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sexta-feira, outubro 23

Entrevista do Poeta Raimundo Fontenele Por Natan Castro



Raimundo Fontenele é um poeta, natural da cidade de Marianópolis, Pedreiras, Maranhão. Poeta esse que na juventude participou ativamente de um dos mais importantes movimentos literários do século passado no Maranhão, o movimento Antroponáutica do início dos anos 70 que propunha um rompimento drástico com a tradição poética anterior, tendo como exceção nomes como José Chagas, Bandeira Tribuzzi e o grande Nauro Machado. Após esse período de ativismo cultural na capital maranhense, o poeta literalmente meteu o pé na estrada, se apropriando dessas experiências para o enriquecimento de seu fazer poético. Atualmente radicado na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, o poeta trabalha em três novos livros. Raimundo Fontenele é desses poetas que indubitavelmente a nova geração de leitores do Maranhão precisar conhecer e se aprofundar pela preocupação e pela sinceridade em que o mesmo encara a arte em suas mais diversas formas de manifestação.

A poesia sempre foi a sua principal manifestação artística, ou antes, houve um flerte com outros ramos da arte?

R – Sempre a poesia. Desde cedo, lá pelos oito anos de idade. Com essa idade principiei a leitura da Bíblia, de cabo a rabo, como se diz no jargão popular. Devo muito à influência de minha mãe, que sempre lia pra mim, contos infantis, mundos fantásticos que passei a visitar na imaginação. Mas sempre gostei de música, pintura e escultura. Esbocei alguns desenhos, mas abandonei logo. Enfim, como diz a letra do hino do Flamengo, uma vez poesia, sempre poesia.

A sua geração de escritores é exatamente aquela posterior a queda do Vitorinismo, e coincide com a chegada do Sarney ao poder no Maranhão. Quais eram as expectativas no campo da arte no estado naquele período? Sarney pegou carona na genialidade de Tribuzzi e Nauro Machado? Por fim como era a cena cultural no período da deflagração do Movimento Antroponáutica?

R - Na verdade, lembremos que o Sarney vinha de uma ala progressista da UDN, chamada de “bossa nova”.  Era visto assim meio de esquerda. Eclodido o golpe militar, em 1964, em seguida sua eleição em 1965, o Sarney foi lá ter com os milicos, como se dissesse esqueçam o outro e pensem neste de agora que quer apenas governar o seu estado e ficar de bem com vocês. E o Sarney alimentava a esperança de maranhenses cansados da truculência vitorinista, daquela forma coronelista de governar. Mais do que tudo Sarney ajudou a mudar a mentalidade: era o Maranhão Novo, “meu voto é minha lei, Governador José Sarney; quando entrar na cabine o eleitor é José Sarney pra Governador”, esses versos da sua música de campanha incendiaram corações e mentes. Havia um êxtase, uma alegria, uma efervescência com sua vitória. E ele correspondeu no primeiro momento: abriu e asfaltou estradas; um salto na Educação com o Projeto João de Barro (educação de crianças e jovens fora da idade escolar), as Escolas Bandeirantes, escolas de segundo grau de cunho profissionalizante, a criação da TV Educativa, uma das pioneiras no Brasil. Modernizou a administração pública, várias empresas estatais foram criadas, naquele momento, não como cabide de empregos, mas necessárias aos vários projetos gestados por grandes cabeças que ele recrutou para o governo. Bandeira Tribuzzi, Haroldo Tavares e tantos outros. A gente acreditava que isso mudaria também o fazer cultural. Na sequencia, como é certo que o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente ele tornou-se aquilo que mais combateu. Um Vitorino moderno, sem jagunços e três oitão, mas com práticas cujo resultado era igual: a pobreza do estado, o enriquecimento das famílias, dos amigos, dos apaninguados, o voto de cabresto, a subserviência dos prefeitos, toda essa lástima que se arrastou por mais de cinquenta anos e tornou o Maranhão um estado com o penúltimo lugar nos indicadores sociais, perdendo apenas para Alagoas.

Explique-nos de onde veio o nome do movimento e o que o mesmo propunha no campo da poesia no estado no início dos anos 70?


R – Com exceção dos poetas Nauro Machado, Bandeira Tribuzzi e José Chagas a gente respirava uma literatura bolorenta, uma coisa de vangloriar-se do passado, a chamada Atenas Brasileira da qual não se queria abrir mão e avançar. Através do poeta Viriato Gaspar conheci o poeta Luís Augusto Cassas, e também o Valdelino Cécio. Em seguida encontramos o poeta Chagas. Encontrávamos num bar que havia no canto da Viração, para beber, mostrar poemas e falar sobre literatura. E assim surgiu o Movimento Antroponáutica, cujo nome é uma homenagem ao poeta Bandeira Tribuzzi, que tem um poema cujo título é este. E passamos a cavar espaço nas colunas de jornal, com tanta dificuldade; havia o Jornal do Dia (comprado depois pelo Sarney e que tornou-se o Estado do Maranhão) onde o Jomar Moraes nos dava espaço, e o Jornal do Maranhão (da Arquidiocese), e lá nós tínhamos um crítico de cinema atilado o José Frazão que também nos dava apoio. Mais tarde surgiu o Jornal de Bolso, do Edson Vidigal, de breve existência, mas onde publicamos nossas crônicas e artigos.  E passamos a fustigar, atacar tudo que nos parecia velho e ultrapassado e que devia desaparecer: a Academia, a trova e seus trovadores, os poetas parnasianos com seus versos lamurientos. Com certo exagero, reconheço. Mas também fomos reconhecidos e passaram a prestar atenção e nos respeitar como novos artistas e criadores de um novo tempo ou de um tempo novo, sei lá. Arlete Nogueira da Cruz, Tribuzzi, Nauro, Jomar, o grande e humano Nascimento de Moraes, o Pe. João Mohana, enfim, fomos aceitos no mundo intelectual maranhense. Publicamos então a Antologia Poética do Movimento Antroponáutica. E a seguir fomos convidados a integrar um projeto da Fundação Cultural que nos publicou e mais alguns poetas na antologia Hora de Guarnicê.

