terça-feira, outubro 27

Goliardos - Poetas, Boêmios e Trovadores (Os Primeiros da História)


Por Natan Castro

Os Goliardos eram em sua grande maioria personagens colocados a margem da sociedade europeia em meados dos séculos XIII. Tais sujeitos eram padres pobres advindos das universidades católicas, mas que por conta de serem integrantes de uma classe mais abastada, foram colocados a margem da sociedade, em suma rejeitados pelo sistema clérigo.  Por conta dessa espécie de exclusão eles tinham no período uma dificuldade enorme de participarem da vida social e econômica da sociedade naquele século. Desta forma surge no meio desses intelectuais a necessidade de revidar na mesma moeda toda essa rejeição outorgada a eles pela Igreja. O próprio nome “Goliardos” tudo indica que tenha sido dado pela Igreja em uma alusão ao gigante bíblico Golias, que é tido na bíblia como um vilão.

Eles eram vistos costumeiramente na frente das Igrejas, universidades e feiras cantando suas canções de escárnio e humor negro, com temáticas voltadas contra a opulência do clero e algumas outras ovacionando a libertinagem de todos os tipos, enaltecendo uma vida desregrada, sorvida a álcool e sexo livre e todo o tipo de liberdades individuais.

Goliardos, Os Primeiros Poetas Itinerantes e Grafiteiros


Os poetas Goliardos sem sombra de dúvidas foram os primeiros grupos de literatos que se tem noticia a tomar as estradas como filosofia de vida artística. Esses senhores cruzaram a Europa naquele século XIII cantando suas sátiras sempre voltadas as classes poderosas e opressoras, muito parecido como o que fez os escritores Beatnicks nas décadas de 40 e 50 do século XX, há relatos também que foram os primeiros a picharem (escreverem em paredes) em muros e paredes de casas suas canções de escárnio, usando isso naquele período como forma de protesto, lembrando bastante os nossos atuais grafiteiros e pichadores.

Esses escritores que podemos dizer serem os primeiros escritores marginais da história, ficaram conhecidos nas principais praças da Europa, em especial na França, Alemanha e Inglaterra. Os mais conhecidos foram Huoh Primas of Orleans, Pierre de Blois, Gautier de Châtillon e Phillipe the Chancellor, entre os textos escritos por eles o mais famoso é Carmina Burana, que são cerca de 200 poemas sátiros que ficou conhecido no mundo moderno quando o músico erudito Carl Off compôs uma peça baseada nesses versos.

A poesia dos goliardos (Carmina Burana)

"Quando é o ouro que impera
o direito degenera,
ao indigente é negado
o direito comprovado;
para o rico não falta juiz
a vender-se por pratas vis;
para o rico, o juiz bonzinho
sempre dá algum jeitinho;
quando é o ouro que pleiteia,
a sentença nunca é feia. 
Quando o ouro é quem manda,
a justiça enfraquece,
toda causa que desanda
vitoriosa aparece,
o pobre perde seu direito
quando o ouro faz o pleito;
seu processo já naufragou
se ao juiz nada pagou;
a justa causa se declina
só por falta de propina."


segunda-feira, outubro 26

Nas Entranhas da MPB: Guilherme Lamounier (1973)

Há, na história da música brasileira, o caso de inúmeros artistas que não encontraram o sucesso como almejado e sonhado. Como resultado, muitos abandonaram a música ou caíram em depressão devido ao não reconhecimento massivo por seus trabalhos de grande valor artístico. Mal compreendidos e fora de seus tempos, foram - antes de tudo - artistas pioneiros que só encontraram o reconhecimento de suas obras, mais que merecido, após muitas décadas. Este é o caso do cantor e compositor carioca Guilherme Lamounier, que despontou no cenário musical em 1970, aos 20 anos de idade, com seu álbum homônimo de estreia. Tendo a produção de Carlos Imperial, que geriu de forma equivocada o início da carreira de Guilherme, o primeiro disco tinha/tem uma forte carga soul music. O segundo álbum (tema deste texto) foi lançado em 1973, com atraso de dois anos depois de Guilherme ter se libertado das garras dominadoras de Imperial, que quis transformá-lo num cantor-galã.
 
