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sexta-feira, outubro 23

Entrevista do Poeta Raimundo Fontenele Por Natan Castro



Raimundo Fontenele é um poeta, natural da cidade de Marianópolis, Pedreiras, Maranhão. Poeta esse que na juventude participou ativamente de um dos mais importantes movimentos literários do século passado no Maranhão, o movimento Antroponáutica do início dos anos 70 que propunha um rompimento drástico com a tradição poética anterior, tendo como exceção nomes como José Chagas, Bandeira Tribuzzi e o grande Nauro Machado. Após esse período de ativismo cultural na capital maranhense, o poeta literalmente meteu o pé na estrada, se apropriando dessas experiências para o enriquecimento de seu fazer poético. Atualmente radicado na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, o poeta trabalha em três novos livros. Raimundo Fontenele é desses poetas que indubitavelmente a nova geração de leitores do Maranhão precisar conhecer e se aprofundar pela preocupação e pela sinceridade em que o mesmo encara a arte em suas mais diversas formas de manifestação.

A poesia sempre foi a sua principal manifestação artística, ou antes, houve um flerte com outros ramos da arte?

R – Sempre a poesia. Desde cedo, lá pelos oito anos de idade. Com essa idade principiei a leitura da Bíblia, de cabo a rabo, como se diz no jargão popular. Devo muito à influência de minha mãe, que sempre lia pra mim, contos infantis, mundos fantásticos que passei a visitar na imaginação. Mas sempre gostei de música, pintura e escultura. Esbocei alguns desenhos, mas abandonei logo. Enfim, como diz a letra do hino do Flamengo, uma vez poesia, sempre poesia.

A sua geração de escritores é exatamente aquela posterior a queda do Vitorinismo, e coincide com a chegada do Sarney ao poder no Maranhão. Quais eram as expectativas no campo da arte no estado naquele período? Sarney pegou carona na genialidade de Tribuzzi e Nauro Machado? Por fim como era a cena cultural no período da deflagração do Movimento Antroponáutica?

R - Na verdade, lembremos que o Sarney vinha de uma ala progressista da UDN, chamada de “bossa nova”.  Era visto assim meio de esquerda. Eclodido o golpe militar, em 1964, em seguida sua eleição em 1965, o Sarney foi lá ter com os milicos, como se dissesse esqueçam o outro e pensem neste de agora que quer apenas governar o seu estado e ficar de bem com vocês. E o Sarney alimentava a esperança de maranhenses cansados da truculência vitorinista, daquela forma coronelista de governar. Mais do que tudo Sarney ajudou a mudar a mentalidade: era o Maranhão Novo, “meu voto é minha lei, Governador José Sarney; quando entrar na cabine o eleitor é José Sarney pra Governador”, esses versos da sua música de campanha incendiaram corações e mentes. Havia um êxtase, uma alegria, uma efervescência com sua vitória. E ele correspondeu no primeiro momento: abriu e asfaltou estradas; um salto na Educação com o Projeto João de Barro (educação de crianças e jovens fora da idade escolar), as Escolas Bandeirantes, escolas de segundo grau de cunho profissionalizante, a criação da TV Educativa, uma das pioneiras no Brasil. Modernizou a administração pública, várias empresas estatais foram criadas, naquele momento, não como cabide de empregos, mas necessárias aos vários projetos gestados por grandes cabeças que ele recrutou para o governo. Bandeira Tribuzzi, Haroldo Tavares e tantos outros. A gente acreditava que isso mudaria também o fazer cultural. Na sequencia, como é certo que o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente ele tornou-se aquilo que mais combateu. Um Vitorino moderno, sem jagunços e três oitão, mas com práticas cujo resultado era igual: a pobreza do estado, o enriquecimento das famílias, dos amigos, dos apaninguados, o voto de cabresto, a subserviência dos prefeitos, toda essa lástima que se arrastou por mais de cinquenta anos e tornou o Maranhão um estado com o penúltimo lugar nos indicadores sociais, perdendo apenas para Alagoas.

Explique-nos de onde veio o nome do movimento e o que o mesmo propunha no campo da poesia no estado no início dos anos 70?


