terça-feira, dezembro 17

Beatles, Bob Dylan, Paulo Coelho ou o Raulseixismo - PARTE 03

Por Natan Castro

"Se você não está dentro da Sociedade Alternativa, a Sociedade Alternativa sempre esteve dentro de você." Raul Seixas


Raul Seixas estava então o artista agora descoberto por si e pelos outros, com a certeza de uma carreira pela frente no inicio dos anos setenta. Beatles sempre foram a inspiração para a primeira banda de Raul Seixas, eles forjaram conceitos, pontos de vistas, grandes canções e essas mesmas canções dos Beatles tiveram uma modificação brutal em forma de conteúdo quando na metade dos anos sessenta os Beatles deixaram os temas juvenis e mergulharam de vez nos temas universais. Diz à lenda que o encontro dos Beatles com Bob Dylan teria modificado a forma, as vias que seriam percorridas até ali rumo a novas canções, dizem ainda que foi Bob Dylan que ofereceu o primeiro baseado aos FAB-FOUR. Sem dúvidas depois de 1964 com o lançamento de “Rubber Soul” as letras começaram a tratar de assuntos mais sérios bem longe dos devaneios adolescentes do inicio, é incontestável a influência do cancioneiro de Dylan na dupla Lennon & McCartney. E foi também nesse período senhores que Raul Seixas leu numa revista que tratava de assuntos místicos um artigo sobre Discos Voadores escrito por um cara chamado Paulo Coelho. O assunto interessava tanto Raul Seixas que ele foi até a redação da revista à procura do autor do artigo, lá chegando conheceu Paulo Coelho que era à época um hippie, estudioso de misticismo e ex-diretor de teatro. Esse encontro tal qual o encontro dos Beatles com Bob Dylan foi crucial para o desenrolar da história do rock nacional e decerto para a música popular brasileira, houve logo de inicio uma afeição de duas cabeças que segundo eles mesmo se completavam, ainda que com conflitos que duram até os dias atuais. Raul Seixas prometeu ensinar Paulo Coelho a compor canções e Paulo Coelho prometeu iniciar Raul Seixas nos assuntos místicos. E de fato iniciou-se uma viagem dessas que somente os anos setenta eram dignos de acompanhar, os dois juntos de Marcelo Motta fundaram uma sociedade místico-libertária baseada nos ensinamentos do mago inglês Aleisteir Crowley chamada a Fraternidade do Relâmpago Dourado. Ainda nesse período tal Fraternidade ganhou de presente um terreno no estado de Goiás onde ia ser construída a “cidade das estrelas” nessa cidade os valores estariam todos invertidos, segundo Raul Seixas o advogado seria o não-advogado e assim por diante. Essa seria a Sociedade Alternativa toda baseada de fato no livro da lei de Aleisteir Crowley, porém no ano de 1974 a ditadura militar percebeu que aquelas ideias estavam cada vez mais levando pessoas aos shows de Raul e esse público se mostrando cada vez mais aberto as tais mudanças cantadas nos versos das músicas. Conforme Raul Seixas costumava dizer nesse mesmo ano ele foi convidado a se retirar do país, seu exilio se deu em Nova York nos E.U.A, a essa altura do campeonato aquilo que conhecemos como Raulseixismo, ou seja, a filosofia desse tal Raul Seixas estava bem definida e trouxe com ela uma massa gigantesca de seguidores do Brasil inteiro, todos os álbuns da parceira com Paulo Coelho serviram para a consolidação dessas ideias, claro que Raul Seixas teve outros grandes parceiros musicais, mas foi o principio com Beatles, Bob Dylan e Paulo Coelho que houve a  personificação do mito Raul Seixas junto de uma filosofia que até hoje não para de crescer no país inteiro.





domingo, dezembro 8

Sampaio Correa: os melhores do Brasil no Norte e Nordeste


Sempre tive certeza que o Sampaio Correa está entre os melhores clubes do Brasil na região norte e nordeste junto com o Clube do Remo – PA, Paysandu - PA, Nacional – AM, São Raimundo – AM, Fortaleza – CE, Ceará – CE, América – RN, ABC – RN, CRB – AL, CSA – AL, ASA – AL, Botafogo – PB, Treze – PB, Campinense – PB, Santa Cruz – PE, Náutico – PE, Sport – PE, Bahia – BA e Vitória – BA, sendo que os quatro últimos estão sempre disputando a elite do futebol brasileiro e tem no currículo o título nacional ou o vice-campeonato.

