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terça-feira, maio 5

Companheiras

Por Mariana Matilda
 
   Durante o inverno, a sala era tão úmida, tão fria, que enregelava mãos e obrigava os pés a manter um constante sapateado; a sala era quente, tão quente que parecia querer matar-nos sufocadas a qualquer momento.
   Os dias – no  inverno como no verão – se arrastavam pesados, longos, sem monotonia, pois nossa constante preocupação era inventar formas para que eles não fossem parecidos. Enchíamos com coragem e alegria todas as horas: alongamentos, crônicas faladas, conversas, cânticos, viagens. Tão estreito era o espaço que possuíamos para caminhar, e o ruído dos tamancos cortava-o, ferindo a lajedo; a saudade impressa nos olhos; as constantes evocações.
   Éramos vinte e cinco mulheres presas políticas numa sala da casa de detenção Pavilhão dos Primários, 1935, 1936, 1937, 1938. Quem já esqueceu o sombrio fascismo do estado novo com seus crimes, perseguições, assassinatos, desaparecimentos, torturas?
   De um lado e do outro da sala, enfileiradas, agarradas umas às outras, vinte e cinco camas. Quase presas ao teto alto, quatro janelas, fechadas por umas tristes e negras grades. Encostada à parede, uma grande mesa com dois bancos. Ao fundo da sala, os aparelhos sanitários. Por maior que fosse a nossa luta para mantê-los limpos e desinfetados, nunca conseguimos fugir do cheiro forte que exalavam.
   Vinte e cinco mulheres, vinte e cinco camas, vinte e cinco milhões de problemas. Havia louras, negras e morenas, algumas grisalhas; de roupas claras e trajes modestos. Datilógrafas, médicas, domésticas, advogadas, mulheres intelectuais e operárias. Algumas ficaram sempre, outras passavam dias ou meses, partiam, algumas vezes voltavam, outras nunca mais vinham.
   Havia as tristes, silenciosas e herméticas; as vibráteis, sempre propensas ao riso, aproveitando todos os momentos para não se deixar abater. Os filhos de Rosa eram nossos filhos. Sabíamos das graças e das manhãs que embalaram aquela mulher forte, arrogante, sempre atrevida, mas tão doce, tão elevada pelos "meninos". Quando Rosa falava dos meninos, ficávamos todas em silêncio. Onde andariam eles? A polícia arrancara-os daquela mãe, que negava-se a informar onde se encontravam, não admitiam que Rosa soubesse notícias da família: o marido foragido, a irmã distante. E os meninos? No silêncio das noites, ela fazia com que assistíssemos aos nascimentos, aos primeiros passos, ao primeiro sorriso, e depois o crescer rápido, a escola, os livros, idade avançando. Onde andariam eles?
O noivo de Beatriz era nosso noivo. Queríamos saber de suas notícias e desconhecidas andanças. Problemas comuns, destinos comuns. Os filhos de Antônia estavam em natal, mas onde estaria o marido de Nicinha, preso há tempos no Rio Grande do Norte?
– Aquele eu conheço muito! É um cabra da peste. Ninguém dobra ele, não.
  Nicinha alourada, de voz cantante, opunha às cenas de amargor suas palavras de energia. Contava a vida do marido com a vida de um herói.
  Pobres mulheres jogadas em uma prisão pútrida, sem o menor conforto. Maria só lembrava do seu chuveiro elétrico, Valentina ensinava-nos a literatura francesa (e como ela sabia!) e queríamos viva a força de Nise, para que nos desse lições de psicologia.
   Um dia – jamais esquecerei desse dia – fazia muito calor e havia sol. Que mormaço! Pareciam maiores as paredes da sala onde escreveramos desabafos. A vida lá fora devia estar bela, era verão, e com certeza ruas e avenidas ensolaradas viam passar mulheres de vestidos claros e leves. Na sala, aquela tarde, havia tanto calor que descansávamos nas camas, abanando-nos com pedaços de papel. Como não tínhamos espaço para andar todas ao mesmo tempo, quando umas o faziam, outras eram obrigadas a ficar sentadas ou deitadas nas camas. Jogávamos paciência, algumas, e o calor era tanto que nem tentávamos falar. Qualquer gesto, qualquer palavra ou movimento aumentaria o suor que escorria de nossos corpos cansados. Não podíamos perder a menor de nossas
energias: sobreviver era a intenção.
   Foi nessa tarde, que tenho gravada na memória, que ela entrou na Sala das Mulheres. Nunca esquecerei seu ar de espanto ou aqueles sapatos que haviam sido brancos. Manchados de terra ou sangue? Nunca me esquecerei do vestido sujo, das mãos trêmulas e dos cabelos revoltos.
   Ouvimos os passos do guarda subindo a escada; as chaves na porta das grades; depois ele entrou. Estrutura mediana, vestido estampado, olhos curiosos. Entrou em silêncio. Em silêncio a deixou ali.
   Olhou em torno, examinou a todas, envolvendo-as num olhar intenso. Sentou-se na ponta de uma cama próxima, encurvou-se, meteu os dedos por entre os cabelos.
– Quem será?
– Que mulheres são elas? – estaria se perguntando.
   Aproximamo-nos. Tínhamos sempre o cuidado de fazer o reconhecimento e o nosso próprio interrogatório: nome, motivo, lugar, etc. Muitos etc.
   Perguntamos quem era ela. Nenhuma resposta. Ninguém a conhecia: não nos conhecia. Insistimos. Coçou as pálpebras, levantou os olhos, encarou-nos de frente, parecia um animal prestes a se defender.  Nossas perguntas foram feitas em várias línguas. E ela continuava firme, estática.
– Não sabemos quem és. Somos antifascistas, somos presas políticas. Cada uma de nós tem sua história. Somos todas brasileiras.
   Uma de nós adiantou-se e disse:
– Eu sou comunista.
   Foi a esse grito que aquela mulher despertou. Agarrou-se à companheira, beijou-lhe a face e pôs-se a exclamar com grandes lágrimas descendo pelo rosto alquebrado:
– Camarada, minha camarada!
   O olhar com que agora envolvia as vinte e cinco mulheres era diferente; queria entender as palavras nas paredes, perguntava, sorria, abraçava a todas, chorava e ria. E contou. Contou em voz firme o quanto sofrera. A Polícia Especial a maltratara monstruosamente. Mostrou-nos os seios nos quais trazia marcas de dedos. Colocavam-na no alto da escada, amarrada e nua para forçá-la a declarar ou delatar, enquanto dois homens a puxavam os seios.
Falou-nos do sofrimento, da fome e da sede que a impuseram. Também sobre seus companheiros e das barbaridades sob as quais padeceram. Sempre com voz clara, precisa e serena. Seu corpo guardava vergastadas dos tantos chicotes de cada lugar. De prisão em prisão. Passando por prostitutas, ladras ou ébrias. Mais de dois meses de humilhações muitas.
– Momentos hediondos – comentava.
   Houve uma balbúrdia geral. Todas queriam dar-lhe um pedaço de pão, de doce, uma fruta. Comia sorrindo. Sua fome tinha dois meses. Seu sofrimento, tempos.
  Minutos depois voltou o guarda. Explicou que fora engano. Que sua cela seria outra. E, rindo:
– Muito pior.
  Quando partiu, deixava vinte e cinco amigas. Não lhe dissemos adeus, não tivemos um momento de fraqueza. Mas quando as grades se fecharam atrás dela, cinquenta olhos desatavam.
  A tarde tão quente de verão nunca fora tão extensa e dolorosa. Ninguém falava. Voltamos ao jogo de paciência, ao silêncio, à angústia de saber que a vida lá fora estava radiante.
   Três meses depois, ela voltou. Veio viver conosco. Todas as noites, à meia-noite, transitava pelo cômodo e vagava em pensamentos.
   Provavelmente apanhava da meia-noite às duas da manhã. Ficou-lhe uma psicose.
   Essa mulher se chamava Elise Saborovsky, a Sabo Berger, mulher de Henry Berger. O governo de Getúlio Vargas entregou-a mais tarde à Gestapo. Hitler matou-a.
   Ela foi-me uma revelação. Jamais conhecerei mulher tão culta, tão humana, tão valente. Uma mulher tão bela. Nunca a esquecerei.
   Na noite em o que ela partiu com Olga Benário para o navio que as levaria a Hitler, era inverno e tiritávamos de frio. Sofríamos ainda mais, porque havíamos aprendido a amá-la.
   Jamais esquecerei também das vinte e cinco mulheres da sala inconstante, do Pavilhão dos Primários.
   Grandes mulheres, boas companheiras.

