quinta-feira, julho 31

Good Don't Sleep - Debut do Egyptian Hip Hop

O ressurgimento do synthpop pelas bandas de indie pop é uma realidade bem concreta. As influências musicais de bandas da década de 1980 - tais como Duran Duran, Talk Talk, Associates e Simple Minds - têm inundado a cena atual com muitos sintetizadores. Um exemplo bem visível disso é a banda inglesa Egyptian Hip Hop, constituída por Alex Hewett (vocal, guitarra, teclado), Louis Stevenson-Miller (guitarra, baixo, teclado), Nick Delap (baixo, guitarra) e Alex Pierce (bateria). Começando as atividades em 2008 na cidade de Manchester, o grupo (na faixa de idade entre 16 e 18 anos) lançou alguns EPs antes que assinasse com a R&S Records para a gravação do trabalho de estreia, Good Don't Sleep, que veio a público em outubro de 2012. Esse trabalho era muito aguardado pelo fãs e pela imprensa especializada, devido ao sucesso dos EPs iniciais. Por isso, decidiram se afastar dos holofotes durante dois anos para se concentrarem na confecção de Good Don't Sleep.
A faixa de Abertura de Good Don't Sleep é "Tobago", que mergulha o ouvinte no clima de sintetizadores precisos. A voz etérea de Alex Hewett aumenta a atmosfera da canção. Em seguida, "The White Falls" nos remete aos anos 1980, intoxicando-nos com synths acachapantes. O ar soturno de "Alalon", em sintonia com a capa do álbum, exibe a cadência menos dançante observada em singles como, por exemplo, "Rad Pitt". Na sequência, vem à tona uma das melhores faixas do álbum, "Yoro Diallo", que mostra toda a exuberância melódica do Egyptian Hip Hop (EHH). Novamente, "Strange Vale" reverbera a sonoridade soturna de Alex Hewett e companhia. Com toques de rock progressivo "Snake Lane West" catalisa nossos ouvidos, enquanto "Pearl Sound" evoca o shoegaze em virtude do vocal enterrado e quase inteligível. Esta última canção soa como um produto do Cocteau Twins - banda escocesa das décadas de 1980-90 que influenciou meio mundo.  Os sintetizadores exuberantes em "SYH" cativam em primeira audição. Em "One Eyed King", o suave crescendo leva-nos lentamente para um mar de sintetizadores, onde a voz de Alex Hewett parece diluída. O fechamento do álbum é realizado por "Iltoise", que demonstra o dream pop no bojo sonoro do EHH.
Pode-se afirmar que o hiato de dois anos sem qualquer lançamento de EPs foi uma escolha bastante acertada. O EHH optou inteligentemente em enclausurar-se no estúdio para a gravação do seu debut,  ficando assim livre de pressões e grandes expectativas. Com isso, veio também o amadurecimento musical e a certeza do rumo a seguir com seu synthpop progressivo. Para desencargo de consciência, o grupo de Manchester lançou seu primeiro trabalho sem exagerar nos sintetizadores e em ritmos mais dançantes, optando na busca pela coesão musical. De fato, Good Don't Sleep é um álbum para ser desfrutado com ouvidos sinceros, uma vez que é um dos trabalhos mais expressivos do ano de 2012.
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segunda-feira, julho 28

