Baseada nas rodas de Tambores do Maranhão, “Encantado” é um espetáculo,
que mostra a beleza visual e corporal em um conjunto de expressões sagradas,
que a partir da teatralidade e da dança, através do batucar constante que varam
as noites, partem para uma coreografia pulsante enfatizando a ligação entre os
pés descalços e o terreiro, gingados pelos cantos entoados para passar do corpo
vivo ao transe em um personagem vivo e transmitir um vocabulário com
gestualidades que evidenciam a ligação entre a terra e o céu, o universo como
todo. Podemos considerar como um fenômeno rompendo com o espaço e o tempo, e
vislumbra-se onde palco é a tradição e tudo se torna encantado.
Há muito o público
perdeu a capacidade prestar atenção ao teatro. A mídia é um mundo de recursos e
de efeitos especiais que fazem com que as pessoas percam, aos poucos, sua
capacidade de imaginar, de pensar e mesmo de dialogar. Tudo ali é dado pronto e
feito. A informação chega sem qualquer esforço cognitivo e físico do
espectador...Conseguir tocar este público que não se esforça é uma tarefa
dificílima. A sensibilidade se tornou algo atrofiado, em alguns casos, adquiriu
a mesma função do cóccix: ele está lá; um dia foi alguma coisa, hoje não serve
para nada...
É preciso despertar neste espectador a antiga força de se entregar à trama, de
poder sentir a motivação de um herói sem que desembolsemos 250 milhões para lhe
fazer um Batman...
O teatro, no meio
desse jogo, tem uma função fundamental: o resgate da sensibilidade e da
cognição. É uma arte pobre em comparação às demais. É um ofício sujo, às vezes,
pois requer adaptações a logradouros improváveis, inapropriados e sem
equipamentos. Tudo está resumido naquele espaço cru - por isso vivo - que
chamamos de cena! Ali os mecanismos são expostos, por mais realista que seja a
proposta. No palco, a construção da obra faz parte do jogo, sobretudo quando
cabe ao ator iluminar cada objeto, cada palavra, quando a atuação é intensa e
vigorosa, feita com músculo, suor e energia...
Um orçamento
bem menor pode ter mais profundidade do que montanhas de dinheiro, passando a
mensagem viva, uma vez que a história contada no palco depende do espectador
para ganhar sentido. “Que merda! Vou ao teatro e ainda tenho que trabalhar para
fazer o negócio acontecer”. Está certíssimo, meu querido: é quando nos
esforçamos para obter as coisas que valorizamos o que antes nos era dado de
“mão beijada”.
Essa era a proposta
romântica da arte contemporânea que visa sempre descontruir. Mas tal
descontração não pode desvirtuar-se. Se o público é esquecido, em vez de
despertar seus sentidos, ela os torna inalcançáveis, pondo-os numa esfera que
foge à compreensão de qualquer simples e reles mortal. O resultado disso: o
Batman ganha mais uma vez.
Site Oficial de Igor Caffé: http://igorcaffe.blogspot.com/
A arte não tem a menor utilidade. Ponto. É preciso ter coragem para
dizer isso, mas trata-se da mais pura verdade. O mundo gira, as lojas abrem,
Luan Santana cantará independentemente das galerias do Louvre...
O que acontece hoje na cena
contemporânea (digo, na cena atual) é que a arte encontrou um “departamento” na
sociedade. Encontrou uma maneira de ser auto-referencial, auto-suficiente,
enfim, autônoma, divorciando-se do público...
Quando vejo alguns espetáculos
contemporâneos, dança e pintura, percebo que se criou uma “coisa”, uma maneira
de entender essa “coisa” e, ainda, um meio de gostar desta “coisa”.
É como o cigarro: você é uma
pessoa normal sem nunca ter tido a necessidade de fumar, daí você fuma um cigarro,
dois três, quatro, e cria o costume de fumar, esse costume vira uma necessidade
e, depois, você não consegue viver sem o dito-cujo.
