segunda-feira, setembro 29

Três é Demais: Mutantes

Para o ateu psicodélico Arnaldo Baptista

Às vezes, o Brasil não reconhece seus próprios artistas, não cultua com a devida proporção os artistas pioneiros que transgrediram o status quo e que revolucionaram o cenário musical com genialidade e inovação. Com certeza absoluta, um grupo que deve ser incessantemente venerado é os Mutantes - uma das bandas mais importantes da música brasileira ao lado dos Secos & Molhados e Novos Baianos -, que é/foi cultuado por David Byrne, Peter Gabriel, Kurt Cobain, Sean Lennon, Beck e outras personalidades do mundo afora. Com efeito, Mutantes é sinônimo de qualidade musical nos Estados Unidos e na Europa. O nome da banda adveio, por sugestão de Ronnie Von, do livro de ficção científica "O Império dos Mutantes" (La Mort-Vivant) de Stefan Wul, obra famosa no Brasil na década de 1960. Inicialmente, os Mutantes eram constituídos pelos excêntricos irmãos Baptista, Arnaldo (baixo, teclado, vocal) e Sérgio Dias (guitarra, vocal), e pela cativante Rita Lee (vocal, flauta), compondo o grupo mais inovador do rock 'n' roll tupiniquim. Por trás dos Mutantes, há duas personagens essenciais: o maestro Rogério Duprat e Cláudio César (irmão-inventor dos Baptistas). O primeiro é considerado o George Martin brasileiro e o segundo é um grande luthier e Professor Pardal que construía para a banda inúmeros instrumentos eletrônicos, tais como caixas acústicas, pedais de distorção e amplificadores. Tanto Duprat como Cláudio foram importantíssimos para o desenvolvimento musical de Rita, Arnaldo e Sérgio. Isso ajudou o grupo a rivalizar em criatividade com os grupos dos EUA e da Inglaterra. No catálogo dos Mutantes, há álbuns extremamente geniais, a começar pelo homônimo lançado em 1968 em pleno período da Psicodelia e sob o sol da Tropicália. Em 1969, veio a lume o segundo disco, dando continuidade às pérolas sonoras. Com o álbum "A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado" de 1970, Arnaldo e companhia atingiram o El Dourado da música.
Abrindo com chaves de ouro "Os Mutantes" de 1968, a composição de Caetano Veloso e Gilberto Gil, "Panis et Circenses" tem todo um mostruário de tropicalismo e irreverência. Com um arranjo fabuloso de Duprat, essa canção está entre as melhores da música brasileira. Em seguida, "A Minha Menina" - composição de Jorge Ben - é uma das canções mais conhecidas dos Mutantes pelo mundo. O próprio Jorge Ben toca violão nessa faixa, que apresenta ainda um som de guitarra bastante psicodélico de Sérgio Dias. Com a balada "O Relógio", o trio mutante arregaça as mangas em uma composição própria. O canto de Rita Lee nessa canção é bastante singelo. Na sequência, a releitura do baião de Humberto Teixeira e Sivuca, "Adeus, Maria Fulô", tem a experimentação característica dos Mutantes: canto de passarinhos, cuíca, xilofone, batidas em objetos de vidro, etc. A peculiaridade nessa canção é que não há a presença de sanfona e nem de guitarra. Caetano Veloso mais uma vez dá o ar da graça na composição em "Baby", que é um dos pontos fortes do álbum. A guitarra ácida de Sérgio Dias é o carro-chefe dessa faixa cantada por Arnaldo. Com mais uma canção autoral, "Senhor F", os Mutantes expõem o lado hilário/crítico da banda. As mudanças de ritmo também são uma marca peculiar no som do trio paulista, além do uso de instrumentos não convencionais. "Bat Macumba" (composição de Caetano e Gil), despeja ritmos de candomblé aliado à guitarra delirante de Sérgio Dias. Logo depois, Rita canta o clássico francês "Le Premier Bonheur du Jour", na qual o grupo utiliza uma bomba de inseticida para fazer papel do chimbau. Com forte experimentação no arranjo e quebras de ritmo, a nona faixa "Trem Fantasma" (composição de Caetano e dos Mutantes) abre como uma banda de pífanos. Rita canta essa canção em parceria harmoniosa com Arnaldo. A faixa seguinte "Tempo no Tempo" é uma versão de “Once Was A Time I Thought” do The Mamas & The Papas. A letra dessa versão teve ajuda do pai-poeta de Arnaldo e Sérgio, César Baptista, que faz uso constante de aliterações.  Em "Ave Gengis Khan", o solo de guitarra tresloucado de Sérgio e o teclado alucinado de Arnaldo encerram o debut. Com produção de Manoel Barembein e fortemente influenciado pelo Beatles da fase psicodélica, os Mutantes estrearam com um álbum espetacular, unindo pop e rock com música erudita (graças ao maestro Duprat). O álbum de estreia do grupo foi eleito pela revista MOJO um dos discos mais inovadores da história.
