraram na memória dos torcedores, ao contrário do de 1997, muitos jogadores naquela época nem são tão lembrado hoje por torcedores.

Porque não tiveram identidade com o clube e nem mesmo com a torcida, tanto que a maioria destes deixou o clube no ano seguinte após a conquista, atuando em clubes das regiões de origem do sudeste e sul, principalmente no interior de São Paulo, de 2012 pra cá foi o contrário, o time da conquista da série d foi mantida na disputa da série c este ano que acabou conseguindo o acesso a série b, disputando a final com o Santa Cruz que nunca havia conquistado o campeonato nacional, e se levasse pela história, tradição e conquistas, o Sampaio obviamente era o favorito a conquistar o título.

Esses jogadores entraram na história do clube, o Rodrigo Ramo já tem mais de 300 jogos pelo clube, um feito e tanto para os dias de hoje em que o jogador permanece pouco tempo no clube e ainda mais no Maranhão que há anos está fora do cenário nacional e com o futebol há tempos em decadência.
Sampaio Correa sem dúvida é a maior torcida do Maranhão, entretanto, não é a mais apaixonada porque os torcedores só aparecem quando o time está disputando o campeonato de nível nacional e na boa fase, mas isso pode ser mudado.

Os últimos anos que mais surgiu foram as torcidas organizadas, a mais notáveis são a Mancha Tricolor, Sampaio Roots e Tubarões da Fiel, e a tendência é crescer ainda mais essas organizadas em virtude de estar disputando a série b ano que vem (2014).
Sampaio Correa é um dos grandes clube do Brasil no norte e nordeste, mas precisa resgatar a sua própria história e a memória de jogadores que fizeram história pelo clube como o Juca Baleia, Djalma Campos, Bimbinha, Gojoba, Pelezinho, Adãozinho, Marcelo Baron, Rosclin Serra, Meinha, Bacabal, Fuzuê, Arlindo Maracanã, Pimentinha e muitos outros.
Devem resgatar o nome desses jogadores e colocar na memória do torcedor, principalmente aqueles que conquistaram o brasileiro série b de 1972, o brasileiro série c de 1997, o pentacampeonato maranhense de 1984, 1985, 1986, 1987 e 1988 e o tricampeonato maranhense de 1990, 1991 e 1992.
Grandes torcidas do Brasil como Vasco da Gama – RJ, Botafogo – RJ, Fluminense – RJ, Flamengo – RJ, Palmeiras – SP, Santos – SP, São Paulo – SP, Corinthians – SP, Cruzeiro – MG, Atlético – MG, Grêmio – RS, Internacional – RS, Coritiba – PR, Atlético – PR, Bahia – BA, Vitória – BA, Sport – PE, Santa Cruz – PE, Náutico – PE, Goiás – GO e outros que são grandes clubes e sempre estão disputando a elite do futebol nacional, as suas torcidas sempre carregam nas bandeiras, faixas e cartazes em dias de jogos os nomes e a imagem dos jogadores que fizeram a história em seus clubes, principalmente nas grandes conquistas, seja nacional ou local.
Roberto Dinamite e Edmundo, por exemplo, sempre tem os seus nomes e imagens nas bandeiras, faixas e cartazes das torcidas organizadas do Vasco da Gama, é assim o Zico e Júnior que fizeram história do Flamengo também tem os seus nomes e imagens em bandeiras nos dias de jogos.
As torcidas organizadas do Sampaio Correa deve inovar, e uma delas é resgatar o nome e a imagem de jogadores que fizeram história do clube, principalmente nas grandes conquistas que foram citados anteriormente, porque todo time grande tem uma história e a história sempre começa por aqueles que vestiram a camisa e obtiveram conquistas nelas.
E também está mais que na hora da diretoria atual do Sampaio Correa pensa grande de fato, fazer num time empresa, seguindo o exemplo de grandes clubes que fizeram do símbolo como marca de mercado pra arrecadar dinheiro e investir nas suas estruturas.
É comum os times terem suas lojas oficiais em shoppings pra vender camisas e outros produtos com a marca e símbolos que representam a entidade futebolística, o Sampaio Correa deve abrir mão do patrocínio do poder público, seja do governo municipal e/ou estadual.
Pra não ficar refém da classe política que sempre usa para fins politico e eleitoreiro, o caso do Moto Club, maior rival do Sampaio e também um grande clube maranhense é a prova, duas vezes rebaixado a segunda divisão do campeonato maranhense em menos de cinco anos se deu em decorrência de dirigentes que usaram o clube como forma de obter votos pela torcida, no caso especifico foi o Deputado Federal Cleber Verde que foi presidente do Moto e responsável pelo rebaixamento do time em 2009.
O Sampaio Correa deve estar acima de partidos e grupos políticos, não pode ser usado como manobra politica de quem quer que seja, porque o time já esteve à beira da falência por causa de dirigentes que usaram a entidade, o caso bem típico foi Manoel Ribeiro, Deputado Estadual que presidiu a presidência da Assembleia Legislativa de 1993 a 2003, e também presidente do clube responsável pelo conquista a série de forma invicta de 1997, entretanto, foi o responsável pelo rebaixamento do campeonato brasileiro série b em 2002 e disputar a c ano seguinte, ou seja, foi responsável pelo conquista e também pela queda do clube que deixou a beira da falência em decorrência da crise financeira.
Está mais que na hora do clube maranhense e até mesmo os demais seguirem modelo de clubes brasileiros pelo Brasil e até mesmo do exterior, vejam o caso do Barcelona – Espanha, o próprio clube é uma empresa, reparem que não há excesso de marcas e patrocínios estampado na camisa. A única marca que esteve estampada na camisa durante muitos anos foi a UNICEF, entidade das Nações Unidas (ONU) que cuida da proteção de crianças de todo o mundo, e atualmente outra marca, a Qatar Foundation, também tem o seu nome estampado na camisa do clube espanhol, e especula-se que a empresa paga ao clube para ter o nome estampado na camisa.
O Barcelona não é o único, é assim o Real Madrid – Espanha, Bayer de Munique – Alemanha, Manchester United – Inglaterra, Chelsea – Inglaterra, Arsenal – Inglaterra, Milan – Itália, Juventus – Itália, Internazionale – Itália e muitos outros clubes europeus.
Eu não vou muito longe, quando estive em Fortaleza – CE em 2010 pra participar num encontro estudantil, fui ao shopping da cidade que estava próximo ao local que estava a concentração para uma passeata de estudantes, e dentro desse shopping eu vi uma loja do clube cearense, o Fortaleza, que vende camisas e o mascote do clube, o leão, e vários produtos que continha o nome, cor, símbolo, marca e o mascote do clube.
Sampaio Correa deve copiar o modelo e exemplo destes clubes europeus, para que torne autossuficiente e autossustentável, pra que não fique mais pedindo esmolas do governo estadual e municipal, e também não ser mais refém da classe politica que usa a imagem, cores e o nome do clube em proveito próprio. 
Se o Sampaio Correa e os demais clubes maranhenses, como o Moto Club, MAC (Maranhão Atlético Clube), Bacabal, Imperatriz e JV Lideral, clubes estes que já foram campeão maranhense, especialmente os do interior que são os três últimos, teremos futuramente o futebol maranhense bem mais competitivo, e o Sampaio pelo momento que vive, poderá futuramente disputar o campeonato brasileiro série a, os dirigentes do clube pode pensar dessa forma desde já ano que vem.