Quais foram as consequências da deflagração do movimento em meio a repressão da ditadura e qual a importância do mesmo para aquela geração no Maranhão?

R - Vocês sabem. A história é feita de fatos, episódios, circunstâncias, eventos, mil acontecimentos distantes um do outro, mas que por esta força grandiosa que é a marcha da vida e da história se conjugam tudo e todos num momento único para deflagrar a coisa, seja revolucionária ou evolucionária, de reforma ou de acomodação. E por essa época aconteceu o lançamento do meu segundo livro individual, o Às Mãos do Dia, que era para ser uma coisa puramente pessoal, mas acabou transcendendo o particular e inseriu-se nessa paisagem do instante que vivíamos: a ditadura militar em todo o seu reinado e esplendor. Querendo fugir daquelas noites de autógrafos costumeiras, que achávamos até enfadonhas, decidimos que o lançamento do meu livro seria diferente. Aí a gente juntaria artes plásticas e música, e lembro do César Teixeira, do Josias, do Sérgio Habibe, do Jesus Santos, do Ciro, Ambrósio Amorim, Lobato, Tácito Borralho, tanta gente. E o lançamento aconteceu na Biblioteca Pública Benedito Leite. Na noite anterior, após tomarmos algumas cervejas, eu, Viriato, Valdelino e outros ficamos na escadaria da Biblioteca Pública conversando e só, de sarro, planejando o lançamento, e cada um saía com a idéia mais louca. Tipo: no lugar de cadeiras para as autoridades íamos colocar vasos sanitários; colocaríamos uma árvore de natal com ratos pendurados, etc.; íamos convocar mendigos, loucos, os despossuídos para tomarem as escadarias da Biblioteca quando as autoridades e convidados fossem chegando. Ah, e no coquetel no lugar de bebida alcoólica serviríamos leite, mas não em taças e sim em penicos. Novos, claro. Naquele tempo a autoridade maior dos estados era sempre o militar mais graduado, no nosso caso o Comandante do 24 BC. Alguém nos ouviu falar aquelas bobagens e levou a sério. O certo é que o Governador foi acordado pelo Comandante do 24 BC que lhe ordenou visse do que se tratava pois algo de muito grave ia acontecer. Fui chamado às pressas no gabinete do Secretário de Educação (que havia permitido que eu fizesse lá na Biblioteca, órgão da SEC, o lançamento do livro), à época o saudoso Professor Luís Rêgo, um homem boníssimo. Quando entrei em seu gabinete levei um susto, pois ao seu lado estava um Major do Exército. Pálido e trêmulo, ali sentei e o professor Luís Rêgo passou a me interrogar a cerca do lançamento e do que estava programado. Neguei tudo. Disse que era mentira. Jamais faríamos uma coisa daquelas e tal. Despachou-me dali, mas me recomendando prudência, e cuidado com o que ia acontecer, pois estavam de olho. Pela cara do oficial do exército nem precisava de me dizer mais nada.  Pois, mais tarde enquanto estava na Biblioteca em companhia do poeta Viriato Gaspar, ultimando os preparativos do lançamento,, eis que nos aparece um agente da Polícia Federal. E dirigindo-se a mim diz que estava a minha procura, e porque nada mandara o livro para a Censura, e cadê o livro e tal e coisa, e nos colocou em sua viatura fomos até onde eu residia, pegamos um livro, e enquanto eu lia, o motorista nos levou até a sede da Polícia Federal, naquela época ali na Rua Grande na altura do Ginásio Costa Rodrigues. Novo interrogatório pelo delegado de plantão. O Viriato saiu-se bem nas respostas. E quando o delegado quis saber dos mendigos (olha a subversão) que íamos levar, o Viriato disse que não tinha nada a ver, aquilo era uma peça de teatro que estávamos escrevendo e tão logo ficasse pronta levaríamos lá no Serviço de Censura. O certo é que à noite a Biblioteca lotou. Talvez até curiosos, além de meus convidados, muitas autoridades se fizeram presentes. Secretário de Educação, o Prefeito Haroldo Tavares, e lá atrás de uma daquelas colunas reconheci o agente da PF de nome Mateus, esperando que eu saísse da linha no meu discurso para me grampear. Mas o resultado prático da repressão, que é o cerne desta pergunta, é que nós, os jovens (falo dos jovens em geral e não especificamente do nosso grupo), tomamos rumos diferentes: uns foram para o comodismo da vida privada, outros foram para luta armada, e no meu caso, no primeiro momento, abandonei tudo e embarquei numa carona com os hippies e fiquei vagando pelo país uns três a quatro meses, metido no universo da Contracultura, cujo estímulos vinham da geração beat, e era uma época rica e enriquecedora, chegávamos ao desregramento de todos os sentidos, na vida e na arte, aquilo que o poeta Arthur Rimbaud profetizara um século antes. E a nossa geração foi importante porque abriu caminho pra todos vocês que vieram depois de nós. É o ciclo da vida, quer reconheçamos ou não. Ele existe. Ele é.

O que se faz necessário para que se legitime um movimento literário? Na atualidade onde muito se escreve em meio virtual, em sua opinião o virtual conseguirá um dia transpor a tradição do livro físico?   