    O segundo trabalho de inéditas dos Mutantes de 1969 é uma continuação criativa do primeiro álbum. O trio afastou-se da dupla Caetano-Gil para se aproximar do tropicalista Tom Zé. Iniciando o álbum com "Dom Quixote", novamente com a ajuda do pai-poeta de Arnaldo na letra repleta de aliterações, o arranjo de Duprat mergulha na temática quixotesca. A guitarra excepcional de Sérgio Dias é um dos destaques nessa faixa. Na sequência, "Não Vá Se Perder Por Aí" é uma composição de Raphael Vilardi e Tobé, dois velhos conhecidos do trio mutante. Essa canção tornou-se clássica na mãos do grupo, com direito a um som espetacular de guitarra por parte de Sérgio Dias e um trabalho fino de vocal de Rita e Arnaldo. Em seguida, "Dia 36" apresenta o efeito eletrônico na voz de Rita criado por uma engenhoca de Cláudio César. O rock psicodélico-caipira "Dois Mil e Um" é uma joia seminal, que mistura viola caipira com guitarra. Nessa composição dos Mutantes e Tom Zé, Rita e Arnaldo em parte cantam de forma a reproduzir o modo de falar caipira.  Na sequência, a cativante "Algo Mais", ecoando paz & amor, traz as conhecidas mudanças de ritmo e o trabalho competente de vocal do grupo. Para muitos, "Fuga N° 2" é uma das melhores canções dos Mutantes. Isso muito se deve ao arranjo esplêndido de Rogério Duprat. Depois, há a releitura mutante da canção eternizada por Celly Campello, "Banho de Lua" - hino da jovem guarda. A faixa "Rita Lee" tem influência velada dos Beatles enquanto a lisérgica "Mágica" é uma fusão de sons extravagantes, tendo no final referência explícita a "(I Can't Get No) Satisfaction" do Rolling Stones. Com mais uma composição creditada a Tom Zé e Mutantes, "Qualquer Bobagem" é uma peça de ouro de quilate infinito. Rita, com sua técnica no vocal, canta gaguejando essa canção acompanhada com o teclado rasgante de Arnaldo. Para finalizar o álbum, "Caminhante Noturno", de autoria de Rita / Arnaldo / Sérgio, é uma canção muito "viajante" e com letra poética. No álbum com a produção novamente de Barembein, há a participação do baterista Dinho Leme (irmão do comentarista de corridas automobilísticas Reginaldo Leme) e do baixista Liminha, que viria a ser um grande produtor musical.
O terceiro álbum do grupo paulista é "A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado", lançado em 1970. A abertura realizada por "Ando Meio Desligado" desfila a guitarra de Sérgio alinhada com a percussão de Naná Vasconcelos. O teclado freak de Arnaldo também faz parte do show, além do vocal magnífico de Rita. Preste atenção ao final no solo estupendo de guitarra. Em seguida, "Quem Tem Medo de Brincar" apresenta o vocal criativo de Rita, as mudanças de tempo característicos e as experimentações sonoplásticas da banda. Em "Ave, Lúcifer" - um verdadeiro poema -, os Mutantes fazem referência ao famoso livro de Dante Alighieri, "A Divina Comédia". Na sequência, "Desculpe, Babe" é uma das melhores canções da carreira da trupe mutante. Tudo funciona em perfeição nessa faixa: a guitarra de Sergio, os vocais de Arnaldo e de Rita e a percussão novamente de Naná Vasconcelos. "Meu Refrigerador Não Funciona" dá dicas da futura sonoridade calcada no rock progressivo que a banda embarcaria nos anos vindouros. Parece que no vocal Rita faz uma homenagem a Janis Joplin. O trabalho instrumental nessa canção é de causar arrepios. A próxima faixa, "Hey Boy", é um rock no feitio da década de 1950, criticando a vida burguesa inútil dos jovens. A canção da dupla Roberto-Erasmo, "Preciso Encontrar Urgentemente um Amigo", entra no álbum para mostrar a versatilidade de Sérgio Dias na guitarra e o teclado majestoso de Arnaldo. A regravação com toque hilário de "Chão de Estrelas" - clássico de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa - é um dos momentos altos do álbum. A começar pelo canto choroso de Arnaldo, a experimentação ocorre em sintonia com a letra. Logo depois, "Jogo de Calçada" não deixa o som diminuir e nem a qualidade. O início dessa faixa aparenta um ritmo de capoeira, enquanto "Haleluia" parece com um hino psicodélico. Para encerrar o álbum, "Oh Mulher Infiel" é uma jam session alucinada e caótica, na qual Arnaldo dilacera o órgão Hammond e Sérgio ejacula sons titânicos de sua guitarra envenenada, acompanhados pela bateria nervosa de Dinho e o baixo de Liminha. Um verdadeiro Gran Finale. O álbum bastante autoral da banda foi produzido por Arnaldo Sacomani e tendo efetivamente Dinho Leme e Liminha como integrantes constantes não creditados. De fato, esse álbum está entre os melhores da produção dos Mutantes, com um desfile formidável de canções laboriosamente esculpidas. Arnaldo e companhia se superaram técnica e criativamente no genial "A Divina Comédia ou ...".
Sem sombra de dúvidas, Mutantes está entre as grandes bandas da história. A mistura de rock com música brasileira (tal como samba, baião, música caipira, etc.) e arranjos eruditos fazem deles um dos grupos mais originais e criativos do mundo, levando em conta que se encontravam no Brasil mergulhado na Ditadura Militar, que podava energicamente os artistas naquele momento negro de nossa história. Com efeito, Mutantes não devia em nada comparado aos grupos estrangeiros. Verdadeiramente, eles fizeram uma música universal, que merece ser cultuada nos quatro cantos do mundo e principalmente com mais intensidade no próprio Brasil. A influência dos Mutantes na música brasileira é avassaladora. Artistas e bandas como Pato Fu, Mopho, Chico Science & Nação Zumbi e Zeca Baleiro (só para citar alguns) devem imensamente aos Mutantes. Também, cantoras como, por exemplo, Fernanda Takai e Paula Toller devem favores eternos ao talento inconteste de Rita Lee. Indiscutivelmente, Mutantes é uma das maiores criações artísticas do Brasil.
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sábado, setembro 27

