sexta-feira, setembro 25

Nas Entranhas da MPB: Línguas de Fogo (1974)

“Para ele, a música, como a própria vida, foi uma experiência fascinante, mas breve.”
(Tárik de Souza)
Às vezes, a timidez pode ser um empecilho cruel. Para um artista que pretende mostrar seu trabalho, a timidez é uma grande barreira. Era o caso do tímido Sidney Miller, um artista com uma verve poética espantosa, que tinha seu ponto forte nas letras salpicadas de poesia. Com talento extremamente precoce, Sidney Miller foi um artista multifacetado: trabalhou junto ao teatro, cinema, literatura. O cantor e compositor carioca Sidney Miller começou a carreira participando de festivais de música na década de 60. Participou com a canção "Queixa" (composta ao lado de Zé Keti e Paulo Thiago), defendida por Ciro Monteiro, do I Festival de Música Popular Brasileira da extinta TV Excelsior em 1965. Gravou o primeiro trabalho em 1967, impulsionado pela gravação de cinco canções de sua autoria por Nara Leão, entre elas: "A Estrada e o Violeiro", premiado por melhor letra no III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record.  Em 1968, lança o segundo álbum, Brasil: do Guarani ao Guaraná, com destaque para "Pois é, Pra quê?". Após uma lacuna de seis anos, lança o terceiro e último disco da carreira, Línguas de Fogo, tema do presente texto.
O excelente Línguas de Fogo abre com "Cicatrizes". A melancolia reina nos versos dessa canção: Como essa escuridão por onde eu passo, de cada noite a cada amanhecer. Com o arranjo produzido pelas mãos do próprio Sidney Miller, o trabalho instrumental nessa faixa se destaca, principalmente a flauta e a guitarra. Na segunda faixa, "Um Dia Qualquer", com arranjo bem elaborado (também de Sidney Miller), aproxima-se da sonoridade do grupo mineiro Clube da Esquina. Em seguida, um dos pontos altos do álbum, "Línguas de Fogo" lança o ouvinte no espaço. A letra poética dessa canção encanta na primeira audição: "Deixa o meu verso passar / Como passa no ar / Esse sopro de vento / Que faz em seu corpo / Bem mais que fariam / Palavras no seu pensamento". Em seguida, "Dos Anjos" mistura carnaval com música litúrgica, ao passo que "Alô" é uma canção com cheiro latente de Beatles e Clube da Esquina. A seguir, a experimental "Pala-Palavra" joga com as palavras quase à maneira dos poetas concretistas, como Haroldo de Campos e Décio Pignatari. Logo depois, Sidney Miller explora a sensualidade em "No Quarto das Moças". Fica evidente o belo arranjo no decorrer dessa canção. O samba tropicalista "Sombrasileiro" dá o ar da graça em Línguas de Fogo, enquanto o tom sentimental está presente em "Espera". Na faixa seguinte, os versos, "Cai a noite amarga sobre o mundo / E o medo num gemido mudo, amada", atestam o tom melancólico em "Alento", que no final exibe os versos sensuais: "Deixa eu navegar teu corpo, amor / Num gesto lento / Ao mar de qualquer porto / Ao pé de qualquer vento / Longe desta noite". Encerrando o álbum, a psicodélica "Dois Toques" agita o caldeirão sonoro, tirando o clima soturno que predomina em algumas faixas.
Tomando um rumo diferente dos dois discos anteriores, Sidney Miller preferiu o clima folk e rock, que é evidente na maioria dos arranjos de Línguas de Fogo, disco este em que todas as composições são de sua autoria. A sonoridade do álbum foi produzida pelas mãos habilidosas dos músicos do calibre de Danilo Caymmi, Toninho Horta, Tenório Júnior, Chico Batera, Robertinho Silva, entre outros. Infelizmente, Línguas de Fogo foi o testamento de Sidney Miller, que faleceu aos 35 anos, supostamente devido à depressão e ao alcoolismo. Aliás, o último disco de sua breve carreira é um dos grandes momentos da música brasileira.
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quarta-feira, setembro 16

Nas Entranhas da MPB: Arthur Verocai (1972)