R – No momento nós estamos num processo de mudança civilizatória muito violento. Ao mesmo tempo que tudo parece ameno, frágil, acolhedor, há algo de muito forte, viril, ameaçador. Nem creio que haja espaço para movimentos, como os de antes. Creio mesmo que isso ficou no passado. O mundo virtual prescinde disso. Cada indivíduo, por si só, é, ou julga ser, um coletivo, um movimento, uma revolução, um mundo, uma civilização. Todo o pensamento filosófico, todo o atavismo humano, tudo o que se acumulou durante séculos, quem sabe milênios, todo o inconsciente coletivo, toda a sabedoria, todo o  conhecimento representam o que neste instante? Para muitos, nada. É o fim de tudo e o recomeço de tudo ao mesmo tempo. Quanto tempo, não sei, mas o virtual transporá sim a tradição do livro físico. Não apenas a tradição, mas o próprio livro, o objeto, por mais concreto que ele seja ou queira ser.   

Como foi a decisão de deixar o estado, porque tomou essa decisão, existe uma possibilidade de seu retorno ao Maranhão?

A constatação de que ficar no Maranhão, no meu caso pessoal, era ficar me repetindo. Fazer novos movimentos? O sarneysmo começava a voltar-se para o passado. As coisas não andavam. Era preciso se abrigar sob as asas do serviço público de onde não poderíamos exercer a crítica contundente que os governantes mereciam. Não surgiram editoras e leitores que nos permitissem viver do nosso trabalho de escritor independente. Mas meu amor a esta terra, o interior de onde sou e esta ilha onde vivi tanto sonho transformado em realidade é o que importa. Porém, é difícil o retorno. Saí em 1976 e embora tenha raízes aqui, onde vivo atualmente, em Porto Alegre, no Grande do Sul, também  criei raízes. Mas quem sabe do futuro?

Consegue-se viver de literatura nesse país? Fale-nos de suas atividades na atualidade?

R – Por mais que esse governo do PT alardeie seus avanços na Educação, com programas quase todo visando a universidade, a verdade que é que o ensino vai de mal a pior, pois a educação básica foi relegada a um segundo plano. O governo é pródigo em dar bolsas , cujo critério principal é criar eleitores para o seu plano de permanência no poder. Sem uma boa educação na base que tipo de aprendizado é este dos cursos superiores! A maioria não lê e não pensa. Por isso, o quadro não se alterou muito nestas últimas décadas. Poucos vivem de literatura num país assim. Quanto a mim publico periodicamente meus livros e trabalho com revisão e preparação de textos para a editora de um amigo. No momento trabalho em três livros: um de contos, Pedaços de Alberto Caronte (título provisório), um de ensaios, Um Soco Contra o Muro (ensaios) e Crônicas do Pucumã, um pouco de história do município de São Domingos do Maranhão, onde passei minha infância e parte da adolescência, embora seja filho de Pedreiras, distrito de Marianópolis. Pretendo publicar no próximo ano. Com toda dificuldade, pois o dinheiro da Lei Rouanet é para os amigos do rei e para artistas como Luan Santana, Tico Santa Cruz, Cláudia Leite, gente que ajuda o governo, louvando-o para a massa de seus fãs e ouvintes.  

A sua poesia é tida por muitos como marginal, como você vê esse titulo?

R - Do ponto de vista deles. Do meu ponto de vista eles é que são marginais, pois estão à margem da minha poesia. rsrs Na verdade não existe arte marginal, a não ser nesse sentido que dei. Se ela critica a sociedade, os poderes instituídos (mesmo corruptos, tiranos, etc.) é considerada marginal. Mas do ponto de vista da arte, marginal é também a sociedade que aceita e se submete a um estilo de vida e de governo corrupto e de vassalagem.  Essa pecha é muito mais dirigida ao próprio artista para poder enquadrá-lo, e assim prendê-lo, deportá-lo, matá-lo, calá-lo, enfim. Porque na verdade a arte é um produto da criação humana, das emoções e dos pensamentos, de suas vivências e experiências, e que expressa, em seus signos, símbolos, significados, e até mesmo em sua concretude, expressa, dizia, a magia, o mistério, a beleza, alegria, o sofrimento, o sonho... Só um profundo imbecil para taxar de marginal esta coisa maravilhosa que é a vida humana e suas criações mais genuínas, originais e verdadeiras.

Ferreira Gullar nos fala de sua necessidade de espantar-se para que sua poesia aconteça. Como se dá esse fenômeno no seu trabalho é instantâneo ou existe um laboratório?

R – Cada um tem sua maneira de ser e de criar. O que é necessário é o talento. Em mim é uma coisa instintiva, igual a certas necessidades que temos: comer, dormir, amar, criar. O que existe é o trabalho de lapidar a criação, como o ourives que faz de uma peça de diamante bruto uma joia encantadora. E no caso da prosa é preciso dedicar tempo e muita disciplina, uma rotina de trabalho, como o expediente em qualquer empresa onde se exerce a tarefa cotidiana.

Dizem alguns que tudo de imprescindível na literatura já foi escrito, o que temos hoje como produção literária seriam apenas ecos desses períodos, nada de novo sob o sol da literatura, qual sua opinião sobre essa afirmação?

R – É do Eclesiastes essa fala: “Não há nada de novo sob sol”. Está certo. Tudo já foi dito, feito, criado. O que existe é uma forma nova de dizer, fazer, criar, nomear o antigo. Isto faz toda diferença. Se eu dissesse “fímbria” meu avô entenderia e meu neto, não. Mas barra da saia, do vestido, isto o neto entenderia. Portanto, não é pelo fato do sol ser tão antigo que ele deixa de surgir para nós todas as manhãs. Assim, vamos em frente. Até porque quanto mais obtuso e quadrado é o mundo mais necessita crer que tudo é novo, que tudo está começando aqui e agora, pois sem isto a vida e a arte perderiam o sentido. E aí, vamos fazer o quê?

