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terça-feira, julho 3

Refúgio




 Ilustração de Klyssya Martins

Hoje eu decidi visitar aquele nosso refúgio. Aquele quartinho dos fundos carregado com tralhas e lembranças...

    Estou nesse exato momento acomodado num canto daquela cama ortopédica desconfortabilíssima, mas você parece não se importar e dorme como um anjo bêbado, enquanto eu reclamo de dor nas costas e ameaço ir dormir no chão, pra variar.

         Quando entrei, fiz questão de deixar a porta entreaberta e a luz apagada. Notei que, muito curiosamente, o ventilador apontava para o teto, como se detectasse algo suspeito. Agora ele está no local de onde nunca deveria ter saído: sob a tábua de passar roupas. Ligado sempre na velocidade dois, já que a três é forte demais e me irrita profundamente ao jogar as folhas de papel à mercê da gravidade. A velocidade um me irrita também porque é tão ridiculamente fraca que me faz desejar um leque de senhora.

        Falando no ventilador, o café fica acomodado fora do seu ângulo de alcance, para que sua temperatura se mantenha alta e agradável por mais tempo. Lembra do cheiro do hálito impregnado com o café? É exatamente esse o que toma as dimensões do quarto a cada exercício de respiração que eu faço. O aroma forte e marcante, exatamente como o gosto.  Assim como tudo deveria ser: forte e marcante. Como em DayTripper.

           

sábado, junho 23

Famintos



Ilustração de Tammys 

Em frente a minha casa, monstros enormes derrubam árvores, destroem casas e erguem montanhas de terra vermelha.

Algumas vezes os vemos levando nossa terra nas costas. Outras vezes a levam entre os enormes dentes de aço.

Enfrentá-los? Quem ousaria?
Apenas aguardamos pacientemente...
O ar vai ficando cada vez mais rarefeito.

À noite é impossível dormir com os rugidos famintos dos monstros. Eles nunca ficam satisfeitos e nunca pararam pra pensar nas pequenas criaturas que habitam a região.
Estamos reunidos e muito assustados, rezando para que isso um dia acabe. Nossas árvores, nossa terra, nosso ar... Alguém os trará de volta um dia? E será que viveremos esse dia?


Enquanto isso, os rugidos famintos anunciam o fim dos tempos.

sábado, junho 9

Amigos Valem mais do que Asfalto


Era uma vez uma cidade muito, muito pobre, onde asfalto era sinônimo de desenvolvimento.

- A minha rua tem mais asfalto que a sua! – Diziam os meninos burgueses que tinham o privilégio de morar numa rua devidamente pavimentada...Mas as casas ali custavam muito caro. Enquanto isso, os mais pobres tinham que arrastar seus tênis velhos pelas ruas de piçarra, impróprias para o trânsito dos skates. O skate era uma paixão comum entre eles todos.

terça-feira, maio 29

Velha nova Marca


Ilustração de Tammys

Sempre tive o hábito (ou mania, chame como quiser) de me observar por longos instantes no espelho, principalmente antes de entrar no banho. É importante conhecer a si mesmo: apenas eu e meu reflexo. Corpo e mente.

Mas eu me pergunto: realmente me conheço?
E a resposta veio outro dia quando eu fui surpreendido enquanto me observava após ter cortado o cabelo e, num baque, descobri uma marca fincada em minha testa. Uma suave lembrança que a catapora me deixou... Durante quantos anos ela esteve lá, escondida, fazendo parte de mim sem ao menos ser notada?
Nos meus cálculos, uns dezesseis.

quarta-feira, maio 23

Alguns Segundos


Alguns minutos... Talvez segundos.
Então...  Alguns segundos e falta de coragem, ânimo e até motivos para dirigir alguém à palavra.
É essa a linha tênue entre a solidão ou uma noite de sexta-feira num bom lugar, com uma boa conversa e em ótima companhia.

É chato esperar.  Todo mundo já sabe e certamente já passou por isso. Então, por que esperar por algo que não conhecemos? Ir direto ao assunto não seria mais simples? Apenas um “olá” e, de repente, você é surpreendido vendo o rumo das coisas mudando para algo infinitamente mais interessante.