Colagens

I

                                                             Meu ser em vertigem
                                                 já não suporta
                                                                 as ventanias que arrastam
                                                       árvores esculpidas em minha mente


II

                                            Quem sabe o passado não desmorone 
                       junto com as cartas empilhadas sobre a mesa
                                            Quem sabe a primavera não desmaie 
                       junto com as virgens em cio nas esquinas

III

                    O que restará das manhãs que faleceram antes do Sol vir à tona?
                    O que restará das flores que não germinaram e nem deram viço?
                    O que restará das estradas que teceram rumos perante a madrugada?
                    O que restará das estrelas que se apagaram em um céu em chamas?
                    O que restará das covas que não receberam os cadáveres esperados?
                    O que restará das noites que se perderam diante de uma lembrança?


IV

                                                            Meu ego ainda
                                                              se inflama
                                             com a chegada do amanhecer
                                                          e cada orvalho
                                                            me fascina
                                                         e cada espelho
                                                            me ensina
                                                 a afastar minhas dores 

V

                                                  Vou escrever um conto policial
                                  Vou rodar um filme noir
                                                  Vou ganhar um prêmio em Cannes
                                  Vou me tornar quem já fui
                                                  para ver se eu paro de sonhar


João Pessoa, Março 2011

quinta-feira, setembro 25

Days of Abandon - O Terceiro Álbum do The Pains of Being Pure at Heart

 
O Indie Rock é o celeiro das melhores bandas da atualidade (ao menos para alguns). Inúmeros grupos desse cenário, que conta com gravadoras independentes, têm surgido nos últimos tempos. The Pains Of Being Pure at Heart é, sem dúvida, um belo exemplo de uma banda de Indie Rock. Formada em 2007 na cidade de Nova York pelo guitarrista (e vocalista) Kip Berman, pelo baterista Kurt Feldman, o baixista Alex Naidus e a tecladista Peggy Wang, The Pains (daqui por diante) lançou o álbum homônimo em 2009, que recebeu ótimos elogios pela imprensa especializada. O segundo álbum, Belong, de 2011 veio a confirmar a sonoridade que traz noise pop, shoegaze e rock alternativo. Apesar da saída de Peggy Wang e Alex Naidus, Kip Berman compôs uma nova leva de canções para o terceiro álbum, Days Of Abandon, que foi lançado recentemente em 2014 pelo selo Yebo Music. Com Days Of Abandon, Berman e companhia desfilam canções extremamente elegantes e melódicas.
Abrindo Days Of Abandon, temos "Art Smock" levada ao violão e teclados incipientes. Em seguida, a energética "Simple and Sure" dispara os versos confessionais: "It might seem simple but I'm sure I just want to yours". O vocal exasperado de Berman cadencia nossos sentimentos nessa faixa. Na sequência, a participação da vocalista Jen Goma (da banda A Sunny Day In Glasgow) no vocal principal de "Kelly" nos embala ritmicamente, soando como uma canção da banda novecentista The Sundays. A guitarra límpida em "Beatiful You" parece difundir os sentimentos de perda propagados por Berman. Certamente, essa canção é um dos destaques dentro do álbum. Depois, há a lírica "Coral and Gold", na qual Berman declara saudade do ser amado. Essa canção começa lenta, mas aos poucos vai acelerando harmoniosamente. Em "Eurydice", temos The Pains assemelhando-se profundamente com The Sundays. A canção com teor smithiano "Masokissed", que parece trazer o dedilhado característico de Johnny Marr,  dá espaço para "Until The Sun Explodes" - um dos grandes momentos do álbum -, que emblematicamente mistura shoegaze (de bandas como Ride e My Blood Valentine) com uma melodia à la The Cure. Novamente, Jen Goma toma as rédeas do vocal em "Life After Life". A terna “The Asp at My Chest” encerra com chaves de ouro Days Of Abandon.
Com certeza, a maturidade de Kim Berman é o ponto essencial do último trabalho de inéditas do The Pains. Não por acaso, as letras confessionais de Berman chegaram ao ápice, estando mais direcionadas para adultos jovens do que para adolescentes. Apesar do leve abandono do noise pop, Berman e companhia tecem canções exuberantes, tendo uma sonoridade guinando para o pop rock, com guitarras melodiosas e teclado bem ameno. Emoções genuínas ainda fluem do canto exasperado de Berman. Não existem argumentos plausíveis para que você não ouça Days of Abandon. Dixi.
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quarta-feira, setembro 24

Exorcismo


                            Exorcizarei meus demônios famintos
                                                            ante tua presença divina
                                              não precisarei de preces e orações
                                e nem de algemas e chicotes
                                           apenas necessitarei de uma cama imaculada
                      para me acolher nesse inverno rigoroso

                                Deixaremos que a escuridão
                                                       paire pelo quarto adentro
                                              enquanto uma cortina ocultará uma sombra
                                   e uma música suave irá reverberar
                                                    entre as árvores de nossos pensamentos

         Depois de alguns minutos
                                  a cama estará em frangalhos
                        dando abrigo seguro
               aos nossos corpos mutilados
                                que  encontraram uma mina bastante ofensiva
                        
       O sangue ferverá
                       em nossos corações
                  e as nossas veias pulsarão
                                           no ritmo de um trovão

                      Verei uma carruagem
                                 passando pelo meu peito suado
                          a me arranhar diligentemente
             ... e a música suave continuará...

                                 Pela fresta da janela
                                        observarei passageiros da noite
             vagando melancólicos
                                              sob as luzes  dos postes
                                                
       (Lembranças viris
                             e memórias insensatas
                                            nos acompanharão pelo quarto)
                    
                             Quando atingirmos o ápice
                                        em qualquer hora avançada da noite
                 seremos dois seres
                              testemunhando um exorcismo final


João Pessoa, Outubro 2009

terça-feira, setembro 23

Shulamith - O Segundo Álbum do Poliça

 
No cenário Indie Electronic, a banda de Minneapolis Poliça se destaca pelas melodias cativantes e pela voz versátil de Channy Leaneagh, além do produtor/colaborador Ryan Olson. O grupo teve início em 2011 quando Ryan convidou a bela Channy para cantar sob as manipulações eletrônicas surtidas de rhythm 'n' blues e pop gótico criadas por ele. As letras de Shanny encaixaram como uma luva na paisagem eletrônica esculpida pelo produtor. Para tocar as canções ao vivo, a dupla recrutou os bateristas Ben Ivascu e Drew Christopherson, assim como o baixista Chris Bierden. Retirando o nome da banda da palavra polonesa para polícia, o comboio de Minneapolis gravou o primeiro álbum, Give You the Ghost, em 2012. 
No ano passado, lançaram o segundo trabalho intitulado Shulamith, recheado com faixas que capturam o ambiente sonoro do Cocteau Twins. Os vocais mais elaborados de Shanny dão as cartas, junto com as criações eletrônicas mirabolantes de Ryan, no excelente Shulamith. Escute abaixo a primeira canção do álbum.
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sábado, setembro 20

Só o silêncio importa...