Man Alive - Debut do Everything Everything

Everything Everything mistura um turbilhão de influências musicais em sua sonoridade emblemática e complexa. Atualmente, a banda de Manchester é uma das principais do cenário art rock. Formada em 2007 por Jonathan Higgs (vocal, guitarra, teclado), Jeremy Pritchard (baixo), Alex Robertshaw (guitarra) e Michael Spearman (bateria), o Everything Everything (EE) traz, em sua bagagem musical, elementos díspares de rhythm 'n' blues, música eletrônica, rock progressivo, funk e pop das massas. O grupo da cidade de bandas como Joy Division, The Smiths e Oasis tem sido aclamado como os novos picassos do pop devido principalmente à estrutura sonora, que beira o inexplicável, apresentada no excepcional debut, Man Alive, lançado em 2010. Esse álbum foi legitimamente um dos grandes lançamentos daquele ano e merece sem sombra de dúvida ser abordado e discutido com frequência.
Na abertura de Man Alive, temos "MY KZ, UR BF" (My Keys, Your Boyfriend), com mudanças constantes de tempo que revelam a seção rítmica harmoniosa do EE. O vocal de Jonathan Higgs acentuado em um falseto peculiar é um destaque nessa faixa e no álbum inteiro. Em seguida, o ritmo frenético de "Qwerty Finger" nos contagia com seus sintetizadores. O baixo de Jeremy em "Schoolin'" é o destaque principal e também o canto nervoso de Higgs. Na sequência, a suave "Leave The Engine Room" é uma canção que atinge o âmago do ouvinte. Em "Final Form", o baixo incandescente de Jeremy novamente impressiona, além do arcabouço sonoro com  elementos de math rock. Depois, temos "Photoshop Handsome" que aborda o culto obsessivo à beleza. O falseto de Higgs nessa faixa é levado ao limite. Entra em cena o pop barroco "Two For Nero", com direito a cravo e harmonias vocais. No tocante a "Suffragette Suffragette" - o centro de gravidade do álbum -, que faz menção ao movimento feminista Suffragette, temos a guitarra nos moldes de Radiohead. A rebuscada "Come Alive Diana" traz à tona toda a carga enérgica do EE, enquanto a balada "NASA Is On Your Side" é um colchão veludo para Higgs soltar seu canto em falseto. Continuando as pérolas, as harmonias vocais se elevam em "Tin (The Manhole)" e na faixa que encerra o primeiro trabalho do EE, "Weights".
Vale pontuar primeiramente as letras futuristas/dadaístas de Jonathan Higgs, carregadas de múltiplas referências, com versos bem tecidos são um ponto forte da banda. A influência musical do EE vai de Talking Heads a Radiohead, perpassando por Michael Jackson. Como já falado acima, Man Alive é um dos melhores e mais criativos álbuns de 2010. As doze canções que compõem o debut do quarteto de Manchester é um manancial de ritmos e melodias nada usuais. Parece mesmo que eles são os novos picassos do pop.
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quinta-feira, julho 24

Século Sinistro - Novo Álbum do Ratos de Porão

A banda paulista de crossover Ratos de Porão lançou um novo trabalho. Século Sinistro é o novo álbum do grupo de João Gordo e companhia, que apresenta um som repleto de hardcore punk junto a heavy metal. A capa sensacional do álbum é obra do grafiteiro Ricardo Tatoo, que retrata um grupo zumbizóide erguendo smartphones em meio aos caos apocalíptico. Com 13 faixas de pura pancada, o Ratos distribuí toda sua raiva, atacando a repressão policial, vício na internet e toda sorte de mazelas. Guitarras velozes e pesadas dão o tom em Século Sinistro.  Parece que o apocalipse chegou antes da hora.
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quarta-feira, julho 23

correndo na bike xxXx


voando na rua
♫hj eu só queria um dia claro q passou♫
brega, canalha, acelerado,
e rindo de alguma maluquice
dobro a direita,
subo uma avenida
pego a esquerda
atras de uma mina que me abrigue
como tantas x já rolou
paro e grito seu apelido
bem na porta suadão
já são quase 12 hrs da noite
vem logo me atender, vai