quarta-feira, julho 10

Abismo

Era uma dessas padarias com mesinhas de plástico espalhadas na beira da calçada. Já estava ali quando chegamos, a padaria. Existem mais padarias assim no bairro que, inclusive, são muito maiores e mais bonitas do que essa. Pela arquitetura comum, acredito que antigamente foi uma casa e o dono havia começado pela garagem mas com o tempo, por parecer um negócio promissor e também por capricho, expandiu. Talvez este mesmo dono tenha a vendido e ido embora, pois não há, pela expressão do seu José, que é o atual dono da padaria desde que a conheci, nenhuma expressão de quem queira expandir mais ou investir nisso. Ou talvez seu José tenha sido sempre o proprietário, mas algo fez com que se acomodasse, estacionasse nesse ponto. Cansaço? A idade o teria deixado menos otimista? Ou até uma decepção amorosa, quem sabe? Eu que não sei, nunca vi seu José com mulheres nesses últimos anos que tenho freqüentado sua padaria. É uma padaria, mas é dessas que têm mesas de bilhar, café, lanches, tudo feito pelo seu dono/padeiro e mais uma funcionária que eu não sabia o nome. Estou escrevendo daqui agora, se é que já não perceberam isso. Estou esperando uma pessoa. Tenho dúvidas com relação a ela. A conheço há muito tempo, mas acredito que as dúvidas que possuo nunca irão cessar. Não apenas porque ela é mulher e todas as mulheres são ininteligíveis, porque embora geralmente não nos compreendamos, continuamos unidos por alguma vontade estranha, como se a incompreensão nos encantasse apesar de nos fazer discutir e passar raiva seguidamente. É como se ainda tivéssemos esperanças um no outro, até mesmo porque ninguém consegue desistir de um ser que é capaz de te ferir com tanta leveza, com tanta beleza. E, também, é bem verdade que não passamos todos nós de seres distantes e estranhos uns para os outros. Seguidamente nos vimos tomados por um sentimento de estar perdido num deserto de lobos uivantes. A distância entre o lobo e a lua é muito menor do que a que existe entre cada um de nós e um uivo diz um milhão de vezes mais do que um poema. Enfim, não digo isso por rancor, até mesmo porque jamais pensei em sentir algo negativo em relação a ela. Outro dia, nesse mesmo lugar, ela chegou e sentou-se enquanto continuei lendo um livro de receitas em espanhol, sei que é estranho mas passei a tarde toda entretido naquilo e, sem parar de ler, a ouvi colocando as duas mãos cruzadas na mesa e dizer:

- Quem será que inventou a palavra “abismo”?
- Como assim? - respondi sem tirar o olhar do livro.
- Uma vez eu viajei de carona pela América do Sul. Acontece que foi uma idéia imbecil demais. Quando cheguei na Colômbia estava doente, faminta e falida. Caminhei 4 kilômetros por uma auto-estrada na serra cheia de neblina por todo lado, curvas e mais curvas -- que, somadas ao meu estado, me torturavam ainda mais, eu ficava tonta e as vezes me esquecia de quem era. Bem, não sei direito o que aconteceu naquela noite, só sei que a coisa seguinte que me lembro era de já estar de carona numa Kombi de estudantes que estavam em viagem por ali. Desci, a salvo, na rodoviária e voltei para casa.
- E não lembra de nada que aconteceu entre a neblina e tal?
- Branco total.
- Acho que isso deve ser normal.
- Bem, sei lá. Só sei que ontem sonhei que estava naquele mesmo lugar e subi na mureta de concreto que separava a estrada de um abismo enorme e sem fundo, olhava para baixo e tudo era tão escuro, mas não um escuro qualquer, como a sombra duma árvore numa noite de carnaval, mas um escuro vivo, que se movia e parecia possuir personalidade própria, como um ser, como o escuro que fica dentro de uma casa abandonada no tempo, como aquele que fica debaixo da nossa cama quando a gente é criança, é diferente de qualquer outro escuro. Eu me inclinei tanto que era impossível não estar sonhando. Eu estava de pé, mas na horizontal, como se a gravidade não existisse mais e eu estivesse nos braços do abismo vivo, que me abraçava e me beijava de língua. Então acordei. Arrumei o cabelo, escovei os dentes, lavei o rosto, tomei um banho, vim para cá e agora nada mais faz sentido. Não que seja O SONHO o culpado disso tudo, pois é só um sintoma. Um sintoma de que mais nada tem feito sentido. As vezes me dou com uma esquina e sinto vontade de sair correndo. E você aí com esse livro, sei que está me escutando. É tão estranho, porque é a única pessoa que sei que está me escutando quando falo e isso é muito raro. É como se as outras me dessem o olhar, as mãos, o tempo, menos os ouvidos.

Fechei o livro. Ela parecia tomada por um desespero absoluto mas concentrado -- o que pode parecer estranho, porque é possível que algumas pessoas pensem que todo desespero é explosivo e incandescente. E com certeza essas pessoas não conhecem o desespero. Pedimos dois cafés. Continuei em silêncio com a xícara na mão, analisando os desenhos da cerâmica. Parecia uma xícara caseira, branca com flores desenhadas em tons de rosa, violeta e verde-escuro, mas já desbotados. Talvez eu também estivesse desesperado. Essa era minha forma de desespero. Depois, seguimos para casa e até nos damos as mãos no meio da rua...