                     Só o silêncio importa
          o silêncio que se alastra no meu ser
    o silêncio mudo das horas
                                 que orvalha meus ouvidos
               

                           Por enquanto
                  o silêncio vegetativo me basta
                                    na esquina do esquecimento
                              na floresta do engano
           

                                      Ó silêncio bruto
                                   quero apenas calar
                                        não me ouvir
                                    nem me entender
                                não consentirei vozes
                       a murmurar nas horas cegas
                             e nem permitirei
               que despertem gemidos no escuro 


                             Pois só o silêncio importa
                   o silêncio dos sinos rachados
          o silêncio do vazio das salas
                                          que se perde nos sofás


                              Com certeza
                                   em uma noite lânguida 
                                       almejo somente o silêncio das catedrais
                   o silêncio morto dos cemitérios
                                 o silêncio que ecoa
                                           nos cânions adormecidos
                                               ou
                                o silêncio que escorre
                                                       pelo ralo do infinito


João Pessoa, Abril 2010

quarta-feira, setembro 17

Uma Vida de Rilke

     Há alguns anos, fui com um amigo a um sarau de poesia à noite no Centro Histórico de São Luís. Levei para recitar um dos meus melhores poemas que eu tinha escrito até aquele momento. O sarau seria num prédio antigo. Tinha sido organizado por um poeta das antigas que objetivava reerguer a cena poética na capital maranhense. Havia muitos poetas, escritores e entusiastas. Quase todos tinham copos de bebida na mão. Meu amigo Artur e eu levamos uma garrafinha de Sapupara. Notei também que havia uma senhora já de idade avançada, beirando setenta anos. Na hora marcada, o sarau começou com a recitação de um poema bem vagabundo. Aplaudiram com entusiasmo, mas pensei instantaneamente que merda era essa que estavam aplaudindo. Alegremente, o poeta que havia recitado o poema falou sobre sua trajetória na poesia. Atentei que ele não falou em momento algum de bebida. Fiquei logo desconfiado desse pseudopoeta, já que Artur e eu tínhamos na cabeça o lema de Baudelaire: "Embriagai-vos, sem cessar! De vinho, de poesia, ou de virtude, como achardes melhor". O dito poeta nem estava embriagado de vinho nem de poesia. Sua única virtude era estar embriagado de hipocrisia. Falei em voz baixa para Artur:
- Cara, vamos sair daqui. Vamos beber no Senzala.
- Espera um pouco, Estefânio. Há outros poetas que vão recitar. Temos a noite toda pra beber. Além disso, fomos convidados para recitar. - Artur falou já abrindo a garrafinha de Sapupara e me passando um copo de vidro com a boca quebrada.
    Em seguida, um poeta bem jovem, tão jovem quanto Artur e eu, recitou um belo poema com teor social à ilha de São Luís, que eu gostei muito. A senhora anciã aplaudiu com vigor. Olhei para ela e sorri. Ela me respondeu com um sorriso forçado. Artur estava perto de um poeta obeso que recitaria o terceiro poema. Esse poeta obeso se levantou com dificuldade. Deu um gole ligeiro na bebida que estava em seu copo. Acendeu um cigarro e começou a recitar uma elegia, que quase me fez chorar de raiva. Artur me beliscou e disse com fúria nos olhos:
- Mais uma dessa e vamos para o Senzala. Eu juro!
    Houve uma pausa para que os convivas no recinto pudessem interagir. Eu me aproximei de um cara que estava com uma garrafa de vinho na mão. Pedi para ele colocar um pouco no meu copo com cachaça. Depois, passei a vista pelo local. A senhora anciã estava me encarando fixamente. De novo, eu sorri para ela. Ela respondeu erguendo um leque bem florido. Vi que Artur estava atacando uma poetisa - velha conhecida das nossas jornadas noturnas. Ele tinha um grande tensão nela. Enquanto isso, aproximei-me da anciã, estendendo minha mão e apresentando-me. Ela falou:
- Você gosta muito de anéis, meu jovem. - Ela olhou para a minha mão com anéis nos cinco dedos. - Eu me chamo Cícera. Você vai recitar?
- Sim, serei o último. Meu amigo irá recitar antes de mim. - Falei olhando para o leque dela. Estendi a bebida para ela. De pronto, ela recusou. Acho que foi uma vacilada minha. Após um pouco de silêncio, ela perguntou:
- Onde você mora, meu jovem?
- Eu moro no Paço do Lumiar. Sou um poeta, um bardo. Na verdade, sou um goliardo. Saio a cantar o vinho e as mulheres. Também, critico a Igreja e ando em bibliotecas públicas. - Respondi sereno. Dei uma golada na bebida misturada. Fiz uma cara feia quando a bebida desceu pela garganta.
- Goliardo? Eu conheço a história dos goliardos. Eu fui professora de História da Universidade Federal por muitos anos. Você parece uma pessoa interessante, meu jovem. - Ela disse abanando-se com o leque, já que fazia calor no recinto. Artur se aproximou, colocando mais Sapupara no meu copo.
- Artur, quero te apresentar Cícera. - falei enquanto Artur enchia meu copo. - Cícera, quero que você conheça meu amigo Artur. Ele também é poeta.
- Muito prazer, Artur. Estefânio me disse que você vai recitar daqui a pouco. - Falou educadamente Cícera, abanando-se novamente.
- Sim, vou recitar um poema erótico. Se a senhora não se importar, vou falar muito em buceta na hora da minha recitação. - Artur falou sem qualquer decoro.
- Eu não me importo, meu filho. Fique à vontade. - disse Cícera elegantemente.
    O intervalo recreativo estava quase acabando. No recinto, propagavam-se risos cavalares. A alegria da bebida tinha se disseminado. Voltamos para os nossos respectivos lugares. A bebida misturada não me agradou muito, então dei logo uma golada para acabar com tudo. Espontaneamente, Artur colocou mais Sapupara no meu copo. Cícera foi para a sacada. Talvez para pegar um pouco de ar. O próximo a recitar seria Artur. Vi que Artur foi meio cambaleante para o centro do recinto. Tínhamos já "madrugado" no dia seguinte. Ele recitou o poema erótico olhando para a poetisa tesuda. Quando Artur acabou, houve aplausos calorosos. Eu assoviei fortemente. Meu assovio ecoou pelo recinto. Em seguida, eu levantei para declamar meu poema. Comecei gesticulando bastante. Era um poema surrealista-escatológico com grande impacto visual. Chamava-se "Apocalipse de Dante". Quando eu terminei, me joguei no chão simulando uma possessão xamânica como Jim Morrison fazia nos shows do The Doors. O pessoal presente no sarau aplaudiu, mas acharam minha atitude um pouco extravagante. Ao voltar para meu assento, Artur falou:
- De onde tu tirou esse poema, cara? Puta que pariu! É um poema do caralho.
- Eu tive uma visão sobre o fim do mundo. - respondi meio suado.
    O sarau acabou. Alguns falaram comigo na saída. Naquele momento, eu só queria ir para o Senzala, jogar sinuca e beber até começar o Tambor de Crioula na praça da Faustina. Cícera veio me cumprimentar. Ela me falou que meu poema tinha causado um certo medo nela. Após uma conversa fiada, ela pegou meu telefone. Na despedida, ela me presenteou com o leque. Depois disso, Artur e eu partimos sem demora para o Senzala.