R – Com exceção dos poetas Nauro Machado, Bandeira Tribuzzi e José Chagas a gente respirava uma literatura bolorenta, uma coisa de vangloriar-se do passado, a chamada Atenas Brasileira da qual não se queria abrir mão e avançar. Através do poeta Viriato Gaspar conheci o poeta Luís Augusto Cassas, e também o Valdelino Cécio. Em seguida encontramos o poeta Chagas. Encontrávamos num bar que havia no canto da Viração, para beber, mostrar poemas e falar sobre literatura. E assim surgiu o Movimento Antroponáutica, cujo nome é uma homenagem ao poeta Bandeira Tribuzzi, que tem um poema cujo título é este. E passamos a cavar espaço nas colunas de jornal, com tanta dificuldade; havia o Jornal do Dia (comprado depois pelo Sarney e que tornou-se o Estado do Maranhão) onde o Jomar Moraes nos dava espaço, e o Jornal do Maranhão (da Arquidiocese), e lá nós tínhamos um crítico de cinema atilado o José Frazão que também nos dava apoio. Mais tarde surgiu o Jornal de Bolso, do Edson Vidigal, de breve existência, mas onde publicamos nossas crônicas e artigos.  E passamos a fustigar, atacar tudo que nos parecia velho e ultrapassado e que devia desaparecer: a Academia, a trova e seus trovadores, os poetas parnasianos com seus versos lamurientos. Com certo exagero, reconheço. Mas também fomos reconhecidos e passaram a prestar atenção e nos respeitar como novos artistas e criadores de um novo tempo ou de um tempo novo, sei lá. Arlete Nogueira da Cruz, Tribuzzi, Nauro, Jomar, o grande e humano Nascimento de Moraes, o Pe. João Mohana, enfim, fomos aceitos no mundo intelectual maranhense. Publicamos então a Antologia Poética do Movimento Antroponáutica. E a seguir fomos convidados a integrar um projeto da Fundação Cultural que nos publicou e mais alguns poetas na antologia Hora de Guarnicê.

Quais foram as consequências da deflagração do movimento em meio a repressão da ditadura e qual a importância do mesmo para aquela geração no Maranhão?

R - Vocês sabem. A história é feita de fatos, episódios, circunstâncias, eventos, mil acontecimentos distantes um do outro, mas que por esta força grandiosa que é a marcha da vida e da história se conjugam tudo e todos num momento único para deflagrar a coisa, seja revolucionária ou evolucionária, de reforma ou de acomodação. E por essa época aconteceu o lançamento do meu segundo livro individual, o Às Mãos do Dia, que era para ser uma coisa puramente pessoal, mas acabou transcendendo o particular e inseriu-se nessa paisagem do instante que vivíamos: a ditadura militar em todo o seu reinado e esplendor. Querendo fugir daquelas noites de autógrafos costumeiras, que achávamos até enfadonhas, decidimos que o lançamento do meu livro seria diferente. Aí a gente juntaria artes plásticas e música, e lembro do César Teixeira, do Josias, do Sérgio Habibe, do Jesus Santos, do Ciro, Ambrósio Amorim, Lobato, Tácito Borralho, tanta gente. E o lançamento aconteceu na Biblioteca Pública Benedito Leite. Na noite anterior, após tomarmos algumas cervejas, eu, Viriato, Valdelino e outros ficamos na escadaria da Biblioteca Pública conversando e só, de sarro, planejando o lançamento, e cada um saía com a idéia mais louca. Tipo: no lugar de cadeiras para as autoridades íamos colocar vasos sanitários; colocaríamos uma árvore de natal com ratos pendurados, etc.; íamos convocar mendigos, loucos, os despossuídos para tomarem as escadarias da Biblioteca quando as autoridades e convidados fossem chegando. Ah, e no coquetel no lugar de bebida alcoólica serviríamos leite, mas não em taças e sim em penicos. Novos, claro. Naquele tempo a autoridade maior dos estados era sempre o militar mais graduado, no nosso caso o Comandante do 24 BC. Alguém nos ouviu falar aquelas bobagens e levou a sério. O certo é que o Governador foi acordado pelo Comandante do 24 BC que lhe ordenou visse do que se tratava pois algo de muito grave ia acontecer. Fui chamado às pressas no gabinete do Secretário de Educação (que havia permitido que eu fizesse lá na Biblioteca, órgão da SEC, o lançamento do livro), à época o saudoso Professor Luís Rêgo, um homem boníssimo. Quando entrei em seu gabinete levei um susto, pois ao seu lado estava um Major do Exército. Pálido e trêmulo, ali sentei e o professor Luís Rêgo passou a me interrogar a cerca do lançamento e do que estava programado. Neguei tudo. Disse que era mentira. Jamais faríamos uma coisa daquelas e tal. Despachou-me dali, mas me recomendando prudência, e cuidado com o que ia acontecer, pois estavam de olho. Pela cara do oficial do exército nem precisava de me dizer mais nada.  Pois, mais tarde enquanto estava na Biblioteca em companhia do poeta Viriato Gaspar, ultimando os preparativos do lançamento,, eis que nos aparece um agente da Polícia Federal. E dirigindo-se a mim diz que estava a minha procura, e porque nada mandara o livro para a Censura, e cadê o livro e tal e coisa, e nos colocou em sua viatura fomos até onde eu residia, pegamos um livro, e enquanto eu lia, o motorista nos levou até a sede da Polícia Federal, naquela época ali na Rua Grande na altura do Ginásio Costa Rodrigues. Novo interrogatório pelo delegado de plantão. O Viriato saiu-se bem nas respostas. E quando o delegado quis saber dos mendigos (olha a subversão) que íamos levar, o Viriato disse que não tinha nada a ver, aquilo era uma peça de teatro que estávamos escrevendo e tão logo ficasse pronta levaríamos lá no Serviço de Censura. O certo é que à noite a Biblioteca lotou. Talvez até curiosos, além de meus convidados, muitas autoridades se fizeram presentes. Secretário de Educação, o Prefeito Haroldo Tavares, e lá atrás de uma daquelas colunas reconheci o agente da PF de nome Mateus, esperando que eu saísse da linha no meu discurso para me grampear. Mas o resultado prático da repressão, que é o cerne desta pergunta, é que nós, os jovens (falo dos jovens em geral e não especificamente do nosso grupo), tomamos rumos diferentes: uns foram para o comodismo da vida privada, outros foram para luta armada, e no meu caso, no primeiro momento, abandonei tudo e embarquei numa carona com os hippies e fiquei vagando pelo país uns três a quatro meses, metido no universo da Contracultura, cujo estímulos vinham da geração beat, e era uma época rica e enriquecedora, chegávamos ao desregramento de todos os sentidos, na vida e na arte, aquilo que o poeta Arthur Rimbaud profetizara um século antes. E a nossa geração foi importante porque abriu caminho pra todos vocês que vieram depois de nós. É o ciclo da vida, quer reconheçamos ou não. Ele existe. Ele é.