- O desespero passou -- disse um de nós, só não lembro quem. E o outro respondeu:
- É.

Caímos na cama e ficamos olhando pela janela, chegava o meio dia.

- Tá vendo? -- eu disse.
- O quê?
- O céu.
- Tô.
- O céu é um abismo lindo.

domingo, novembro 25

Encontro marcado





                                                                                           Ouça e leia.
                                                                                           Todo azul do mar by Flavio Venturini on Grooveshark


Eles haviam se conhecido no penúltimo ano da faculdade de arquitetura, ela já havia desistido de filosofia e letras, ele sempre soube o que queria ser, somente depois da terceira tentativa conseguiu entrar no curso. Ele vinha de família judia e ela de católicos praticantes, mas nos últimos tempos haviam se aproximados do Seicho-no-iê por conta de uma amiga oriental dela, que também havia iniciado eles no Feng-Shui. Haviam se casado no verão de 89 e passado a lua de mel nos Lençóis Maranhenses, pois a família dele vinha daquelas terras. Os filhos vieram três anos depois quando eles já tinham montado com muita luta seu primeiro escritório de arquitetura. Era um casal, depois desses não houve mais nenhum. A vida estava estabilizada, todos os planos traçados de uma certa forma estavam realizados, algumas coisas incomodavam a gastrite dele, causada pelos projetos de clientes nem sempre pacientes, e do lado dela uma enxaqueca crônica que ela tratava com a arte do Bonzai. Nos últimos tempos às atenções estavam voltadas para os filhos, a garota estava tentando biologia e o rapaz fazia educação física e iniciava uma carreira promissora de surfista. Somente aos domingos eles se reuniam para almoçar, mas rápido os filhos saiam e os dois passavam o resto do dia entre seriados, comedias românticas e fast-food.

Bem recentemente ela estava ausente do escritório por conta de um curso de decoração que estava ministrando para alunos de terceira idade, somente ele cuidava dos projetos, certo dia ela precisou passar no final da tarde para pegar uns livros que havia deixado no escritório e não percebeu sua presença por lá, perguntou para a secretária e soube que ele sempre saia uma hora mais cedo, em dias alternados na última semana. Depois daquele dia uma fina desconfiança não saia de sua cabeça, as perguntas eram várias, certo dia pensou em perguntar onde ele passava as horas que compreendia a saída dele do escritório e a chegada em casa, mas refletiu e achou por bem segui-lo e acabar com aquele desconforto. No final da tarde de quarta-feira ligou para o escritório e soube que ele já estava próximo de sair, ficou no inicio da rua esperando sua saída olhando de dentro do carro, logo depois o seguiu até um lugar meio afastado da cidade, era um parque meio esquecido pelo poder público, poucas eram as pessoas que frequentavam aquele local que estava fora de moda, do lado de fora observou o portão sendo aberto por um porteiro e a entrada dele no local. Depois de meia hora aguardando e observando que ele continuava lá, tomou a decisão de entrar e ver de mais perto, entrou a pé e perguntou ao porteiro dando as características dele, se aquele homem sempre estava por lá, o porteiro acenou dizendo que sim. Seu coração deu um salto ela adentrou e começou a andar pelo parque, eram poucas pessoas alguns idosos e mães com crianças pequenas, lá no fundo observou que havia um lago com alguns bancos de madeira de frente, procurou e não viu nada, o lago era limpo e refletia os últimos raios de sol do dia, caminhou até mais perto e viu um homem de costa sentado em um banco no canto afastado do parque, aproximou-se e viu que era ele, sozinho olhando fixamente para o lago, aguardou mais uns minutos e o viu saindo e cruzando o parque em direção à saída. No caminho de volta para casa o seu celular toca, era ele, trocaram algumas palavras, e depois de alguns uns instantes parada no semáforo ela acelerou e olhou para a sua aliança que naquele fim de tarde parecia brilhar mais do que nunca.

sábado, outubro 13

A louca



Era louca. Ninguém sabia ao certo como chegara à cidade, no entanto já há muitos anos que ela morava ali. Andava pelas ruas, maltrapilha, um farrapo humano que vivia a perambular com seu carrinho de supermercado quebrado cheio de todo tipo de bagulho que ela juntava em suas andanças. Os garotos, em sua crueldade de adolescentes, maltratavam a pobre louca de todas as maneiras possíveis e imagináveis, lhe atiravam pedras, xingavam, enxotavam-na com algazarra de onde quer que a encontrassem. Não era tão velha quanto parecia, mas as opressões e dissabores da vida lhe haviam dissipado qualquer traço de juventude e beleza, se algum dia ela teve alguma.  Dentre todos os ‘pertences’ que tinha – se é que todo aquele lixo que carregava pudesse ser chamado de pertences. – havia um que ela não se separava, uma pequena boneca de pano, velha, suja e encardida que ela carregava pra onde quer que fosse.

Se abrigava em um beco da cidade sobre uma mistura de papelão e panos sujos nos quais dormia, protegendo-se do frio da noite, o ambiente era escuro, úmido, abafado e fétido, mas era aquele lugar que a servia de casa. 

Certa noite, depois de virem de uma festa nas cercanias, os garotos já meio ‘altos’, resolveram por farra passar onde a louca dormia, para se divertirem mais uma vez as suas custas. Chegaram falando alto, fazendo barulho, a louca acordou assustada e tentou se proteger em um canto cobrindo-se com os papelões, os garotos espalharam todos os seu pertences, reviraram se carrinho, quebraram garrafas, espalharam o lixo. Os olhos da louca arregalados de pavor virava de um lado para outro do beco enquanto ela se recostava mais e mais no canto que agora lhe servia de abrigo contra aqueles jovens que destruíam sua casa. Então a atenção deles se voltou para a louca encolhida no canto, começaram zombando dela, mas, como se acometidos de uma estranha histeria coletiva, começaram a surrá-la, primeiro com socos e chutes, depois com qualquer coisa que lhe estivesse à mão. A seção de selvageria durou o tempo que levou para se saciarem de sua sanha de violência gratuita. Ao darem-se por satisfeitos, saíram de volta para suas casas, sorrindo e comentando sobre as proezas daquela noite. 

Somente um dos garotos ficou para trás, ele não havia participado da barbárie que havia ocorrido ali, não concordava com o que os outros faziam, mas não tinha como se opor a eles. O garoto fica parado no beco olhando toda a destruição causada pelos que estavam com ele, seus olhos procuram a figura da louca, e sob a fraca luz da lua ele observa uma massa desfigurada e ensanguentada jogada no chão do beco. Ele dirige-se em direção a ela, mas antes para, abaixa-se e pega algo no chão, então vai até onde a louca está, ajoelha-se e lhe estende a mão, nela esta a pequena boneca de pano que ela levava sempre consigo, ele lhe olha nos olhos e ela lhe devolve o olhar, não um olhar de bicho, de louca... mas um olhar que só um ser humano podia dar.