                                                                   ***

    Comecei um relacionamento com Cícera. Achei curioso que ela não tinha filhos. Ela morava na Ponta da Areia, em um apartamento muito chique. Eu me mudei para lá com grande desgosto dos meus pais. Dali por diante, Cícera seria minha mecenas. Ela iria me abastecer com bebida, enquanto eu iria abastecê-la com sexo. Não me importava nem um pouco com os amigos e parentes de Cícera que me chamavam de gigolô. Eu fazia tudo isso pela poesia, simplesmente pela poesia. Tinha no meu pensamento que depois eu sairia a vagar pela Europa. Para falar a verdade, eu objetivava uma vida de andarilho, tal como a vida de um dos meus poetas prediletos: Rainer Maria Rilke. Eu queria ter uma vida de Rilke.
    Mas a vida é dura. Passei por poucas e boas. Cícera exigia muito de mim. Era sexo pela manhã, tarde e noite. Ela tinha um vigor extraordinário para uma senhora da idade dela. Apesar disso, o relacionamento era proveitoso para mim. Culturalmente, Cícera era muito versátil. Por exemplo, ela me apresentou o jazz de Chet Baker, o chorinho de Joaquim Callado e a música clássica de Sergei Rachmaninoff. Com sinceridade, o relacionamento também era proveitoso para Cícera. Por exemplo, eu acompanhava ela ao banco quando ela ia receber a aposentadoria.
    Um certo dia, para minha surpresa, Artur me visitou à noite. Cícera tinha ido a uma festa de aniversário de uma amiga. Eu não quis ir. Preferi ficar no apartamento. Vendo-me, Artur falou com espanto:
- Cara, tu tá muito magro. Tu tá parecendo aquele cara do filme "O Operário". Desse jeito tu vai sumir, goliardo.
- Sim, eu já emagreci 8 quilos em quatro semanas. Cícera vai me matar de tanto sexo. Tô comendo muito ovo de codorna. - Falei passando as mãos pelas minhas costelas.
- Tá louco, Estefânio! Ela é uma "sexogenária"? Ela é maníaca assim por sexo?
- Tô falando a verdade, Artur. Só falta ela ser sadomasoquista. - Artur sorriu. Perguntei-lhe. - Tu quer alguma bebida?
- Sim, como não. O que tem aí de bom?
- Tem vodca, uísque e champanhe.
- Porra, tu subiu de nível mesmo. Antes tu bebia só cachaça com alto teor etílico. Quem te viu, quem te vê. Eu quero vodca, Sir. - Falou Artur balançando a cabeça. Eu servi a vodka para mim e para Artur. Um instante depois, eu falei:
- Cara, fazia um bom tempo que eu não te olhava.
- É mesmo. Temos que ir no Senzala. - disse Artur passeando os olhos pela sala do amplo apartamento.
- Sim, com certeza. Qualquer dia iremos. Hoje eu não posso, pois eu tô recuperando as energias. Se eu morrer tu já sabe que quero meu velório ao som de "The Killing Moon" do Echo and The Bunnymen e o enterro ao som de "The Eternal" do Joy Division
- Posso te dar um conselho, Estefânio? Larga essa velha. Ela tá te matando, cara. - Artur me advertiu como um bom amigo. Em seguida, eu retorqui com profunda sinceridade:
- Eu não posso, Artur. Sinceramente, não posso deixar Cícera agora. - Ao responder, pensei na vida de Rilke. - Faço tudo isso pela poesia, simplesmente pela poesia, meu irmão.
    Realmente, a vida é dura mesmo...