O clube maranhense tem no currículo três títulos nacionais de todas as divisões que já disputou (exceto a série a), sendo duas de forma invicta a de 1997 na série c e a série d em 2012, desde o rebaixamento a série c no qual esteve disputando à série b em 2002 e o rebaixamento à série d em 2008 quando estava disputando a série c.

Sampaio Correa passou por crise financeira quase sem fim a ponto de muitos jogadores e treinadores oriundos do eixo sudeste e sul do Brasil não quererem vir para o clube devido à má fama de não pagar os salários por causa de dirigentes irresponsáveis que muito se promoveram à custa do clube, o que resultou no rebaixamento que foi citado anteriormente.
Um clube que já disputou a Copa Conmebol em 1998 chegando até a semifinal, sendo eliminado por nada mais e nada menos que o Santos, é digno de mostrar a sua grandeza que enche de orgulho a sua torcida que infelizmente só aparece nos momentos quando o time está no auge, daí é de certa forma plausível a critica de torcedores de times rivais classificarem estes como torcedores modinhas, mas também não deixa de ser uma inveja.
A conquista da série d em 2012 de forma invicta, com jogadores genuinamente maranhenses na maioria do seu elenco, ao contrário de 1997 quando conquistou a série c de forma invicta, era formado majoritariamente por jogadores do eixo sudeste e sul do país, a conquista do ano passado fez aproximar ainda mais os torcedores com o clube e os jogadores, por serem maranhenses em maioria, eles definitivamente entraram na memória dos torcedores, ao contrário do de 1997, muitos jogadores naquela época nem são tão lembrado hoje por torcedores.

Porque não tiveram identidade com o clube e nem mesmo com a torcida, tanto que a maioria destes deixou o clube no ano seguinte após a conquista, atuando em clubes das regiões de origem do sudeste e sul, principalmente no interior de São Paulo, de 2012 pra cá foi o contrário, o time da conquista da série d foi mantida na disputa da série c este ano que acabou conseguindo o acesso a série b, disputando a final com o Santa Cruz que nunca havia conquistado o campeonato nacional, e se levasse pela história, tradição e conquistas, o Sampaio obviamente era o favorito a conquistar o título.

Esses jogadores entraram na história do clube, o Rodrigo Ramo já tem mais de 300 jogos pelo clube, um feito e tanto para os dias de hoje em que o jogador permanece pouco tempo no clube e ainda mais no Maranhão que há anos está fora do cenário nacional e com o futebol há tempos em decadência.
Sampaio Correa sem dúvida é a maior torcida do Maranhão, entretanto, não é a mais apaixonada porque os torcedores só aparecem quando o time está disputando o campeonato de nível nacional e na boa fase, mas isso pode ser mudado.