Drugstore Cowboy e o Cinema Singular de Gus Van Sant

Para Diego Pires - idealizador do Movimento Sebo no Chão

 
Conhecido por filmes que focam jovens marginalizados ou disfuncionais, o cineasta estadunidense Gus Van Sant é um dos realizadores mais cultuados do cinema independente e também do mainstream. De fato, Van Sant navega com precisão nos dois opostos: enquanto o cinema independente dá liberdade criativa para os diretores, o cinema hollywoodiano ensopa-os com volumosos recursos financeiros, mas poda a criatividade artística dos diretores. Via de regra, o diretor/roteirista de "Garotos de Programa" sabe se impor diante dos produtores de Hollywood, não aceitando a interferência destrutiva em sua obra cinematográfica. Tendo iniciado no cinema independente, Van Sant conseguiu destacar-se na década de 1980 estreando com o filme "Mala Noche", que foi financiado pelo próprio cineasta.
Fortemente influenciado pelo cinema underground nova-iorquino e pela literatura da geração beatnik, Van Sant foi inclusive amigo do poeta Allen Ginsberg e do escritor William S. Burroughs, além de admirador dos filmes experimentais de Andy Warhol. Por isso, Van Sant interessa-se por toda sorte de personagens que estão à margem da sociedade, tais como: drogados, prostitutas, bêbados, ladrões, etc. Com efeito, seus filmes são panoramas fiéis das ruas inundadas pelos losers (aqueles que não fazem parte do american way of life) e por jovens perturbados. Esse seria o leitmotiv para toda a carreira de sucesso - e alguns insucessos - desse magnífico diretor, que retrata poeticamente o submundo.
No vasto catálogo cinematográfico de Van Sant, temos os filmes mais expressivos: "Mala Noche" (1985), "Drugstore Cowboy" (1989), "Garotos de Programa" (1991), "Gênio Indomável" (1997), "Encontrando Forrester" (2000), "Gerry" (2002), "Elefante" (2003), "Paranoid Park" (2007) e "Inquietos" (2011). Esses filmes trazem todas as características do cinema singelar do diretor de "Milk - A Voz da Igualdade". Principalmente com "Garotos de Programa" (tendo no elenco os atores Keanu Reeves e River Phoenix) e com o grande número de indicações ao Oscar por "Gênio Indomável", Van Sant agradou os produtores hollywoodianos, podendo assim incursionar em filmes com grande orçamento, tal como o citado "Milk", no qual Sean Penn ganhou o Oscar de Melhor Ator. Entretanto, o filme que trouxe os holofotes para o cineasta foi a película do cinema indie "Drugstore Cowboy", que projetou sua excelente carreira cinematográfica e deu-lhe culto diante de inúmeros cinéfilos.
"Drugstore Cowboy" conta a história de Bob e seu grupo de assaltantes. No melhor papel de sua carreira, Matt Dillon encarna Bob, um carismático e supersticioso líder de um bando de assaltantes viciados por entorpecentes, que procura em farmácias e hospitais o meio tanto para alimentar seu vício em drogas como para tirar seu sustento diário. O bando de Bob é composto pela sua esposa Diane (a belíssima Kelly Lynch), seu amigo Rick (James LeGros) e Nadine (Heather Graham) - os dois últimos um casal de namorados. Após um roubo bem sucedido, Bob e companhia são procurados pela polícia, que revista minuciosamente a casa da quadrilha atrás de provas. A polícia nada encontra. Decidem assim partir para o interior com o objetivo em tirarem a polícia de seu encalço e, deste modo, planejarem novos assaltos. Todavia, ocorre uma tragédia intimamente ligada a uma superstição (“nunca deixe um chapéu em cima da cama, porque dá azar”), que faz o ex-presidiário Bob parar sua vida pregressa devido à sorte que o abandonou e não à consciência pesada. Ao tirar-se da vida bandida, Bob entra em um processo de reabilitação a partir do uso de metadona. Na clínica, Bob encontra um velho conhecido seu: um ex-padre viciado em drogas (papel do escritor beat William S. Burroughs - autor de "Almoço Nu"). O ex-assaltante consegue arrumar um modesto emprego, mas sua sorte muda novamente ao querer defender um jovem de dois traficantes. Isso trará consequências funestas para nosso anti-herói. Em meio a esse torvelinho, é a oportunidade que Bob tem para deixar de vez sua vida marginal para trás.  
Dignas de nota, as cenas surrealistas, que transmitem as alucinações de Bob, são um importante componente visual como, por exemplo, a cena na qual flutuam colher, porco, seringa, árvore, etc. Convém destacar, além disso, que o filme é baseado no livro autobiográfico de James Fogle, sendo adaptado por Gus Van Sant e Daniel Yost. Inclusive, a adaptação ganhou o prêmio de Melhor Roteiro no Independent Spirit Awards em 1990. Diferentemente de Darren Aronofsky em "Réquiem Para Um Sonho" e Danny Boyle em "Transpotting", Gus Van Sant em "Drugstore Cowboy" conseguiu filmar com desenvoltura um tema de difícil abordagem, sem projetar valores morais ou colocar à tona a glamorização do mundo das drogas. É um filme imperdível.
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quarta-feira, julho 16

Buffalo '66 e o Cinema Indie de Vincent Gallo

Por Paulo Dias
Vincent Gallo é um polivalente no cinema indie estadunidense. Atuando como ator, músico, diretor, editor e roteirista, Gallo - natural da cidade de Buffalo - formou em 1978 na cidade de Nova York uma banda experimental com o artista Jean-Michel Basquiat. Trabalhou também como modelo e artista plástico, passando depois a atuar em filmes do underground. Dando seguimento à carreira no cinema, o ator de "Tetro" de Francis Ford Coppola atuou em filmes de diretores consagrados, tais como: Claire Denis, Abel Ferrara, Bille Auguste e Martin Scorcese.

Como diretor e roteirista, Gallo tem filmado constantemente desde longas-metragens a curtas nos últimos anos. Com alguns filmes polêmicos em seu catálogo, que provocam a ira de críticos cinematográficos e vaias do público, Gallo não está preocupado em ser benevolente e nem em agradar, como na cena de felação ao lado da atriz Chloë Sevigny em "The Bunny Brown". Exemplo de wild child no cinema, o ator de "Matança Necessária" (Essential Killing) do diretor polonês Jerzy Skolimowski tem realizado seus longas de forma independente, inclusive encarregando-se de funções múltiplas como operador de câmera, editor e diretor de fotografia.