sábado, setembro 13

O Funcionário do Mês

    Hoje acordei com uma vontade de ser o funcionário do mês. Já na cama pensei: "Poxa! Nunca fui o funcionário do mês naquela porra de loja". Levantei com esse pensamento a tilintar na cabeça. Fui direto para o banheiro. A água fria que jorrava do chuveiro era de arrepiar. Na pia depois do banho, eu escovava os dentes com preguiça, pensando na minha meta do mês. Pensava feliz da vida: "Quantos pares de tênis, sapatos e sandálias tenho que vender para ser a porra do funcionário do mês?". Saí com pressa do banheiro e entrei no quarto bagunçado para me vestir. Eu tinha que usar a camisa com o nome estampado da loja, uma calça surrada e um tênis que, vez ou outra, uso para correr numa praça próxima do prédio velho onde moro há três anos. Eu tive que descer rapidamente para pegar o ônibus das seis horas da manhã.
    Na parada de ônibus, estavam as mesmas pessoas que encontro diariamente. Hoje, justamente hoje, elas me olharam de outra maneira. Porventura, elas sabiam que eu seria eleito o funcionário do mês? Que alegria para mim foi pensar dessa forma. O ônibus passou com bastante atraso. Veio lotado como sempre. Fiquei espremido como sempre. Bem, peguei o ônibus cheio. Pensei que eu iria chegar atrasado e não era algo nada bom. Na longa jornada até o centro da cidade, eu fiquei escutando música pelo celular. Desci no ponto depois de uma hora de viagem e segui para a loja de calçados. Ao entrar na loja no horário certo, encontrei o gerente e outros funcionários. Eles me disseram bom dia, então para ser educado eu também respondi. Passei pelo atual funcionário do mês que estava com um sorriso largo na cara e muito bem vestido por sinal. O gerente com ar de importante veio falar comigo:
- Leve essas caixas lá para os fundos. - Ele apontou uma porção de caixas que estava no chão. Prestativo e eficiente, eu apenas movimentei minha cabeça afirmando que sim. Carregando as caixas, pensei em quantos pares de calçados eu teria que vender para me tornar a porra do funcionário do mês. Sei que isso não é algo como ganhar o prêmio Nobel, mas eu não posso morrer sem ser a porra do funcionário do mês. É esse meu objetivo do mês. É esse meu objetivo de vida. Eu ficaria frustrado a vida inteira se eu não fosse eleito, ao menos uma vez, a porra do funcionário do mês.

João Pessoa, Novembro 2009

Nick Drake - A Skin Too Few

O documentário "A Skin Too Few" aborda a vida do cantor e compositor inglês Nick Drake. A música de Nick Drake, durante o passar dos anos, foi ganhando um grande número de fãs, entre eles: Robert Smith do The Cure, o ator Brad Pitt e o saudoso Renato Russo. Amante da poesia simbolista francesa, principalmente de Charles Baudelaire e Arthur Rimbaud, Nick Drake - com sua alma amargurada - não encontrou o sucesso esperado durante o final da década de 1960 e o início da década de 1970. Suas canções no estilo folk bem rebuscado apresentam um toque fino no violão e suas letras idílicas/poéticas fazem de Nick Drake um dos grandes compositores (com alma de poeta), ao lado de Bob Dylan, Leonard Cohen, Donovan e Van Morrison. Nick morreu jovem aos 26 anos de idade em consequência de uma depressão profunda.


sexta-feira, setembro 12

River Phoenix Blues

  Tom: G
         
                 Vejo-o ao longe
                           caminhando ao vento
                       no frio cortante da noite
         como uma estrela alucinada
                                 explodindo em mil tons
                Divaga pelos campos
                            como uma borboleta multicor
                      voando de flor em flor
        perfumando o arco-íris
                               que brota no céu pálido
                 Parece com um garoto de programa
                                       na esquina maltrapilha
                      a esperar clientes imundos

                         Ele dorme em qualquer sonho de cais
         espera ao anoitecer uma droga a mais
                                                 há um vestígio de prazer
                     espalhado pela sala de estar
                                                  ele não desperta
                           apenas balbucia palavras vazias
               no apartamento que sangra

                       Vejo-o ao longe
                                 andando por desertos
                      em paisagens áridas
                                        anjo que não pode voar
                                mistura de silêncio e gemido
               nas estradas infinitas da dor
                               
Parece com um andarilho
                        deleitando-se nas praias brancas
                                             a tombar nas ondas
                                              
                            Ele age como um rebelde
        procurando o seio materno
                                     talvez procure um diamante fosco
                    no olhar de uma prostituta
                                        ou mesmo o sono leviano da morte

            Ó ave flamejante
                        voe pelas planícies formosas
              Busque o horizonte brusco
                                          longe do teu olhar
                            que se incendeia
         ao toque da madrugada


quinta-feira, setembro 11

SEXO, MENTIRAS E SANDÁLIAS HAVAIANAS



Por Michael Delacroix

Eu espero mesmo que teu vestido negro e sagaz caia na subida daquele coletivo, aquele coletivo que você toma sempre que deseja sentir-se devorada pelos olhares dos transeuntes. Uma espécie de Lady Godiva, Dama do Lotação do trânsito caótico da Ilha de São Luis. Um piscar de olhos e logo gotas de suor podiam escorrer por tuas pernas, e tendiam a secar na superfície da tua sandália havaiana decorada com crochê azul nas abas. Ainda lembro a primeira vez que você deixou que eu tocasse as tuas coxas, belíssimas coxas, foi a primeira vez que meu olfato pôde sentir que um vulcão mais abaixo esfumaçava de tesão, teu sexo, tua vulva deixou gravada na minha memória, a imagem refletida no espelho daquele motel, toda a serventia que uma fêmea pode causar na alma de um adolescente perdido, nos primeiros anos de vida sexualmente ativa. Uma ferida cálida que insistiu em ficar em algum lugar da minha língua, por conta da acidez de teus lábios vaginais. Era tua buceta esse misto de Vesúvio e praia deserta a noite.