Os últimos anos que mais surgiu foram as torcidas organizadas, a mais notáveis são a Mancha Tricolor, Sampaio Roots e Tubarões da Fiel, e a tendência é crescer ainda mais essas organizadas em virtude de estar disputando a série b ano que vem (2014).
Sampaio Correa é um dos grandes clube do Brasil no norte e nordeste, mas precisa resgatar a sua própria história e a memória de jogadores que fizeram história pelo clube como o Juca Baleia, Djalma Campos, Bimbinha, Gojoba, Pelezinho, Adãozinho, Marcelo Baron, Rosclin Serra, Meinha, Bacabal, Fuzuê, Arlindo Maracanã, Pimentinha e muitos outros.
Devem resgatar o nome desses jogadores e colocar na memória do torcedor, principalmente aqueles que conquistaram o brasileiro série b de 1972, o brasileiro série c de 1997, o pentacampeonato maranhense de 1984, 1985, 1986, 1987 e 1988 e o tricampeonato maranhense de 1990, 1991 e 1992.
Grandes torcidas do Brasil como Vasco da Gama – RJ, Botafogo – RJ, Fluminense – RJ, Flamengo – RJ, Palmeiras – SP, Santos – SP, São Paulo – SP, Corinthians – SP, Cruzeiro – MG, Atlético – MG, Grêmio – RS, Internacional – RS, Coritiba – PR, Atlético – PR, Bahia – BA, Vitória – BA, Sport – PE, Santa Cruz – PE, Náutico – PE, Goiás – GO e outros que são grandes clubes e sempre estão disputando a elite do futebol nacional, as suas torcidas sempre carregam nas bandeiras, faixas e cartazes em dias de jogos os nomes e a imagem dos jogadores que fizeram a história em seus clubes, principalmente nas grandes conquistas, seja nacional ou local.
Roberto Dinamite e Edmundo, por exemplo, sempre tem os seus nomes e imagens nas bandeiras, faixas e cartazes das torcidas organizadas do Vasco da Gama, é assim o Zico e Júnior que fizeram história do Flamengo também tem os seus nomes e imagens em bandeiras nos dias de jogos.
As torcidas organizadas do Sampaio Correa deve inovar, e uma delas é resgatar o nome e a imagem de jogadores que fizeram história do clube, principalmente nas grandes conquistas que foram citados anteriormente, porque todo time grande tem uma história e a história sempre começa por aqueles que vestiram a camisa e obtiveram conquistas nelas.
E também está mais que na hora da diretoria atual do Sampaio Correa pensa grande de fato, fazer num time empresa, seguindo o exemplo de grandes clubes que fizeram do símbolo como marca de mercado pra arrecadar dinheiro e investir nas suas estruturas.
É comum os times terem suas lojas oficiais em shoppings pra vender camisas e outros produtos com a marca e símbolos que representam a entidade futebolística, o Sampaio Correa deve abrir mão do patrocínio do poder público, seja do governo municipal e/ou estadual.
Pra não ficar refém da classe política que sempre usa para fins politico e eleitoreiro, o caso do Moto Club, maior rival do Sampaio e também um grande clube maranhense é a prova, duas vezes rebaixado a segunda divisão do campeonato maranhense em menos de cinco anos se deu em decorrência de dirigentes que usaram o clube como forma de obter votos pela torcida, no caso especifico foi o Deputado Federal Cleber Verde que foi presidente do Moto e responsável pelo rebaixamento do time em 2009.
O Sampaio Correa deve estar acima de partidos e grupos políticos, não pode ser usado como manobra politica de quem quer que seja, porque o time já esteve à beira da falência por causa de dirigentes que usaram a entidade, o caso bem típico foi Manoel Ribeiro, Deputado Estadual que presidiu a presidência da Assembleia Legislativa de 1993 a 2003, e também presidente do clube responsável pelo conquista a série de forma invicta de 1997, entretanto, foi o responsável pelo rebaixamento do campeonato brasileiro série b em 2002 e disputar a c ano seguinte, ou seja, foi responsável pelo conquista e também pela queda do clube que deixou a beira da falência em decorrência da crise financeira.
Está mais que na hora do clube maranhense e até mesmo os demais seguirem modelo de clubes brasileiros pelo Brasil e até mesmo do exterior, vejam o caso do Barcelona – Espanha, o próprio clube é uma empresa, reparem que não há excesso de marcas e patrocínios estampado na camisa. A única marca que esteve estampada na camisa durante muitos anos foi a UNICEF, entidade das Nações Unidas (ONU) que cuida da proteção de crianças de todo o mundo, e atualmente outra marca, a Qatar Foundation, também tem o seu nome estampado na camisa do clube espanhol, e especula-se que a empresa paga ao clube para ter o nome estampado na camisa.
O Barcelona não é o único, é assim o Real Madrid – Espanha, Bayer de Munique – Alemanha, Manchester United – Inglaterra, Chelsea – Inglaterra, Arsenal – Inglaterra, Milan – Itália, Juventus – Itália, Internazionale – Itália e muitos outros clubes europeus.
Eu não vou muito longe, quando estive em Fortaleza – CE em 2010 pra participar num encontro estudantil, fui ao shopping da cidade que estava próximo ao local que estava a concentração para uma passeata de estudantes, e dentro desse shopping eu vi uma loja do clube cearense, o Fortaleza, que vende camisas e o mascote do clube, o leão, e vários produtos que continha o nome, cor, símbolo, marca e o mascote do clube.
Sampaio Correa deve copiar o modelo e exemplo destes clubes europeus, para que torne autossuficiente e autossustentável, pra que não fique mais pedindo esmolas do governo estadual e municipal, e também não ser mais refém da classe politica que usa a imagem, cores e o nome do clube em proveito próprio. 
Se o Sampaio Correa e os demais clubes maranhenses, como o Moto Club, MAC (Maranhão Atlético Clube), Bacabal, Imperatriz e JV Lideral, clubes estes que já foram campeão maranhense, especialmente os do interior que são os três últimos, teremos futuramente o futebol maranhense bem mais competitivo, e o Sampaio pelo momento que vive, poderá futuramente disputar o campeonato brasileiro série a, os dirigentes do clube pode pensar dessa forma desde já ano que vem.