O MITO

Raspar com uma faca, como se escama o peixe,
é fazer nascerem e crescerem os mitos
que não nos pertencem.
E por ser o mundo um animal sem formas,
por ele trafegam, navegam e voam
os mitos ancestrais que nos criaram,
e alimentaram em nós o dom da forma mais que perfeita.
Blasfêmia é isto: erguer-se qual um deus ferino e desalmado
para que ajoelhemos e lancemos nossa rede ao mar:
turva água de amar, pescaria insana,
e só por isso o mito permanece.
Se é para cair, sejamos justos:
o mito não é amor e não é ninguém,
apenas a imagem à semelhança desta outra
que nos devolve o espelho.

(do livro A Via Crucis de Um Poeta Sem Nome
Editora Alcance, Porto Alegre, RS, 2014)

segunda-feira, março 18

E agora, Josué? ( Entrevista)



Entrevista cedida por Josué Brandão via email pra Diego Pires

Josué é compositor, poeta, blogueiro, cinéfilo e formado em Filosofia pela UFMA. Atualmente exilado na metrópole São Paulo com um curta-metragem a ser rodado em Sampa, chamado “Música é uma coisa da sua cabeça” em fase de pré-produção.

O Samba Rock te pegou de jeito e por que não o Tambor de Crioula?

Boa pergunta. Só sou músico por uma questão de predisposição genética. Por parte de mãe todos faziam arte de alguma forma: se divertiam tocando e compondo baiões, sambas, choros, modinhas, jingles e o que mais que desse na telha; também tenho 2 irmãos que me influenciaram diretamente a desenvolver essa parte. Mas decidi tarde e sozinho entrar esse negócio de aprender a tocar um instrumento.

Bom, gosto de passear por vários ritmos que estão ao meu alcance, mas o lance do samba rock é uma questão de munheca, de pulso... e dá pra treinar sozinho, fazer festa pros próprios ouvidos, pelo menos. Daí eu não ter ido direto, explicitamente, para um Tambor de Crioula, por exemplo, que é uma energia essencialmente coletiva e tal. Nessas horas me faz falta não ter ido mais pra rua... faço música solitariamente, apesar de vampirizar tudo que encontro pelo caminho, como inspiração.

Outra coisa: Até o momento expus, precariamente, menos de 10 músicas e venho finalizando outras tantas, diferentes entre si. Então, o samba rock é um ingrediente fundamental, mas apenas um dos...

P.s.: a 1ª música que toquei na frente de outras pessoas foi uma composição minha: uma levada de bumba-boi tocada na guitarra - em dupla com um amigo de infância, num evento em homenagem à semana de arte moderna, no Liceu Maranhense, em 2003. Foi tosco. Meu joelho esquerdo não parava de tremer.

Dores de Cotovelo são letras recorrentes em suas composições. Esse sadomasoquismo vai do Brega a Bossa-Nova na musica Brasileira - Que bicho te mordeu?

Ser arredio é uma questão de autopreservação. O lado bom é que toda história de mágoa também pode proporcionar boas risadas ou boas músicas, depois. Melhor ainda: usar as tretas alheias como inspiração, portar-se como observador e deixar o lado pessoal de lado. Ou cutucar as próprias feridas. Ambos os métodos de composição funcionam bem. E nada é mais eloqüente do que a dor.

São Luis – São Paulo. A distância é grande, sem duvidas, de pensamentos e tudo mais. Tu ta tocando teu som por aí?

Qual o melhor lugar do país para usufruir o anonimato senão em Sampa? São Luís é meu QG afetivo, meu poema sujo com riqueza de detalhes. Sinto falta de ter medo de tanta água ao meu redor... Por aqui ando respirando muito mais poluição, mas vendo, e trombando, com muita arte e oportunidades também. É uma troca temporária razoável... Nesse 1 ano e meio, tenho me concentrado em ser um maridinho 200% presente, lidando com tarefas domésticas, pagando contas, enfim, todo aquele treinamento samurai. Esteticamente tenho sido um voyeur e aqui o que não falta é coisa pra ver. Mas ainda esse mês essa estratégia vai mudar: irei autopresentear-me com equipamentos suficientes pra entrar de novo no jogo. Estou comendo São Paulo pelas beiradas.

Suas musicas são “caseiras”: É falta de grana, falta de tempo, ou tudo isso junto pra entrar num estúdio e gravar algo com “qualidade”?

(1º) Falta de grana e tempo e espaço (2º) aprendi a gostar dessa sonoridade subterrânea. Quase chorei ao ouvir pela primeira vez algumas gravações do Arnaldo Baptista! Aí depois tive acesso a um material mais homemade do Kurt Cobain, Daniel Johnston, Keziah Jones. Mas esses caras são faixa-preta (e/ou tarja preta, se preferirem).

Quando desenhei, aaaanos atrás, um possível logo pra banda que eu fazia parte na época (a famigerada Bosta Maravilha) não escolhi um caramujo por acaso... espero que lentidão seja sintoma de longevidade, pois venho andando calmamente pra chegar onde quero: fazer jus aos genes sonoros e plásticos que carrego. E, como eu disse antes, assim que botar as mãos em meu equipamento estarei de novo no jogo.

Se ninguém tem culpa/ não se tem condenação”. Rapaz, tu és um bom cristão?