O que se faz necessário para que se legitime um movimento literário? Na atualidade onde muito se escreve em meio virtual, em sua opinião o virtual conseguirá um dia transpor a tradição do livro físico?   

R – No momento nós estamos num processo de mudança civilizatória muito violento. Ao mesmo tempo que tudo parece ameno, frágil, acolhedor, há algo de muito forte, viril, ameaçador. Nem creio que haja espaço para movimentos, como os de antes. Creio mesmo que isso ficou no passado. O mundo virtual prescinde disso. Cada indivíduo, por si só, é, ou julga ser, um coletivo, um movimento, uma revolução, um mundo, uma civilização. Todo o pensamento filosófico, todo o atavismo humano, tudo o que se acumulou durante séculos, quem sabe milênios, todo o inconsciente coletivo, toda a sabedoria, todo o  conhecimento representam o que neste instante? Para muitos, nada. É o fim de tudo e o recomeço de tudo ao mesmo tempo. Quanto tempo, não sei, mas o virtual transporá sim a tradição do livro físico. Não apenas a tradição, mas o próprio livro, o objeto, por mais concreto que ele seja ou queira ser.   

Como foi a decisão de deixar o estado, porque tomou essa decisão, existe uma possibilidade de seu retorno ao Maranhão?

A constatação de que ficar no Maranhão, no meu caso pessoal, era ficar me repetindo. Fazer novos movimentos? O sarneysmo começava a voltar-se para o passado. As coisas não andavam. Era preciso se abrigar sob as asas do serviço público de onde não poderíamos exercer a crítica contundente que os governantes mereciam. Não surgiram editoras e leitores que nos permitissem viver do nosso trabalho de escritor independente. Mas meu amor a esta terra, o interior de onde sou e esta ilha onde vivi tanto sonho transformado em realidade é o que importa. Porém, é difícil o retorno. Saí em 1976 e embora tenha raízes aqui, onde vivo atualmente, em Porto Alegre, no Grande do Sul, também  criei raízes. Mas quem sabe do futuro?

Consegue-se viver de literatura nesse país? Fale-nos de suas atividades na atualidade?

R – Por mais que esse governo do PT alardeie seus avanços na Educação, com programas quase todo visando a universidade, a verdade que é que o ensino vai de mal a pior, pois a educação básica foi relegada a um segundo plano. O governo é pródigo em dar bolsas , cujo critério principal é criar eleitores para o seu plano de permanência no poder. Sem uma boa educação na base que tipo de aprendizado é este dos cursos superiores! A maioria não lê e não pensa. Por isso, o quadro não se alterou muito nestas últimas décadas. Poucos vivem de literatura num país assim. Quanto a mim publico periodicamente meus livros e trabalho com revisão e preparação de textos para a editora de um amigo. No momento trabalho em três livros: um de contos, Pedaços de Alberto Caronte (título provisório), um de ensaios, Um Soco Contra o Muro (ensaios) e Crônicas do Pucumã, um pouco de história do município de São Domingos do Maranhão, onde passei minha infância e parte da adolescência, embora seja filho de Pedreiras, distrito de Marianópolis. Pretendo publicar no próximo ano. Com toda dificuldade, pois o dinheiro da Lei Rouanet é para os amigos do rei e para artistas como Luan Santana, Tico Santa Cruz, Cláudia Leite, gente que ajuda o governo, louvando-o para a massa de seus fãs e ouvintes.  

