quarta-feira, março 14

O Sal Da Terra



Vou para caverna de sal, como fazia Van Gogh, calar meu pensamento e estabilizar o humor. Queria ir pra Minas, “Minas não há mais”!

Vou para as cavernas das minas de sal de lítio, ou qualquer lugar amarelo que me dê fome, que me dê sede, que me sacie. Gritar palavras sem sentido, me masturbar, fertilizar o solo, fertilizar o óvulo. Talvez encontre sossego nos braços da madura carente ou nos seios da perturbadora ninfeta.



Esse aqui não é meu lugar. Meu lugar é qualquer lugar onde eu não precise sentir solidão, pra ter silêncio. Vou para uma caverna, de mina de sal abandonada, onde talvez eu encontre Descartes, quem sabe ele me ajude a descobrir se eu penso ou se só existo. Vou esperar por mim, vou ouvir meu egoísmo, criticar minha caridade, matar tudo que é mesquinho e dispensar as convenções.

Estou onde queria estar, no ponto de partida. Aqui não é o meu lugar. Quero ir para uma montanha e dançar com os pensamentos errantes.

Quero ir para a taverna, encontrar os poetas do mal do século, dizer que até hoje todos lêem suas mortes, que são marcos, mas que não são mártires, que suas vidas foram misérias literárias. Quero encontrar Castro Alves e a Princesa, dizer parabéns por semear a liberdade!

Quero encontrar Drumonnd, Neruda, Vinícius e Shakespeare para perguntar sobre o amor, esse demônio que possuiu minha alma. Quero um referencial teórico, discutir a metodologia. Criar minha própria tese, que só eu poderei entender, mas servirá de referência a quem procura respostas em livros de auto-ajuda. O que vale é viver o amor, os resultados previsíveis serão sempre estatisticamente incorretos.

Quero o silêncio da praia, balançar com as ondas, ver o branco dos lagos de sal, mas ao descer da rede quero pisar as ruas de pedra por onde andam os viciados, onde ingleses, franceses e até americanos procuram arte na criação de hippies. Quero ouvir Buarque cantando cálice, e afastar de mim a repressão.

Quero uma tela branca, tinta e aquarela. Não mais importa a harmonia das cores, curvas e retas se misturam livres da métrica cubista, sem a impressão renascentista. Quero apenas lançar minha alma na tela, para que veja meu coração como está. Para descobrir se ainda gosta. Querer me beijar ou escarrar de vez. Sei enxugar minha face.
Tenho minha pena em suas pernas. Dei-me suas páginas para que eu escreva uma poesia. Quero escrever sobre o amor.

Queria ir pra uma mina de sal e esperar por mim, mas parte do que fui agora é sombra, e a sombra sempre fica pra trás quando se caminha para onde nasce o sol. Quero andar por aí com o sal no corpo, com o suor de quem não se senta em mina alguma, me espalhar pelos caminhos.

O sal está em todos os lugares, no sódio no mar, no carbonato de lítio, sal de frutas, no suor do abraço, no suor de quem sente medo, nas lágrimas que não pude enxugar, o sal nas bordas na taça, o sal da vida. Quero lamber o sal do mundo todo, não quero mais saber de cavernas.


Um comentário:

Anônimo disse...

Alexandre muito bom amigo velho, gostei bastante desse texto!! aguardo os próximos.


Natan.