O segundo disco, também homônimo, de Guilherme Lamounier abre com "Mini Leila". Neste trabalho fonográfico, Guilherme apostou nas sonoridades rock e folk para confeccionar as canções ao lado do letrista Tibério Gaspar. Fica mais que evidente a influência dos Beatles na primeira faixa. Em seguida, "GB em alto relevo", uma homenagem à Guanabara, é um folk de primeira grandeza, tendo um sintetizador comandado por Wagner Tiso. A voz aveludada de Guilherme nessa canção é de um primor único. Logo depois, a também folk "Patrícia" destila uma letra com versos sensuais: "Pelas curvas de Patricia / eu quero me derrapar / E morrer de velocidade / sem ter tempo pra marcar". A seguir, "Pelos telhados do mundo" espalha psicodelia e imagens poéticas/lisérgicas. A soul music transparece em "Freedom", enquanto "Capitão de papel" faz referências às revistas de quadrinho. Vindo para encantar os ouvidos, "Amanhã não sei" é um dos destaques do álbum. O arranjo belíssimo e bem orquestrado - com direito a piano, violão, órgão Hammond e sessão de cordas - engrandece/fortalece os versos do refrão marcante. A faixa seguinte, um hit da época, "Será que eu pus um grilo na sua cabeça" é uma balada inspirada nos ideais hippie. Sem demora, a longa balada "Passam anos, passam Anas" chega com sua melodia lenta e belo arranjo para cativar os ouvintes. Para encerrar o álbum, o hard rock "Cabeça feita" solta as guitarras pesadas no terreiro. A banda "O Peso" gravaria essa canção no excelente álbum, Em Busca do Tempo Perdido, de 1975.
Vale pontuar a parceira entre Guilherme e o letrista Tibério Gaspar - conhecido pelas canções compostas ao lado de Antonio Adolfo, entre as quais o grande sucesso "Sá Marina". Emblematicamente, as letras poéticas de Tibério, aliadas às melodias cativantes de Guilherme, trazem à tona o esplendor hippie e utópico da década de 1970. Além disso, no segundo álbum de Lamounier, é de render louvores a participação dos excelentes músicos envolvidos na gravação do álbum, entre eles: o lendário Lanny Gordin na guitarra, Wagner Tiso no piano e sintetizador, Oberdan Guimarães na flauta. Os arranjos musicais ficaram por conta do maestro Luiz Claudio Ramos. Infelizmente, Guilherme Lamounier, que gravou outro álbum em 1978, afastou-se da música na década de 1980. Atualmente, vive recluso, sofrendo de esquizofrenia, conforme relatam amigos próximos ao artista.

Vídeo

sexta-feira, outubro 23

Entrevista do Poeta Raimundo Fontenele Por Natan Castro



Raimundo Fontenele é um poeta, natural da cidade de Marianópolis, Pedreiras, Maranhão. Poeta esse que na juventude participou ativamente de um dos mais importantes movimentos literários do século passado no Maranhão, o movimento Antroponáutica do início dos anos 70 que propunha um rompimento drástico com a tradição poética anterior, tendo como exceção nomes como José Chagas, Bandeira Tribuzzi e o grande Nauro Machado. Após esse período de ativismo cultural na capital maranhense, o poeta literalmente meteu o pé na estrada, se apropriando dessas experiências para o enriquecimento de seu fazer poético. Atualmente radicado na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, o poeta trabalha em três novos livros. Raimundo Fontenele é desses poetas que indubitavelmente a nova geração de leitores do Maranhão precisar conhecer e se aprofundar pela preocupação e pela sinceridade em que o mesmo encara a arte em suas mais diversas formas de manifestação.

A poesia sempre foi a sua principal manifestação artística, ou antes, houve um flerte com outros ramos da arte?