pra quê escrever?

pra quê? - a pergunta fundamental de um auto-abortado social. pra quê escrever? se a morte escorre por cima dos ombros e logo alagará tudo à sua volta e te estrangulará em algum ponto do tempo? lúcido, compreendendo tal futilidade, tentará escrever contra o decesso. e aí não será mais você escrevendo sobre a morte, será ela esculpindo as suas decadências verbais. e a morte tem senso de humor caso saiba acolhê-la em sua casa. te fará rir dos rancorosos que escrevem há milhares de anos sem compreender o quão pouco valiam as palavras. compreenderá que a escrita é uma enganação. porém, estamos de acordo em nos enganarmos agora, meu caro amigo que eu não conheço? então me diga, que lhe importa mais saber? de ideias geniais? a descrição de uma caminhada por uma estrada deserta? quanto às ideias, por que não bola as suas próprias? quanto à caminhada, bem, jamais saberá se não pegar a estrada. então morra, amigo, e saberá o gosto da morte, morra numa calçada, morra sujo de esgoto, mas não morra numa cama confortável, morra sozinho. só quem morre sozinho teve uma morte decente. morra confrontando-se. não deixe que impeçam que seus demônios te incomodem nos últimos minutos de vida. só quem conhece o vazio sabe definhar, só quem conhece a pobreza pode falar da raiva espiritual. e depois levante-se e fale da morte no passado, como quem a ultrapassou e agora caçoa dela no retrovisor. porque, ao contrário do que acreditavam alguns filósofos, acredito que vivemos no instante, e no instante é, de alguma forma, impossível morrer. por mais que se queira - e é preferível que se queira. devemos à isso essa sensação de uma farsa, não acha? não que a vida seja patética, mas apenas trágica e potencialmente engraçada.

sexta-feira, dezembro 6

Jake Bugg


Por Natan Castro

Jake Bugg é um jovem Inglês que com apenas 19 anos já lançou dois álbuns bastante expressivos no cenário musical do Reino Unido. Com um vocal aquém de qualquer outro artista da atualidade e uma técnica de guitarra no mínimo acima da média, haja vista sua idade, vem chamando a atenção de público e critica. O jovem nascido na cidade de Nottingham na Inglaterra, quase sempre se apresenta de jaqueta preta e por produzir uma sonoridade com um pé nas raízes country americana e o outro no folk Inglês, anda sendo chamado pela critica de Bob Dylan da atualidade. Mas ele mesmo em entrevista recente deixou claro que é admirador de outro grande artista do folk/country nesse caso Johnny Cash.


Em 2011 na fase de “novos talentos” do festival de Glastonbury, participou com 17 anos, após a apresentação recebeu o convite e assinou o contrato com a gravadora Mercury Records, em outubro de 2012 lançou seu primeiro álbum que leva seu nome. Recebido pela critica com uma enxurrada de elogios, destacando sua forma simples e descompromissada de se apresentar e também por um vocal cheio de atitude. Diversas músicas desse primeiro álbum estouraram no Reino Unido e nos E.U.A dentre elas “Broken”, “Two Fingers” e “Lighting Bolt”. No último dia 18 de Novembro Jake Bugg lançou o seu segundo álbum denominado “Shangri-la” os rótulos logo apareceram chamando a sua música de Folk/Britpop e Indie-Folk. O fato é que Jake Bugg surge na cena rock Inglesa como novo diamante brilhante desses que aparecem já prontos, sua atitude digna de grandes nomes e sua responsabilidade com a tradição, apontando caminhos que talvez somente ele saiba aonde chegar, demonstram que ele talvez seja o mais interessante e sui generis nome do cenário rock mundial na atualidade.






quinta-feira, dezembro 5

Raul Seixas, Filosofias, Politicas e Lutas - Parte 03



Por Natan Castro 

Com o fim da banda Raulzito e os Panteras, Raul Seixas encara um dos momentos mais delicados da sua vida. Ainda que não estivesse se dando conta, todos os momentos de angústia, insegurança artística e depressão, serviram bastante para moldar a persona de um grande artista que surgiria alguns poucos anos mais tarde. Nesses dias de introspeção Raul Seixas mergulha em leituras que mais tarde serviriam de matéria-prima para algumas de suas melhores canções. Certo dia bate a sua porta um amigo que trabalhou com ele no Rio de Janeiro, lhe oferecendo um emprego de produtor da gravadora CBS. De pronto Raul aceita o convite e se transfere com a primeira mulher a americana Edith Wisner para o Rio de Janeiro, nesse período torna-se produtor de diversos artistas do cast da gravadora e produz seu compadre e grande amigo Jerry Adriane é dele o sucesso "Doce, Doce Amor" Nesse período Raul Seixas era descrito como um homem sério, sempre visto de gravata e pasta na mão, uma espécie de executivo artístico, com um salário digno essa fase contrastava com o período difícil que passou poucos anos antes junto de sua primeira banda na cidade.

De Raulzito para Raul Seixas

Nesse período Raulzito conhece dois grandes personagens seminais para sua carreira artistica, o primeiro deles era o compositor de Cachoeira do Itapemirim, chamado Sérgio Sampaio e o outro um editor de uma revista de ufologia chamado Paulo Coelho. Nesse período lança como produtor e cantor o antológico álbum Sociedade da Grã Ordem Kavernista, Apresenta Sessão das Dez, deles participam também Sergio Sampaio, Paulo Coelho, Miriam Batucada e Edy Star. Diz a lenda que Raul aproveitou a viagem do presidente da gravadora aos E.U.A e gravou o álbum que é tido como um dos álbuns mais emblemáticos do rock brasileiro. Porém a façanha lhe custou o emprego, já havia algum tempo que Sergio Sampaio incitava Raul a seguir uma carreira solo, dizia ele não ter sentido Raul Seixas retornar a Bahia. Foi quando em 1973 Raulzito resolve largar a indumentária séria de um executivo de gravadora e torna-se o Raul Seixas que todos conhecemos até hoje. A principio mostra suas músicas ao produtor Roberto Menescal que de pronto topa produzir as canções para um primeiro álbum solo, era o ano de 1973, Raul Seixas se inscreve no festival internacional da canção com a música “Let Me Sing, Let Me Sing” que chega a final, tal acontecimento leva Raul Seixas a assinar com a gravadora Philips.




quarta-feira, dezembro 4

Do tempo


O tempo me esquece e sinto minhas unhas irremediavelmente transformarem-se em garras. Estas adentram minha carne e me despedaçam em três.

A tríade Aristotélica, fruto da passagem do tempo pelas minhas mãos, envelhecendo-as, engradecendo o tato, criando habilidades cirúrgicas para o conserto de minhas juntas, e para o zelo com meus calos.