O mundo sem cigarro e o mundo sem
arte... Não é difícil intuir que ele seria o mesmo, pois a arte e o tabagismo
são, no séc XXI, necessidades fabricadas!
A arte que basta por ela mesma.
O teatro que se completa no
próprio teatro.
A dança que existe apenas na
dança.
O ator que, na cena, é ator do
ator...
Há uma enorme preocupação em
revolucionar a estética, um desespero em dizer o que é arte e o que não é, de
criar o que é arte, mas não o que essa arte tem a dizer...
Em meio a esta invaginação da
produção, cabe à crítica, às galerias, aos patrocinadores, aos colecionadores,
aos teóricos dizerem o que é para ser visto, o que é bom, o
que é útil...
Eles explicam e direcionam. No
jogo do bicho, eles são as grandes cafetinas!
O curador é o grande homem. É ele
que vai selecionar o vai ser exposto. Da mesma forma, a televisão é quem vai
por Latino para circular em todas as casas, para dizer que esta é a música do
momento.
O que consagra Latino é o que põe
em evidência o artista contemporâneo: o barulho que se faz em volta daquilo,
e não, aquilo!
A arte está nas mãos dos
vinculadores. Ele pertence aos intermediários. São eles que a “traduzem” para
público...
No mundo da informação, aqueles
que fazem as “pontes” são os grandes ditadores.
Negar que os mecanismos da arte
são diferentes daqueles da cultura de massa é ignorar o mundo midiático em que
vivemos.
Latino é um gênio, pois, ao
contrário dos “Duchamps” que saíram de moda, dos “Brechts” que vão e voltam,
mas nunca ficam, Latino faz sucesso desde 1994 num mundo de sucessos efêmeros.
É de se admirar, no mínimo, ou de
se suspeitar, ao máximo...
Mas qual seria a saída para toda
essa realidade fictícia, para as necessidades inventadas, para os ídolos
impostos?
A caixa cênica é uma máquina
debulhadora. Ele precisa, mais do que nunca, funcionar de fora para dentro. O
que pode fazer a arte entrar no jogo do mundo é trazê-lo para cena, transformá-lo
e pô-lo de volta para circular. Não se trata de colocar qualquer coisa do
cotidiano no palco para “ilustrar” a realidade - os jornais podem cuidar disto.
É preciso processar! Debulhar! Reformular a linguagem para colocar outra em
circulação!
O que me envolve enquanto
expectador são elementos que nunca pensei sendo utilizados de forma
surpreendente, quebrando a ordem dos signos justamente para me transmitir uma
mensagem que, talvez, já conhecesse, mas, quando processadas daquela maneira,
surtiram outro efeito, causaram-me um incômodo ou um encanto, uma vontade de
reagir de alguma forma...
Se a caixa cênica é utilizada no
movimento inverso da debulhadora, se for trabalhado de dentro para fora, o
resultado será saturações estéticas, o teatro do teatro que só serve para o
teatro, a pintura da pintura que só serve para pintura e que precisa, assim
como o Latino, de uma mídia que o re-afirme, que diga “não gente, é um macarrão
na parede, mas arte”.
O pior de tudo é que toda essa
autonomia inútil que se faz das produções artísticas é encoberto pelo mito de
que “o artista é o porta-voz do sentimento” e de que a “arte é o bem supremo”.
Um nuvem de blá, blá,blá que molha
um monte de blá, blá, blá...
Vamos ao prático: pra que tudo
isso serve?
Dou um biscoito para minha
cachorra quando ela está muito agitada. Dizem que, se você é um artista, você é
um ser humano especial. O “status” basta. O cara se acalma, faz o
trabalho dele, vai para São Paulo fazer o curso e o que ele muda no contexto em
que vive? Nada, pois ele é um ser especial, deslocado do mundo e, para o qual o
mundo tem que se direcionar e entender. Convenciona-se o que é ser artista,
dar-se isso para o infeliz e ele para de latir...