Depois daquele dia, nunca mais viram a louca pela cidade, não sabiam por que tinha ido embora, pra onde tinha ido, e nem sentiram falta dela. Apenas o garoto de vez em quando voltava ao local aonde a havia deixado, e ali no beco, sob a luz da lua, chorava.

quarta-feira, outubro 3

A melhor amiga da minha ex-namorada.

Era uma sexta-feira logo cedo pela manhã o telefone tocou.

Mauricio - Alô?

Mauricio - é Nanda.

Mauricio - Oi Nanda, tudo bem?

Nanda - Beleza! É o seguinte, recebi uma ligação do escritório agora pouco, o pessoal me convocou as pressas pra uma reunião que vai acontecer de última hora, já estou indo pegar a estrada, estou ligando pra avisar, provavelmente na segunda estarei de volta ok?

Mauricio - Putz, uma droga, mas beleza, boa viagem pra você, Beijo, te cuida!

Nanda - Ok, beijo quando chegar na segunda te ligo, tchau.

Ainda meio sonolento olhei pro relógio marcava ainda 7 e meia da manhã, levantei e fui direto pro banheiro, quando liguei o chuveiro escutei o celular tocar, voltei peguei o celular na mesa.

Mauricio – Alô?

Mauricio, cara é o Hector.

Mauricio - Fala ai Dj.

Hector - Cara estou te ligando pra avisar de uma festa que vai rolar com a galera da Faculdade, nesse sábado.

Mauricio - Mesmo, mas como ninguém me falou nada, assim em cima da hora.

Hector – sim é que teve uma casa da amiga da Dani, a Dani da segunda turma, os pais dessa amiga dela foram viajar dai resolvemos não perder tempo e vai rolar lá, vou colocar som junto com uns Dj`s amigos meus, conto com tua presença.

Mauricio – legal, estarei lá. Me manda uma msg com o endereço e me aguarda.

Hector – Tudo certo mando sim, abraço até mais!

sexta-feira, junho 15

Soco Inglês - EPISÓDIO 2



O que se seguiu foi cena de filme: Adenílson estava se levantando quando o rapaz cerrou o punho direito, e o murro só não pegou em Adenílson porque Luisinho, que estava ali do lado, vendo tudo, segurou, num reflexo involuntário, o punho armado do outro rapaz, dizendo, num tom amigável:
– Ê,rapá, melhor tu deixar esse novato em paz.
– Koé, tá vacilando, mané?, respondeu o outro, dando uma de homem, e, por um instante, os dois parceiros de tantas pirações, subitamente colocados em posição de antagonistas, ficaram se medindo, uma mão que agredia contendo outra mão que agredia e que estava a fim de agredir muito. Luisinho então falou, sério:
– Chegado, se tu bater nesse verme, tu vai te dar mais mal que ele, caralho, tu viu o que aconteceu com aquele outro depois que ele deu uma pedrada no muleque lá, tá pagando febem até hoje.

terça-feira, maio 29

A Lambida


Ilustração de Diego 

Foi assim que a conheci: carente, precisando de companhia. E lá estava eu, na hora e no local certo. Foi uma espécie de amor a primeira vista, pelo menos assim queria eu entender, no entanto, sabia que seria muito difícil que ela gostar de mim, embora não fosse impossível - a realidade pode ser dura, mas tem seus caprichos, vez ou outra se maquia de sonhos para sair escondida...

“Vou tê-la pra mim”, disse convicto, mesmo que seja contra a sua vontade, mesmo que não ame, mesmo que não se agrade da idéia. Ela será minha, pois, tratando o meu amor como um fato concreto, não preciso de uma recíproca, uma vez que tudo que preciso já foi constatado. Portanto, empiricamente, em outros termos, mais cedo ou mais tarde, ela iria gostar de mim. Disso eu tinha certeza. Basta ela saber que eu sou o grande amor da vida dela. Se ainda não me ama é por façanha da ignorância. Coitada, ela não tem culpa...   
            

terça-feira, maio 22

A MENTIROSA

Ela sempre falava, “eu nunca minto”, e o pior: não era mentira. Anabela só dizia a verdade. Nem mesmo a mentira mais inocente, como dizer que ia à casa de uma amiga para ir à casa do namorado, ou dizer que já almoçou, quando na verdade se empanturrou de sorvete na rua; a menina não era capaz de fazer. Os lábios tremiam, as sobrancelhas assumiam não sei qual trejeito, não adiantava. Mesmo se quisesse mentir, por algum princípio psicossomático, não conseguiria, não o saberia.

sexta-feira, maio 18

eXpurGo - EPISÓDIO 3

Égido não pôde evitar que uma lágrima espelhasse nos seus olhos a lembrança contida de um passado remoto, e Miguel nem cogitaria a hipótese de não ver naquele olhar o seu próprio reflexo deitado na praia ao lado de quem ele, àquela época distante, cria ser pateticamente o grande amor de sua vida. Uma reminiscência doce, vermelha e amarga de amantes ordinários e safados que se amaram no anoitecer de uma foda na areia com o mar acariciando seus pés, mas quem pensa que aquela noite ébria na praia, que me perdoem o clichê poético da frase anterior, foi uma noite metaforicamente romântica, hum!, digo-lhe que ela foi mesmo é euforicamente libertina. Detrás de uma pedra, sob a luz tênue de um holofote distante, de frente um para o outro, detrás de todos, duas pernas de não sei quem se levantaram, realmente não deu pra ver de quem eram devido à espessa penumbra e ao fato de este narrador não ser Deus...

sexta-feira, maio 11

eXpurGo - EPISÓDIO 2


– Pois é, respondeu o soldado Égido, não podendo evitar que um começo de lágrima lhe umedecesse os olhos. Miguel, vendo aquele olhar, disse:
– Valeu a pena levar essa surra só pra ver esse seu olhar de pena, disse Miguel.
– Você gosta que as pessoas sintam pena de você?
– Caralho, mesmo tendo largado o curso de psicologia – Miguel tosse e cospe mais sangue – mesmo tendo largado a porra da psicologia, você não perdeu essa mania de analisar os outros e essa incapacidade de se analisar a si mesmo, o que eu disse não tem nada a ver com as pessoas, mas com você, eu quis dizer que, se você ainda é capaz de sentir pena, é porque ainda é capaz de sentir alguma coisa boa, exatamente como o menino gentil e cordato que eu conheci e que tanto amei, ou seja, você ainda é capaz de amar, mas confesso que estou um pouco chocado – nova pausa para mais tosse e mais sangue cuspido – de ver aquele que eu pateticamente cria ser o amor da minha vida espancando seres humanos como meio de vida.