Existiram em vários momentos da história da música, assim como da arte em geral, artistas que não foram compreendidos, quando do lançamento de seus trabalhos pioneiros. De qualquer modo, com o reconhecimento tardio desses artistas sui generis através da redescoberta de sua obra, um prazer imenso e significativo se origina, em primeiro lugar, para os artistas menosprezados, já que podem reviver sua obra e gravar novos materiais (caso ainda estejam vivos). Em segundo lugar, o benefício para a nova geração é incomensurável, uma vez que jovens músicos podem absorver as ideias/inovações desses artistas resgatados dos "mares obscuros do esquecimento". Arthur Verocai, um compositor e arranjador carioca com formação em Engenharia Civil, é um exemplo de músico, cujo trabalho foi relegado por muitos anos quase ao esquecimento. Quando enveredou-se em gravar um álbum, Verocai já tinha feito arranjos para Célia, MPB-4, O Terço, Jorge Ben Jor, Ivan Lins, entre outros. Excepcionalmente, a formação musical de Verocai perpassa pela Bossa Nova, Jazz, Música Erudita, Frank Zappa, Beatles e uma leva de estilos, que misturou em seu fazer artístico. Prova disso é o caldeirão de influências musicais apresentado no álbum homônimo, Arthur Verocai, lançado em 1972, que trataremos no presente texto.
Abrindo com majestade o primeiro disco de Verocai, "Caboclo" tem uma pitada folk, com ares de Crosby, Stills, Nash & Young, cuja sonoridade produzida pelo grupo era muito apreciada por Verocai. Há na canção a presença pioneira de sintetizadores em uma gravação de disco brasileiro. A letra, assim como as demais do disco (exceto uma) são de autoria de Vítor Martins, transborda de metáforas poéticas. A faixa seguinte, "Pelas Sombras", cantada por Luiz Carlos Batera, apresenta uma mistura de jazz e funk, com direito a um passeio melódico ao saxofone. A introdução ao piano é de uma fineza profunda. Em seguida, a instrumental "Sylvia" exala exuberância melódica, desfilando em sintonia fina pela canção, onde há violão, baixo, trompetes, flauta, percussão, violas, violinos e violoncelos. Logo depois, "Presente Grego" transborda funk e soul, tendo a companhia de uma guitarra com pedal wah-wah. A letra dessa canção tem forte referência à ditadura militar brasileira, considerada por Verocai como um cavalo de Tróia para o Brasil. A seguir, "Dedicado a Ela" (composição de Verocai com Paulinho Tapajós) tem uma das introduções mais belas do álbum. Continuando as preciosidades sonoras, a intérprete Célia canta a belíssima "Seriado". Um dos destaques do álbum é "Na Boca do Sol". Esta foi muito utilizada em samplers pelos rappers americanos, que tiraram do limbo quase trinta anos depois o álbum de Verocai. A letra singela de Vítor Martins traz à mente as saudades e lembranças da vida em cidades interioranas. A influência de Milton Nascimento - o Pelé da Música, conforme Verocai - se faz presente na canção "Velho Parente", cantada por Toninho Horta, Gilda Horta e Toninho Café; enquanto a influência da Bossa Nova comparece na faixa "O Mapa". Encerrando o álbum, o experimentalismo jazzístico toma as rédeas em "Karina", tendo em destaque a guitarra de Hélio Delmiro, o sax de Nivaldo Ornellas e o trombone de Edson Maciel.
Quando do lançamento do seu primeiro álbum solo, Arthur Verocai foi taxado até de maluco. As vendagens do disco foram irrisórias e a repercussão foi mínima no ambiente musical da época. Verocai, decepcionado, seguiu para o mundo dos jingles comerciais. A redescoberta do disco, principalmente pelos DJs e rappers americanos, trouxe uma aura de gênio para Arthur Verocai e proporcionou ao maestro e arranjador carioca um concerto em Los Angeles, com direito a lotação máxima, para executar livremente seu álbum de 1972. Com louvor, seu primeiro álbum solo, hoje em dia, é reverenciado em várias partes do mundo e, merecidamente, deve estar entre os melhores álbuns da década de 70 e da música brasileira, sem piscar os olhos.
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segunda-feira, setembro 14

tomo um café preto


fumo um trevo
dois trevo 
outro café preto 
um maratá porque acabou o trevo
o pulmão reclama e minha mãe fala de tuberculose
to fudido, eu sei
e alheio

domingo, setembro 13

Fogo Místico


O fogo místico 
que nos queima
nesta noite límpida
sob o gemido do luar
aquece nossos corpos
que procuram repouso
nos campos verdes gris