Se eu sou artista, Latino também
é! Por que não? Sou democrático!
O que o teatro precisa é
reprocessar o mundo que descortina em sua frente e tomar o poder que foi dado
aos críticos, às galerias, aos curadores, às instituições, voltando a ser capaz
de espalhar boatos do tipo “a vida não é o que dizem, a arte também”...
O que faz a arte contemporânea e o pop
star Latino serem, no fim das contas, a mesma coisa é que ambos
entendem que o barulho que se faz em torno da conversa é mais importante do que
o diálogo. E ficamos depois deste texto com uma Homenagem a Latino:
Rolou
na praça São Pedro no Bairro da Madre Deus – São Luis- MA -BRASIL a adaptação
da Tragédia Ricardo III ( que diga-se de passagem nunca li) do nobríssimo
FALECIDO Shakespeare.
Fui lá ver a peça doGRUPO
DE TEATRO CLOWNS DE SHAKESPEARE do RN - BRASIL a qual a proposta é
levar o inglês (que dizem inventou o homem moderno revelando suas contradiçoes)
trazendo seu universo lúdico as ruas com figurino CLASSE MEDIA ALTA, ou melhor,
aristocrático do reinado elisabetiano e atuações como num filme de
TIM BURTON. Mostrando AINDA como é possivel ter uma EXCELENTE* trabalho de gogó
quando se falta energia e se PERDE o áudio do MICROFONE e de nos lembrar que a
CEMAR continua uma VILÃ do consumidor maranhense em MOMENTOS CULTS E ACULTS.
A peça faz um ANTROPOFAGIA
(lembre-se daquelas aulas daquele professor perturbado sobre semana
da arte moderna) com o Nordeste com CENAS com acentos cantados
arrancando risos dos nativos na platéia (IDENTIFICAÇÃO?), ou melhor, sentados
no concreto da escadaria e, além disso, ladies and gentlemen, referências
(paródias, acho melhor) a ícones pops como FRED MERCULES e MICK JACKER
mostrando como SHAKESPEARE é ATEMPORAL e devora tudo e todos ( acho que tentei
ser um tanto dramático, agora).
Pra mim levar shakespeare a uma
PRAÇA já é uma REVOLUÇAO (entendam como quiser esse palavra) e rodar o
chapéu com ou sem patrocínio da PETROBRAS é necessário.
E no fim entre palmas e
risos e a bunda coçando ouço de uma criança do meu lado:
- O rei é MAU.
Fazer o que, né? Foi pelo
poder menina que ele matou... quando você “crescer” vai entender, ou, não.
* Nesta parte do POST
tentei FAZER UM TROCADILHO FRUSTADO COM A palavra INCELÊNÇA ( As palavras
são sinônimas sendo que o TÍTULO da adaptação é o verbete que
indica hierarquia SEGUIDO de um vocativo.
Tratando-se de arte, a palavra
superação é muito delicada. Dizer que o romantismo foi uma superação do
classicismo é um tanto perigoso. Mas, antes de entrar nessa seara, nos
perguntemos o que é arte, com letra minúscula mesmo, sem grandes elucubrações.
Não coloquemos esta esfera do conhecimento humano em um grande plano,
inalcançável, transcendental, onírico. Isso traria muita margem para licenças
poéticas e, licença poética, em um universo objetivo, dá tanto trabalho quanto
erva daninha... O que é arte? Trate de achar a primeira palavra que vem à
cabeça, sei lá, sem muito refletir, sem muita filosofia, sem muita xerox de
universidade... Quando penso em arte sem muito pensar me vem a seguinte frase:
“qualquer coisa”. Arte, portanto, é “qualquer coisa”. Não deixa de ser um pouco
categórico, quanto mais se, no final deste artigo, eu não colocar “Igor
Nascimento, doutor em estudos do diabo a quatro”. No entanto, hoje em dia, no
cotidiano onde a metodologia, abstração do senso comum transformada em
método, método transformado em teoria, que, por sua vez, é transformada em
conhecimento científico que é destilado do conhecimento empírico, para se
tornar obsoleto, voltando ao senso comum para ser dali abstraído, transformado
em método e..., ser categórico pode ser uma grande virtude, uma
economia de tempo, desde que amparado, é claro, por uma boa metodologia, menos
científica e mais libertária.