Eu era apenas um garoto, quando tua mente promiscua resolveu me eleger o próximo para teus planos maldosos de mulher linda e exageradamente malvada sexualmente falando, tu me escolheste para ser vitima de quase um delito sexual, usando-me como cobaia eu um típico adolescente ginasial, adepto da masturbação desmedida três vezes ao dia. Era uma noite quente de setembro de um ano que nem lembro mais, porque lembrar? Ainda que tenha sido delicioso gozar entre tuas coxas e sentir o fulgor do teu beijo nos meus lábios, na minha boca. Tua maldade desde sempre consistia em um objetivo, um objetivo voltado contra minha secura juvenil. Eu acreditei mesmo que aqueles gemidos adivinham da penetração que eu naquele momento estava a fazer possivelmente na tua vagina, mal sabendo eu que somente a quentura apertada que vinha da parte interna das tuas coxas me fizeram uivar de prazer como um lobo no cio, um lobo juvenil numa dessas noites perdidas de lua cheia nos montes de uma cidade capital sul-americana.

terça-feira, setembro 9

Cassandra

    Lá estava eu ao cair da tarde escutando Leonard Cohen e bebendo uma boa pinga quando Cassandra chegou muito irritada após o trabalho. Há dois anos, ela trabalha em uma loja de calçados. Às seis horas da manhã, Cassandra sai para pegar o ônibus e por volta das dezoito horas ela chega em casa. Eu estava no sofá bem tranquilo. Ao se aproximar de mim, ela falou irritadiça:
- Porra! Você não faz nada além de beber e de escutar essas merdas. Muito bonito! Você fica bebendo essas porcarias o dia inteiro enquanto eu trabalho. Isso vai ter que acabar. Viu?!
    Simplesmente não falei nada. Eu esperava que ela chegasse mais doce e calma, uma vez que hoje é o aniversário da mãe dela. Pela manhã, eu tinha feito um poema para Cassandra chamado "Estrelas Dúbias". Desse jeito que ela estava, eu não poderia presenteá-la com minha criação poética. Não fiquei nenhum pouco zangado com a bronca dela. Imaginei ela se despindo, tirando aquela camisa horrível da loja, enquanto eu jogava sobre ela um pouco de vinho. Lá em casa não tinha uma garrafa de vinho, então eu teria que jogar cachaça mesmo. Ela ainda estava parada diante de mim quando me perguntou:
- Você ligou pra minha mãe? Hoje é o aniversário dela, lembra?
- Eu liguei pra ela a cobrar, mas ela não retornou, amor. - falei levando mais um copo de pinga para a boca.
- Você é um insensato mesmo. Você liga pra minha mãe a cobrar no dia do aniversário dela. É muita cara de pau! Claro, você gasta com bebida todo seu dinheiro do seguro-desemprego e não coloca a porra de um crédito nessa merda de celular.
- Meu amor, a culpa é do Rimbaud. Eu bebo assim desde dos meus dezessete anos e você já me conheceu assim. Então, vai tirando essa tua faceta de boa conselheira para cima de mim. Além disso, devo te lembrar que tua mãe não gosta de mim.
- Culpa de Rambo, nadica de nada! Você nem gosta de filmes de ação. Você fica assistindo esses filmes franceses chatos. Eu só te peço para tirar essa bunda do sofá e procurar um emprego. Eu não vou ficar trabalhando sozinha pra sustentar você, seu vagabundo. Nem a universidade você terminou. Que vida, meu Deus! Minha mãe já gostou de ti, mas agora ela não gosta mais. Simples assim.
    Eu só queria beber em paz. Pelo andar da carruagem, eu teria que me explicar a noite inteira para Cassandra. Na verdade, eu não queria explicar que eu assistia filmes suecos e não franceses, e nem falar quem foi Rimbaud. De fato, ela não compartilhava dos meus gostos literários e de Cinema. Além do mais, ela sabia que eu tinha alguns contos e iria publicar um livro; apenas eu não sabia quando. Mas isso para ela era coisa de vagabundo. No começo do nosso relacionamento, ela me apoiava muito e também gostava sinceramente dos meus poemas. Com o passar dos anos, ela mal lia minhas criações e isso me deixava bastante puto. Muita coisa mudou.