No currículo de diretor, Vincent Gallo tem "Buffalo '66" (1998), "The Bunny Brown" (2003) e "Promises Written in Water" (2010). Até o momento, o esplêndido "Buffalo '66" é o filme com maior destaque em sua carreira, recebendo muitas críticas favoráveis e inclusive tendo um número apreciável de fãs. De fato, esse filme trouxe muito prestígio para Gallo no mundo do cinema independente devido a sua grande engenhosidade técnica e história cativante.

"Buffalo '66" conta a história de Billy Brown (interpretado por Vincent Gallo), um recém-libertado da prisão, que foi preso para pagar a dívida de uma aposta de um jogo de futebol americano. Ao sair da prisão, o jovem pretende matar o ex-jogador Scott Norwood do Buffalo Bills, responsável pela perda do título do campeonato contra o New York Giants e também responsável por todo o infortúnio de Billy. Com o desejo de vingança na cabeça, Billy rapta a dançarina de balé chamada Layla (a atriz Christina Ricci), objetivando que ela se faça passar por sua esposa. Querendo visitar seus pais, que não tinham conhecimento de sua prisão, Billy encena com Layla um típico casal feliz em meio à família disfuncional do jovem sequestrador. A mãe de Billy (a hilária Anjelica Huston) é uma fanática torcedora do Buffalo Bills que se arrepende do dia do nascimento do filho ser justamente o dia que seu time querido ganhou o único título, enquanto seu pai (o excelente ator Ben Gazarra) é um frustrado cantor que não liga minimamente para seu filho. Diante disso, somos lançados no mundo familiar tortuoso de Billy, em que a negligência e o desprezo fizeram parte de sua triste infância. No decorrer do filme, a passiva Layla vai se afeiçoando ao atormentado Billy, e percebe-se que nosso anti-herói não é muito afeito às relações amorosas. Rumo ao desfecho do filme, Billy procura Scott Norwood, agora dono de um cabaré, para finalizar seu plano de vingança. Gallo elaborou dois finais possíveis para a película: um mais dramático e outro mais happy end. Devido às dificuldades financeiras, Vincent Gallo utilizou técnicas cinematográficas que caíram como uma luva no filme, por exemplo, o recurso mirabolante de frames para evocar as memórias. Há também: a cena engenhosa na mesa da casa dos pais de Billy é fantástica por enfatizar o ponto de vista de cada personagem. Vale ainda destacar a cena quando Layla dança na pista de boliche ao som de "Moonchild" do King Crimson. Em última instância, o filme de Gallo é um conto de fadas às avessas, com grande teor autobiográfico e cravejado de humor negro. Com efeito, "Buffalo '66" é um clássico inegável do cinema independente dos Estados Unidos.
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sexta-feira, julho 11

A Trilogia da Guerra e o Cinema Inovador de Roberto Rossellini

Por Paulo Dias
Um cineasta indispensável para apreciar significativamente o cinema italiano é Rossellini. De fato, Roberto Rossellini é o maior nome do Neorrealismo Italiano, cujo ápice foi entre os anos de 1945 e 1948. É imperativo destacar que  Rossellini (ao lado de Luchino Visconti, Vittorio de Sica, Federico Fellini, entre outros) influenciou o cinema mundial com novas formas e técnicas de filmagem, de modo que estas foram sendo inseridas ao passar dos anos na realização de filmes mundo afora. Inúmeros movimentos cinematográficos - desde a Nouvelle Vague francesa ao Cinema Novo Brasileiro e de forma mais contundente o Novo Cinema Iraniano  -  devem grande favor ao Neorrealismo Italiano. O papel de Rossellini, nessa nova estética na realização de filmes, é crucial para o sucesso do movimento neorrealista. Cineastas do calibre de Jean-Luc Godard e François Truffaut consideravam Rossellini como um "Deus do Cinema".