E o tempo cruel arrasta-se em triângulos desenhando minhas expressões faciais e pintando as cores do meu esmalte, e bordando as rugas dos meus risos.

Aplica-se em minha alma a teoria da relatividade, mitigando meus dogmas e meus preconceitos, acalmando minhas preces e extirpando minhas dúvidas. A fé devora meus encantos e meus defeitos, e a mesma fé rasga a sola dos meus pés, colocando-me em eterna provação.

O tempo é colaborador da sapiência, e cicatrizante das feridas. Aerossol de tempus verbum.

E ressuscito a deusa que me habita o corpo, reanimando a própria com sua forca, fé e esperança. E minha deusa esquece o tempo e faz deste teu servo e teu escudeiro. E minha deusa escreve com meu sangue e deságua minha mente no papel.

Minha mente iludida e derretida entrega a cera quente - que são minhas opiniões - aos leitores, arrancando seus cabelos sem sombra de compaixão. E minha mente, palhaça com palavras, prega pecas na deusa que habita meu corpo, e com a alma, refaz minha fé.

E o tripé que me sustenta segue manco, compassado pelo tempo que tatua a minha pele de forma invisível, e concretiza as pegadas  na calçada não famosa da minha vida.

terça-feira, dezembro 3

A Trilogia das Cores e o Cinema Metafísico de Kieslowski


Por Paulo Dias
         Krzysztof Kieslowski foi o responsável, ao lado de Andrzej Zulawski, Roman Polanski e Andrzej Wadja, pela ascensão do cinema polonês no cenário mundial. A carreira inicial de Kielowski está vinculada aos documentários com teor político sobre a classe proletária inserida no sistema socialista-comunista da Polônia. Fato é que o diretor e roteirista polonês destacou-se somente em âmbito internacional com sua obra monumental “O Decálogo” - uma série composta por dez filmes curtos baseados nos Dez Mandamentos bíblicos. Com efeito, dois filmes da série transformaram-se em longas-metragens de sucesso: “Não Amarás” e “Não Matarás”.
         Conceitualmente, Kieslowski representa um cinema de detalhes e com foco metafísico, entremeado com as questões sociopolíticas de seu tempo. O cineasta polaco tinha uma verve cinematográfica perfeccionista e interessava-se por encontros casuais, aleatórios. Sobretudo, o cinema de Kieslowski se sobressai sui generis nos fins da década de 1980 e no início dos anos 1990 com vários filmes geniais e inesquecíveis realizados em sequência. De fato, a urgência em filmar alucinadamente e sem interrupções acarretou ao cineasta um infarto fulminante aos 54 anos de idade em 1996. Apesar do anúncio de sua aposentadoria em 1994, Kieslowski estava trabalhando em uma trilogia baseada na “A Divina Comédia” do poeta italiano Dante Alighieri – projeto este que veio a lume por meio de outros diretores. Desnecessário dizer que sua morte foi uma perda irreparável para o mundo do Cinema e para os amantes da La Sept Arte.
         No catálogo cinematográfico de Kieslowski, além dos supramencionados há os filmes excepcionais: “Sorte Cega”, “A Dupla Vida de Verónique”, “A Liberdade é Azul”, “A Igualdade é Branca” e “A Fraternidade é Vermelha”. Os últimos três compõem a conhecida “Trilogia das Cores”. Não raro, os filmes de Kieslowski são esculpidos em detalhes metafóricos e simbolistas, transbordam de cenas memoráveis na medida em que jorram um mosaico de pluralidade metafísica, capturando o real - e o enigmático - da vida e lançando irremediavelmente em nossos olhos a beleza mais sublime que há no cinema de qualidade. Cada filme de Kieslowski é um caleidoscópio de sensações!

          O primeiro filme da “Trilogia das Cores” é o excepcional “A Liberdade é Azul” (Bleu, 1993). Este é um drama com enfoque em Julie (interpretada brilhantemente por Juliette Binoche), que é a esposa/viúva de um compositor encarregado em compor o “Concerto da Unificação da Europa”. Julie perde o marido e a filha em um acidente automobilístico. Em consequência disto, ela tenta se desprender de todas as lembranças que os evoquem, desfazendo-se dos bens materiais e da música do marido. O silêncio se alastra pela película e os diálogos são demasiadamente escassos, contudo as cenas dizem tudo através do rosto expressivo de Binoche, capturando o desespero da personagem em sua tentativa de cortar todos os vínculos com o passado. À medida que tenta se desvincular dos sentimentos de perda, Julie se prende mais em sua própria liberdade, descobrindo que a liberdade total de nada vale ao perder suas memórias matrimoniais e recordações maternas. É importante mencionar a cena bem arquitetada na qual Julie está dentro da piscina em uma posição fetal que simboliza o renascimento. No mais, vale destacar a belíssima trilha sonora de Zbigniew Presnier e a fotografia de Slawomir Idriak pautada no azul.


        O segundo filme da “Trilogia” é a comédia (ou humor negro?) “A Igualdade é Branca” (Blanc, 1993), centrado na história de Karol (interpretado por Zbiniew Zamachowski) – um polonês azarado que vive em Paris como cabeleireiro. Depois que sua esposa Dominique (vivida por Julie Delpy) pede o divórcio, ao alegar não consumação sexual no casamento, Karol é abandonado e sem lenço e documento começa a pedir esmola no metrô. Ao conseguir retornar para a Polônia em uma mala, Karol dá a volta por cima, almejando uma vingança inusitada contra a ex-esposa. Ainda apaixonado, Karol tenta alcançar a igualdade que não conseguiu em Paris. Na busca pela igualdade plena perante Dominique, Karol descobre que nem todos os homens são iguais nem diante da lei e nem do amor. De maneira recorrente, a cor branca é perseguida pela fotografia (vide as cenas focalizando a neve), ao passo que a trilha sonora, novamente de Presnier, baseada no clarinete é bastante suave e melancólica.


    O monumental “A Fraternidade é Vermelha” (Rouge, 1994) é o terceiro filme da trilogia de Kieslowski. O petardo fílmico tem como ponto de referência a personagem Valentine (na interpretação estupenda da belíssima Irène Jacob), uma jovem modelo de Genebra que atropela a cadela de um juiz aposentado (o sempre excelente Jean-Louis Trintignant). A partir desse acontecimento, a vida solitária e amargurada do ex-juiz, cujo passatempo é escutar as conversas telefônicas dos vizinhos, se transforma com a presença da fraternal Valentine. Paralelamente, temos a história de Auguste (um aspirante ao posto de juiz), que transita pelos mesmos lugares de Valentine e inclusive vive próximo ao prédio dela. Entretanto, os dois personagens não se encontram até o final da película e nos faz indagar se Auguste era o juiz aposentado no passado, haja vista que vários pontos pessoais entre eles coincidem: a traição amorosa, a página aberta de um livro, etc. Uma cena bastante sugestiva é a que enquadra um maço de cigarro e um copo quebrado, simbolizando o rompimento amoroso de Auguste. A fotografia de Piotr Sobocinski, destacando os planos abertos, é sensacional e, sem dúvida, é um dos destaques do filme.