Isso é lá pergunta que se faça pra alguém que deveria ser pastor? O cristianismo tem elementos muito bons pra compor artisticamente: um bocado de tortura física e psicológica, chantagens e mágoas do começo ao fim. Mas tem toda uma poética nesse desperdício de energia que vale à pena usar. E se é pra ter uma cabeça de cristão que ao menos o resto do corpo seja pagão!

EXTRA

Tu és um adicto em cinema. Quando crescer vai um ser um Cineasta?

Bom, foi o Cinema quem atirou primeiro: estava eu um belo dia em casa quando meu irmão pôs um tal de Laranja Mecânica pra assistir. Imagina o efeito que isso causa num pirralho de menos de 10 anos! E nesse mesmo ano eu ainda vi O Nome da Rosa, A Guerra do Fogo. Ver Cidadão Kane e Cinema Paradiso depois nem era mais necessário para a rendição ser completa de minha parte. Respondendo: toda vez que assisto a um filme é como se ainda estivesse naquelas sessões, ou seja, um guri fascinado por aquelas imagens em movimento. Quando eu crescer quero me mover dentro desse universo, de alguma forma... Na verdade, tenho o roteiro de uma curta pra ser feito aqui em Sampa, Só preciso me organizar pra começar o projeto. Darei notícias sobre...

Abaixo segue os Links do seu blog e do palcomp3:
 



sexta-feira, janeiro 18

Veneno da Água Parada


Entrevista cedida por Reuben Da Cunha Rocha - integrante da Revista Pitomba - por via e-mail pra Diego Pires

DÚVIDA: A maioria dos integrantes da Revista Pitomba reside fora do Maranhão, ou são poetas/escritores mortos (sem menosprezar seus legados).  Queria saber mesmo, acho muito importante pra quem ler a revista.  Qual é a proposta ou as propostas?

Primeiro, vamos rever a contagem dos corpos: a revista é feita por três maranhenses, dois deles vivem em São Luís. Os colaboradores, como os editores, estão todos vivos. A não ser por alguns estrangeiros: mas esses foram traduzidos pelos vivos. De resto, tem gente de Alagoas, Ceará, Piauí, Bahia, Pará, Paraíba, Pernambuco, São Paulo, e até do Maranhão. Pessoalmente, gosto de definir a Pitomba! como uma revista de poesia, artes gráficas e sacanagem. Publicamos textos, histórias em quadrinhos, fotonovelas, fotografias e qualquer coisa que se consiga imprimir. Mas o critério dificilmente seria geográfico: não trabalhamos no IBGE, nem estamos no business do folclore. Gostamos de gente instigada de qualquer lugar.    

DETALHE: Por que a Revista não tem $preço impresso?

Não sei. Mas o custo, garanto, está todo lá.
 
TROCADILHO: Pitomba é fruta do inicio das chuvas no Maranhão e em tempo de seca pretendem continuar as publicações? (A revista não é mensal, semanal é aleatório o tempo - sazonal).  

Periodicidade é um tipo de compromisso que não temos dinheiro, tempo ou nervos para assumir. Nem consigo me lembrar em que data as edições saíram. Tentamos levar a revista ao ritmo da nossa paciência, acho. Além do mais, não esqueça de que o tempo, como explica o samba, é um pássaro de natureza vaga.
 

EU: Por que Narrativa Pessoal não é pretexto?

"Narrativa pessoal não é pretexto. Contexto não é desculpa" está na contracapa da última edição. Quando escrevi esse texto, pensava em meia dúzia de sentidos -- e pensei em outros agora a pouco, quando li tua primeira pergunta. Mas não posso nem quero monopolizar a leitura do que escrevo. Prefiro que um eventual leitor (bem-vindo e livre) leia sozinho e faça o que quiser com isso.  

EXTRAS

Google Adsense rima com poema?

Não sei o que é "google adsense", e nem tenho certeza de saber o que é um poema.
 
E por fim como é de praxe nas entrevistas por aqui pode dizer QUALQUER COISA p/ os leitores do Ponto.

Gozem enquanto há tempo. Acompanhem os lançamentos da Pitomba Livros e Discos. E como diz o preto velho: esperem veneno da água parada.
 

segunda-feira, dezembro 24

Eduardo Patricio


                                                
Entrevista concedida por email a Natan Castro.


Eduardo Patricio é um músico maranhense, de suma importância para a cena alternativa de São Luís, desde cedo mostrou interesse pela música, participou de algumas das melhores bandas surgidas no cenário alternativo da Ilha nos anos 90. Dentre as principais Sarcoma (Hard/Trash), Samsara (Blues/Rock) e a mítica Catarina Mina (Pop/Rock). Atualmente estudando música em Belfast (Irlanda do Norte), o artista hoje está com um trabalho voltado para a música eletroacústica. Na entrevista abaixo o artista fala de influências do inicio, cena alternativa maranhense, fim da Catarina Mina e Joacy James.


Todo mundo que participou ou acompanha o cenário musical de São Luis dos anos noventa pra cá, sabe da importância de bandas como Sarcoma, Samsara, Catarina Mina para o surgimento daquilo que ainda nem podemos chamar de cena alternativa na Ilha, pelo motivo dessa mesma cena ainda não se sustentar. Em sua opinião qual a importância dessas bandas na atualidade, sendo que em todas você participou como integrante seja tocando batera ou fazendo os vocais?

Pra ser sincero, nunca vi a coisa por esse ângulo, dessas bandas terem sido decisivas na criação de uma cena alternativa. Fico feliz que elas sejam lembradas dessa forma. Sendo assim, e também pelo fato de não estar morando na ilha desde 2005, tenho certa dificuldade em dizer qual seria a importância delas hoje. O fato é, nas 3 bandas estávamos sempre tentando fazer um som bacana e tocar bastante. Se isso causou um impacto mais duradouro e/ou serve de estímulo pra bandas ainda hoje, fico muito feliz.    