pra quê escrever?

pra quê? - a pergunta fundamental de um auto-abortado social. pra quê escrever? se a morte escorre por cima dos ombros e logo alagará tudo à sua volta e te estrangulará em algum ponto do tempo? lúcido, compreendendo tal futilidade, tentará escrever contra o decesso. e aí não será mais você escrevendo sobre a morte, será ela esculpindo as suas decadências verbais. e a morte tem senso de humor caso saiba acolhê-la em sua casa. te fará rir dos rancorosos que escrevem há milhares de anos sem compreender o quão pouco valiam as palavras. compreenderá que a escrita é uma enganação. porém, estamos de acordo em nos enganarmos agora, meu caro amigo que eu não conheço? então me diga, que lhe importa mais saber? de ideias geniais? a descrição de uma caminhada por uma estrada deserta? quanto às ideias, por que não bola as suas próprias? quanto à caminhada, bem, jamais saberá se não pegar a estrada. então morra, amigo, e saberá o gosto da morte, morra numa calçada, morra sujo de esgoto, mas não morra numa cama confortável, morra sozinho. só quem morre sozinho teve uma morte decente. morra confrontando-se. não deixe que impeçam que seus demônios te incomodem nos últimos minutos de vida. só quem conhece o vazio sabe definhar, só quem conhece a pobreza pode falar da raiva espiritual. e depois levante-se e fale da morte no passado, como quem a ultrapassou e agora caçoa dela no retrovisor. porque, ao contrário do que acreditavam alguns filósofos, acredito que vivemos no instante, e no instante é, de alguma forma, impossível morrer. por mais que se queira - e é preferível que se queira. devemos à isso essa sensação de uma farsa, não acha? não que a vida seja patética, mas apenas trágica e potencialmente engraçada.

sexta-feira, dezembro 6

Jake Bugg


Por Natan Castro

Jake Bugg é um jovem Inglês que com apenas 19 anos já lançou dois álbuns bastante expressivos no cenário musical do Reino Unido. Com um vocal aquém de qualquer outro artista da atualidade e uma técnica de guitarra no mínimo acima da média, haja vista sua idade, vem chamando a atenção de público e critica. O jovem nascido na cidade de Nottingham na Inglaterra, quase sempre se apresenta de jaqueta preta e por produzir uma sonoridade com um pé nas raízes country americana e o outro no folk Inglês, anda sendo chamado pela critica de Bob Dylan da atualidade. Mas ele mesmo em entrevista recente deixou claro que é admirador de outro grande artista do folk/country nesse caso Johnny Cash.


Em 2011 na fase de “novos talentos” do festival de Glastonbury, participou com 17 anos, após a apresentação recebeu o convite e assinou o contrato com a gravadora Mercury Records, em outubro de 2012 lançou seu primeiro álbum que leva seu nome. Recebido pela critica com uma enxurrada de elogios, destacando sua forma simples e descompromissada de se apresentar e também por um vocal cheio de atitude. Diversas músicas desse primeiro álbum estouraram no Reino Unido e nos E.U.A dentre elas “Broken”, “Two Fingers” e “Lighting Bolt”. No último dia 18 de Novembro Jake Bugg lançou o seu segundo álbum denominado “Shangri-la” os rótulos logo apareceram chamando a sua música de Folk/Britpop e Indie-Folk. O fato é que Jake Bugg surge na cena rock Inglesa como novo diamante brilhante desses que aparecem já prontos, sua atitude digna de grandes nomes e sua responsabilidade com a tradição, apontando caminhos que talvez somente ele saiba aonde chegar, demonstram que ele talvez seja o mais interessante e sui generis nome do cenário rock mundial na atualidade.