segunda-feira, maio 7

QUANDO A INVEJA NOS ATACA NO QUARTO DE MOTEL


           
          Estávamos lá. Ambos muito tímidos ainda. Estávamos ali para aquilo, sentido isso, mas não falando disso. Disfarçando ao máximo nossas intenções para não deixar as coisas muito na cara. Viemos, é claro, para trepar, mas nossas intimidades ainda não escalaram grandes alturas. Portanto, qualquer empolgação desavisada pode acabar com tudo aquilo, sem isso, por causa disso.
            Se ela veio até este local, era por que também queria algo a mais, ou a menos. No entanto, seu jogo consistia em dizer:
- Bem, eu estou aqui mas não sou safada, viu?
Eu, por meu turno, tentava expressar nas entrelinhas.
- Veja, eu estou doido para te comer, mas não sou um tarado, tá me ouvindo?
 A pior parte, a mais difícil, já tinha passado. O convite foi feito e aceito. É certo que sem muito mérito da minha parte, já que o nome do motel ajudou: “Depois te conto”.
- Vamos para um lugar mais reservado, que tal?
- Onde você quer me levar, hein?
- Depois te conto!

sexta-feira, abril 27

Bom Apetite


Foi um dia comum como qualquer outro, as mesmas praças, mesmas pessoas e o mesmo clima de sempre. Nada era tão novo que desrespeito ao ingênuo semblante da cidade de São Luis. Confesso que ganhei o hábito de beber, mas não beber por beber, cada gole de álcool tem o seu devido pensar filosófico, um olhar de mudança, como um jovem pobre; cheio de sonhos preciosos que se mantém vivo as recordações da infância.

Repetem as más línguas que no inicio do mundo havia um olho azul mergulhado no fundo do mar, olho este pertencente a uma alma feminina entrepostas entre as falanges dos corais marítimos, e o homem que o encontrar torna-se valente de todos os homens, verdade ou mentira, tenham certeza amados leitores o medo fora quebrado e a imortalidade está a um passo, entretanto essa singela narrativa não nos convém falarmos, ponha atenção nos fantasiosos ditos transcritos para o papel. Grande conquista soa a voz da verdade. Medo e suas letras formam mais uma vez o duelo de existência, cavalga a noite e meu passo continua lento, mas uma vez em busca do inevitável, da a sensações que foram só sensações, nunca antes o álcool me dera tanto prazer, nunca antes sentir prazer onde não há prazer, em busca de prazer minha boca se traduz. Como podem ver, estou à inércia desta existência, meu tempo torna-se cada vez ainda mais atemporal. Corram para as salas, liguem as TVs, mandem recados..., voltei! E sofro por não sofrer. Minha voz escapa... , preciso fugir onde me encontrem, sou mal, frio..., amo as novelas e os programas com prostitutas..., que se foda! Essa é a minha vez..., descarregar palavras sem pensar nas suas ações e seus tormentos..., em meio às flores surge Maria, mulher doce, de nariz fino, sempre tive certeza que mulheres de nariz fino tinham bom sexo, olhar castanho puxado para o azul! Quem é está? De onde vem?


- Italiana, ela disse...

Estava desde as sete da noite aprofundando meus pensamentos com um amigo escritor, entre cervejas e cigarros exorcizávamos nossos demônios. Seu nome e bastava, Maria, ela disse, sentou-se a mesa com seu namorado..., bebíamos e conversávamos... , os olhares entre eu e Maria tornavam-se mais constantes! As conversas ganhavam forma e cores, nada me parecia tão singular, o olhar frenético e o dilatar de seus lábios ganhava o enroscar de minhas pernas, o fato de não tomar uma atitude de imediato é devido ao fato de seu namorado está ao meu lado direito, o que se diga de passagem não pareciam tão namorados assim, o sexo entre eles devia ser raridade, continuava eu a imaginar-la sem roupa com seus lábios beijando meu peito e indo direto ao meu membro sem timidez, hora ou outra escutava e treinava meu italiano ainda muito fraco. Com grande esforço de aprendizagem autodidata. Ações simultâneas ocorriam envoltas da mesa, cervejas e mais cervejas, tomavam a mesa, o olhar de Maria tornava-se mais intenso sobre o meu, comia-me com os olhos como se fosse uma cadela em cio, meu corpo gozava de tanto imaginar seu rosto coberto de desejo.

- Parabéns pela apresentação, disse.          
- Obrigada, com o português típico de um estrangeiro, meu amigo escritor e o namorado de Maria logo ganharam amizade; riam de tudo, conversávamos aos berros, Maria e eu fazíamos amor somente no olhar, o gozo da italiana parecia vibrante grande de mais para quatro paredes. Excitação, seus dedos entre o copo me dava, a queria ali mesmo encima daquela mesa, com todos em volta a nos olhar.

- A sua também foi ótima, ela disse.
- Que bom que gostou, respondi completamente tímido. A verdade é que eu e Maria já havíamos nos conhecidos, nos apresentamos juntos na noite anterior em um teatro da cidade infelizmente o tempo não nos deixou nos aproximar, mas o olhar vele- jante de Maria escorria sobre meu corpo...

A conversa da mesa de bar continuava, sem pressa a noite ia embora, a vontade de ir para casa havia passado. Preocupava-me somente que aquelas seriam as derradeiras horas da linda italiana aqui na cidade. O presente fato que obtive em minhas andanças de vida é que a mulher pode obter o prazer com um homem sem entregar sua alma para ele, o momento da copula, a eternidade limitada natural do desejo equivale ao pequeno suicídio, individual e depressivo. As inertes horas de posições, beijos, carícias e gemidos resumem-se em apenas três segundos da pré-morte: a respiração pára e o corpo gela; individual, sozinho e mais nada. Entretanto, o olhar perfurante da ragazza movimentava a atmosfera do ambiente, os sinais eram visíveis até demais, os lábios finos secavam a cada segundo que antecipava nosso sexo.

- Tenho que ir não me sinto muito bem, disse meu amigo escritor.
- O que te passa, disse o namorado de Maria.
- A boemia tem me custado o estomago, e os pulmões pressentem a minha deixa.

O belo italiano não compreendeu o sentido das palavras que o escritor disse, mas fez o favor de se fazer-se compreender.

- Melhor ir se não tiver bem, completou Maria.
- Não, já tive noites piores.
- O mundo traz a sina, exclamei.
- A sina traz o mundo, acrescenta o meu amigo escritor.