O Neorrealismo Italiano, com efeito, injetou um novo ar no cinema mundial. A utilização de atores não profissionais, locações reais e histórias humanistas, por exemplo, são algumas das peculiaridades do movimento neorrealista, que sacudiu os alicerces da Sétima Arte. E é de se destacar a importância fundamental de Rossellini em capitanear o movimento ao apresentar uma nova estética de como fazer cinema com pouquíssimos recursos financeiros e com enredos próximos de documentários. De fato, a arte do Cinema, sob uma nuvem de adversidades, ergueu-se majestosa e sublime, mostrando para a suntuosa Hollywood que filmes verdadeiros se fazem em situações precárias. Além de Rossellini, Cesare Zavattini (roteirista de Ladrões de Bicicleta do diretor Vittorio de Sica) teve um papel relevante na arquitetura de ideias do Neorrealismo ao injetar altas doses de humanismo no arcabouço fílmico das películas. No entanto, foi Rossellini quem melhor retratou a ótica dos resultados nefastos da guerra.
Rossellini tem inúmeras obras-primas inquestionáveis como: Roma, Cidade Aberta (1945), Paisá (1946), Alemanha, Ano Zero (1947), Stromboli (1949), Europa 51 (1951), Viagem à Itália (1953) e De Crápula a Herói (1959). Estes filmes são a nata da extensa filmografia do diretor e roteirista italiano, que inovou na mise-en-scène ao incorporar pessoas comuns como atores principais. Maquinalmente, o realizador neorrealista soube catalisar os anseios da Esquerda ao filmar a realidade do povo italiano após a Segunda Guerra Mundial. Em particular , os filmes que fazem parte da chamada "Trilogia da Guerra" são documentos históricos essenciais para a humanidade, de tal forma que catapultaram indiscutivelmente o nome de Rossellini para o Panteão do Cinema mundial.
O primeiro filme da "Trilogia da Guerra" é  Roma, Cidade Aberta. Com pouquíssimos recursos, o filme de Rossellini foi completamente rodado em locações reais - na Itália recém-libertada do domínio alemão e totalmente devastada - e em sua imensa maioria com atores não profissionais. Roma, Cidade Aberta narra a luta de resistência do povo italiano ante a ocupação do exército nazista durante a Segunda Guerra Mundial, passando-se na cidade de Roma. No eixo do filme está um grupo de militantes que lutam contra os nazistas. Um militante comunista chamado "Engenheiro" esconde-se no apartamento do camarada Francesco, já que está sendo perseguido pela Gestapo (a polícia de Hitler). Neste apartamento, moram a viúva Pina (Anna Magnani em um papel antológico), que está grávida e em compromisso de casamento com o camarada Francesco, e seu pequeno filho. Com o intuito em entregar dinheiro para a ação de outros militantes, entra em cena o Padre Don Pietro (o excelente ator Aldo Fabrizi) - um padre simpatizante das ideias comunistas. Quando a Gestapo captura o noivo de Pina ocorre uma das cenas mais fabulosas da história do Cinema: a morte de Pina pelos soldados nazistas. Há também espaço dentro do filme para questões morais como, por exemplo, a adesão ao nazi-fascismo em troca apenas de drogas e casaco ou o saque a uma padaria por cidadãos romanos famintos, inclusive por um sacristão. Nesse pano de fundo, Rossellini borda um retrato ultrarrealista, entremeado com melodrama, sobre a situação da Itália devastada tanto econômica quanto politicamente. Deve-se destacar que o cineasta italiano viveu como clandestino e participou da Resistência, apesar de inicialmente simpatizar com o Fascismo. O roteiro da película ficou por conta de Roberto Rossellini, Federico Fellini, Sergio Amidei e Alberto Consiglio. Ovacionado na França, Roma, Cidade Aberta ganhou em 1946 o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes e foi indicado com Melhor Roteiro no Oscar.