O presente trabalho consiste na investigação dos impactos de
plataformas tecnológicas diversas nas encenações teatrais contemporâneas, tendo
como objeto a poética da Cia Paulistana Phila 7 e seu trabalho de maior efeito,
a série de espetáculos “Play on Earth”. Para este exercício, a pesquisa resgata
as contaminações no teatro pelas tecnologias, observando experiências do cenário
mundial, e respaldando-se nos fazeres de grandes encenadores e a maneira como
estes potencializam os seus discursos cênicos de maneira contextual desde a
metade do século XX até a atualidade. O trabalho busca ainda interagir o
pensamento de importantes teóricos das artes cênicas com pensadores da
sociologia e filosofia contemporânea para perceber como se dá a reação do fazer
artístico no território do teatro em suas especificidades com os paradigmas da
contemporaneidade como a internet e tecnologias digitais.
The
present work is trying to investigate the impacts of various technology
platforms in contemporary theatrical performances, getting as object the poetic
of a São Paulo‟s theater company called Phila 7 and its more effective work,
the series of shows "Play on Earth." For this exercise, the search
retrieves contamination by technology in the theater watching experience on the
world stage, and backing on the doings of great directors and how they leverage
their speeches so scenic context since the mid-twentieth century to the present
. The work also seeks to interact thinking of major theorists of the arts and
sociology and also thinkers in contemporary philosophy to see how the reaction
occurs in the territory of making art in their specific theater with
contemporary paradigms like the Internet and digital technologies.
VELHO ATROPELADO, personagem mudo (ou antes, plangente)
FILHO DO VELHO
FILHA DO VELHO
MULTIDÃO ENFURECIDA
TESTEMUNHA
POLICIAL
Antes de subir o pano, ouve-se o barulho de pneus cantando e de um corpo se chocando contra um veículo. Quando o pano se abre, vê-se uma multidão aglomerada em semi-círculo, de frente para a plateia, ao redor de um Velho caído no chão, sangrando e gemendo. Da multidão vêm gritos de “Ai, meu deus” e similares. O filho do Velho se agacha próximo ao pai para socorrê-lo, mas é impedido por Miguel, que se mete entre os dois.
Existir é apenas um detalhe! Se exemple em Antônia! Ela é velha e está lá, perfeita, de tão velha! Dizem que ela nem mais sai por aí. Dizem que se ela falar ou se mexer é capaz até de quebrar um osso, deslocar uma junta ou até se esfarelar toda...
TORQUATO, explodindo
Ela é Rodrigo! Rodrigo! Pelo cão! Ele foi um homem, portanto, ele é um homem!
PROCÓPIO, não dando atenção
Quem me garante? Eu poderia ser uma mulher! Poderia me chamar Rebeca, em homenagem a todas as Rebecas ou a...
TORQUATO, num rompante
Não falo de gênero! Isso é o que menos importa! Me refiro ao fato de sermos a cada dia menos humano, seu inepto! Você não vê que daqui a pouco vai ser apenas poeira, pó ou adubo para mato? Não percebe que depois que o corpo vira matéria todo pensamento é inútil? Que toda existência seria um eco vago de uma voz roca? Pelo jeito você já esta como as outras que, de tão caveiras, jogam até osso apostado! Não percebes que tudo é escuro, que tudo é um vazio perpétuo, que tudo o que foi vivo não passou de um lapso, de um momento em que, distraída, a morte deu um espirro? Veja só, nós nem mais enxergamos! Nem podemos ver de que cor são as paredes, de qual tonalidade são as raízes nas quais não poderemos jamais obter o luxo de nos enforcar! Isso não é nem vida e nem morte, é pior: é o nada!