         A “Trilogia das Cores” foi baseada nas cores da bandeira da França: o azul representa a liberdade, o branco a igualdade e o vermelho a fraternidade. O projeto da trilogia tinha como objetivo uma homenagem aos 200 anos da Revolução Francesa e, também, a comemoração da unificação da Europa por meio da União Europeia. É deveras notável como Kieslowski (junto ao roteirista Krzysztof Piesiewicz), com uma cosmovisão arguta e filosófica, conseguiu transpor os lemas da Revolução para um contexto atual e humanista. Conforme a professora da PUC Andrea França, os lemas da bandeira francesa transcorrem nos três filmes e os personagens kieslowskianos acolhem o acaso como meio de trilhar novos rumos, refletindo o olhar do diretor polonês sobre a vida e o mundo (vide os extras dos DVDs da Versátil). Há referências na trilogia a alguns filmes como, por exemplo, “O Desprezo” de Godard e “Sociedade dos Poetas Mortos” de Peter Weir. Em relação às premiações, “A Liberdade é Azul” ganhou os prêmios de melhor filme, fotografia e atriz (Juliette Binoche) no Festival de Veneza; “A Igualdade é Branca” recebeu o Urso de Prata (no Festival de Berlin) como melhor diretor para Kieslowski; “A Fraternidade é Vermelha” recebeu merecidamente as indicações de melhor filme, fotografia e roteiro original no Oscar, no entanto foi perseguido no Festival de Cannes. Numa perspectiva de conexão, a cena de uma idosa que tenta colocar uma garrafa em uma lixeira ocorre nos três filmes, contudo somente no terceiro filme, que representa a fraternidade, a idosa é ajudada por Valentine. Vale ressaltar o fechamento da trilogia com a cena que mostra os personagens dos três filmes como sobreviventes de um naufrágio no Canal da Mancha, simbolizando as várias nacionalidades europeias como a francesa, polonesa, inglesa e suíça.
Trailers
 

quinta-feira, novembro 28

Raul Seixas, Filosofia, Politicas e Lutas - Parte 02




Raul Seixas morava próximo ao consulado dos E.U.A em Salvador na Bahia, era amigo de filhos de funcionários do consulado e foi através deles que manteve contato com os discos de 75 rotações de rockabilly. Esse primeiro contato com toda cultura rocker dos primeiros anos, fizeram marcas indeléveis na formação do jovem Raul Seixas, a mesma época por influencia dessa descoberta Raul monta com Waldir Serrão outro jovem fã de Rockabilly, um fã-clube de Elvis Presley. Essa aproximação com a musica jovem americana trazida pelos amigos do consulado fez inclusive que Raul Seixas viesse a estudar o idioma americano, o qual anos depois Raul dominava fluentemente. Numa época que a Bahia vivia também o nascimento da Bossa Nova de João Gilberto e Vinicius de Moraes, dois locais de apresentação na capital bahiana nessa mesma época duelavam com propostas diferentes, eram eles o teatro Vila Velha casa dos bossanovistas e o Cinema Roma reduto dos roqueiros recém-formados na cidade liderados por Waldir Serrão e Raul Seixas.


No inicio dos anos sessenta Raul Seixas monta com alguns outros amigos a banda Raulzito e os Panteras, a banda ficou famosa em Salvador e nas cidades do interior tocando covers dos primeiros grandes artistas do rockabilly como Elvis Presley, Ed Chrocane, Jerry Lee Lewys, Gene Vincent e outros. Certa vez o cantor Jerry Adriane em turnê pela Bahia teve contato com a banda e ficou impressionado com apuro técnico dos músicos, chegando a tocar com eles em algumas apresentações por conta de problemas com a chegada da sua banda a cidade. Nessa mesma época Jerry Adriane indica o grupo a gravadora EMI-Odeon e no final de 1967 eles vão ao Rio de Janeiro gravar o primeiro álbum da banda, que é lançado no inicio de 1968. As vendas desse disco ficaram abaixo das expectativas da gravadora, obrigando o grupo a retornar a Bahia e logo depois decretando o fim precoce da banda.




quarta-feira, novembro 27

Raul Seixas, Filosofia, Politicas e Lutas - Parte 01



Por Natan Castro

A segunda guerra mundial, de alguma forma causou transformações em âmbito mundial no planeta terra, modificações essas que talvez os astrólogos e os místicos possam explicar melhor. É impressionante o que anos de medo, opressão e privação de liberdade causou nas cabeças de jovens do mundo inteiro. O que ficou bem visível após o término da segunda guerra mundial, foi toda uma liberação em geral que essa juventude se pôs a fazer logo depois, seja a galera que pegou a estrada, ou aqueles que iniciaram uma nova análise sobre os direitos sociais e por último os demais que sonharam mudar o mundo através da arte. Existia de fato uma sintonia entre esses milhares de jovens no mundo inteiro, mas é claro que a nação americana foi onde essas modificações acharam um território mais propicio para acontecer. Desta forma o Rock “n” Rool foi o meio, a linguagem dentre algumas outras, o melhor veiculo para que a mensagem se propagasse de forma mais rápida e objetiva.

Elvis Presley o primeiro messias, o precursor de uma atitude, o primeiro branco a cantar como uma voz de um negro, a adoração por parte das garotas americanas, o espelho para muitos garotos dos E.U.A que após ele, perceberam que era possível empunhar uma guitarra e cantar suas dores e seus sonhos. Do outro lado do oceano quatro rapazes de uma cidade portuária da Inglaterra formaram a primeira grande banda de rock e, por conseguinte a maior de todos os tempos e esses mesmos rapazes de certa forma levaram adiante aquilo que Elvis deu inicio, agora de uma vez por toda a invasão foi global, esse ritmo num compasso quatro por quatro com um misto de atitude e musicalidade, representava então a maior revolução depois da última grande que foi a revolução industrial. Representando os dois grandes pilares dessa nova era, Elvis Presley e os Beatles, trouxeram consigo uma leva bastante significativa de grandes artistas. O mito Bob Dylan, os geniais Jim Morrison e Janis Joplin, o mago Jimmy Hendrix só para citar alguns desses grandes artistas que foram gerados em meio a essa revolução.