Paisá, um conjunto de episódios independentes, é o segundo filme da "Trilogia da Guerra". No primeiro episódio, temos um soldado estadunidense incumbido de proteger uma jovem italiana num castelo de ruínas, após o desembarque de uma tropa de soldados da pátria do Tio Sam à Praia da Sicília. O roubo de um sapato (o dono é um soldado negro embriagado) por um garoto de rua em Nápoles é o pano de fundo do segundo episódio, enquanto no terceiro episódio um soldado estadunidense fica atraído por uma bela jovem italiana. O casal tem uma noite de amor, mas ao passar seis meses a jovem agora é uma prostituta tentando sobreviver em meio ao caos. No quarto episódio, uma enfermeira inglesa da Cruz Vermelha tenta encontrar um resistente italiano que tanto ama, ao passo que o quinto episódio traz três missionários (um católico, um protestante e outro judeu) que pedem asilo em um mosteiro. O último episódio mostra a sanguinolência estúpida da guerra às margens do rio Pó, entre resistentes italianos e soldados alemães. Nesses moldes, Rossellini costurou uma variedade de histórias sobre amor, moral, humildade, lealdade entre nativos italianos e soldados estrangeiros. Dentro desse bojo, o cineasta de "Viagem à Itália" continua a estética do neorrealismo ao utilizar atores amadores e locações externas para extravasar o sentimento do povo italiano durante os conflitos às portas da libertação definitiva. A presença do exército estrangeiro (tanto dos Estados Unidos como da Alemanha) na vida dos italianos é enfatizada, focalizando relacionamentos no meio da luta pela libertação do domínio nazista. São narrativas pessoais à sombra dos horrores da guerra e documentos da luta apaixonada dos rebeldes italianos ante o domínio nazi-fascista e sob a ocupação do exército dos EUA. A segunda película da "Trilogia"  (tendo o roteiro de Sergio Amidei, Federico Fellini, Alfred Hayes e Roberto Rossellini) ganhou o prêmio principal dos Críticos de Cinema de Nova York como Melhor Filme Estrangeiro e indicado como Melhor Roteiro no Oscar.
O último filme da trilogia rosselliana é Alemanha, Ano Zero, cujo fio condutor é o garoto Edmund, que vive na Berlim destroçada pela Segunda Guerra Mundial à procura de pequenos trabalhos para sustentar sua pobre família. Edmund vagueia pelas ruas tentando desesperadamente conseguir dinheiro e comida para o pai doente, o irmão (ex-soldado nazista que se esconde das autoridades) e a irmã voluntariosa. Cercado pela devastação e pelas ruínas, o pequeno Edmund envolve-se com um jovem delinquente e com uma órfã sexualmente precoce, e encontra ainda seu ex-professor que agora pratica venda de objetos nazistas para soldados aliados no mercado negro. Uma parte central do filme é o discurso nos moldes nazistas que o ex-professor realiza ante Edmund. Isso trará consequências funestas para o futuro do garoto. A cena de Edmund caminhando entre os edifícios em ruínas é uma das mais fantásticas do Cinema. Objetivando mostrar uma realidade nua e crua tanto física como moral, o filme de Rossellini é um retrato preciso da Alemanha após a derrota na Segunda Guerra Mundial, com cidadãos corrompidos pela miséria. Nesta película, a luz natural e a captação de ruídos são utilizadas ao máximo. Vale destacar a fotografia em preto e branco que expõe os destroços da Berlim pós-guerra. Em minha opinião, Alemanha, Ano Zero é um dos melhores expoentes do movimento neorrealista ao lado de Vítimas da Tempestade de Vittorio de Sica. De fato, Rossellini está no auge de sua criatividade e filma com pungência os horrores ocasionados pela guerra, na qual todos saem perdedores. Viva o grande Rossellini!

quarta-feira, julho 9

Justiça seja feita! Justiça tarda, mas não falha.


O Barbosa, goleiro do Vasco da Gama nas décadas de 1940 e 1950, e goleiro da seleção brasileira na copa do mundo de 1950 realizado no Brasil, poderá definitivamente descansar em paz, porque até o momento é considerado o grande culpado pela perda do título para o Uruguai no placar de 2 a 1 de virada em pleno Maracanã na presença de 200 mil torcedores.

Foram 64 anos levando a culpa, ele está só os restos mortais, mas a sua alma continuava sendo incomodado por cronistas esportivos pela culpa que carregava durante todos esses anos, a sua carreira futebolística declinou e muito após a perda do mundial em 50.

Em 1994 na véspera de embarcar pro Estados Unidos para disputar a copa do mundo naquele país, o Carlos Alberto Parreira, técnico da seleção na época, receberia a visita do ex-goleiro, o Barbosa, e não o atendeu, e o ex-goleiro deixou a Granja Comari em Teresópolis – RJ sem ser atendido pelo técnico e nem por jogadores.

Barbosa foi hostilizado por todos da imprensa e no mundo esportivo até a sua morte, o Clube de Regatas Vasco da Gama foi o único que deu apoio inclusive financeiro até o fim de sua vida, não estou envergonhado pela derrota, sinto-me com a alma lavada, e tenho certeza que lá no céu ele também está com alma lavada e poder agora em definitivo descansar em paz.

A data (8 de julho de 2014) definitivamente entrou para a história da humanidade, e será lembrado e falado nos próximos 1000 (mil) anos, nunca se viu uma grande seleção dentro de sua própria casa/anfitriã num torneio mundial como a Copa do Mundo ser surrado de forma tão humilhante ao levar 5 gols somente do primeiro tempo e 4 gols em quatro minutos.

O Jefferson, goleiro do Botafogo deve estar muito feliz por não ter sido o goleiro nesse jogo, pois se estivesse no lugar do Júlio César à imprensa com certeza colocaria toda a culpa, o Neymar nesse exato momento deve estar orando/rezando por não ter jogado, porque se jogasse, levaria toda a culpa e a sua carreira poderia acabar ali mesmo.

David Luiz e Thiago Silva melhores zagueiros do mundo, poderão ter as suas carreiras declinar daqui pra frente, futebol é momento, e o auge de um atleta dura rápido, qual desses jogadores principalmente os que estiveram em campo terão a coragem de não vestir a camisa e não aceitar ser convocado para atuar pela seleção brasileira?