quinta-feira, dezembro 5

Raul Seixas, Filosofias, Politicas e Lutas - Parte 03



Por Natan Castro 

Com o fim da banda Raulzito e os Panteras, Raul Seixas encara um dos momentos mais delicados da sua vida. Ainda que não estivesse se dando conta, todos os momentos de angústia, insegurança artística e depressão, serviram bastante para moldar a persona de um grande artista que surgiria alguns poucos anos mais tarde. Nesses dias de introspeção Raul Seixas mergulha em leituras que mais tarde serviriam de matéria-prima para algumas de suas melhores canções. Certo dia bate a sua porta um amigo que trabalhou com ele no Rio de Janeiro, lhe oferecendo um emprego de produtor da gravadora CBS. De pronto Raul aceita o convite e se transfere com a primeira mulher a americana Edith Wisner para o Rio de Janeiro, nesse período torna-se produtor de diversos artistas do cast da gravadora e produz seu compadre e grande amigo Jerry Adriane é dele o sucesso "Doce, Doce Amor" Nesse período Raul Seixas era descrito como um homem sério, sempre visto de gravata e pasta na mão, uma espécie de executivo artístico, com um salário digno essa fase contrastava com o período difícil que passou poucos anos antes junto de sua primeira banda na cidade.

De Raulzito para Raul Seixas

Nesse período Raulzito conhece dois grandes personagens seminais para sua carreira artistica, o primeiro deles era o compositor de Cachoeira do Itapemirim, chamado Sérgio Sampaio e o outro um editor de uma revista de ufologia chamado Paulo Coelho. Nesse período lança como produtor e cantor o antológico álbum Sociedade da Grã Ordem Kavernista, Apresenta Sessão das Dez, deles participam também Sergio Sampaio, Paulo Coelho, Miriam Batucada e Edy Star. Diz a lenda que Raul aproveitou a viagem do presidente da gravadora aos E.U.A e gravou o álbum que é tido como um dos álbuns mais emblemáticos do rock brasileiro. Porém a façanha lhe custou o emprego, já havia algum tempo que Sergio Sampaio incitava Raul a seguir uma carreira solo, dizia ele não ter sentido Raul Seixas retornar a Bahia. Foi quando em 1973 Raulzito resolve largar a indumentária séria de um executivo de gravadora e torna-se o Raul Seixas que todos conhecemos até hoje. A principio mostra suas músicas ao produtor Roberto Menescal que de pronto topa produzir as canções para um primeiro álbum solo, era o ano de 1973, Raul Seixas se inscreve no festival internacional da canção com a música “Let Me Sing, Let Me Sing” que chega a final, tal acontecimento leva Raul Seixas a assinar com a gravadora Philips.




quarta-feira, dezembro 4

Do tempo


O tempo me esquece e sinto minhas unhas irremediavelmente transformarem-se em garras. Estas adentram minha carne e me despedaçam em três.

A tríade Aristotélica, fruto da passagem do tempo pelas minhas mãos, envelhecendo-as, engradecendo o tato, criando habilidades cirúrgicas para o conserto de minhas juntas, e para o zelo com meus calos.

E o tempo cruel arrasta-se em triângulos desenhando minhas expressões faciais e pintando as cores do meu esmalte, e bordando as rugas dos meus risos.

Aplica-se em minha alma a teoria da relatividade, mitigando meus dogmas e meus preconceitos, acalmando minhas preces e extirpando minhas dúvidas. A fé devora meus encantos e meus defeitos, e a mesma fé rasga a sola dos meus pés, colocando-me em eterna provação.

O tempo é colaborador da sapiência, e cicatrizante das feridas. Aerossol de tempus verbum.

E ressuscito a deusa que me habita o corpo, reanimando a própria com sua forca, fé e esperança. E minha deusa esquece o tempo e faz deste teu servo e teu escudeiro. E minha deusa escreve com meu sangue e deságua minha mente no papel.