Mas, as cabeças sintonizadas com essas ondas de novidades, não estavam somente nos E.U.A ou no Reino Unido. Diversos artistas não paravam de nascer em diversos lugares do planeta, até porque as rádios do mundo inteiro junto com o cinema faziam com que essas informações chegassem a toda a juventude em âmbito global. Foi nesse ambiente de profusão cultural que no Brasil, na região do Nordeste, no estado da Bahia, um garoto franzino filho de um engenheiro e de uma dona de casa, chamado Raul Santos Seixas surge como o principal integrante tupiniquim dessa onda chamada Rock “n” Rool.




quarta-feira, novembro 20

Nirvana (Unplugged) in New York - Documentário



Por Natan Castro

Somente uma banda de rock conseguiu chegar próximo dos Beatles, quando nos referimos ao impacto causado no público e na critica em escala mundial, essa banda sem dúvidas é o Nirvana de Kurt Cobain. Há dois dias uma apresentação seminal desses caras completou vinte anos, foi exatamente no dia 18 de Novembro de 1993. Nesse dia o Nirvana se apresentou em um teatro em Nova York na gravação do seu lendário show acústico para a MTV americana. A essa altura dos acontecimentos a banda já havia quebrado padrões no showbizz, quando conseguiu ser a primeira banda proveniente do cenário underground americano a fazer sucesso no mundo inteiro com o lançamento do álbum Nevermind um ano atrás. Um power trio como pouquíssimas vezes tinha se visto em cima do palco, a junção de uma atitude punk, juntamente com arranjos avassaladores e letras que diziam muito sobre a geração pós queda do muro de Berlim, eles estavam à época no centro das atenções de todo meio musical, quando aceitaram o convite para se apresentarem num formato acústico, quase impensável para quem já tinha escutado os álbuns, assistido os clips ou até mesmo visto eles ao vivo. Porém o que se viu nessa apresentação foi tão marcante que até hoje esse show em especial é tido pela maioria como o melhor acústico de uma banda de rock em todos os tempos. No documentário abaixo temos a oportunidade de saber como foram os preparativos para a apresentação, por quais motivos alguns covers ficaram no lugar de alguns sucessos no set-list, e também o momento mais especial da apresentação quando Kurt Cobain pede pra tocar Pennyoral Tea sozinho com voz e violão e deixa a plateia hipnotizada com uma das maiores interpretações solo já vistas num show de rock. 




terça-feira, novembro 5

Sobre a Ideologia Anarquista




A anarquia pode ser entendida como a rejeição do Estado e da autoridade no controle da vida de todos os indivíduos. Em si, a anarquia objetiva a “maximização” da liberdade e da igualdade, a extinção da autoridade e da propriedade. A palavra “anarquia” origina-se da palavra grega “anarchos”, que significa “sem governante”. Vale pontuar que a ideia de caos e desordem é erroneamente relacionada ao anarquismo, uma vez que a ausência de governo não remete a caos, visto que o homem pode governar a si mesmo e preservar a ordem. Nessa perspectiva, o anarquismo condiciona-se ao homem, ou melhor, o homem condiciona-se ao anarquismo como forma de libertação e eliminação do jugo mordaz, ao qual o homem é submetido em todas as formas de governo. Em verdade propriamente dita, todo governo tem uma carga de autoritarismo subjacente e tenta, em todas suas formas, alienar e controlar os indivíduos com o intuito de utilizá-los em seu proveito. De fato, os governantes têm esse papel draconiano: dirigir o povo ao seu tirânico bel-prazer. Antes de tudo, os anarquistas contestam a autoridade dos governantes e criticam o modus operandi da atual sociedade – baseada em individualismo exacerbado e jogos de interesse do capitalismo opressor.
Nesse contexto, as transformações sociais demarcam a zona atuante dos anarquistas e seus métodos operacionais pautam-se em revolta e não aceitação do status quo dos burgueses. Como uma doutrina político-social, o anarquismo ressalta modificações estruturantes no arcabouço da sociedade: fim do servilismo, patriarcalismo, exploração e inferiorizarão das classes negras e das mulheres. Os anarquistas almejam, de fato, uma sociedade não autoritária e defendem a liberdade do homem sob todas as instâncias. Decerto, os indivíduos livres podem promover a cooperação mútua para o crescimento do bem comum e, para isto, é necessário que os mesmos não se vinculem aos meandros dos governantes.

O anarquismo, em sentido lauto, tenciona uma nova comovisão entre os indivíduos baseada na evolução – e na revolução – da sociedade para um plano menos admoestante e aviltante, onde os governantes gananciosos não executem suas leis bárbaras de domínio. Vai além: os anarquistas odeiam a opressão por meio do aparelho do Estado e criticam a alienação promovida pelos meios midiáticos dominantes, que estão nas mãos inescrupulosas dos políticos. Desta forma, os anarquistas devem lutar contra todas as formas de opressão e contra os mecanismos de corrupção.
O modelo capitalista é um mal que estimula a ganância e o lucro desmedido. Os indivíduos na sociedade capitalista almejam o sucesso e satisfação de qualquer maneira, objetivando sem ética e moral a vida burguesa corrupta. O capitalismo condiciona o homem para pensar em si, enquanto o bem comum não interessa, pois o individualismo exacerbado é celebrado nos quatro cantos do mundo. O único bem comum que importa dentro do capitalismo é ter dinheiro a qualquer custo. O lema principal dos capitalistas é: In Money We Trust.
Leia: História das ideias e movimentos anarquistas. Vol. 1 e 2 de George Woodcock.