A sua poesia é tida por muitos como marginal, como você vê esse titulo?

R - Do ponto de vista deles. Do meu ponto de vista eles é que são marginais, pois estão à margem da minha poesia. rsrs Na verdade não existe arte marginal, a não ser nesse sentido que dei. Se ela critica a sociedade, os poderes instituídos (mesmo corruptos, tiranos, etc.) é considerada marginal. Mas do ponto de vista da arte, marginal é também a sociedade que aceita e se submete a um estilo de vida e de governo corrupto e de vassalagem.  Essa pecha é muito mais dirigida ao próprio artista para poder enquadrá-lo, e assim prendê-lo, deportá-lo, matá-lo, calá-lo, enfim. Porque na verdade a arte é um produto da criação humana, das emoções e dos pensamentos, de suas vivências e experiências, e que expressa, em seus signos, símbolos, significados, e até mesmo em sua concretude, expressa, dizia, a magia, o mistério, a beleza, alegria, o sofrimento, o sonho... Só um profundo imbecil para taxar de marginal esta coisa maravilhosa que é a vida humana e suas criações mais genuínas, originais e verdadeiras.

Ferreira Gullar nos fala de sua necessidade de espantar-se para que sua poesia aconteça. Como se dá esse fenômeno no seu trabalho é instantâneo ou existe um laboratório?

R – Cada um tem sua maneira de ser e de criar. O que é necessário é o talento. Em mim é uma coisa instintiva, igual a certas necessidades que temos: comer, dormir, amar, criar. O que existe é o trabalho de lapidar a criação, como o ourives que faz de uma peça de diamante bruto uma joia encantadora. E no caso da prosa é preciso dedicar tempo e muita disciplina, uma rotina de trabalho, como o expediente em qualquer empresa onde se exerce a tarefa cotidiana.

Dizem alguns que tudo de imprescindível na literatura já foi escrito, o que temos hoje como produção literária seriam apenas ecos desses períodos, nada de novo sob o sol da literatura, qual sua opinião sobre essa afirmação?

R – É do Eclesiastes essa fala: “Não há nada de novo sob sol”. Está certo. Tudo já foi dito, feito, criado. O que existe é uma forma nova de dizer, fazer, criar, nomear o antigo. Isto faz toda diferença. Se eu dissesse “fímbria” meu avô entenderia e meu neto, não. Mas barra da saia, do vestido, isto o neto entenderia. Portanto, não é pelo fato do sol ser tão antigo que ele deixa de surgir para nós todas as manhãs. Assim, vamos em frente. Até porque quanto mais obtuso e quadrado é o mundo mais necessita crer que tudo é novo, que tudo está começando aqui e agora, pois sem isto a vida e a arte perderiam o sentido. E aí, vamos fazer o quê?

O MITO

Raspar com uma faca, como se escama o peixe,
é fazer nascerem e crescerem os mitos
que não nos pertencem.
E por ser o mundo um animal sem formas,
por ele trafegam, navegam e voam
os mitos ancestrais que nos criaram,
e alimentaram em nós o dom da forma mais que perfeita.
Blasfêmia é isto: erguer-se qual um deus ferino e desalmado
para que ajoelhemos e lancemos nossa rede ao mar:
turva água de amar, pescaria insana,
e só por isso o mito permanece.
Se é para cair, sejamos justos:
o mito não é amor e não é ninguém,
apenas a imagem à semelhança desta outra
que nos devolve o espelho.

(do livro A Via Crucis de Um Poeta Sem Nome
Editora Alcance, Porto Alegre, RS, 2014)

terça-feira, dezembro 17

Beatles, Bob Dylan, Paulo Coelho ou o Raulseixismo - PARTE 03

Por Natan Castro

"Se você não está dentro da Sociedade Alternativa, a Sociedade Alternativa sempre esteve dentro de você." Raul Seixas