Minha mente iludida e derretida entrega a cera quente - que são minhas opiniões - aos leitores, arrancando seus cabelos sem sombra de compaixão. E minha mente, palhaça com palavras, prega pecas na deusa que habita meu corpo, e com a alma, refaz minha fé.

E o tripé que me sustenta segue manco, compassado pelo tempo que tatua a minha pele de forma invisível, e concretiza as pegadas  na calçada não famosa da minha vida.

terça-feira, dezembro 3

A Trilogia das Cores e o Cinema Metafísico de Kieslowski


Por Paulo Dias
         Krzysztof Kieslowski foi o responsável, ao lado de Andrzej Zulawski, Roman Polanski e Andrzej Wadja, pela ascensão do cinema polonês no cenário mundial. A carreira inicial de Kielowski está vinculada aos documentários com teor político sobre a classe proletária inserida no sistema socialista-comunista da Polônia. Fato é que o diretor e roteirista polonês destacou-se somente em âmbito internacional com sua obra monumental “O Decálogo” - uma série composta por dez filmes curtos baseados nos Dez Mandamentos bíblicos. Com efeito, dois filmes da série transformaram-se em longas-metragens de sucesso: “Não Amarás” e “Não Matarás”.
         Conceitualmente, Kieslowski representa um cinema de detalhes e com foco metafísico, entremeado com as questões sociopolíticas de seu tempo. O cineasta polaco tinha uma verve cinematográfica perfeccionista e interessava-se por encontros casuais, aleatórios. Sobretudo, o cinema de Kieslowski se sobressai sui generis nos fins da década de 1980 e no início dos anos 1990 com vários filmes geniais e inesquecíveis realizados em sequência. De fato, a urgência em filmar alucinadamente e sem interrupções acarretou ao cineasta um infarto fulminante aos 54 anos de idade em 1996. Apesar do anúncio de sua aposentadoria em 1994, Kieslowski estava trabalhando em uma trilogia baseada na “A Divina Comédia” do poeta italiano Dante Alighieri – projeto este que veio a lume por meio de outros diretores. Desnecessário dizer que sua morte foi uma perda irreparável para o mundo do Cinema e para os amantes da La Sept Arte.
         No catálogo cinematográfico de Kieslowski, além dos supramencionados há os filmes excepcionais: “Sorte Cega”, “A Dupla Vida de Verónique”, “A Liberdade é Azul”, “A Igualdade é Branca” e “A Fraternidade é Vermelha”. Os últimos três compõem a conhecida “Trilogia das Cores”. Não raro, os filmes de Kieslowski são esculpidos em detalhes metafóricos e simbolistas, transbordam de cenas memoráveis na medida em que jorram um mosaico de pluralidade metafísica, capturando o real - e o enigmático - da vida e lançando irremediavelmente em nossos olhos a beleza mais sublime que há no cinema de qualidade. Cada filme de Kieslowski é um caleidoscópio de sensações!

          O primeiro filme da “Trilogia das Cores” é o excepcional “A Liberdade é Azul” (Bleu, 1993). Este é um drama com enfoque em Julie (interpretada brilhantemente por Juliette Binoche), que é a esposa/viúva de um compositor encarregado em compor o “Concerto da Unificação da Europa”. Julie perde o marido e a filha em um acidente automobilístico. Em consequência disto, ela tenta se desprender de todas as lembranças que os evoquem, desfazendo-se dos bens materiais e da música do marido. O silêncio se alastra pela película e os diálogos são demasiadamente escassos, contudo as cenas dizem tudo através do rosto expressivo de Binoche, capturando o desespero da personagem em sua tentativa de cortar todos os vínculos com o passado. À medida que tenta se desvincular dos sentimentos de perda, Julie se prende mais em sua própria liberdade, descobrindo que a liberdade total de nada vale ao perder suas memórias matrimoniais e recordações maternas. É importante mencionar a cena bem arquitetada na qual Julie está dentro da piscina em uma posição fetal que simboliza o renascimento. No mais, vale destacar a belíssima trilha sonora de Zbigniew Presnier e a fotografia de Slawomir Idriak pautada no azul.