R – Sempre a poesia. Desde cedo, lá pelos oito anos de idade. Com essa idade principiei a leitura da Bíblia, de cabo a rabo, como se diz no jargão popular. Devo muito à influência de minha mãe, que sempre lia pra mim, contos infantis, mundos fantásticos que passei a visitar na imaginação. Mas sempre gostei de música, pintura e escultura. Esbocei alguns desenhos, mas abandonei logo. Enfim, como diz a letra do hino do Flamengo, uma vez poesia, sempre poesia.

A sua geração de escritores é exatamente aquela posterior a queda do Vitorinismo, e coincide com a chegada do Sarney ao poder no Maranhão. Quais eram as expectativas no campo da arte no estado naquele período? Sarney pegou carona na genialidade de Tribuzzi e Nauro Machado? Por fim como era a cena cultural no período da deflagração do Movimento Antroponáutica?

R - Na verdade, lembremos que o Sarney vinha de uma ala progressista da UDN, chamada de “bossa nova”.  Era visto assim meio de esquerda. Eclodido o golpe militar, em 1964, em seguida sua eleição em 1965, o Sarney foi lá ter com os milicos, como se dissesse esqueçam o outro e pensem neste de agora que quer apenas governar o seu estado e ficar de bem com vocês. E o Sarney alimentava a esperança de maranhenses cansados da truculência vitorinista, daquela forma coronelista de governar. Mais do que tudo Sarney ajudou a mudar a mentalidade: era o Maranhão Novo, “meu voto é minha lei, Governador José Sarney; quando entrar na cabine o eleitor é José Sarney pra Governador”, esses versos da sua música de campanha incendiaram corações e mentes. Havia um êxtase, uma alegria, uma efervescência com sua vitória. E ele correspondeu no primeiro momento: abriu e asfaltou estradas; um salto na Educação com o Projeto João de Barro (educação de crianças e jovens fora da idade escolar), as Escolas Bandeirantes, escolas de segundo grau de cunho profissionalizante, a criação da TV Educativa, uma das pioneiras no Brasil. Modernizou a administração pública, várias empresas estatais foram criadas, naquele momento, não como cabide de empregos, mas necessárias aos vários projetos gestados por grandes cabeças que ele recrutou para o governo. Bandeira Tribuzzi, Haroldo Tavares e tantos outros. A gente acreditava que isso mudaria também o fazer cultural. Na sequencia, como é certo que o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente ele tornou-se aquilo que mais combateu. Um Vitorino moderno, sem jagunços e três oitão, mas com práticas cujo resultado era igual: a pobreza do estado, o enriquecimento das famílias, dos amigos, dos apaninguados, o voto de cabresto, a subserviência dos prefeitos, toda essa lástima que se arrastou por mais de cinquenta anos e tornou o Maranhão um estado com o penúltimo lugar nos indicadores sociais, perdendo apenas para Alagoas.

Explique-nos de onde veio o nome do movimento e o que o mesmo propunha no campo da poesia no estado no início dos anos 70?


R – Com exceção dos poetas Nauro Machado, Bandeira Tribuzzi e José Chagas a gente respirava uma literatura bolorenta, uma coisa de vangloriar-se do passado, a chamada Atenas Brasileira da qual não se queria abrir mão e avançar. Através do poeta Viriato Gaspar conheci o poeta Luís Augusto Cassas, e também o Valdelino Cécio. Em seguida encontramos o poeta Chagas. Encontrávamos num bar que havia no canto da Viração, para beber, mostrar poemas e falar sobre literatura. E assim surgiu o Movimento Antroponáutica, cujo nome é uma homenagem ao poeta Bandeira Tribuzzi, que tem um poema cujo título é este. E passamos a cavar espaço nas colunas de jornal, com tanta dificuldade; havia o Jornal do Dia (comprado depois pelo Sarney e que tornou-se o Estado do Maranhão) onde o Jomar Moraes nos dava espaço, e o Jornal do Maranhão (da Arquidiocese), e lá nós tínhamos um crítico de cinema atilado o José Frazão que também nos dava apoio. Mais tarde surgiu o Jornal de Bolso, do Edson Vidigal, de breve existência, mas onde publicamos nossas crônicas e artigos.  E passamos a fustigar, atacar tudo que nos parecia velho e ultrapassado e que devia desaparecer: a Academia, a trova e seus trovadores, os poetas parnasianos com seus versos lamurientos. Com certo exagero, reconheço. Mas também fomos reconhecidos e passaram a prestar atenção e nos respeitar como novos artistas e criadores de um novo tempo ou de um tempo novo, sei lá. Arlete Nogueira da Cruz, Tribuzzi, Nauro, Jomar, o grande e humano Nascimento de Moraes, o Pe. João Mohana, enfim, fomos aceitos no mundo intelectual maranhense. Publicamos então a Antologia Poética do Movimento Antroponáutica. E a seguir fomos convidados a integrar um projeto da Fundação Cultural que nos publicou e mais alguns poetas na antologia Hora de Guarnicê.