Muitas foram as bandas que você criou e participou, esse interesse por música veio desde cedo ou não? No inicio quais foram as principais influencias?

A partir dos 4 anos, junto com meu irmão mais velho, comecei a fuçar a coleção de LPs do meu pai. Passava horas ouvindo, tentando cantar junto, folheando encartes etc. Meu pai não tinha nada de rock e pouquíssimo de qualquer música internacional. Eu curtia discos do Agepê, Roberto Carlos, Chico Buarque e todos aqueles infantis da década de 70/80 (Pirlimpimpim, Balão mágico, Arca de noé etc.)
   
A ideia de ir estudar música em Curitiba e logo em seguida na Europa foi natural ou existiu em algum momento a informação que você poderia continuar uma carreira musical aqui?

Eu queria ir pra algum lugar. Estava terminando o curso de Psicologia na UFMA, mas não queria trabalhar na área. Fui pra Curitiba pra fazer uns cursos de áudio e tecnologia e, depois de uns meses, acabei me metendo no vestibular de música da UFPR. Daí em diante uma coisa foi levando à outra. Não tinha um plano (acho que ainda não tenho). Tentei aproveitar as oportunidades que foram me aparecendo. Tenho que voltar pro Brasil em 2014 e  espero continuar trabalhando com música.

Quem acompanha sua trajetória sabe que você já teve bandas de estilos variados, como punk, rock, blues, trash metal e o próprio pop/rock o interesse por musica eletrônica veio depois desses outros estilos ou já existia a principio?

Sempre gostei de algumas coisas e/ou sonoridades eletrônicas. Kraftwerk, por exemplo. Clássico! Mas comecei a ouvir mais e tentar conhecer a história da música eletrônica só por volta de 2002. Foi quando comecei a considerar o potencial dos recursos eletrônicos pra experimentação sonora. 

No seu ponto de vista por estar a certo tempo fora dos limites do Maranhão, como você vê o interesse pela musica produzida aqui pelas pessoas que consomem música no sul do Brasil e agora na Europa?
Pergunta difícil. Não sei bem. Em Curitiba as pessoas pareciam não saber bem o que havia no Maranhão, apesar do esparso e intenso interesse em Tambor de crioula que há na capital paranaense. No fim das contas, é isso, alguns grupos específicos de pessoas interessadas em música regional têm interesse e apreço por tambor, cacuriá etc. Aqui a coisa complica. O Brasil é muito grande e ainda é um bicho desconhecido pra maioria dos europeus. É difícil saber do Maranhão especificamente. No entanto, a música brasileira, em geral, soa sempre de maneira distinta por aqui e imagino que sons do Maranhão poderiam ser recebidos de forma calorosa por muita gente.

Hoje em São Luis existe uma informação meio mítica sobre a Catarina Mina, as novas bandas sempre falam da Catarina Mina como influência certa. É para muitos o primeiro esboço de inteligência na cena alternativa maranhense, sabemos que a banda terminou no meio das gravações do segundo registro, quais foram os motivos? E qual seu relacionamento hoje em dia com os outros integrantes?

De novo, fico feliz em saber que meu trabalho ainda ressoa de alguma forma. É verdade, estávamos gravando um segundo disco (12 faixas se não me engano). A banda terminou aos poucos, por uma série de motivos, sem a gente perceber. Simplificando a coisa: era cada vez mais difícil fazer shows na ilha, principalmente depois da explosão do "forró de fortaleza" etc. Tínhamos um investimento de trabalho, tempo e recursos muito grande, não dava pra se sustentar sem shows. Desse modo, cada um foi se voltando a outras atividades e começando a traçar outros planos que, de uma forma ou de outra, inviabilizavam a continuidade da banda (Djalma planejando se mudar pro Rio de Janeiro e eu pra Curitiba são os exemplos mais claros). Foi um fim de banda diferente pra mim. Sem brincadeira, um dia estávamos juntos, fazendo um lanche e falando sobre a banda, olhamos uns pros outros e dissemos: "acho que a banda acabou, né?". 
Falo com um certa frequência e encontro os caras sempre que posso. Sinto muita falta deles. 


Estamos nessa semana completando seis anos sem a presença de Joacy James na militância cultural de São Luis. Em sua opinião o que representa esse cara e outros como Gilberto Mineiro (Time Rock) e Fred Machado (Backbeat) para a cena alternativa do Maranhão?

Eu diria que Joacy, assim como outros, é/foi uma figura fundamental. Perdemos um grande cara! Sem me delongar muito, acho que precisamos de mais pessoas assim, inteligentes e curiosas, que topem questionar, fazer e chacoalhar um pouco a nossa querida ilha (que sofre de uma tendência crônica ao conformismo). 



Blog pessoal de Eduardo Patricio

                                                  Clipe Haicai Catarina Mina


Eduardo no festival FILE HIPERSÔNICA 2011
                                 

quinta-feira, dezembro 20

Multi - face - tado



Diego Pires entrevista por facebook o artista Rodrigo Kesselring

Todo artista tem seu modus operandi como um Serial Killer. Como é seu processo de criação?

Interessante sua comparação.  O processo de criação varia. Geralmente, quando crio livremente algo, começo sem nada na cabeça e vou deixando a coisa fluir e tomar seu próprio rumo. E não procuro interpretar o que foi criado. Mas também acontece de, por exemplo, estar andando na rua, ou fazendo coisas cotidianas, e ter uma idéia que ache legal trabalhar em cima. Então anoto e quando tenho um tempo livre passo para o papel.
Às vezes também gosto de lembrar algumas coisas que aconteceram ou acontecem e tentar expressar isso através de desenhos, formas. O que inclui a imaginação de coisas também.
Mas falando literalmente sobre o processo, é aquele lance de sentar, pegar o material e desenhar. Sem muito mistério. O contexto da vida e da morte é a principal fonte de inspiração nisso (por enquanto).