quinta-feira, outubro 31

Caso Hugo Farias



Os últimos dias que estava ocorrendo o 7° Felis (Feira do Livro de São Luís) no bairro Praia Grande do centro histórico de São Luís, aconteceu uma cena lamentável aos olhos que estavam presente, uma agressão dos guardas municipais ao suposto hippie que estava vendendo os seus produtos de artesanatos entorno do evento que estava ocorrendo.
O pior estaria por vir, com a sensibilidade das pessoas presentes ao verem o “hippie” ser agredido de maneira covarde pelos homens da guarda municipal, entra em cena o jovem advogado que não se conteve e resolveu se manifestar contra a arbitrariedade e a detenção do “hippie”.
Está certo que alguns “hippies” incomodam muitos frequentadores do local e turistas, desde a pedir esmolas até cometer pequenos furtos, mas muitos destes são de fato moradores de rua e dependentes químicos, e isso deve ser encarado como caso social e saúde pública e não de polícia.
A reação do advogado Hugo Farias em manifestar contra a detenção do “hippie” contra os homens da guarda municipal voltou contra a si também, que os mesmos homens da guarda tratam com truculência resolveram dar voz de prisão por desacato, alguns vídeos postados nas redes sociais mostram o suposto descontrole do jovem advogado sobre os guardas.
Alguns que eu vi não consta o áudio, somente as imagens, e sem o áudio não dá pra definir de forma clara o acontecimento, uns falam que o advogado Hugo Farias humilhou os guardas ao afirmar que os seus salários não dá pra comprar a cueca que ele veste, e esse foi o motivo dos guardas darem a voz de prisão e conduzir até a delegacia da Refesa na Beira Mar.
O outro vídeo que está circulando que mostra a suposta humilhação do advogado aos guardas e o seu descontrole, é de apenas 10 segundos, muito pouco pra constatar e além do mais não mostra o Hugo Farias em discussão com os guardas, e sim ele sentado num balção da delegacia citada e falando as pessoas presentes sobre a suposta afirmação no que ele disse, a exibição do vídeo é bem curto e não dá pra constatar em nada no que disse o jovem advogado.
Não estou aqui defendendo o Hugo Farias, entretanto, não vou demonizá-lo como tem feito algumas pessoas, se ele disse ou não aos guardas que o salário que eles recebem não dá pra comprar a cueca que ele veste, não vem o caso pelo aqui neste artigo, se ele disse que provem de fato, caso ele tenha realmente afirmado, eu lamento profundamente.
A voz de prisão dada ao jovem advogado e levá-lo até a delegacia da Beira Mar, a Refesa, se deu por um único motivo, por ser negro, isso mesmo que você acabou de ler, por ser negro, não é mania de perseguição ou achar que tudo é associado ao racismo.
Isso ocorreu pelo fato dele ser negro, mas ele não é advogado William? Sim, mas não isenta devido a cor da pele, e infelizmente isso acompanhará por toda vida, eu falo isso porque sou negro e sei bem como as pessoas agem quando vê um negro numa condição social mais elevada.
Eu queria e muito que os homens da guarda municipal agissem com o advogado de pele branca, olhos azuis e cabelos loiros e/ou sendo filho de desembargador, promotor, procurador, corregedor, juiz, advogado influente ou político, principalmente este último ocupar um importante cargo do governo e ter uma forte influencia com as autoridades do poder judiciário.
Seria capaz de dar a minha cara a tapa se os homens da guarda seriam capazes de agir como agiram com o Hugo Farias, quem nunca ouviu esta frase? “Você sabe com quem está falando?” Eu mesmo sei muito bem o que isto significa e o peso que carrega esta palavra numa sociedade injusta, desigual, excludente, segregadora, machista, homofóbica e racista, e o pior, uma sociedade que persiste em manter os resquícios da escravidão que são muito presente em dias atuais.
Eu mesmo nos primeiros anos que eu trabalhei na prefeitura de São Luís, trabalhei em estacionamento na época era alugada a prefeitura que pertencia ao antigo casino maranhense, sofri muitas humilhações e desaforos de alguns donos de carros e até mesmo de alguns motoristas, e numa dessas eu sempre ouvia “Você sabe com quem está falando?”
Se supostamente o jovem advogado Hugo Farias afirmou isso aos guardas, isso é devido ao fato dele fazer um curso extremamente conservador e elitista, o direito, que apesar da existência das cotas raciais e o aumento de jovens pobres e de escolas públicas ao curso de direito na UFMA (Universidade Federal do Maranhão) e outras instituições públicas de ensino superior pelo Brasil afora, o curso mantém as tradições de pertencer a elite e com o pensamento reacionário.
É deste curso que se forma os filhos de juízes, desembargadores, políticos, advogados, procuradores, corregedores, promotores e das pessoas da alta sociedade pra se tornar futuros juízes, políticos, desembargadores, promotores e até mesmo ministro do supremo ou tribunais superiores em Brasília – DF, é deste ambiente que viveu academicamente e se formou o Hugo Farias, e nesse ambiente a famosa frase “Você sabe com quem está falando?” é regra e corriqueira ou até mesmo encarado com naturalidade nos corredores e nas salas de aula do curso de direito.
Mas eu ressalto, se o Hugo Farias afirmou ou não, isso não vem o caso deste artigo, e sim a repercussão na cidade envolvendo o jovem advogado, que reitero o ocorrido devido o fato dele ser negro. Você é contra a atitude dos guardas por terem sido ofendidos?  Não sou contra, mas eu queria ver se eles teriam coragem de fazer com outro advogado sendo este influente na sociedade ou filho de alguma autoridade.
Ele é advogado, mas infelizmente a cor da pele será o empecilho de ser visto, tratado e respeitado como ser humano, antes de saberem a sua função e condição social, ele está passível a situação vexatórias e degradantes, e sempre haverá alguém que vai querer manchar a sua imagem.
Eu falo com o conhecimento de causa, já passei por isso mesmo sendo professor (aprovado duas vezes no processo de seleção que haviam mestres e doutores concorrendo, sendo que muitos destes não foram aprovados) da UEMA (Universidade Estadual do Maranhão), muita gente duvida e questiona a minha capacidade intelectual por eu estar lecionando na instituição de ensino superior, fui vítima de abordagem policial em Loreto – MA ano passado (2012) quando estive na cidade pela 1° vez pra lecionar, mas comigo os policias apenas fizeram perguntas, quem eu era, porque eu estava na cidade, e tive que apresentar a minha carteira de identidade, mas sem armas ou cassetetes em punho e muito menos eles mandaram eu ficar de mãos pra cima, pernas abertas e encostado na parede, mas contudo, não deixou de ser o constrangimento logo de cara pra quem chega na cidade.
A nossa sociedade infelizmente ainda não está habituado a ver jovens negros, como Hugo Farias, Eu e muitos outros a estarem numa condição social mais elevada e com a função social que exige respeito, e antes de saberem quem é cada um nós, continuaremos a passar por humilhações e constrangimentos.
E cabe a nós a bater de frente contra o sistema e todo o seu preconceito e discriminação, seja contra os negros, mulheres e homossexuais, principalmente aqueles que não são satisfeitos de nos verem nos patamares elevados que pra eles deveríamos estar na senzala ou abaixo deles, como eu, por exemplo, de guardador de carros em estacionamento e office boy da prefeitura de São Luís a professor universitário da UEMA, isto é um insulto e ofensa, mas continuaremos a insultar e ofendê-los.
Eu não conheço o Hugo Farias, tenho colegas de faculdade que o conhece, e todos afirmam que ele tem uma conduta ilibada, e espero que o jovem advogado não abaixe a cabeça e encare a tudo isso que está passando, porque alguns homens da guarda municipal devem ter falado algo que o levou a revidar.

Porque apenas os negros e pobres como nós sabemos perfeitamente o que é passar por situações quem nem essa que nos coloca muita das vezes como bandido ou mau caráter perante a sociedade ou a opinião pública, especialmente aos leigos e desinformado