Quais foram as consequências da deflagração do movimento em meio a repressão da ditadura e qual a importância do mesmo para aquela geração no Maranhão?

R - Vocês sabem. A história é feita de fatos, episódios, circunstâncias, eventos, mil acontecimentos distantes um do outro, mas que por esta força grandiosa que é a marcha da vida e da história se conjugam tudo e todos num momento único para deflagrar a coisa, seja revolucionária ou evolucionária, de reforma ou de acomodação. E por essa época aconteceu o lançamento do meu segundo livro individual, o Às Mãos do Dia, que era para ser uma coisa puramente pessoal, mas acabou transcendendo o particular e inseriu-se nessa paisagem do instante que vivíamos: a ditadura militar em todo o seu reinado e esplendor. Querendo fugir daquelas noites de autógrafos costumeiras, que achávamos até enfadonhas, decidimos que o lançamento do meu livro seria diferente. Aí a gente juntaria artes plásticas e música, e lembro do César Teixeira, do Josias, do Sérgio Habibe, do Jesus Santos, do Ciro, Ambrósio Amorim, Lobato, Tácito Borralho, tanta gente. E o lançamento aconteceu na Biblioteca Pública Benedito Leite. Na noite anterior, após tomarmos algumas cervejas, eu, Viriato, Valdelino e outros ficamos na escadaria da Biblioteca Pública conversando e só, de sarro, planejando o lançamento, e cada um saía com a idéia mais louca. Tipo: no lugar de cadeiras para as autoridades íamos colocar vasos sanitários; colocaríamos uma árvore de natal com ratos pendurados, etc.; íamos convocar mendigos, loucos, os despossuídos para tomarem as escadarias da Biblioteca quando as autoridades e convidados fossem chegando. Ah, e no coquetel no lugar de bebida alcoólica serviríamos leite, mas não em taças e sim em penicos. Novos, claro. Naquele tempo a autoridade maior dos estados era sempre o militar mais graduado, no nosso caso o Comandante do 24 BC. Alguém nos ouviu falar aquelas bobagens e levou a sério. O certo é que o Governador foi acordado pelo Comandante do 24 BC que lhe ordenou visse do que se tratava pois algo de muito grave ia acontecer. Fui chamado às pressas no gabinete do Secretário de Educação (que havia permitido que eu fizesse lá na Biblioteca, órgão da SEC, o lançamento do livro), à época o saudoso Professor Luís Rêgo, um homem boníssimo. Quando entrei em seu gabinete levei um susto, pois ao seu lado estava um Major do Exército. Pálido e trêmulo, ali sentei e o professor Luís Rêgo passou a me interrogar a cerca do lançamento e do que estava programado. Neguei tudo. Disse que era mentira. Jamais faríamos uma coisa daquelas e tal. Despachou-me dali, mas me recomendando prudência, e cuidado com o que ia acontecer, pois estavam de olho. Pela cara do oficial do exército nem precisava de me dizer mais nada.  Pois, mais tarde enquanto estava na Biblioteca em companhia do poeta Viriato Gaspar, ultimando os preparativos do lançamento,, eis que nos aparece um agente da Polícia Federal. E dirigindo-se a mim diz que estava a minha procura, e porque nada mandara o livro para a Censura, e cadê o livro e tal e coisa, e nos colocou em sua viatura fomos até onde eu residia, pegamos um livro, e enquanto eu lia, o motorista nos levou até a sede da Polícia Federal, naquela época ali na Rua Grande na altura do Ginásio Costa Rodrigues. Novo interrogatório pelo delegado de plantão. O Viriato saiu-se bem nas respostas. E quando o delegado quis saber dos mendigos (olha a subversão) que íamos levar, o Viriato disse que não tinha nada a ver, aquilo era uma peça de teatro que estávamos escrevendo e tão logo ficasse pronta levaríamos lá no Serviço de Censura. O certo é que à noite a Biblioteca lotou. Talvez até curiosos, além de meus convidados, muitas autoridades se fizeram presentes. Secretário de Educação, o Prefeito Haroldo Tavares, e lá atrás de uma daquelas colunas reconheci o agente da PF de nome Mateus, esperando que eu saísse da linha no meu discurso para me grampear. Mas o resultado prático da repressão, que é o cerne desta pergunta, é que nós, os jovens (falo dos jovens em geral e não especificamente do nosso grupo), tomamos rumos diferentes: uns foram para o comodismo da vida privada, outros foram para luta armada, e no meu caso, no primeiro momento, abandonei tudo e embarquei numa carona com os hippies e fiquei vagando pelo país uns três a quatro meses, metido no universo da Contracultura, cujo estímulos vinham da geração beat, e era uma época rica e enriquecedora, chegávamos ao desregramento de todos os sentidos, na vida e na arte, aquilo que o poeta Arthur Rimbaud profetizara um século antes. E a nossa geração foi importante porque abriu caminho pra todos vocês que vieram depois de nós. É o ciclo da vida, quer reconheçamos ou não. Ele existe. Ele é.