*
    Conheci Cassandra numa bela tarde. Isso já faz quatro anos. Me lembro muito bem. Eu estava indo para a casa de um amigo chamado João Paulo, que morava no Cohatrac. Toda tarde eu ia à casa dele para beber um pouco de vinho. Na rua da casa desse meu amigo eu seguia escutando uma  música barulhenta quando eu cruzei com uma loira - era Cassandra. Trocamos um olhar demorado. Depois de alguns dias, eu cruzei novamente com ela. Não perdi a oportunidade.  Perguntei-lhe as horas e depois perguntei seu nome. Que grande tolice! Conversamos durante alguns minutos, trocamos telefone e seguimos em sentidos contrários. Ela era meio patricinha, enquanto eu era um punk desajustado. A primeira vez que eu liguei, ela disse que estava "navegando" na internet. Na segunda vez, marquei um encontro com ela na frente da Igreja Católica. Ficamos na praça onde hoje em dia ocorre o Sebo no Chão aos domingos. A conversa foi bem agradável e falamos de nossas infâncias e de coisas supérfluas. Ela amou quando eu declamei um soneto de Vinicius de Moraes. Repetidas vezes eu já tinha feito isso e nenhuma das garotas que eu conheci tinha realmente gostado, mas a Cassandra ficou vislumbrada.
    Um belo dia meu amigo me emprestou a casa em que ele morava junto  com a mãe anciã. Ele me jurou que a mãe dele não estaria em casa em certa hora da noite. Ao passar do portão eu observei que a anciã estava na casa. Eu peguei o celular de Cassandra e liguei com raiva para meu amigo. Ele disse que a mãe dele estava doente e que ficaria deitada na cama. Desliguei meio contrariado. Havia uma cisterna na casa dele. A cisterna estava vazia. Vi que tinha uma escada. Convidei Cassandra para irmos lá para baixo. No início, ela ficou meio receosa, todavia ela aceitou. Eu desci primeiro. Ajudei ela na descida. Começamos a nos beijar lentamente, por algum tempo, naquela escuridão. Fiquei logo excitado e tirei a roupa dela, pois vi que ela estava muito excitada. Pedi para ela ficar de quatro. Ela gemia quando eu a penetrava. Ela gozou. Eu demorei um pouco para gozar. Ao subirmos, ela me avisou que tinha ralado os joelhos. Começamos a rir juntos. Depois desse dia, nos encontrávamos com certa regularidade. O namoro foi ficando sério, até o dia em que juntamos os trapos.
    Cassandra começou a trabalhar na loja de calçados depois de nosso casamento. Eu fazia faculdade de História na época do casamento, mas na universidade eu só bebia sem parar. Eu ia para o Sá Viana jogar sinuca e beber. Invariavelmente, eu não assistia as aulas. Morávamos em uma quitinete apertada, onde pagávamos o aluguel com bastante esforço. Às vezes, nossos pais ajudavam no aluguel e na despesa do mês. Uma certa vez eu peguei um dinheiro na casa da mãe de Cassandra para comprar alimentos. No supermercado, eu fui direto para a seção de bebidas e comprei alguns litros de vodka e whiskey. Desde desse fatídico dia a mãe de Cassandra não gostou mais de mim. Foi apenas um pequeno incidente. Então, eu decidi arrumar um emprego. Na verdade, arrumei um emprego bem modesto em uma concessionária de veículos usados. Após um ano eu fui demitido. Meu chefe alegou que eu estava chegando muito tarde no serviço. Comecei a escrever e beber com intensidade depois disso.

*
    Cassandra ainda estava postada como uma estátua diante de mim. Com as mãos na cintura, ela esperava alguma reação minha. Não sei o que aconteceu  para ela estar como um vulcão em erupção.  Acho que ela teve um dia difícil no trabalho. Ao tornar-se gerente da loja, ela descascava muitos pepinos. Como saída para tentar apaziguar o ânimo de Cassandra, perguntei como tinha sido o dia dela. No entanto, veio mais uma bronca, que eu não dei a mínima atenção. Depois da bronca, Cassandra se dirigiu enraivecida para a cozinha. Na volta para a sala, veio com um copo vazio na mão. Ela me olhou séria e disse:
- Coloca um pouco disso pra mim, seu imprestável.

sábado, setembro 6

TRIPS

TRIP #1

Ele tinha um rádio na cabeça
                        quando saltava com paraquedas
           de aviões imaginários

Ele tinha sonhos surrealistas
                        quando corria entre as nuvens
            que gritavam tempestades

Ele tinha um motor na cabeça
                         quando gemia nas noites ternas
             a  evocar poetas embriagados

TRIP #2

Vi peixes carnívoros
                  devorando meus desejos
                              nos oceanos índigos

Vi metralhadoras insanas
                   cuspindo cadáveres
                                     nas terras santas

Vi anjos epiléticos
                    voando entorpecidos
                                      em becos sujos

Vi estrelas frígidas
                    explodindo enraivecidas
                                       em universos paralelos

E finalmente vi a morte cavalgando
                           nos campos da fome
                                            enquanto políticos sorriam
                                                                       em iates espaciais

TRIP #3

                   Sonhei que eu era uma barata
uma barata morta
                 que foi pisoteada
      Havia livros pelo chão
                              e também ratos a passear
           Lembro de um aquário
                      e de uma urna grega

             Sonhei mesmo
                    Sonhei que eu era uma barata

TRIP #4

Caravelas lunares
             cruzam o Mar da Tranquilidade
      Enquanto isso
            meus sonhos estelares
                    encontram um buraco negro
e acabam-se os sonhos
           na putrefação da Via Láctea


                                                                                      João Pessoa, outubro 2009

quinta-feira, setembro 4

Mopho - Psicodelia à brasileira

Uma banda como Mopho não pode passar despercebida e não ser reverenciada com o devido respeito. Ouvir essa banda alagoana é uma dádiva para os ouvidos com toda a certeza. Formada em 1993 - pelo vocalista/guitarrista João Paulo, pelo tecladista Leonardo Luiz (teclado), pelo baixista Júnior Bocão (baixo) e pelo baterista Hélio Pisca -, o grupo foi influenciado principalmente por Mutantes e Beatles. O quarteto de Maceió gravou o primeiro álbum sob a batuta de Luiz Calanca, sendo que esse trabalho foi lançado em 2000 pelo selo Baratos Afins da cidade de São Paulo. O ex-mutantes Arnaldo Antunes elogiou o álbum dos alagoanos e a crítica musical aclamou o trabalho de estreia com bastante intensidade. De fato, o álbum homônimo da trupe de Maceió é um dos melhores trabalhos da década de 2000 em nível mundial. Escute para comprovar. Dixi.

quarta-feira, setembro 3

Prisão

                               
                        Sigo volátil pelas tuas coxas
           como um vendaval incerto
                                 que percorre teus pelos em riste
                    à procura de sensações sublimes
                                               em uma noite sem luar

                   Já conheci abismos e pântanos
                                            agora ando por teus vales profundos
                         tateando pontos por demais sensíveis
                                    qual um andarilho sem lar
            ... Nos teus seios pontiagudos
                               atinjo cordilheiras inimagináveis

                       Perco-me incrédulo em labirintos
                                             e nem me importa a saída
                          nem Medusas & Minotauros
                                      neste instante só o êxtase me estimula

            Venero tuas ancas sensuais
                                  como a um deus antigo
      & imagino-te refém de meu gozo
                                         & também imagino-me réu em teu tribunal

               Já me considero condenado
                                       à prisão perpétua
                                                        nas masmorras de tua carne