segunda-feira, outubro 28

Pedrinhas: O matadouro humano com a conivência do governo do Maranhão



Os últimos acontecimentos que tem tomado o noticiário em telejornais, jornais impressos, blogs e outros meios de comunicação são as recentes rebeliões ocorridas no Complexo Penitenciário de Pedrinhas, resultando em mortes entre os presos de forma catastrófica nunca antes vista no nosso estado.
O Maranhão ganhou destaque internacional pela BBC News com esses acontecimentos, e para piorar ainda mais a situação, boatos correm por toda a cidade sobre arrastões e que os bandidos estão tomando a cidade, deixando a população ludovicense em estado de temor constante, a prova disso são as ruas do centro de São Luís lá pra 16 horas estavam todas desertas com o comércio fechado parecendo um final de semana ou feriado, devido a queima dos ônibus em diferentes bairros da cidade.
Cenas como a queima de ônibus até semana passada só se via na TV em cidades como o Rio de Janeiro – RJ e São Paulo – SP, e isso não foi causado por manifestantes, mas por facções criminosas que vem de dentro da cadeia, infelizmente essa facções surgiram com a influencia de facções existentes nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo, como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) respectivamente.
As facções responsáveis pelas recentes rebeliões são os PCM (Primeiro Comando do Maranhão), esta com influencia do PCC citado anteriormente, a outra é o Bonde dos 40, esta última se intitula genuinamente maranhense sem influencia do crime organizado de outros estados, com forte ligação com o ritmo musical, o funk, que tem até composições dando referencia ao grupo.
O sistema criminoso chegou no presídio maranhense, e da forma que esse grupo reagiu através das rebeliões recentemente, é muito mais organizado e mostrando realmente a que veio e dando o recado direto ao próprio governo estadual, que não vão aceitar retaliações por parte da polícia e nem das autoridades da segurança pública.
Isto é preocupante visto que a própria população ficar refém dessas organizações, São Luís em plena semana de trabalho com os comércios aberto, repartições públicas e privada, escolas e faculdades deveriam estar funcionando em tempo integral, ônibus circulando até meia noite e com os corujões após esse horário, se viu numa cara de feriado ou dia de domingo, ônibus se recolhendo as garagens lá pra 5 horas da tarde.
Isto causado por essas facções que no dia anterior causaram terror em toda a cidade com a queima dos ônibus, mas devemos culpar essas facções criminosas somente? Não! O governo do estado tem a enorme culpa por tudo isso, e quando falo do governo estadual, refiro não só o atual governo, incluo também todos os governos anteriores, incluindo o período que a oposição governou o estado nos anos do José Reinaldo Tavares e Jackson Lago.
É vergonhoso para o estado ter apenas um complexo penitenciário, no caso o Pedrinhas, numa imensão territorial maior que o estado de São Paulo e o vizinho Piauí que tem mais penitenciarias, as autoridades maranhenses sempre foram omissas a problemática.
E ainda saliento, o estado é cumplice e conivente com a situação por haver grande possibilidade do envolvimento de agentes ou autoridades do governo e do poder judiciário com essas facções criminosas, eu sempre costumo dizer aos amigos e colegas em rodas de conversas e aos meus alunos em sala de aula.

 “Não há crime organizado sem a presença do estado.”

Lembram da CPI do narcotráfico e do crime organizado que ocorreu no Maranhão em 1999? Nele estavam envolvidos e foram condenados posteriormente, deputados, delegados e empresários. Os dois primeiros representavam o estado.
Na morte do jornalista e blogueiro Décio Sá, os suspeitos são policiais, delegados, deputados, ficando ainda mais evidente o envolvimento do estado no sistema criminoso que é a pistolagem que vitimou o jornalista, isto comprova que o estado tem envolvimento direto, seja da classe politica ou de funcionários, no caso policiais, delegados e agentes.
A diferença é que antes da instalação da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito), o crime organizado do estado não afrontava o estado e nem as autoridades diretamente, os grupos agiam de forma velada e com vista grossa das próprias autoridades do estado.
E quanto as facções Bonde dos 40 e PCM, principalmente a primeira que realizou a última rebelião essa semana que deixou 9 mortos (dados oficiais do governo do estado), está afrontando diretamente o governo e a sociedade por causa das retaliações existente dentro de pedrinhas.
Sistema carcerário falido não só aqui no Maranhão e também em todo o Brasil, em que o ladrão de galinha é misturado na mesma cela junto com os estupradores, homicidas, traficantes, assassinos e outros bandidos de altíssima periculosidade, em nada ajudará ressocializar a sociedade, vai contribuir que este se torne bandido mais perigoso a ponto que se torne quase irreversível do retorno a família e a própria sociedade.
Pedrinhas se tornou um matadouro humano, se fizermos os cálculos de quantos mortos já tivemos nesta penitenciária nos últimos 5 anos, será um mortandade gigantesca sobre os olhos do governo e das autoridade que nada fizeram pra reverter.
A própria facção bonde dos 40 denuncia o governo do estado diante desta situação ao afirmar que o motivo todo desta rebelião é por causa da ida de alguns integrantes a cela que estavam integrantes da facção inimiga, no caso o PCM, se as autoridades sabem da existência destas facções porque colocam os integrantes da cela ocupada por outros integrantes rivais?
Se isto realmente ocorreu, o governo do estado é grande culpado pela rebelião e por estar promovendo a guerra entre as facções que está aterrorizando a população ludovicense que sente medo de sair casa por causa de boatos como os arrastões ocorrendo em toda a cidade.
O mais correto que deve ser feito é pegar os lideres destas facções e isolá-los, atacar o a fonte que sustenta o grupo, no caso o tráfico de drogas e de armas, mas infelizmente ao que parece isto não está sendo feito pelas autoridades, na insistência de afirmar perante a população através da imprensa que tudo está sob controle, que não verdade não está.
Pedrinhas deve ser interditado ou demolido, porque se continuar os presos ali nas condições sub-humanas, mais pessoas irão morrer, principalmente os ladrões de galinha, estes deveriam ser preservados e mantidos distante dos bandidos de alta periculosidade.
A localização do complexo a beira da BR 135 e de bairros residenciais, é o motivo a mais para ser interditado, não permitir que nenhum preso fique ali dentro, outro fator que devemos pedir mais do que nunca, é a intervenção do governo federal no sistema carcerário do estado, durante os governos José Reinaldo e Jackson Lago, a oposição liderada pelo grupo Sarney pedia intervenção federal no sistema carcerário pelos mesmos motivos.
E está mais evidente que a própria governadora deve pedir o apoio do governo federal, já que a mesma e o seu grupo não aceita a intervenção, pelo menos o apoio é necessário, porque o governo estadual está impotente diante da problemática que tem a enorme parcela de culpa.
E o mais preocupante ainda disso tudo, é a postura da governadora que nos momentos conturbados ela simplesmente desaparece, foi assim durante a greve da polícia militar em 2011, dos professores e agora das rebeliões, em vez de aparecer publicamente na tv para pronunciar diante do problema, usa os seus secretários para dar explicações que são as mesmas de sempre.
E o estarrecedor, é a declaração do secretário de estado da segurança pública, Aluísio Mendes, que diz está tudo sob controle e que vai investigar as pessoas que espalharam os boatos de estar havendo arrastões em São Luís, em vez de reprimir da forma devidamente como ser feito de fato as facções criminosas, quer investigar a população refém, como quisesse colocar a culpa do povo pelo crime de pânico que está à cidade.
Como diz a sabedoria popular: onde há fogo há fumaça, portanto, os boatos são resultado das queimas dos ônibus em diferentes pontos da capital maranhense, ou vão dizer que a queima dos ônibus é boato e as imagens mostradas são montagem?
E faço uma alerta, com a existência dessas facções que se mantém com o tráfico de drogas, armas e outros meios ilícitos, haverá mais rebeliões e brigas entre as facções que vai respingar na população e do próprio governo estadual se insistir em fazer vistas grossas e aceitar a mortandade dos presos em Pedrinhas, Centros de Custódia e delegacias na capital, região metropolitana e interior do estado.
E de forma tardia, após tantas intervenções da justiça, através do juiz da vara de execuções penais, o Roberto de Paula, que expediu inúmeros pedidos de interdição do complexo carcerário, o estado resolveu decretar estado de emergência e pediu o reforço da guarda nacional.
Tudo isso teria sido evitado se tivesse feito muito antes, evitando assim fugas, rebeliões e mortes dentro da penitenciaria, e separando os presos por crimes cometidos, numa tentativa de ressocializar os ladrões de galinhas a sociedade e mantê-los longe dos de alta periculosidade.
Levando estes perigosos a presídios de segurança máxima com o forte monitoramento e ficarem incomunicáveis com os restantes dos presos, e decretar estado de emergência não basta, deve-se mais do que nunca reformular o sistema carcerário do Brasil.
Porque o atual sistema brasileiro não ressocializa, fazendo dos presídios em todo o Brasil numa escola de bandidos, sendo pior que eles já são, e a prova disso são as ruas tomadas por estes, que todos os dias são assaltos, roubos, furtos, sequestros e até assassinatos que muitas das vezes é por motivos banais.