O que se faz necessário para que se legitime um movimento literário? Na atualidade onde muito se escreve em meio virtual, em sua opinião o virtual conseguirá um dia transpor a tradição do livro físico?   

R – No momento nós estamos num processo de mudança civilizatória muito violento. Ao mesmo tempo que tudo parece ameno, frágil, acolhedor, há algo de muito forte, viril, ameaçador. Nem creio que haja espaço para movimentos, como os de antes. Creio mesmo que isso ficou no passado. O mundo virtual prescinde disso. Cada indivíduo, por si só, é, ou julga ser, um coletivo, um movimento, uma revolução, um mundo, uma civilização. Todo o pensamento filosófico, todo o atavismo humano, tudo o que se acumulou durante séculos, quem sabe milênios, todo o inconsciente coletivo, toda a sabedoria, todo o  conhecimento representam o que neste instante? Para muitos, nada. É o fim de tudo e o recomeço de tudo ao mesmo tempo. Quanto tempo, não sei, mas o virtual transporá sim a tradição do livro físico. Não apenas a tradição, mas o próprio livro, o objeto, por mais concreto que ele seja ou queira ser.   

Como foi a decisão de deixar o estado, porque tomou essa decisão, existe uma possibilidade de seu retorno ao Maranhão?

A constatação de que ficar no Maranhão, no meu caso pessoal, era ficar me repetindo. Fazer novos movimentos? O sarneysmo começava a voltar-se para o passado. As coisas não andavam. Era preciso se abrigar sob as asas do serviço público de onde não poderíamos exercer a crítica contundente que os governantes mereciam. Não surgiram editoras e leitores que nos permitissem viver do nosso trabalho de escritor independente. Mas meu amor a esta terra, o interior de onde sou e esta ilha onde vivi tanto sonho transformado em realidade é o que importa. Porém, é difícil o retorno. Saí em 1976 e embora tenha raízes aqui, onde vivo atualmente, em Porto Alegre, no Grande do Sul, também  criei raízes. Mas quem sabe do futuro?

Consegue-se viver de literatura nesse país? Fale-nos de suas atividades na atualidade?