O Johan Cruijff, apontado o melhor jogador holandês de todos os tempos, que comandou a seleção holandesa na copa do mundo realizado na Alemanha (antiga Alemanha Ocidental) em 1974, que ficou conhecido o “Carrossel Holandês/Laranja Mecânica”, após o vice-campeonato mundial que foi perdido pelos alemães no placar 2 a 1 de virada, nunca mais atuou pela Holanda por sentir envergonhado e culpado pela perda do título.

Quem a imprensa apontará como culpado? A imprensa poupará das críticas os jogadores? Quem será o jogador que terá a postura do Cruyff e decidir não mais jogar pela seleção brasileira mesmo sendo convocado?

O Brasil poderá conquistar o Hexa na próxima copa, mas o 8 de julho nunca será esquecido e será sempre lembrado e falado nos próximos anos, séculos e milênios.
Eu não vou me solidarizar aos jogadores, vou me solidarizar ao grande goleiro que passou 64 anos sendo injustiçado, que agora nesse exato momento, seja no céu ou num caixão em sua sepultura que abriga os seus restos mortais, poderá em definitivo descansar em paz, e é a ele que eu presto toda a minha solidariedade.

Descanse em paz Barbosa! Pois a sua alma está lavada e ninguém mais vai lhe perturbar e muito menos lhe culpar após essa tragédia. Porque a justiça foi feita, e ela tarda, mas não falha.

quinta-feira, julho 3

Lei da Palmada: Proteção as nossas crianças e os jovens ou a intervenção do estado de tirar a autoridade das mães e dos pais em educar os seus filhos?

Recentemente a presidente Dilma Rousseff sancionou a lei chamada popularmente de “Lei da Palmada”, que coibi abusos, violência e maus tratos as crianças e adolescentes, até aí a lei e o estado deve intervir, entretanto, há um porém, o estado não está tirando a autoridade das mães e dos pais em educar os seus filhos?

Poderá ser um problema para as autoridades, porque as mães e os pais que educam os seus filhos e filhas tem o modo peculiar de cria-los. As criações rígidas nos moldes conservador, tradicional e cristão não serão mais permitidos? Que modelo de criação é ideal para educar os filhos e as filhas a partir de então?

O estado não pode intervir na educação e nem mesmo no modelo de educa-los, há famílias evangélicas, católicas, espíritas, umbandistas e todos os credos, apesar que justamente os evangélicos e católicos são os que mais perseguem outras religiões, tentam impor na sociedade os seus dogmas e o estado seguir somente os seus interesses.

O estado deve respeitar o seio familiar que é inviolável, cabe a família a educação de seus filhos e filhas, e a autoridade paterna e materna devem ser respeitados e nunca violados. Violência como disse anteriormente deve sim ser combatido com todos os rigores da lei, entretanto, não pode ser descartado como instrumento de educação das mães e pais a seus filhos e filhas.

Eu quando criança me lembro de um programa policial que fez muito sucesso no Sistema Brasileiro de Televisão (SBT) nos anos 1990, e tinha um repórter que tinha a fama com o seu bordão peculiar “Gil Gomes aqui e agora”, que é justamente o nome do programa “Aqui e Agora”, no Maranhão o Sistema Difusora afiliada do SBT criou o programa policial com a mesma nomenclatura “Maranhão Aqui e Agora”, que era exibido por volta de meio dia a 1 hora da tarde.

Um programa de grande sucesso em virtude das classes mais baixas assistirem diariamente, inclusive eu, e numa das reportagens retratou a história de um pai que havia sido preso pela polícia por espancar cruelmente o seu filho, e nessa época ainda não havia uma lei que proibisse os repórteres e cinegrafistas de gravar crianças e adolescentes com hematomas ou quaisquer sinal de violência.

E nessa reportagem que o pai foi levado a delegacia, ele surrou o seu filho com o galho de tamarindo somente pelas costas, sendo que antes ele pegou o jovem e amarrou as duas mãos do mesmo pra em seguida surrá-lo as costas, o repórter e cinegrafista gravou o jovem com as costas toda marcada deixando a pele viva, avermelhado extremamente inchado, a surra foi tanto que as costas do garoto tremia involuntariamente.

Ao perguntar pro pai o porquê da surra, ele alegou que o seu filho havia furtado a carteira do vizinho e justificou que o preferia na condição de pai castigar o próprio filho do que a polícia, a alegação do pai não deixa de ser plausível e compreensível, apesar da extrema violência.

Uma surra dependendo da gravidade e determinadas situações torna-se necessário, porque a mãe e o pai se quiser ter o controle sobre o filho e a filha, esse controle deve começar desde o berço, não podemos confundir independência e liberdade na fase adulta com a fase de aprendizagem.