O fogo místico
que nos queima
brota do teu olhar
que se estende 
pelo horizonte
onde a lua desfalecida
lança sussurros febris

Ó meu louco amor
nesta noite onde o sono se esvai
espero que a fragrância das estrelas moribundas
te acolham te seduzam te adornem
pois as horas deslizam silenciosas
nos dedos do dia que finda sem dor

Vivamos meu louco amor em busca do prazer noturno
que latente faz suas vítimas
em camas cinzentas em quartos lânguidos
Vivamos aniquilados pelos lençóis suados
pelos travesseiros rebeldes que despencam ao chão

Bebamos meu louco amor sempre vinhos sagrados
que foram oferecidos aos anjos da Aurora
em taças de vidro temperado
antes que a madrugada chegue para rasgar
os mantos negros da noite

Pintura de Roxana Werner

quinta-feira, setembro 10

Nas Entranhas da MPB: 20 Palavras Girando ao Redor do Sol

Muitos artistas formidáveis são não propalados no meio musical, por mil motivos. Cátia de França é uma destas artistas sublimes que a mídia hegemônica do Brasil prefere ocultar, para a tristeza de muitos amantes da excelente música brasileira. A cantora e compositora paraibana Cátia de França - toca piano, violão, sanfona, flauta e percussão - tem, em seu trabalho de composição, uma fortíssima ligação com os escritores nordestinos José Lins do Rego, Graciliano Ramos e com o poeta João Cabral de Melo Neto. Além disso, a música nordestina de raiz tem grande impacto em seus afazeres artísticos. Participou de alguns festivais de música popular e de um grupo folclórico na década de 60, mas somente na década de 70 gravou o primeiro disco. Entrando em contato no Rio de Janeiro com outros artistas nordestinos, como Zé Ramalho e Sivuca, Cátia grava em 1979 20 Palavras Girando ao Redor do Sol - disco extremamente relacionado à poesia de João Cabral de Melo Neto.
20 Palavras (daqui por diante), produzido por Zé Ramalho (que toca viola de 12 cordas em quase todas as faixas), abre com "O Bonde". Inicialmente, cantarolando com majestade, Cátia entoa "lá vai", aí começa o ritmo fascinante produzido por instrumentos recorrentes na música nordestina, como zabumba, caxixi, agogô e triângulo. A letra traz reminiscências de José Lins do Rego. Em seguida, "Quem Vai, Quem Vem" desfila a percussão ritmada e a poética sóbria de Cátia, que utiliza trechos de poemas de João Cabral. Logo depois, a canção "20 Palavras Girando ao Redor do Sol" (com trechos do poema "Graciliano Ramos" de João Cabral), que dá título ao álbum, chega com o modo de falar dos nordestinos e com poesia pura a tilintar nos ouvidos. A terceira faixa, "Djaniras", é uma composição de autoria de Cátia com Israel Semente e Xangai. Nessa canção, há trechos retirados do Grande Sertões: Veredas de Guimarães Rosa. Destaque no álbum "Kukukaia", sucesso na voz de Elba Ramalho, tem elementos esotéricos do mundo cigano. O título da canção refere-se à disputa de liderança num grupo cigano. A canção fez parte da trilha sonora do filme "Cristais de Sangue" de Luna Alkalay. A seguir, "Itabaiana" é uma canção em homenagem ao município de Itabaiana, localizado no estado da Paraíba, enquanto "Porto de Cabedelo" transborda lembranças sutis do porto na enseada de Cabedelo, um outro município da Paraíba. Um dos pontos altos do álbum, "Ensacado" é um poema de arrebatamento, com letra do poeta Sérgio Natureza. Outro destaque, a poética "Coito das Araras", cujo título era uma fazenda em Minas Gerais, é entremeada no mundo literário do escritor Guimarães Rosa. Essa canção tem duas partes bem definidas: uma com melodia lenta, outra com melodia mais acelerada. Na canção seguinte, "Os Galos", a flauta tocada por Ricardo Mattos é de uma beleza ímpar. A próxima faixa, "Sustenta a Pisada", traz a participação de Bezerra da Silva no berimbau. Para encerrar o álbum, o baião "Eu Vou Pegar o Metrô" (composta com Lourival Lemes) apresenta a sanfona encantadora do mestre Dominguinhos.
Deve-se reverenciar calorosamente o primeiro disco de Cátia de França, onde se destacam as participações de músicos do calibre de Dominguinhos, Sivuca e Severo (na sanfona); Sérgio Boré e Chico Batera (na percussão); Lulu Santos (na Guitarra); Amelinha e Elba Ramalho (no vocal de apoio). É Impressionante que das doze composições presentes no disco, há nove com a assinatura somente de Cátia de França, enquanto as outras três foram feitas com parceiros. Em verdade, 20 Palavras é um disco emblemático na música popular brasileira e deve estar necessariamente na lista dos melhores álbuns do Brasil, ao lado dos trabalhos de Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Fagner, Alceu Valença, Geraldo Vandré, entre outros grandes nomes da música nordestina.