Raul Seixas estava então o artista agora descoberto por si e pelos outros, com a certeza de uma carreira pela frente no inicio dos anos setenta. Beatles sempre foram a inspiração para a primeira banda de Raul Seixas, eles forjaram conceitos, pontos de vistas, grandes canções e essas mesmas canções dos Beatles tiveram uma modificação brutal em forma de conteúdo quando na metade dos anos sessenta os Beatles deixaram os temas juvenis e mergulharam de vez nos temas universais. Diz à lenda que o encontro dos Beatles com Bob Dylan teria modificado a forma, as vias que seriam percorridas até ali rumo a novas canções, dizem ainda que foi Bob Dylan que ofereceu o primeiro baseado aos FAB-FOUR. Sem dúvidas depois de 1964 com o lançamento de “Rubber Soul” as letras começaram a tratar de assuntos mais sérios bem longe dos devaneios adolescentes do inicio, é incontestável a influência do cancioneiro de Dylan na dupla Lennon & McCartney. E foi também nesse período senhores que Raul Seixas leu numa revista que tratava de assuntos místicos um artigo sobre Discos Voadores escrito por um cara chamado Paulo Coelho. O assunto interessava tanto Raul Seixas que ele foi até a redação da revista à procura do autor do artigo, lá chegando conheceu Paulo Coelho que era à época um hippie, estudioso de misticismo e ex-diretor de teatro. Esse encontro tal qual o encontro dos Beatles com Bob Dylan foi crucial para o desenrolar da história do rock nacional e decerto para a música popular brasileira, houve logo de inicio uma afeição de duas cabeças que segundo eles mesmo se completavam, ainda que com conflitos que duram até os dias atuais. Raul Seixas prometeu ensinar Paulo Coelho a compor canções e Paulo Coelho prometeu iniciar Raul Seixas nos assuntos místicos. E de fato iniciou-se uma viagem dessas que somente os anos setenta eram dignos de acompanhar, os dois juntos de Marcelo Motta fundaram uma sociedade místico-libertária baseada nos ensinamentos do mago inglês Aleisteir Crowley chamada a Fraternidade do Relâmpago Dourado. Ainda nesse período tal Fraternidade ganhou de presente um terreno no estado de Goiás onde ia ser construída a “cidade das estrelas” nessa cidade os valores estariam todos invertidos, segundo Raul Seixas o advogado seria o não-advogado e assim por diante. Essa seria a Sociedade Alternativa toda baseada de fato no livro da lei de Aleisteir Crowley, porém no ano de 1974 a ditadura militar percebeu que aquelas ideias estavam cada vez mais levando pessoas aos shows de Raul e esse público se mostrando cada vez mais aberto as tais mudanças cantadas nos versos das músicas. Conforme Raul Seixas costumava dizer nesse mesmo ano ele foi convidado a se retirar do país, seu exilio se deu em Nova York nos E.U.A, a essa altura do campeonato aquilo que conhecemos como Raulseixismo, ou seja, a filosofia desse tal Raul Seixas estava bem definida e trouxe com ela uma massa gigantesca de seguidores do Brasil inteiro, todos os álbuns da parceira com Paulo Coelho serviram para a consolidação dessas ideias, claro que Raul Seixas teve outros grandes parceiros musicais, mas foi o principio com Beatles, Bob Dylan e Paulo Coelho que houve a  personificação do mito Raul Seixas junto de uma filosofia que até hoje não para de crescer no país inteiro.





sexta-feira, dezembro 6

Jake Bugg


Por Natan Castro

Jake Bugg é um jovem Inglês que com apenas 19 anos já lançou dois álbuns bastante expressivos no cenário musical do Reino Unido. Com um vocal aquém de qualquer outro artista da atualidade e uma técnica de guitarra no mínimo acima da média, haja vista sua idade, vem chamando a atenção de público e critica. O jovem nascido na cidade de Nottingham na Inglaterra, quase sempre se apresenta de jaqueta preta e por produzir uma sonoridade com um pé nas raízes country americana e o outro no folk Inglês, anda sendo chamado pela critica de Bob Dylan da atualidade. Mas ele mesmo em entrevista recente deixou claro que é admirador de outro grande artista do folk/country nesse caso Johnny Cash.


Em 2011 na fase de “novos talentos” do festival de Glastonbury, participou com 17 anos, após a apresentação recebeu o convite e assinou o contrato com a gravadora Mercury Records, em outubro de 2012 lançou seu primeiro álbum que leva seu nome. Recebido pela critica com uma enxurrada de elogios, destacando sua forma simples e descompromissada de se apresentar e também por um vocal cheio de atitude. Diversas músicas desse primeiro álbum estouraram no Reino Unido e nos E.U.A dentre elas “Broken”, “Two Fingers” e “Lighting Bolt”. No último dia 18 de Novembro Jake Bugg lançou o seu segundo álbum denominado “Shangri-la” os rótulos logo apareceram chamando a sua música de Folk/Britpop e Indie-Folk. O fato é que Jake Bugg surge na cena rock Inglesa como novo diamante brilhante desses que aparecem já prontos, sua atitude digna de grandes nomes e sua responsabilidade com a tradição, apontando caminhos que talvez somente ele saiba aonde chegar, demonstram que ele talvez seja o mais interessante e sui generis nome do cenário rock mundial na atualidade.