PROCÓPIO
Sustento minhas dúvidas... Sobretudo por que... por que...
TORQUATO
Não consegue nem tecer os argumentos... Pelo visto és cego também da razão...
PROCÓPIO
É exatamente aí que se engana! Saiba muito bem que eu enxergo! Enxergo perfeitamente! Melhor até de quando era viva.
TORQUATO
Mas seu idiota, como você enxerga se você não tem olho?
PROCÓPIO
Então me explica como você fala se não tem cordas vocais?
TORQUATO
Não tinha atentado para isso... O que faria sentido na falta de sentido?... A metafísica deve saber explicar...
PROCÓPIO
Eu só sei que, com física ou sem metafísica, eu enxergo!
“Debaixo das covas, não importa qual hora do dia, sempre é escuro, sempre é noite. Lá o tempo é inacabável. É a eternidade das horas, infatigáveis e inimigas da vida, tão mortas como os cadáveres ali enterrados”
Procópio e Torquato, duas caveiras, esperam um dia, finalmente, virar pó. Enquanto isso não acontece, uma trama se desenrola. Um dente foi perdido numa rodada de porrinha, um dedo foi levado por um cachorro. Nesse ponto, o diálogo começa. As caveiras expõem suas angústias decorrentes do fato de “viver assim, desse jeito meio morto”. O debate se torna intenso. O embate se faz necessário. O que será delas duas, só o tempo, ironicamente, será capaz de dizer...
O texto, de Igor Nascimento, mesmo autor de “De Assalto”, “Assassinato de Charllenne” e “As Três e Estações da Loucura”, segue a mesma linha absurda já característica do dramaturgo. Situações do quotidiano são ridicularizadas. O homem, representado através de seus não-personagens, se vê na luta constante contra as horas, a mecanização do pensamento e o dilema de deixar de existir para se tornar um objeto.
“O dedo por um dente”, em inglês, “A tooth for a fucking finger” é uma comédia de caráter altamente mórbido, de cunho pessimista e com uma tendência sutil para o niilismo. Mas isto não importa, o que vale é rir, pois o riso, de qualquer maneira, dilata o diafragma, libera serotonina e, dependendo da intensidade, ajuda a eliminar gases...
É bom presenciar a concepção e o produto final de um espetáculo, sobretudo, quando não foi feito para fins empresariais, ou para a conclusão de mais uma disciplina do curso de teatro, onde vemos, no primeiro, a trama obtusa do capitalismo, e no segundo, a acrobacia do conceito. Teatro, de fato, apenas a carapaça, pois quem atua mesmo são outros fatores (as velhas Xerox da universidade e as campanhas publicitárias) que estão fora do mérito da cena. Na peça O Miolo da Estória vemos que o prisma da autoria é irradiado a todo instante e que o resultado não é um processo hermético que nunca termina ou a lavagem cerebral promovia pelo Marketing, é um produto independente: uma obra de arte a ser analisada a fundo e um trabalho que merece todo apoio financeiro.
” Teatro, de fato, apenas a carapaça, pois quem atua mesmo são outros fatores (as velhas Xerox da universidade e as campanhas publicitárias) “
A linguagem utilizada pelo autor/ator, que enraíza o linguajar simples e popular, e a clareza das ideias do texto e da encenação, fazem desta peça um fragmento lírico da realidade nua e crua. Na fala do João (Lauande Aires), presenciamos o retrato do quotidiano, o trabalho duro que paga enquanto o corpo fica de pé e abandona assim que não pode mais contar com os braços do trabalhador, ao mesmo tempo, os bastidores do Bumba Meu Boi é exposto e, lá, vemos a brincadeira sendo descaradamente vendida, trocada por votos, apoiada enquanto eles podem ver, em cada brincante, um eleitor em potencial. Tais aspectos estão inseridos em um enredo simples e linear: a história de João, que quer ser um cantador, mas é o miolo do boi, peça importante para brincadeira, no entanto não visto e nem reconhecido pelos demais. O desejo de ser cantador é descartado imediatamente pelo dono da brincadeira. Frustrado, ele abre mão ser o miolo, no entanto ele fura o pé em um acidente e corre o risco de não mais trabalhar e de nunca mais poder brincar debaixo do boi.