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quarta-feira, setembro 2

Três é Demais: Zé Ramalho

Por Oluap Said
O paraibano Zé Ramalho deixou o curso de Medicina para se dedicar à Música, para o bem da Música Popular Brasileira. De Brejo do Cruz para o Brasil, o cantor e compositor é fascinado por violeiros, repentistas e, de maneira geral, pela música regional nordestina. Amante da Jovem Guarda, Beatles, Rolling Stones, Pink Floyd e Raul Seixas. Misturou tudo isso com suas raízes musicais do Nordeste. Como apreciador das obras de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, o poeta do apocalipse traz à tona no seu trabalho os ritmos do Nordeste, tais como embolada, coco, frevo e baião. Fã declarado de Bob Dylan, Zé Ramalho foi, no começo de carreira, músico de Alceu Valença, mas antes gravou em 1975 um álbum em parceria com Lula Côrtes, chamado Paêbirú - um clássico do rock progressivo brasileiro, que hoje é peça valiosa para colecionadores.Com sua poesia simbolista/metafísica, entremeada por metáforas profundas, o compositor de "Chão de Giz" é um dos grandes letristas da música brasileira. Suas letras magníficas são recheadas por referências mitológicas, bíblicas e históricas, apresentando belas imagens poéticas. Sua voz grave também é uma característica especial, que acentua de forma excepcional as letras e as melodias. A carreira solo de Zé Ramalho começa em 1978, com o lançamento do álbum que leva seu nome. A partir daí, começa uma carreira com álbuns (principalmente, os três iniciais) que marcaram fortemente a música brasileira.
O álbum de estreia de Zé Ramalho inicia com um clássico indiscutível, "Avôhai", composição esta em homenagem ao avô paterno que o criou. Com a junção das palavras avô e pai para formar Avôhai, Zé afirma que a canção nasceu de uma viagem com cogumelos alucinógenos. Nessa canção, há a participação especial de Patrick Moraz, ex-músico do Yes, nos sintetizadores. O arranjo é um primor psicodélico. Em seguida, "Vila do Sossego" é um verdadeiro monumento com versos apoteóticos: "Nos aviões que vomitavam para-quedas. Nas casamatas, casas vivas, caso morras". Relatando um caso amoroso quando jovem com uma mulher mais velha e da alta sociedade de João Pessoa, Zé apresenta "Chão de Giz" com metáforas profundas. Não precisa dizer que esta canção é de beleza ímpar e uma das grandes da MPB. Em "A Noite Preta", o toque regional vem a baile com toda a força. Logo depois, a psicodélica "A Dança das Borboletas" (composição de Zé Ramalho e Alceu Valença) apresenta o solo de guitarra frenético do ex-Mutantes Sérgio Dias. A instrumental "Bicho de 7 Cabeças", com a participação de Geraldo Azevedo, soa triunfal nos ouvidos. Com "Adeus Segunda-feira Cinzenta", Zé tempera o álbum com uma suave seresta. Continuando o mostruário lisérgico, "Meninas de Albarã" esbanja poesia e referência sutil à maconha no verso: "De noite acendo a tocha do meu olho". Para encerrar, "Voa, Voa" transpira regionalidade nordestina à flor da pele.
O segundo álbum de Zé Ramalho é “A Peleja do Diabo com o Dono do Céu”. A capa emblemática tem a atriz Xuxa Lopes e José Mojica Marins, o Zé do Caixão. O álbum abre com a canção de teor político, que dá título ao álbum, apresentando os versos: "Com tanto dinheiro girando no mundo/ Quem tem pede muito, quem não tem pede mais/ Cobiçam a terra e toda a riqueza/ Do reino dos homens e dos animais". A segunda canção é um hino indiscutível da MPB: "Admirável Gado Novo". A letra sensacional, que expõe a alienação das massas, é de uma