Alguns de seus desenhos não têm “um centro” e sim uma “periferia”. É como se fosse um mapa de pensamentos soltos impressos num papel. Consegue explicar esse estilo?


É essa a idéia.

Hoje em dia ao mesmo tempo em que cresce a noção do ser individual e suas possibilidades também cresce as comparações e zonas de acesso. Procuro nesses desenhos em que se pode dizer que o centro está ausente, ter e passar através do mesmo a visão do todo, mesmo que não seja tão totalitário assim, mas que influa na cena, no sentimento gravado.

Mas se a gente parar para ver, até mesmo “os pensamentos soltos sem um centro”, vistos de longe, por si só possuem um centro (um tanto oculto) que é a própria idéia geral do lance.
Essas possibilidades de escolhas, caminhos, a dualidade, o ser e suas questões, experiências, filosofias, o contexto, o macro e micro... Essas coisas me encantam.

Em Outros Desenhos Vemos Muitos Símbolos “Místicos”. O Que Representam Eles Pra Você?


Então... O símbolo por si só é uma imagem em que nela estão inclusas percepções e portas que não cabem na linguagem da razão. Eles representam para mim muitas coisas, mas uma delas em especial é o mistério. Acredito em que mesmo num estado dormente praticamente todos os seres tem um contato com a simbologia. E ela consegue situar e resumir expressões, ou agregar e acrescentar significados na cena. É como se fosse um diálogo, ou algo gritando e dando um sinal. Algo assim.
 



E você também faz tiras e cartuns com um tom desiludido, frustrado, niilista e deformados. Esses “personagens”, sem dúvidas, têm muito de você. Como pensa o mundo?


Cara... Isso é uma onda e eu realmente poderia escrever bastante coisa sobre, mas vou ser sucinto. Penso no mundo como uma pirâmide. E como uma ilusão muito interessante.

Quanto às tiras, eu realmente gostaria de poder ter mais tempo para fazê-las. Rs.

E por fim... Deixe uma frase de efeito, uma mentira se quiser, um desenho, qualquer coisa pra nós internautas privilegiados. 

Legal. O que você não pede chorando que eu não faço sorrindo =)
Gê-zuis disse que se lhe pedirem a túnica, dê tudo mais. Vou seguir o ensinamento milenar e deixar uma “deixa” de despedida dessa entrevista, afinal, como diria Suassuna, um cavalo morto é um animal sem vida.

Antigamente, quando conheci a discórdia e o caos, vi o anúncio de uma festa misteriosa e particular cuja senha estava inclusa em um vídeo sobre FNORDS e foi pedido o sigilo da mesma. Mas agora, eu posso privilegiadamente passar esta senha. Ela é “SMILE TRUTH”. Algo para a reflexão dos universalistas de plantão e paranoides também. Possivelmente isso irá somar em algumas coisas, se for encarado corretamente.


Um abraço para a galera do Ponto! 


nos links abaixo estão o blog e o flickr do Rodrigo Kesselring:

http://rodrigokesselring.blogspot.com.br/

http://www.flickr.com/photos/rodrigokesselring/

quinta-feira, novembro 22

O Maldito Fabio Mourão


Entrevista com o Blogueiro Fabio Mourão Criador do Dito Pelo Maldito por Natan Castro via e-mail.

Percebemos que a estética do Dito Pelo Maldito é bastante definida, a ideia já existia ou foi se definindo com o passar do tempo?

Não sei se você se refere a estética visual ou a estética do conteúdo do blog, então tentarei responder pelos dois ângulos.
Na estética visual, eu tento reproduzir o 'corta & cola' dos antigos fanzines do século passado, um 'movimento' que sou fascinado. Adoro coisas mal feitas, feitas a mão, tortas, mal colocadas, gosto de chamar isso de originalidade incidental.
Na parte do conteúdo, o DpM já mudou muito com o passar dos anos. Começou sem pretensão alguma, apenas como um local onde eu pudesse armazenar meus escritos já que eu não tinha nem um pendrive sequer, quem dirá um computador só meu. Então eu escrevia meus textos a mão em cadernos a noite no meu quarto e pela manhã ia para uma lanhouse qualquer digita-los e posta-los no blog. Daí começaram a aparecer alguns comentários positivos e outros nem tantos, e uma coisa levou a outra. Ainda demorou alguns anos até que eu constituisse na minha mente a ideia de um blog para o público, aos poucos fui descobrindo o que um blog realmente fazia... e foi aí que resolvi fazer tudo ao contrário.

Sabemos que o Dito Pelo Maldito já tem cerca de quatro anos na ativa, já é um tempo considerável em se falando de sobrevivência na blogosfera. Quais foram os maiores obstáculos do inicio?

Em janeiro de 2013 o DpM completa 5 anos online. Como dificuldades eu posso citar as seguintes:
A falta de um computador com uma conexão com a internet. No mesmo mês em que criei o blog eu também saí da casa da minha mãe para ir morar sozinho. Já era difícil manter a luz paga, quem dirá uma conexão com a internet.
Um outro obstáculo que foi uma tremenda pedra no sapato foi a minha família que insistia em afirmar que eu nunca chegaria a lugar nenhum ostentando  a alcunha de 'Maldito'. Chupa parentes!
Mas o pior de todos mesmo foi uma ex-namorada maluca extremamente insegura que atentava minha cabeça cada vez que pintava um comentário feminino no blog. Por causa dela acabei fechando o blog por uns 6 meses. Felizmente eu abri os olhos a tempo e hoje sigo em frente com a escolha que me proporciona o melhor orgasmo,... e como eu disse, o DpM fará 5 anos no ano que vem.