Este é clímax da história e neste ponto habita o conflito: com o pé infeccionado, ele não tem mais de onde tirar o seu sustento, ao mesmo tempo, ele também está impossibilitado de dançar,a partir daí a figura do trabalhador explorado se encontra com a do brincante excluído e ambos fazem uma promessa para São Pedro para obter a cura.
Colocando o personagem nesta situação, o autor expõe dois olhares sob a brincadeira e o brincante: o primeiro, severo e crítico, fala sobre a sociedade, o trabalho duro e desumano, além disso, o espetáculo do auto do boi tendo que ser vendido e subordinado à políticos; o outro, fala de um aspecto esquecido e negligenciado da brincadeira, hoje em dia, tida mais como atração turística do que como algo que surge, sobretudo, da religião, do ritual, da pantomima, e não de grupos, ensaiados e coreografados, com brincantes esculpidos, às vezes, em academias.
Através da encenação, paradoxalmente, Lauande Aires mostra que o brincante não é um simples ator e que o boi não é apenas um espetáculo. A realidade está presente e tem um hálito horrível que não deve ser ignorado em função da apresentação e seus recursos plásticos. Desta forma, ao decorrer da peça, podemos perceber a todo instante este desmascaramento quando vemos os elementos típicos do bumba meu boi sendo transformados em ferramentas da construção e os instrumentos de trabalho tornando-se elementos da festa: Um tamborim, vira um prato de comida, uma colher de pedreiro, vira uma colher de sopa, a escada, funciona como uma casa, latas de tinta se transfiguram em baldes e praticantes, duas peneiras de areia, juntamente com uma pá, montam uma bicicleta. O cenário não é inerte à cena, ele faz parte do jogo, ele transcende o sentido singular e constrói a cena. O deslocamento do significado dos objetos (re)utilizados reafirmam o drama e inserem-se dentro do contexto do espetáculo.
Desta forma, a peça O Miolo da Estória que apesar do caráter fictício, poderia muito bem se chamar “O miolo da História”, pois busca uma forma de retratar a realidade por detrás daquilo que é propagandeado, os bastidores do brincante e do trabalhador, o sofrimento que não é mostrado e que não cabe nos cartões postais. O miolo do boi, da realidade, do brincante, do ajudante de pedreiro, do homem humilde e rústico, do ser humano que brinca, que crê, que chora, o miolo da sociedade que carrega baldes e mais baldes de concreto, que constrói com seu suor edifícios altíssimos, todavia, permanece nos escombros desta sociedade desigual e impiedosa. Estes pés escondidos por debaixo de um boizinho enfeitado e alegre que esconde mãos calejadas e um rosto sugado pelo cansaço, se movem, não só na brincadeira, mas no dia-a-dia dos centros urbanos: os Joãos que carregam o boizinho enfeitado, carregam também a grande cidade edificada.
Portanto, O Miolo da História surge como um espetáculo autoral e dinâmico. É claro que nada surge do nada e que, obviamente, o autor deve ter se baseado em inúmeros teóricos e pensado em tirar algum para si, no entanto, diferentemente das inúmeras montagens de Brecht e das campanhas de educação para o trânsito e diabo a quatro, conseguimos ver, apesar das influências, uma peça original, um produto único, diametralmente oposto a sensação do “mais um novo mesmo teatro”.