R – Por mais que esse governo do PT alardeie seus avanços na Educação, com programas quase todo visando a universidade, a verdade que é que o ensino vai de mal a pior, pois a educação básica foi relegada a um segundo plano. O governo é pródigo em dar bolsas , cujo critério principal é criar eleitores para o seu plano de permanência no poder. Sem uma boa educação na base que tipo de aprendizado é este dos cursos superiores! A maioria não lê e não pensa. Por isso, o quadro não se alterou muito nestas últimas décadas. Poucos vivem de literatura num país assim. Quanto a mim publico periodicamente meus livros e trabalho com revisão e preparação de textos para a editora de um amigo. No momento trabalho em três livros: um de contos, Pedaços de Alberto Caronte (título provisório), um de ensaios, Um Soco Contra o Muro (ensaios) e Crônicas do Pucumã, um pouco de história do município de São Domingos do Maranhão, onde passei minha infância e parte da adolescência, embora seja filho de Pedreiras, distrito de Marianópolis. Pretendo publicar no próximo ano. Com toda dificuldade, pois o dinheiro da Lei Rouanet é para os amigos do rei e para artistas como Luan Santana, Tico Santa Cruz, Cláudia Leite, gente que ajuda o governo, louvando-o para a massa de seus fãs e ouvintes.  

A sua poesia é tida por muitos como marginal, como você vê esse titulo?

R - Do ponto de vista deles. Do meu ponto de vista eles é que são marginais, pois estão à margem da minha poesia. rsrs Na verdade não existe arte marginal, a não ser nesse sentido que dei. Se ela critica a sociedade, os poderes instituídos (mesmo corruptos, tiranos, etc.) é considerada marginal. Mas do ponto de vista da arte, marginal é também a sociedade que aceita e se submete a um estilo de vida e de governo corrupto e de vassalagem.  Essa pecha é muito mais dirigida ao próprio artista para poder enquadrá-lo, e assim prendê-lo, deportá-lo, matá-lo, calá-lo, enfim. Porque na verdade a arte é um produto da criação humana, das emoções e dos pensamentos, de suas vivências e experiências, e que expressa, em seus signos, símbolos, significados, e até mesmo em sua concretude, expressa, dizia, a magia, o mistério, a beleza, alegria, o sofrimento, o sonho... Só um profundo imbecil para taxar de marginal esta coisa maravilhosa que é a vida humana e suas criações mais genuínas, originais e verdadeiras.

Ferreira Gullar nos fala de sua necessidade de espantar-se para que sua poesia aconteça. Como se dá esse fenômeno no seu trabalho é instantâneo ou existe um laboratório?

R – Cada um tem sua maneira de ser e de criar. O que é necessário é o talento. Em mim é uma coisa instintiva, igual a certas necessidades que temos: comer, dormir, amar, criar. O que existe é o trabalho de lapidar a criação, como o ourives que faz de uma peça de diamante bruto uma joia encantadora. E no caso da prosa é preciso dedicar tempo e muita disciplina, uma rotina de trabalho, como o expediente em qualquer empresa onde se exerce a tarefa cotidiana.

Dizem alguns que tudo de imprescindível na literatura já foi escrito, o que temos hoje como produção literária seriam apenas ecos desses períodos, nada de novo sob o sol da literatura, qual sua opinião sobre essa afirmação?

R – É do Eclesiastes essa fala: “Não há nada de novo sob sol”. Está certo. Tudo já foi dito, feito, criado. O que existe é uma forma nova de dizer, fazer, criar, nomear o antigo. Isto faz toda diferença. Se eu dissesse “fímbria” meu avô entenderia e meu neto, não. Mas barra da saia, do vestido, isto o neto entenderia. Portanto, não é pelo fato do sol ser tão antigo que ele deixa de surgir para nós todas as manhãs. Assim, vamos em frente. Até porque quanto mais obtuso e quadrado é o mundo mais necessita crer que tudo é novo, que tudo está começando aqui e agora, pois sem isto a vida e a arte perderiam o sentido. E aí, vamos fazer o quê?