        O segundo filme da “Trilogia” é a comédia (ou humor negro?) “A Igualdade é Branca” (Blanc, 1993), centrado na história de Karol (interpretado por Zbiniew Zamachowski) – um polonês azarado que vive em Paris como cabeleireiro. Depois que sua esposa Dominique (vivida por Julie Delpy) pede o divórcio, ao alegar não consumação sexual no casamento, Karol é abandonado e sem lenço e documento começa a pedir esmola no metrô. Ao conseguir retornar para a Polônia em uma mala, Karol dá a volta por cima, almejando uma vingança inusitada contra a ex-esposa. Ainda apaixonado, Karol tenta alcançar a igualdade que não conseguiu em Paris. Na busca pela igualdade plena perante Dominique, Karol descobre que nem todos os homens são iguais nem diante da lei e nem do amor. De maneira recorrente, a cor branca é perseguida pela fotografia (vide as cenas focalizando a neve), ao passo que a trilha sonora, novamente de Presnier, baseada no clarinete é bastante suave e melancólica.


    O monumental “A Fraternidade é Vermelha” (Rouge, 1994) é o terceiro filme da trilogia de Kieslowski. O petardo fílmico tem como ponto de referência a personagem Valentine (na interpretação estupenda da belíssima Irène Jacob), uma jovem modelo de Genebra que atropela a cadela de um juiz aposentado (o sempre excelente Jean-Louis Trintignant). A partir desse acontecimento, a vida solitária e amargurada do ex-juiz, cujo passatempo é escutar as conversas telefônicas dos vizinhos, se transforma com a presença da fraternal Valentine. Paralelamente, temos a história de Auguste (um aspirante ao posto de juiz), que transita pelos mesmos lugares de Valentine e inclusive vive próximo ao prédio dela. Entretanto, os dois personagens não se encontram até o final da película e nos faz indagar se Auguste era o juiz aposentado no passado, haja vista que vários pontos pessoais entre eles coincidem: a traição amorosa, a página aberta de um livro, etc. Uma cena bastante sugestiva é a que enquadra um maço de cigarro e um copo quebrado, simbolizando o rompimento amoroso de Auguste. A fotografia de Piotr Sobocinski, destacando os planos abertos, é sensacional e, sem dúvida, é um dos destaques do filme.

         A “Trilogia das Cores” foi baseada nas cores da bandeira da França: o azul representa a liberdade, o branco a igualdade e o vermelho a fraternidade. O projeto da trilogia tinha como objetivo uma homenagem aos 200 anos da Revolução Francesa e, também, a comemoração da unificação da Europa por meio da União Europeia. É deveras notável como Kieslowski (junto ao roteirista Krzysztof Piesiewicz), com uma cosmovisão arguta e filosófica, conseguiu transpor os lemas da Revolução para um contexto atual e humanista. Conforme a professora da PUC Andrea França, os lemas da bandeira francesa transcorrem nos três filmes e os personagens kieslowskianos acolhem o acaso como meio de trilhar novos rumos, refletindo o olhar do diretor polonês sobre a vida e o mundo (vide os extras dos DVDs da Versátil). Há referências na trilogia a alguns filmes como, por exemplo, “O Desprezo” de Godard e “Sociedade dos Poetas Mortos” de Peter Weir. Em relação às premiações, “A Liberdade é Azul” ganhou os prêmios de melhor filme, fotografia e atriz (Juliette Binoche) no Festival de Veneza; “A Igualdade é Branca” recebeu o Urso de Prata (no Festival de Berlin) como melhor diretor para Kieslowski; “A Fraternidade é Vermelha” recebeu merecidamente as indicações de melhor filme, fotografia e roteiro original no Oscar, no entanto foi perseguido no Festival de Cannes. Numa perspectiva de conexão, a cena de uma idosa que tenta colocar uma garrafa em uma lixeira ocorre nos três filmes, contudo somente no terceiro filme, que representa a fraternidade, a idosa é ajudada por Valentine. Vale ressaltar o fechamento da trilogia com a cena que mostra os personagens dos três filmes como sobreviventes de um naufrágio no Canal da Mancha, simbolizando as várias nacionalidades europeias como a francesa, polonesa, inglesa e suíça.
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