quinta-feira, novembro 28

Raul Seixas, Filosofia, Politicas e Lutas - Parte 02




Raul Seixas morava próximo ao consulado dos E.U.A em Salvador na Bahia, era amigo de filhos de funcionários do consulado e foi através deles que manteve contato com os discos de 75 rotações de rockabilly. Esse primeiro contato com toda cultura rocker dos primeiros anos, fizeram marcas indeléveis na formação do jovem Raul Seixas, a mesma época por influencia dessa descoberta Raul monta com Waldir Serrão outro jovem fã de Rockabilly, um fã-clube de Elvis Presley. Essa aproximação com a musica jovem americana trazida pelos amigos do consulado fez inclusive que Raul Seixas viesse a estudar o idioma americano, o qual anos depois Raul dominava fluentemente. Numa época que a Bahia vivia também o nascimento da Bossa Nova de João Gilberto e Vinicius de Moraes, dois locais de apresentação na capital bahiana nessa mesma época duelavam com propostas diferentes, eram eles o teatro Vila Velha casa dos bossanovistas e o Cinema Roma reduto dos roqueiros recém-formados na cidade liderados por Waldir Serrão e Raul Seixas.


No inicio dos anos sessenta Raul Seixas monta com alguns outros amigos a banda Raulzito e os Panteras, a banda ficou famosa em Salvador e nas cidades do interior tocando covers dos primeiros grandes artistas do rockabilly como Elvis Presley, Ed Chrocane, Jerry Lee Lewys, Gene Vincent e outros. Certa vez o cantor Jerry Adriane em turnê pela Bahia teve contato com a banda e ficou impressionado com apuro técnico dos músicos, chegando a tocar com eles em algumas apresentações por conta de problemas com a chegada da sua banda a cidade. Nessa mesma época Jerry Adriane indica o grupo a gravadora EMI-Odeon e no final de 1967 eles vão ao Rio de Janeiro gravar o primeiro álbum da banda, que é lançado no inicio de 1968. As vendas desse disco ficaram abaixo das expectativas da gravadora, obrigando o grupo a retornar a Bahia e logo depois decretando o fim precoce da banda.




quarta-feira, novembro 27

Raul Seixas, Filosofia, Politicas e Lutas - Parte 01



Por Natan Castro

A segunda guerra mundial, de alguma forma causou transformações em âmbito mundial no planeta terra, modificações essas que talvez os astrólogos e os místicos possam explicar melhor. É impressionante o que anos de medo, opressão e privação de liberdade causou nas cabeças de jovens do mundo inteiro. O que ficou bem visível após o término da segunda guerra mundial, foi toda uma liberação em geral que essa juventude se pôs a fazer logo depois, seja a galera que pegou a estrada, ou aqueles que iniciaram uma nova análise sobre os direitos sociais e por último os demais que sonharam mudar o mundo através da arte. Existia de fato uma sintonia entre esses milhares de jovens no mundo inteiro, mas é claro que a nação americana foi onde essas modificações acharam um território mais propicio para acontecer. Desta forma o Rock “n” Rool foi o meio, a linguagem dentre algumas outras, o melhor veiculo para que a mensagem se propagasse de forma mais rápida e objetiva.

Elvis Presley o primeiro messias, o precursor de uma atitude, o primeiro branco a cantar como uma voz de um negro, a adoração por parte das garotas americanas, o espelho para muitos garotos dos E.U.A que após ele, perceberam que era possível empunhar uma guitarra e cantar suas dores e seus sonhos. Do outro lado do oceano quatro rapazes de uma cidade portuária da Inglaterra formaram a primeira grande banda de rock e, por conseguinte a maior de todos os tempos e esses mesmos rapazes de certa forma levaram adiante aquilo que Elvis deu inicio, agora de uma vez por toda a invasão foi global, esse ritmo num compasso quatro por quatro com um misto de atitude e musicalidade, representava então a maior revolução depois da última grande que foi a revolução industrial. Representando os dois grandes pilares dessa nova era, Elvis Presley e os Beatles, trouxeram consigo uma leva bastante significativa de grandes artistas. O mito Bob Dylan, os geniais Jim Morrison e Janis Joplin, o mago Jimmy Hendrix só para citar alguns desses grandes artistas que foram gerados em meio a essa revolução.