Existe uma politica de parceria com seu blog, o critério é ser parecido e ter alguma relação com a proposta do blog. Na sessão "outros malditos" estão os blogs que passaram pelo crivo, são muitos os pedidos de parceria que não são aceitos?

Esse negócio de 'parceria' tem me rendido muita dor de cabeça. Recentemente eu mudei a política de parceria do blog e já estou pensando seriamente em acabar com ela logo, logo.
Acontece que tem alguns blogs que não confiam em seu próprio conteúdo e acham que vão conseguir os 'milhares' de acessos que almejam na base da parceria. Então o 'malandrinho' pede parceria, fecha, e quando percebe que não atingiu os 'milhares' de acessos que sonhou , vai lá e encerra a parceria na maciota, sem comunicar ao parceiro. Aí tu fica lá com o banner do 'espertalhão' no seu layout, com cara de bobo, enquanto ele abre espaço para fazer outra vítima.
Fala a verdade, não dá pra desconfiar da qualidade de um blog onde a parte de parceiros ocupa mais espaço do que o conteúdo do próprio em sua barra lateral?... Acontece sempre comigo.
Na verdade eu nunca neguei uma parceria, e me sinto um idiota por isso. Eu devia sim ter dito não para muitos que me pediram parceria nos últimos meses nitidamente atrás dos acessos do DpM e não pela afinidade do conteúdo.
Atualmente eu funciono assim, quando encontro um blog que gosto, linko ele no meu. Até pra não perder o blog de vista e continuar acessando mais tarde. E se encontro um banner do DpM em um blog que nitidamente nos linkou porque tem afinidade com nosso conteúdo, aí eu retribuo a ação.
Nunca me liguei muito nessa parte de parceria, isso besteira. Mero detalhe. Tem gente que passa mais tempo procurando 'parceria vantajosa' pro blog do que pra criar um post de qualidade. Isso é bom pra quem faz blog pra blogueiro, eu faço blog pra leitores de blogs.

Falar de literatura na blogosfera e acreditar que se pode realmente atrair público em torno disso pode parecer para muitos um grande devaneio. Blogs como o Ponto-Continuando e o Dito Pelo Maldito estão nessa resistência, qual o papel de blogs como esses na descoberta da literatura em geral?

Bom,... como disse Andy Warhol 'Um artista é alguém que produz coisas de que as pessoas não têm necessidade, mas que ele - por qualquer razão - pensa que seria uma boa ideia dá-las a elas.'.
Acho que o DpM nunca procurou atrair um público, e sim criar o seu próprio. Tanto que sempre evito assuntos já batidos na blogosfera e procuro falar sobre aquilo que ninguem imaginava, ou ainda nem tinha parado pra pensar sobre. Por mais cotidiano e simplório que seja.
Não sei dizer qual o papel desse ou daquele blog dentro da blogosfera, a internet é algo recente e acho que tá todo mundo ainda engatinhando e descobrindo como que se faz ou o que dará certo. Por isso é importante fazer o que se gosta, pois se futuramente der merda, pelo menos tu se divertiu.

Todo blogueiro que se preze sabe o quanto é trabalhoso editar e lidar com tudo que envolve a existência de um blog. Toda esse trabalho fica somente com você, ou existem outras pessoas que tratam disso também?


Recentemente engrossamos as nossas trincheiras literárias com as colunas do Allan Pitz e do Israel Duarte, mas todo o resto é por minha conta. Sou o Artista gráfico, web designer, escritor, editor, contato comercial, publicitário, faxineiro e moça do cafezinho do blog.


Existe hoje na internet uma certa lenda de que todo mundo pode viver só dela, seja tendo um site, blog e usando de outros canais como as redes sociais. Nós do Ponto-Continuando sabemos por experiência própria que existe um longo caminho até que um blogueiro e afins chegue lá, no seu caso já dá para viver nessa realidade?

Ainda não consigo viver de blog, mas já consigo sobreviver de blog. O que para uma pessoa sem muitas ambições como eu, já é algo bem significativo. Pago contas com o que ganho no blog mas não me sobra para gastar com bens materiais ou restaurantes caros por exemplo. Continuo andando a pé e comendo um 'podrão' na esquina pra economizar o da passagem.
Mas sou muito feliz em trabalhar só pra mim e não pra enriquecer algum patrão mega-empresário.
Mas a intenção não é parar só no blog, tenho aí o projeto do meu livro, e quem sabe até a criação de um selo literário próprio para lançar outros autores.

Qual dica você daria para blogueiros iniciantes, que estejam com o intuito de adentrar a blogosfera?

Construa, e eles virão.

Na sua opinião como será a blogosfera nos próximos anos? Daria para arriscar alguma modificação na proposta e na ideia dos blogs no futuro?


Há uns dois anos atrás, quando ninguém me escutava, eu dizia que o futuro dos blogs era se fundirem em grandes portais. Todo mundo achou que eu era maluco e hoje em dia vemos que isso tem acontecido com frequência  blogs maiores absorvendo outros menores e tornando-se um portal só.

Agora, para projeções futuras, eu estou apostando no amadurecimento dos blogueiros e também dos leitores. Acredito que o prazo dos blogs de 'tirinhas meme' irá expirar quando esse público amadurecer e começar a procurar por algo mais consistente na internet. Aí, creio que sobrarão poucos.