O fato de não conhecer não implica exatamente em não sentir falta. Às vezes o que você não conhece é exatamente o que você precisa.

E depois de três cervejas, tudo começa a ficar claro.

quarta-feira, abril 18

Estou “done”

Eu acho que estou cheio.
É, deve ser. Talvez eu não possa aguentar mais.
Como dizem naqueles filmes em inglês com legendas: “I’m done”.
E talvez você se pergunte: nossa, mas cheio de quê? E é aí que a coisa complica de verdade. Eu simplesmente não sei... Ou talvez saiba e não quero trazer isso à tona pra mim mesmo. A verdade é que quando eu escrevo, ou é para descomplicar algo que está na minha cabeça ou para não sair na rua com a plena certeza de ser o Van Damme e que, por algum motivo, eu creio que apenas por ter visto “O Último Dragão Branco”, sou perfeitamente capaz executar aquela voadora sensacional em qualquer inocente que vir na rua. Mas o que realmente acontece é que eu tenho medo de apanhar, e com a minha falta de sorte, partiria minha cervical no primeiro protótipo de golpe.
Então... No momento estou na companhia do Cícero. Não o pensador. Parece que é vergonhoso alguém que não é intelectual citar algum intelectual... Soa como se quisesse impressionar os outros, dar uma de Cult. Se querem saber, o Cícero que me acompanha é o músico, que, aliás, é sensacional... E me conforta mais do que qualquer pensador ou bebida.
Voltando ao assunto chato, eu estou “done”. Talvez seja frustração ou falta de coragem. Falta-me coragem de mudar as coisas, de buscar o que não está perto. Parar de viver em função do que é imediato, e aos poucos talvez eu vá encontrando o que realmente me assola.  Olha que evolução! No início eu não queria saber, mas agora eu admito: eu continuo me achando inútil. Arrumei um estágio, mas continuo sem produzir, sem ler tanto quanto devia ou escrever tanto quanto queria. E a conseqüência é que me sinto ausente. Tanto pros outros como para eu mesmo.
Sabe... Pra mim a verdade é que escrever sobre si mesmo é um tanto egoísta. É como ignorar milhões de histórias muito mais interessantes, pedindo para ser escritas, sem se importarem de ficar salvas e perdidas para sempre no mundo dos arquivos (que muito provavelmente será o destino disso que escrevo agora). Escrever sobre si mesmo é como achar que as coisas que você passou na vida são mais interessantes, sofridas, comoventes que as de qualquer outra pessoa no mundo. Ah... Derramarei lágrimas quando for velho e ler esse papel, esquecido dentro do “Eu” de Augusto, ou de alguma revista da Valentina.
 Escrever sobre si mesmo é tão egoísta quanto achar que você não tem nada, e que precisa de muita coisa na vida para ser feliz, sem perceber que felicidade é um estado de espírito inconstante e, muitas vezes, breve. Nunca existiu o “ser” feliz. Apenas o “estar” feliz. Terminar o ensino médio não vai te tornar uma pessoa feliz. Entrar para a faculdade não vai te tornar uma pessoa feliz e, muito menos terminar a faculdade. Ser um professor, um engenheiro, um médico ou um escritor não vai te tornar uma pessoa feliz.
Acontecerão coisas que te deixarão triste. Sentir falta do colégio vai te deixar triste, ter que ser mais responsável vai te deixar triste, não ter tempo para viver vai te deixar triste. Não ter dinheiro nenhum vai te deixar triste, sentir fome vai te deixar triste, não ter um emprego vai te deixar triste, sentir frio nos pés à noite vai te deixar triste.
Mas acontecerão coisas que te deixarão feliz. Passar no vestibular vai te deixar feliz, a alegria dos teus pais vai te deixar feliz, a festa de formatura vai te deixar feliz, receber o primeiro salário vai te deixar feliz. Ganhar uma moeda de cinqüenta centavos vai te deixar feliz, ter algo para comer no almoço vai te deixar feliz, poder trabalhar dignamente vai te deixar feliz, comprar um par de meias e um cobertor quentinho vai te deixar feliz.
Seria tão mais fácil se as coisas simplesmente acontecessem. Vivendo e aprendendo a driblar o fracasso. Fracasso é andar em círculos pela casa pensando em algo para fazer.