O MITO

Raspar com uma faca, como se escama o peixe,
é fazer nascerem e crescerem os mitos
que não nos pertencem.
E por ser o mundo um animal sem formas,
por ele trafegam, navegam e voam
os mitos ancestrais que nos criaram,
e alimentaram em nós o dom da forma mais que perfeita.
Blasfêmia é isto: erguer-se qual um deus ferino e desalmado
para que ajoelhemos e lancemos nossa rede ao mar:
turva água de amar, pescaria insana,
e só por isso o mito permanece.
Se é para cair, sejamos justos:
o mito não é amor e não é ninguém,
apenas a imagem à semelhança desta outra
que nos devolve o espelho.

(do livro A Via Crucis de Um Poeta Sem Nome
Editora Alcance, Porto Alegre, RS, 2014)

segunda-feira, outubro 5

Nas Entranhas da MPB: Di Melo (1975)

Há inúmeras histórias sobre artistas injustiçados, que não vingaram na música (ou na arte em geral) quando do lançamento de um trabalho mal compreendido à época ou pouco difundido nos meios midiáticos. Só o tempo para corrigir as injustiças perpetradas aos artistas de talento que não tiveram o devido valor reconhecido. O cantor e compositor pernambucano Di Melo foi um desses artistas injustiçados e preteridos por donos de gravadoras, que vislumbravam apenas o vil metal à frente de seus rotundos narizes. Poucos deram ouvidos à sua música nos meados da década de 70. Felizmente, foi redescoberto e hoje em dia realiza vários shows pelo Brasil. Procurando um lugar ao Sol, Di Melo saiu de Pernambuco para São Paulo para gravar anos depois, exatamente em 1975, um dos grandes álbuns da música brasileira. Antes disso, morou no Japão durante um ano e meio. Compôs lá, na Terra do Sol Nascente, inúmeras canções, como "Kilariô". No seu retorno ao Brasil começou a tocar nos bares de São Paulo. Ganhou nas noites de Sampa malandragem e swing, refletindo-se no primeiro álbum de Di Melo, que é de uma preciosidade rara e gravado à base de muito whiskey.
O álbum homônimo de Di Melo abre com "Kilariô", com pitadas generosas de funk à la Sly Stone, apresentando linha de baixo estupenda e pulsante. Di melo já diz para o que veio com a primeira canção: tudo em harmonia e sintonia fina. Em seguida,  vem a canção com ingredientes de samba-rock e soul, "A vida nos seus Métodos Diz Calma", que despertou o interesse dos DJs ingleses na década de 90. Isso ajudou a reviver a música de Di Melo no Brasil. Logo depois, o funk psicodélico, "Aceito Tudo", apresenta no início uma declamação com bastante desenvoltura: "Ai eu pensei que indo caminhando mas não fui / para um sonho diferente que se realiza e reproduz / E pensando fui seguindo num caminho estreito cheio de toco / Esqueci de lembrar de pensar todo penso é torto". Em "Conformópolis (composição de Waldir Wanderlei da Fonseca), Di Melo mergulha num tango, tendendo mais para uma milonga. A letra trata do cotidiano massacrante em muitas cidades e a chance de mudar de vida, evidente nos versos: "A cidade acorda e sai pra trabalhar / Na mesma rotina, no mesmo lugar / Ela então concorda que tem que parar / Ela não discorda que tem que mudar / Mas ela recorda que tem que lutar". Na faixa seguinte, "Má lida" trata sobre a vida de um ser condenado que procura um pouco de amor. O belo arranjo com violão dedilhado, violino e trompete engrandecem essa canção.  Novamente, o tango dá o ar da graça em "Sementes", com letra poeticamente inspiradíssima. Continuando as preciosidades, em "Pernalonga" o balanço do samba-rock encanta, enquanto em "Minha Estrela", o soul romântico de Di Melo se cristaliza plenamente. Um dos destaques do álbum é "Se o Mundo Acabasse em Mel". Este samba-rock agita qualquer um. A letra aborda a vida de um homem afortunado em decadência. A seguir, a poética "Alma Gêmea" é de um primor genial, com direito a um dedilhado límpido ao violão e belos acordes de flauta. Talvez, o "fantasma errante" (citado nessa canção) seja o próprio Di Melo, que ficaria no ostracismo durante duas décadas. "João" (composição de Maria Cristina Barrionuevo) remete à bossa nova, com letra focando num homem que vive em conformismo perante a sociedade. Di Melo encerra o álbum no embalo de um xote, "Indecisão", que mostra seu sangue nordestino.
No final da audição do álbum, fica-se com a incompreensão sobre o fato de Di Melo não ter estourado nas paradas de sucesso na metade da década de 70. A originalidade e a inovação, lançadas por Di Melo no seu álbum homônimo, devem ser cultuadas, sem nenhum exagero, nos quatro cantos do Brasil. Os arranjos musicais são impressionantes e muito bem encaixados por músicos, como o genial Hermeto Pascoal (nas flautas e teclado), Heraldo do Monte (nas violas e violões), Dirceu (na bateria), Cláudio Beltrame (no contrabaixo), o maestro Geraldo Vespar (no arranjos e violão), o maestro José Briamonte (na direção musical), entre outros. Merecidamente, Di Melo é idolatrado por gente como Otto, Simoninha, Charles Gavin e por uma penca de pessoas que difundiu o primeiro disco do pernambucano Di Melo pela internet. O trabalho de Di Melo não podia ficar, de forma alguma, enterrado nos escombros da MPB.