Mas, as cabeças sintonizadas com essas ondas de novidades, não estavam somente nos E.U.A ou no Reino Unido. Diversos artistas não paravam de nascer em diversos lugares do planeta, até porque as rádios do mundo inteiro junto com o cinema faziam com que essas informações chegassem a toda a juventude em âmbito global. Foi nesse ambiente de profusão cultural que no Brasil, na região do Nordeste, no estado da Bahia, um garoto franzino filho de um engenheiro e de uma dona de casa, chamado Raul Santos Seixas surge como o principal integrante tupiniquim dessa onda chamada Rock “n” Rool.




quarta-feira, novembro 20

Nirvana (Unplugged) in New York - Documentário



Por Natan Castro

Somente uma banda de rock conseguiu chegar próximo dos Beatles, quando nos referimos ao impacto causado no público e na critica em escala mundial, essa banda sem dúvidas é o Nirvana de Kurt Cobain. Há dois dias uma apresentação seminal desses caras completou vinte anos, foi exatamente no dia 18 de Novembro de 1993. Nesse dia o Nirvana se apresentou em um teatro em Nova York na gravação do seu lendário show acústico para a MTV americana. A essa altura dos acontecimentos a banda já havia quebrado padrões no showbizz, quando conseguiu ser a primeira banda proveniente do cenário underground americano a fazer sucesso no mundo inteiro com o lançamento do álbum Nevermind um ano atrás. Um power trio como pouquíssimas vezes tinha se visto em cima do palco, a junção de uma atitude punk, juntamente com arranjos avassaladores e letras que diziam muito sobre a geração pós queda do muro de Berlim, eles estavam à época no centro das atenções de todo meio musical, quando aceitaram o convite para se apresentarem num formato acústico, quase impensável para quem já tinha escutado os álbuns, assistido os clips ou até mesmo visto eles ao vivo. Porém o que se viu nessa apresentação foi tão marcante que até hoje esse show em especial é tido pela maioria como o melhor acústico de uma banda de rock em todos os tempos. No documentário abaixo temos a oportunidade de saber como foram os preparativos para a apresentação, por quais motivos alguns covers ficaram no lugar de alguns sucessos no set-list, e também o momento mais especial da apresentação quando Kurt Cobain pede pra tocar Pennyoral Tea sozinho com voz e violão e deixa a plateia hipnotizada com uma das maiores interpretações solo já vistas num show de rock. 




quinta-feira, agosto 8

Z de Vingança, Marcos Magah




Por Natan Castro

Escutando (Z de Vingança) de Marcos Magah, podemos perceber que algumas coisas ali não eram pra ser, alguns arranjos repetitivos, resumindo, algumas coisas não ficaram legais nesse trabalho. Mas o que nos chama atenção no final da audição, é que querendo ou não tem uma cara a bater ali, um cara disponibilizando tudo, uma doação, uma entrega, com a sua voz ora tristonha ora lancinante. Marcos Magah canta em alto e bom som, as dores de uma caminhada que nem sempre é feliz. Acompanhado por arranjos setentistas que revisitam uma época onde a dor de cotovelo de verdade estava em alta, o teclado minimoog que eternizou as canções e Roberto e Eramos, e a postura seca dos versos que salpicam lamentos em todas as oito canções do álbum. Servem de pano de fundo da mensagem.


Existiria um paralelo entre o Punk e o Brega? Sim claro que sim, podemos imaginar que um é o extremo do outro, Marcos Magah possui um passado de militância punk em uma banda chamada Amnezia, e nos dias atuais foi acolhido nos braços das influências bregas, por que os extremos nele parecem cair bem melhor que os meios termos. Como ele mesmo fala na letra de (Dedos e Anéis) “Eu tive que me perder, para me achar”. Marcos Magah no final das contas, contando os mortos e feridos, fica no saldo porque se o Z tinha que ter um sentido, a marca da vingança chegou para explicar.



sábado, abril 20

O Canto dos Malditos - Jorge Mautner


                                                            Filho do Holocausto


Poeta, músico, filósofo e escritor para fechar a série com os malditos da MPB, falaremos de Jorge Mautner, carioca de mãe Iugoslava e pai Austríaco, segundo o próprio ele nasceu aqui no Brasil depois de um mês que seus pais fugiram do holocausto. Jorge aprendeu violino muito cedo através de um padrasto, desde cedo começa a escrever, data dos 15 anos seu livro “Deus da Chuva e da Morte” o livro compõe o inicio de uma Trilogia. Adere ao comunismo em 1962 e mantém contato com o anarquista e poeta Paul Goldman nos E.U.A, representando significativa influência em seu pensamento.

Em 1970 vai para Londres onde se aproxima de Caetano e Gil, e inicia uma forte parceria estética que dura até os dias atuais. Voltando ao Brasil começa a escrever para o Pasquim, nessa mesma época conhece Nelson Jacobina seu parceiro musical por muitos anos. Em 1974 sai o álbum (Jorge Mautner) com capa de Rogerio Duarte designer do Tropicalismo e produção de Gilberto Gil. No álbum Jorge Mautner destila toda uma forma peculiar de tratar de filosofia, engajamento politico e poética tudo num caldeirão musical, com participação de Roberto de Carvalho (Marido e Músico de Rita Lee) no inicio de carreira tocando teclados, tem ainda músicos tropicalistas como Tuti Moreno e outros. A maioria das composições desse álbum é de parceria dele com Nelson Jacobina, neste álbum se encontra a música símbolo de um movimento surgido décadas depois no Recife, denominado Mangue Beat, a música é Maracatu Atômico regravada por Chico Science que foi sucesso nacional no inicio dos anos 90.