As crianças e os jovens devem ter amor e carinho, mas acima de tudo a proteção da mãe e do pai, nem que seja de forma rígida, eu mesmo sou fruto de uma criação extremamente rígida, criado e educado por vó materna, eu não tive uma adolescência como muitos adolescentes da minha época, de ir as festas, farras e chegar de madrugada ou no dia seguinte.

A minha avó me controlava inclusive quando ia a escola e esperava chegar no horário quando ela sabia o horário de acabar a aula, se eu chegasse atrasado a bronca era certa, e quando criança se eu aprontasse, a surra era certa, seja de cinto, galho de goiabeira e corda, eu empinava pipa as escondidas, jogar vídeo game também não era permitido e eu brincava as escondidas, pouquíssimas vezes joguei bola na rua porque ela não deixava.

Todas essas proibições eu sofri e além do mais, sofri com o bullyng nos colégios onde estudei e na rua onde moro quando era adolescente, devido ao fato de ter sido criado por avó de forma bastante rígida, pessoas comentavam que eu iria me tornar um gay, mimado ou inexperiente em convívio social na sociedade e inclusive na minha vida sexual, em que as pessoas debochavam por fato de não ter tido namoradas.

Eu me sentia frustrado, pois queria curtir a vida como qualquer outro adolescente e via na minha avó que até hoje eu falo em tom de brincadeira “a coronel vestido de saia” que no seu reino a norma é “eu quero, eu posso, eu mando”, devido a isso, eu respondia e xingava, mas não tinha coragem mesmo de fato bater de frente com ela e preferia fazer as escondidas sem ela saber ou driblar a sua autoridades. 

As poucas vezes que eu fui a uma boate pra curtir o balanço, eu iria pra casa de uma tia minha com a desculpa de dormir na casa dela e de lá ia pra festas com os vizinhos, só assim eu ia aos eventos que ocorria na cidade ou no bairro de preferencia, mas quando minha avó descobriu foi uma discussão feia entre ela e minha tia materna...

Hoje que eu estou prestes a completar 33 anos, eu tenho a liberdade que tanto sonhei na adolescência, saio a noite e chego em casa só no outro dia, bebo e fumo (processo em parar de fumar, só tenho umas recaídas quando bebo, mas não compro carteira e nem isqueiro tenho mais, se eu comprar, compro em unidade(retalho) pra não comprar carteira), faço tudo e mais um pouco como queria fazer quando era mais jovem, a diferença é que trabalho e tenho como sustentar a minha liberdade, ao contrário quando era garoto que queria usufruir e não tinha meios de como manter.

Hoje eu percebo o quanto a minha avó queria me proteger dos males que a sociedade oferece e o adolescente se torna a presa fácil, me arrependo dos xingamentos, insultos e bate boca que ela e eu travamos, apesar da rigidez exacerbada, agradeço a ela pela criação e educação que tive.

O caso da minha mãe-avó não é único, há muitas mães e pais com o perfil parecido, educação protecionista que exagera na rigidez e mantem autoridade com mãos de ferro, e usa dos castigos físicos caso necessário quando o seu poder e autoridade é desafiado. 

O estado não pode intervir e nem mesmo tirar a autoridade das mães e pais em criar os seus filhos, porque o estado não tem competência de criar e educar as nossas crianças e a sociedade bem menos, se deixarmos nas mãos de pessoas sem nenhum vinculo materno e paterno, muitas de nossas crianças terão um futuro preocupante.

Deixemos as nossas mães e pais bater, reprimir e castigar as nossas crianças e jovens quando necessário e por motivo justo que leve a essa atitude, melhor ser castigado por mãe e pai a ser castigado pela sociedade, pela polícia e/ou internatos/casas de apoio e proteção ao menor que na pratica é uma escola para o mundo do crime.

Hoje é comum jovens morrerem com o tiro no peito ou na testa, jovens serem presos precocemente e cada vez mais cedo irem para a marginalidade/criminalidade que a maioria das vezes se torna um caminho sem volta, da mesma forma os que são contrários a redução da maioridade coma alegação de que não irá resolver em nada a problemática que aflige as famílias, especialmente as pobres e sem estrutura.
Também não irá resolver em nada a intervenção do estado ao intrometer no modo educacional de cada mãe e cada pai e tirar a autoridade dos mesmos, se é contra a redução da maioridade penal é contrário ser a favor da lei da palmada, porque nenhuma escola educa se a educação não começar dentro de casa com a mãe e o pai.

É correta a frase citada nas escolas militares em que a disciplina, educação e obediência são regras primordiais no modelo educacional executado pela polícia, corpo de bombeiros, exército, marinha e aeronáutica ou qualquer escola que adota o modelo pedagógico militar.

“Educar hoje para não punir amanhã”

Essa frase é mais que verdadeira independente de quem a citou e o seu cunho ideológico.