De certa forma para o poeta a noite é sua amada perfeita, seu chapéu; o templo de sabedoria, sua sabedoria; seu deslize último e verdadeiro. O que preenche as lacunas efêmeras da solidão é o perceber da obra que ganhou vida, perfurar com palavras desejando a imortalidade. Imortalidade que não vale mais nada nos dias de hoje, levando-se em consideração a realidade pela qual a sociedade vive uma fábula afirmando-se somente na aparência e no recado informativo, então de que valeria o surgimento de novos boêmios de nossa era? Somente por lembrança. E nada mais, em outras palavras o herói está morto e seu luto profanado. De nada mais vale estas e noites e está embriaguez, o sentido de tudo isto caminha para o vazio, a menstruação arrependida guardada pela puta virgem em seu deleite de ética e moral. Fedendo assim caminha o aparente mundo social destas personagens que atuam em busca do exagero construindo o material da ilusão religiosa esperando o advento do status. Neste liquidificador ao fundo do esgoto onde se encontra a reciclável sociedade aparece o inimigo indesejável, marginal que rapidamente precisa ser expelido.    

A gostosa conversa entre nós quatro tornava-se ainda mais empolgante, risos frenéticos, reflexões profundas e certezas filosóficas. O que não era tão visível para o meu querido escritor e o belo italiano era que não percebiam o suspiro selvagem de Maria ao perfurar meus olhos, por mais que as mulheres sejam previsíveis, esta possuía uma formula peculiar de me controlar e decifrar meus signos. As cartas estavam lançadas, a decisão era minha de possuí-la ou de apagar de uma só vez a sua existência da memória. O que me perturbava era somente como? Ela lia meus pensamentos.

Cochichou por dois segundos ao ouvido de seu namorado, ele respondeu: Benne. Ela enroscou suas pernas por debaixo da mesa, levantou-se e direcionou-se para as escadas do bar onde estávamos. Era minha chance, logo pensei, deixei que a subisse, fiquei alguns segundos entretendo o tempo com pouca conversa até a coragem suplantar o medo e levar minhas pernas em direção da bela italiana, subi ao seu encalço sem saber para onde este sentido primata me levaria não hesitei e fui. Ao termino das escadas não há avistei, estava errado e sentia-me envergonhado por tanta loucura pensada abrir a porta do banheiro lavei o rosto e contemplei minha derrota. No entanto uma pancada seca abriu a porta, Maria surge igual qual um fantasma sedento de vingança, empurra-me contra a parede e em um só fôlego beija-me, semelhante ao ultimo suspiro de vida de qualquer mortal, não hesitei, retribuir na mesma medida o forte beijo, minhas mãos enroscaram em seus cabelos compridos e escorregavam até suas nádegas. Surpreendentemente para este momento a minha surpresa foi que minha mão firme em seu quadril não lhe agradou, o meu ato lógico foi respondido com uma veemente tapa, e os suspiros secaram ficando apenas o diálogo do olhar quente e faminto da ragazza invadindo o meu, a comunicação estabeleceu um símbolo pelo qual não interpretei. Sua mão direita desceu milímetro por milímetro até chegar a minha calça onde estava meu pênis, desabotoo o zíper ainda com a flecha em meus olhos e segurou com sua mão direita com tanta força como se quisesse arrancar, ajoelhou-se e colheu os colhoes a boca com sua língua, frenética e ofegante abusou–me até minha explosão orgástica, minhas mãos quase que arrancavam seus cabelos, chupou-me como se fosse um mendigo que encontra o pão. O tempo, não contei, se demorou? Não lembro. Ao final de seu prazer direcionou-se ao espelho e do bolso de sua calça vermelha tirou um batom, arrumou seu cabelo e desceu as escadas em direção em nossa mesa. Não tive outra ação, apenas um pênis  vivo, e coragem de gemer. 

Descia as escadas agindo como se nada houvesse acontecido, e por dentro signos de medo a decifrar. Como me comportar à mesa após uma quase cópula com a adjuntora de um dos conhecidos a mesa?Ao final das escadas vejo ao longe com suas mochilas o casal de italianos deixando esta inerte cidade sem olharem para traz.

-Demorou, disse meu amigo escritor. Respondi com apenas um sorriso tremulo entre os dentes. Ele continuou:
-A garota beijou seu namorado e deixou este bilhete para você.
Sentei-me, abrir o bilhete e estava escrito:

“Ora sono bravo ragazzo, vengono a mangiarti”