terça-feira, outubro 22

A Trilogia do Silêncio e o Cinema Psicológico de Ingmar Bergman


Por Paulo Dias

"Filme é um sonho, como a música. Nenhuma arte passa
à nossa consciência da maneira que o filme faz. 
Ele vai diretamente para os nossos sentimentos 
e toca o fundo de nossas almas"
(Ingmar Bergman)



O cineasta sueco Ingmar Bergman é considerado um mestre de primeira grandeza no mundo do cinema. Indiscutivelmente, Bergman inovou a linguagem cinematográfica com “O Sétimo Selo” - uma de suas inúmeras obras-primas. No filme “Manhatan”, o personagem Isaac Davis, interpretado por Woody Allen, afirma: Bergman é o único gênio do cinema. Dito isso, a influência do diretor sueco no cinema autoral de Allen é latente e nos cineastas da década de 1960 até a atualidade. Podemos com ênfase afirmar que Bergman é um cineasta original com roteiros persuasivos e contundentes em variados gêneros cinematográficos, tendo usualmente como fio condutor problemas existenciais que servem para canalizar toda abrangência criativa e peculiar do diretor advindo do teatro.



De um modo geral, Bergman apresenta em seus filmes uma gama de personagens complexos, que parecem derivados dos romances de Dostoiévski como, por exemplo, “O Idiota”. São personagens imersos em dúvidas religiosas e existenciais, lançando na tela toda diversidade de sentimentos e desejos. A sondagem psicológica é digna de Machado de Assis e é fundamental para que Bergman construa seus enredos excepcionais e magnéticos. Nos seus filmes principais, o enredo objetivo resulta em um todo pleno de possibilidades para os protagonistas, na medida em que somos transportados para vários canais interpretativos. Bergman dilata nossas percepções, costurando metodicamente em suas tramas os tormentos patológicos e psicológicos dos seres humanos inseridos em um mundo sagaz e corrupto.

Na estupenda carreira cinematográfica – e aliás bem extensa - de Bergman, há várias peças monumentais como, por exemplo, “Noites de Circo”, “Morangos Silvestres”, “Personna”, “A Fonte da Donzela”, “Vergonha”, “Cenas de um Casamento” e “Fanny e Alexander”. Todos estes filmes têm um encanto especial e nos cativam e emocionam profundamente até mesmo os corações mais empedernidos, visto que Bergman desperta em nós os mais valorosos questionamentos e sentimentos; são filmes magistrais que trazem toda a magia e beleza do cinema. Vale assim enfatizar que Bergman é sinônimo de cinema, de um cinema inesquecível, de um cinema onde transborda beleza lírica e onde há um manancial de poesia.

O primeiro filme da chamada trilogia do silêncio de Bergman é “Através de um Espelho” - ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro de 1962 e da Palma de Ouro no Festival de Cannes. O filme é um drama pungente e de uma força exorbitante, centrado em uma família que está de férias em uma ilha isolada. Os quatros membros da família sofrem as consequências da esquizofrenia de Karin (interpretada pela excelente atriz Harriet Anderson). De fato, Karin tem graves problemas psicológicos e todos ao seu redor são afetados profundamente. O marido de Karin (o espetacular ator Max Von Sydow) tenta com devoção ajudá-la a superar a doença e o irmão adolescente de Karin apresenta um apego forte à irmã. Esta, com o passar do filme, vai piorando gradativamente sua crise histérica. Em particular, o pai de Karin é extremamente egoísta e culpa-se por se afastar dela quando da descoberta da doença, estando preocupado principalmente com sua carreira literária. Percebe-se muito claramente os diálogos deslumbrantes e as imagens poéticas da película em preto e branco (veja as cenas no barco abandonado). Bergman realiza um estudo analítico sobre a família sob o efeito de uma doença psicológica, que atinge um de seus membros (na verdade, Karin parece sofrer de transtorno bipolar devido às inúmeras variações de humor). Em outras palavras, Bergman aborda a desestruturação de uma família diante da ausência de Deus em responder aos seus questionamentos mais íntimos.

Em sequência, o segundo filme da trilogia é o impactante “Luz de Inverno” de 1962, cujo enfoque é sobre um pastor em dúvida de sua fé e em silêncio com Deus. Quando um habitante da frívola vila debalde vai à procura de conselhos e de paz, o pastor não consegue persuadir o pescador, temeroso com uma possível guerra nuclear, de cometer suicídio. Com efeito, o ator Gunnar Björnstrand no papel do pastor descrente é de excelência e altivez, bastante focado na interpretação e em sintonia com a atriz Ingrid Thulin, que é uma professora apaixonada pelo pastor incrédulo. Cumpre-nos mencionar o diálogo arrebatador do pastor com um portador de necessidades especiais antes de um culto e as cenas cruciais que mostram o vazio não apenas das igrejas, mas também dos personagens despidos de fé e em crises existenciais. Bergman (filho de um pastor luterano) prega a instabilidade do homem perante o silêncio de Deus, de sorte que os momentos de incerteza no divino são preponderantemente mostrados em close-ups que captam os personagens apóstatas. Somos catalisados, assim como no primeiro filme da trilogia, pela fotografia em preto e branco de Sven Nkyvist – um dos melhores fotógrafos cinematográficos de todos os tempos.

No que diz respeito ao terceiro filme da trilogia “O Silêncio”, podemos salientar a relação nada convencional das duas irmãs, que viajam de trem pela Europa e param em um país, cuja língua para elas é um empecilho. Anna (interpretada pela caliente Gunnel Lindblom) e Esther (a versátil atriz Ingrid Thulin) vivem uma conturbada e caótica convivência ao lado do filho de Anna. À primeira vista, a sedutora Anna repudia sua irmã doente, que é uma tradutora de sucesso, e salta aos olhos a falta de comunicação das irmãs com o mundo externo e consigo mesmas. A ausência de Deus é enfatizada no quarto de hotel e nos olhos dos personagens que seguem em um mundo à beira de um colapso. De resto, Bergman destina-se em mostrar ao público que as relações fraternas são marcadas pelas vivências da infância à vida adulta, enfatizando que a busca pela adequação ao mundo perpassa pelo conhecimento e fé em si mesmo. Digno de nota é a cena dos anões circenses espanhóis em um momento lúdico com o filho de Anna. No tocante aos diálogos sempre profundos de Bergman, que servem como veículo para acentuar as personalidades diametralmente opostas das irmãs, as protagonistas acertam em cheio na interpretação bastante rica e coesa. É Bergman como conhecemos.
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