beleza exemplar na música brasileira. Logo depois, "Falas do Povo" continua com as disparadas sociopolíticas. Esta canção foi dedicada a Geraldo Vandré, o cantor e compositor de "Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores", que foi perseguido pela Ditadura Militar. Mais um sucesso, "Beira Mar" atesta a capacidade poética de Zé Ramalho. Sem sombra de dúvida, essa canção é uma das mais belas de sua carreira. Mudando um pouco o tom do álbum, a autobiográfica "Garoto de Programa (Taxi Boy)" descreve a situação vivida por Zé ao chegar no Rio de Janeiro, tendo que se prostituir para ganhar o pão de cada dia. "Pelo Vinho e Pelo Pão" é um chorinho (com a participação da cantora Amelinha), enquanto "Mote das Amplidões" é um xote elegante e poético. Logo após, "Jardim das Acácias" tem a presença do grande guitarrista Pepeu Gomes, ex-Novos Baianos. Esplendidamente, a instrumental "Agônico" apresenta Geraldo Azevedo tocando um violão de 12 cordas. Para finalizar o álbum, a clássica "Frevo Mulher" estimula qualquer um a dançar a qualquer hora do dia.
O terceiro álbum de Zé Ramalho foi lançado em 1981, sendo produzido por ele e Mauro Motta. Abre com "Canção Agalopada", que tem uma estrutura de versos utilizada pelos repentistas nordestinos chamada martelo agalopado (dez versos construídos em dez sílabas). Ainda há, nessa canção, a participação da cantora lírica Maria Lúcia Godoy.  Em seguida, "Filhos de Ícaro" mostra mais uma vez os dotes poéticos do compositor de Brejo do Cruz. Desta vez, o cantor paraibano nessa canção clama por liberdade e resistência. Logo depois, a faixa-título é uma das mais belas canções de Zé Ramalho. "A Terceira Lâmina" é carregada, por um lado, de crítica social, por outro lado de misticismo e profecia, tão comuns em algumas letras do poeta do apocalipse. "Um Pequeno Xote" apresenta um ritmo de suas raízes do Nordeste e característico de uma de suas influências principais: Luiz Gonzaga. Em "Atrás do Balcão", a lisergia retorna suavemente. Como destaque, "Galope Rasante" é uma das melhores canções do petardo, com letra exalando sensualidade. A belíssima "Kamikaze" chega com sua exuberância melódica. Sem dúvida, é um ponto alto do álbum. Continuando as finezas, Zé Ramalho toca uma viola de 10 cordas e violão de 12 cordas na instrumental "Violar". O cangaço e Lampião estão presentes em "Cavalos do Cão", na qual há a participação especial de Elba Ramalho - prima de Zé Ramalho. A canção "Ave de Prata" foi feita para Elba, enquanto "Dia dos Adultos" encerra calorosamente em ritmo de forró o álbum.
A carreira de Zé Ramalho foi pontuada por inúmeros desafios. Com coragem, ele viajou, assim como muitos nordestinos, ao Rio de Janeiro para tentar a vida na música. Venceu o preconceito latente contra nordestinos. Os três primeiros álbuns de sua carreira atestam o talento para compor canções sublimes. Vale ressaltar que o cantor e compositor paraibano tem como principal virtude dar ênfase nas letras poéticas, ora com teor sociopolítico, ora com teor mítico-bíblico. Zé Ramalho tem um catálogo de canções seminais, que tocam com profundidade no coração de tantos fãs espalhados pelo Brasil. Apesar de alguns detratores afirmarem que suas letras são complexas, a popularidade das canções de Zé Ramalho, que trazem elementos da literatura de cordel e da rica cultura do sertão, está bem assentada nas rádios e nos ouvidos de inúmeros amantes da música deste nordestino mui talentoso. Viva Zé Ramalho da Paraíba!

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