domingo, abril 22

Colegas de Foda

Hey now!
All you sinners!
Put your lights on! Put your lights on!
Hey now!
All you lovers!
Put your lights on! Put your lights on!
Miguel e Carlinhos tinham se conhecido através de amigos comuns, numa roda de cerveja, vendo futebol. Miguel era vascaíno e gay assumido, Carlinhos, flamenguista e raparigueiro profissional. Miguel, na verdade, nem gostava muito de futebol, mas gostava de homem, e homem macho, desses que cospem no chão e coçam o saco com ar de cafajeste, e que lugar melhor para encontrar desses espécimes, hoje em dia infelizmente nada raros, que numa roda de cerveja, vendo futebol? Normalmente, Miguel não buscava ali mais que sexo causal e fortuito, mas, naquele dia, foi diferente. Miguel se apaixonou por Carlinhos assim que o viu. Carlinhos, apesar de ser machista, não era homófoba, e, com o tempo, os dois acabaram cultivando uma amizade cheia de companheirismo e afetividade, que deixava o resto da turma desconfiada da heterossexualidade de Carlinhos. Mas ele não se importava, não iria deixar uma amizade tão bacana que nem aquela se acabar por causa de intriga da oposição, como ele dizia, de modo que, com o tempo, os dois viraram unha e carne um do outro. Porém, essa amizade causava muito sofrimento a Miguel, principalmente quando ele tinha que ouvir as confidências de Carlinhos sobre suas conquistas com as mulheres, tudo porque Miguel continuava amando pateticamente Carlinhos. Para Miguel, aquele era o homem de sua vida.
Uma noite, os dois tinham derrubado sozinhos uma garrafa de uísque num bar, e saíram de carro para um outro bar, num movimento bem conhecido da geração risca-faca. O rádio do carro estava ligado baixinho. Começou a tocar "You're My Number One", com Enrique Iglesias e Sandy & Junior.
I've kissed the moon a million times...
Danced with angels in the sky...
No caminho, Carlinhos, que vinha dirigindo, encostou o carro, e disse, puxando o freio de mão:
- Cara, eu tô com uns problemas aí...
- Sério, cara? Quê que é?
- É minha mina... Ela me disse que... eu não faço ela gozar...
- Hum, fez Miguel. Há quanto tempo?
- O quê?
- Há quanto tempo ela não goza contigo, ela disse?
- Disse, essa vaca... Diz que faz uns seis meses.
- Seis meses!!! Caralho... Mas tu não chupa ela não? Me disseram que com mulher é assim, é melhor o cara dar logo o orgasmo dela – porque, agora, elas querem gozar – antes mesmo de largar pau nela. É como diz aquela música, "you gotta lick it, before you stick it", tem que chupar antes de meter, "bará-rará-ra-bum!! Bará-rará-ra-bum"!
- Rapá, eu chupava, mas ela não gostava de retribuir... Aí é foda...
- E aí tu simplesmente parou?
- Foi...
You bring me up when I'm' feeling down...
You touch me deep, you touch me right...
- Deixa eu te dizer uma coisa sobre as rachas: nenhuma delas, a não ser se for puta, chupa pau direito. Ou, pelo menos, não tão bem quanto um viado. Parece que elas têm nojo, sei lá...
- Pode crer, as poucas vezes que ela me chupou, ela fez mal e porcamente, parecia mesmo que ela tava era com nojo, sei lá!
Troquei mistérios no amanhecer...
Entre os anjos e você...
- Mas aí é que tu devia ter entrado e conversado com ela a respeito. Ah, mas eu esqueci, vocês tão numa relação heterossexual judaico-cristã, onde o conveniente é manter tudo envolto num manto de silêncio e segredos.
- Tu é foda. Eu já conheço esse teu discurso. Mas tu acha que eu não sei que minha mina quer gozar também? Eu posso não ter falado nesse assunto, mas eu me dedicava pra caralho pra dar prazer pra ela, mesmo eu já tando a fim de leitar, eu ficava lá, me segurando, pra ver se dava pra ela esse tal de orgasmo, e ela vem e me diz que não adiantou nada? Foda-se. Passei a meter nela sem dó nem consideração pelos sentimentos dela, só usando o corpo dela pra gozar.
- Como se tu tivesse só te masturbando com o corpo dela...
- Isso.
You bring me up when I'm' feeling down...
You touch me deep, you touch me right...
- Bom, o que eu posso te dizer é que, se eu tivesse no lugar dessa racha, eu ia te chupar pra caralho, mano. Ia ficar horas babando nesse teu cacete, engolindo ele todinho, e esfregando minha língua pelo corpo da tua rola, de cima a baixo, enquanto ela ia se agasalhando na minha boca e beijando minha goela com a boquinha da cabecinha...
You make me wicked, you make me wild...
- Que porra é essa, Miguel?
- Ainda não acabei. Depois que teu caralho tivesse molhadão com a minha baba, eu ia ficar socando uma punheta irada nele enquanto lambia e engolia tuas bolas, primeiro uma, depois a outra, e, finalmente, engolia as duas ao mesmo tempo, sem parar de te punhetar gostoso...
Apesar da música, que ia terminando, um silêncio ia se impondo no carro depois dessa pérola da retórica pornográfica de Miguel, mas Carlinhos interrompeu esse silêncio, dizendo, meio envergonhado, meio excitado:
- Caralho... Fiquei de pau duro aqui. Ninguém nunca me chupou assim...
You bring me up when I'm' feeling down...
You touch me deep, you touch me right...
- Isso não me surpreende. Coisa mais sem graça deve ser uma foda de héteros...
- É agora, Miguel!
- Agora o quê?
- Eu quero experimentar essa parada. Dá cá um beição aqui, porra...
Carlinhos puxou a cabeça de Miguel de encontro à sua, mas este resistiu e recuou, dizendo:
- Nada a ver. Isso entre nós não pode rolar. Não desse jeito.
'Cause, baby, you're my number one...
Miguel, apesar de ser bicha safada, era extremamente romântico. Na sua cabeça, ele tinha idealizado esse momento com todas as cores ilusórias das letras das músicas estilo "house" da cultura gay pop – e, diga-se de passagem que é contraditório que músicas cujas letras falam de amor sejam feitas especificamente para serem tocadas em dark-rooms, onde o que o impera é a total ausência de qualquer sentimento mais nobre – e teria sido inadmissível para ele permitir que o seu sonho de estar com Carlinhos se concretizasse daquela maneira suja e escrota, no desconforto de um carro, no perigo de uma rua escura, trazendo, no dia seguinte, todas as conseqüências desagradáveis que seguem um ato cometido por impulso, no meio da embriaguez do uísque. E ainda mais com Sandy & Junior de fundo. Por causa dessa filosófica contradição dos termos, ele se negou a beijá-lo.
- Deixa quieto, doido, disse Miguel.
'Cause, baby, you're my number one...
Carlinhos, porém, não estava a fim de deixar quieto. Ele pegou Miguel à força e tascou-lhe um beijo desesperado na boca. Miguel resistiu no começo, tentou escapar, mas Carlinhos era mais forte que ele, e Miguel acabou desistindo e se deixando beijar. Mas, coisa estranha: à medida que Carlinhos o beijava, Miguel ia sentindo uma espécie de incômodo, não com os braços musculosos que lhe apertavam, ou com o barba mal-feita que lhe machucava a face, mas com a boca que lhe beijava de maneira tão desastrada, lambuzando, com uma língua muito mais humidecida de saliva que o aconselhável, a parte externa dos lábios e, erro fatal, chegando mesmo a ultrapassar sua fronteira, deixando no bigode ralo de Miguel um rastro de cheiro nojento de baba que imediatamente subiu às narinas de Miguel e lhe fez ter vontade de vomitar. Se não tivesse bebido tanto, talvez Miguel tivesse sido capaz de segurar o vômito, mas não foi o caso. Ele se soltou de Carlinhos num movimento brusco, abriu a porta e começou a chamar raul sem a menor cerimônia.
No rádio, começou a tocar "November Rain", do Guns'n'Roses. Fazer o quê, programação da madrugada é assim, só lentinhas pra machucar os corações apaixonados. Ainda mais quando eles estão vomitando a paixão.
When I look into your eyes
I can see a love restrained...
Quando Miguel acabou de vomitar, uns dois minutos depois, todo suado, Carlinhos olhava para ele, atônito.
       So if you want to love me

             Then darlin' don't refrain...
- Quer dizer que eu te dou nojo?, perguntou Carlinhos, com um sorriso nervoso, depois de um longo silêncio.
- Não é nada disso, disse Miguel, ofegando. Me dá uma balinha de menta aê, fera...
Sometimes I need some time...on my own
Sometimes I need some time...all alone
Uhhhh, everybody needs some time...on their own
Uhhhh, don't you know you need some time...all alone
- Tem um halls aqui, peraê...
- Valeu... Cara, o problema é que..., disse Miguel, pondo a bala na boca.
- É que o quê?
- É que...
- Fala logo, caralho!
- Tu beija mal.
- O quê!?
- É, tu beija mal. Mas isso, na verdade, é bom. Eu tava apaixonado por ti, por isso não queria fuder contigo dessa forma, digamos, improvisada. Mas teu beijo meio que me fez desapaixonar de ti.
- E isso é bom porque...?
- Porque, agora que tu não é mais o amor da minha vida, eu posso fuder contigo em qualquer lugar, em qualquer situação. Na verdade, agora, quanto mais escroto o lugar e a situação, mais tesão eu vou ter e mais prazer eu vou te dar.
And when your fears subside
And shadows still remain, uhhhh, yeah!
I know that you can love me
When there's no one left to blay-yayhhh
So never mind the darkness
We still can find a way
'Cause nothin' lasts forever,
Even cold November rain
- Ah, é?, disse Carlinhos, depois de outro longo silêncio.
- É, respondeu Miguel.
No rádio, "November Rain" entrava naquela parte final, em que as guitarras, os teclados e a percussão adquirem um andamento furioso.
- Tem um aterro sanitário bem ali, disse Carlinhos, num tom de quem sugere algo assim como quem não quer nada.
- Toca pra lá, disse Miguel, decidido.
Na manhã seguinte, um urubu, esta criatura pavorosa que é como o mendigo das aves de rapina, rastreando o aterro sanitário em busca de um café da manhã, teve seu paladar inusitadamente refinado pelo férreo sabor de um líquido leitoso, que, com montanhas de lixo por testemunhas e a aurora rubra por juiz, tinha sido cuspido da boca de Miguel, alguns minutos antes, em cima do pedaço de carniça que a ave de rapina ora degustava, depois de ter sido depositado naquela aconchegante conjuração de lábios e maxilares em abundantes jatos expelidos do falo latejante de Carlinhos...