Recomendação: Assista o documentário Di Melo, o Imorrível.
                        Assista ao clipe da canção Minha Estrela.

Vídeo
 

quinta-feira, outubro 1

Joana e os Cupins

Joana acordou sobressaltada, no meio da noite, após um sonho ruim. Ela sonhou com cupins roendo os móveis, as portas dos quartos e a cama. Levantou-se de imediato. Foi ao banheiro jogar água no rosto. Em seguida, Joana dirigiu-se para a cozinha para beber um copo d'água. Seguiu, então, para a sala onde estava seu notebook sobre uma mesa. Ligou o note e ficou esperando o sistema iniciar. Enquanto esperava, ela tentou lembrar com minúcias do sonho ruim. A última coisa que lembrava era os cupins vindo em sua direção como soldados em marcha. Olhou atenciosamente para as caixas no chão da sala bagunçada. Com bastante esforço, Joana passou o dia arrumando os objetos da casa para a mudança, que iria acontecer em breve. Joana odiava se mudar e, para seu desgosto, deveria deixar a casa pela qual se apegou bastante. Quando o sistema iniciou, acessou a internet. Depois de ponderar uma possível explicação para o sonho, ela digitou: interpretação de sonhos + cupins. Clicou num link e esperou pacientemente todos os detalhes da página abrirem. Leu com afinco alguns parágrafos de "Sonhar com Cupins". Não terminou a leitura. Baixou a tela do note com uma preocupação estampada no rosto. Ela ficou se perguntando o porquê de ter sonhado com cupins. Evidentemente, o sonho estava relacionado à mudança ou a um relacionamento amoroso desfeito recentemente, ela pensou. Depois de alguns minutos de reflexão, Joana levantou a tela do note, abriu o youtube para escutar "Geni e o Zepelim" de Chico Buarque. Enquanto soava Joga pedra na Geni! Joga bosta na Geni! Ela é feita pra apanhar! Ela é boa de cuspir!, tentou sem sucesso esquecer o sonho ruim, que lhe atormentava e ameaçava lhe tirar o sono por completo. Ela pensou na escola em que trabalhava. Teria que acordar cedo para dar aula. Baixou novamente a tela do note, encaminhando-se para pegar um livro. Pegou "Sagarana" no meio aos livros espalhados no chão. Imaginou que se talvez lesse, o sono retornaria. Entretanto, de nada adiantou ler, já que o sonho vinha-lhe com assombro à mente, espantando o sono esperado. Levantou-se impaciente e sentou-se no sofá-cama. Após quase uma hora a olhar para o teto, o sono retornou. Joana seguiu embriagada de sono para o quarto, exclamando nas entranhas da noite: malditos cupins.