sábado, abril 7

Uma Pétala para Safira


Menina mulher ou Mulher menina, com olhar indeciso, esta era Safira. Nome pelo qual o mundo havia lhe dado devido às circunstâncias imateriais da vida, habitava em seu coração os mais loucos sentimentos humanos, que rodeavam o sentido da razão, impregnavam os desejos da alma. Quem não se recorda de Safira? Que até ontem entre nós esteve. Quem não presenciou seus deliciosos momentos! Nada no mundo retrata com tanta veemência a constante substancial do destino desta mulher menina e da menina vivente no corpo de mulher.
 Durante muito tempo recordo-me o mistério que rodeava sua fase, de poucas palavras creio que ela talvez acreditasse que ouvir é o ouro e falar seria a prata, levando-se ao pé da palavra, só e a si mesma batava. Morava aos fundos de um cabaré, um dos mais freqüentados da cidade, dinheiro, luxo, orgias, escândalos, tudo permeava o ambiente, em meio a tanta repressão, a felicidade estava ao escondido, era o que se via no contexto da memória. O quartinho estreito guardava a vontade de dançar, pairar pelo éter, subir ao palco e transforma-se em purina que brilha no corpo da bailarina e abala o amor de quem a ver, entretanto a angústia equilibrada pela paixão fazia-lhe ter os pés voltados para liberdade, liberdade de sair daquele lugar tomado por ilusões, de viajar pelo mundo com sua polêmica e verdade, mas nada era tão natural quanto sua paciência, assumia calado os erros que não cometia, deixava-se abusar em troca de alguns trocados que sustentavam o conhecimento de novas criações. E chegou a chance! O grande dia de vermos Safira brilhar, não se sabe eventualmente de que forma uma simples servente de cabaré se apresentaria em um palco luxuoso, talvez a servidão como bailarina desviasse seu destino do terrível abuso por trocados que se ressaltavam pelas escadarias e percorriam os corredores lagrimais de saudade, da vida na qual não sabia se queria. Mas se fosse fugir do mundo, do próprio mundo seria, nada deixaria de fazer  e viver intensamente cada momento de sua vida, a mesma não saberia.
É o dia, a grande hora, Safira sobe ao palco, pouco desajeitada conturbada com o momento, com o publico nada agradável cansado de tanta libertinagem observam em Safira a mudança, reconhece-lhe o talento e a presença da partitura de sentidos de uma deusa envolvente. Safira não pára na vida, só para criar, não tem medo de encarar as pessoas.
E foi assim, eu ali sentado ao fundo da pobre platéia deixei-me envolver pelo mais louco amor que pude sentir, olhar envolvente, imaginei meu corpo junto ao dela que bom seria se a possuísse, linda! Nascida para está entre as mais lindas era o que sabia de melhor fazer, eu quero­, meu coração dizia, está ao seu lado, dentro dela, somente com ela; uma paixão súbita e platônica me consumia aos poucos ao ver seus movimentos sedutores como se estivesse na janela chamando-me ao encontro do seu amante,e foram-se as noites; uma após a outra e em seguida uma após uma, por dias e dias, me enlouqueci e descobri em seus olhos o espelho da alma,contudo inconscientemente a chaga do ciúme doentio inclinava-se perante a mim e nada me fazia retroceder, meus presentes eram devolvidos, meus recados, juras de amor eram colocadas ao lado o que fazia nada lhe agradava.Outro! Minha mente gritou se diante de tanta paixão meus sentimentos não poderia está largados ao vento, outro! Novamente minha mente gritou só que mais forte Outro! Outro! Outro! Não deixava de crer em tal possibilidade, quem seria tal outro a tomar meu lugar, Não me dei por vencido minha presença fazia-se presente ao olhar de Safira. Decidir a morte como solução, Se não fores minha de nenhum outro mais alguém será. Em uma de suas ultimas apresentações Safira seduz platéia com o brilho de seu nome, mas não adiantava cada momento o ciúme me permeava o sentido.
Acabada a apresentação sigo–a até seu quarto, pelos estreitos e longos corredores, andava como se caminhando para o seu céu, seu paço curto e suave dava brilho ao chão. “tão inocente” – Pensei! E chegava-se a ultima escada que antecipava seu misterioso quarto. Incrível era que não me percebia, abriu a porta do quarto e sentou-se a penteadeira, observei-a pela porta entreaberta, penteava seus cabelos com carinho, mas nada me fazia esquecer-se de meu planejamento. Só a morte seria a solução, mesmo sem ter a certeza de seu prazer já estivesse em outros braços, à vingança vinha átona como um prazer bebido em vagarosos tragos. Seu olhar encontrou o meu pelo reflexo do espelho, não tive pena, ergui o punhal escondido na mão, a serenidade de seu semblante me fazia desistir, não esmoreci, em um só golpe atravessei-o com tanta força, ela não resistiu, mas o normal seria que sangue viesse descer ao chão, mas não, de sua garganta surgiam rosas de todas as cores, rosas, rosas e mais rosas percorriam todos os corredores deixando seus perfumes nas paredes e pouco a pouco ela desaparecia.
O relógio despertou, em um pulo cai da cama, era um sonho, quase real era ainda um sonho, devagar tentei entender em meu estreito quarto de cabaré o que me fazia ter tal lembrança? Como presente mulher aparecia em meus sonhos? Em um súbito susto observei que ao lado de minha cama havia um bilhete, dentro do bilhete um pétala de rosa com o aroma de retroceder os sentidos e parar no tempo. Ainda molhado com as lágrimas de sangue estava escrito;

Nunca fui de ninguém, só tenha a mim. Estamos nessa vida para nos tornarmos, talvez quem sabe, mais humanos” (Safira).

Ano de 2009