Em 2012 o jornalista global Pedro Bial filmou o documentário “O filho do Holocausto” contando a trajetória de vida e artística de Jorge Mautner. Por representar de forma quase mitológica a resistência intelectual e musical dos anos de chumbo da ditadura até os dias atuais. Jorge Mautner possui e sempre será detentor de uma cadeira mais que cativa na Academia Brasileira dos Artistas Malditos.

Documentário "O Filho do Holocausto" - Trailler 

sábado, abril 13

O Canto dos Malditos - Tom Zé


                                                                  Estudando o Samba
Por Natan Castro

Em nada se parece a música de Tom Zé com aquilo que é produzido em termos musicais no Brasil hoje, muito menos antes. Baiano do sertão de uma cidade chamada Irará, na adolescência Tom Zé vai com a família para Salvador e inicia o ginásio, logo em seguida começa a estudar violão e mantém contato com Escola de Música da Universidade Federal da Bahia. Reza a lenda que caiu como uma luva as informações obtidas lá com os mestres Walter Stemak e principalmente o dodecafonista Joachim Koellreutter. A forma de pensar a composição e a interpretação à época teria criado forma depois das aulas na Escola. Logo depois a convite de Caetano e Gil vai para São Paulo e participa do cerne do tropicalismo, chega a participar do álbum símbolo do movimento, ainda em 1968 ganha o IV Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record, com a canção "São Paulo, Meu Amor".

Com a ida de Caetano e Gil para o exílio Tom Zé estava na turma que ficou no Brasil, porém por produzir uma música extremamente anticomercial foi aos poucos caindo no ostracismo. Mas a produção de álbuns sempre na mesma linha iconoclástica continuou a todo vapor criando clássicos como (Estudando o Samba), (Se o acaso é chorar). Foram quase duas décadas no esquecimento para no final dos anos 1980, quando da passagem do músico vocalista e mentor da lendária banda nova-iorquina Talking Heads no Brasil, o mesmo recebeu de um amigo brasileiro um vinil do álbum (Estudando o Samba) e se mostrou impressionado pelo talento do baiano, logo em seguida saia nos E.U.A toda a obra de Tom Zé remasterizada em CD. Sucesso de público e critica através do E.U.A o Brasil redescobre Tom Zé. Dizem alguns que na época Tom Zé era gerente de um posto de gasolina e havia desistido de continuar com a carreira, em 1998 Tom Zé lança (Com Defeito de Fabricação) aclamado pelo New York Times como um dos melhores álbuns do ano. O baiano tem cadeira cativa na academia brasileira dos artistas Malditos da MPB, por fazer música para se pensar não importando se será feita com ajuda de violões ou liquidificadores, para Tom Zé o que importa mesmo é a arte. 



quinta-feira, abril 4

Black Sabbath - "13" No Brasil



Por Natan Castro


Hoje caiu na mídia especializada a noticia que deixou os Headbangers do pais inteiro em estado de graça, foi confirmada a vinda da formação original da banda que criou o estilo Heavy Metal ao Brasil em outubro, com shows confirmados até agora em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, sim verdade eles os quatro Cavaleiros do Apocalipse o Black Sabbath. Depois de 31 anos sem gravar nenhum álbum com a formação inicial da banda, eles retornarão esse ano com o álbum chamado “13” nada mais apropriado para o ano de lançamento e toda a áurea de banda obscura que permeia a imagem do mito. No canal do youtube da banda caiu um trecho de uma das músicas e a capa do álbum confira abaixo.





domingo, março 31

Por causa da chuva



Por Natan Castro
                                                                                                                                   The Rain Song by Led Zeppelin on Grooveshark

Hoje acordei cedo e fui tomar café na padaria, tive que pegar um guarda-chuva, pois estava chovendo, chuva fina daquelas que molha bem mais que uma tempestade e segundo minha mãe pode causar um resfriado fortíssimo. Depois que estava no meio do caminho fiquei me perguntando por que havia tomado essa decisão de ir tomar café na padaria, ainda que lá fora estivesse chovendo, eu até podia ouvir a chuva batendo no plástico do guarda-chuva, podia além do som que saia do fone de ouvido. Pensando bem era pra eu ter colocado uma música que falasse da chuva, são diversas trilhas voltadas para a chuva, a chuva parece a mim um carma, um momento onde a força suprema obriga todos os seres deste planeta a refletir, mas pensando bem antigamente, falo há uns séculos atrás era bem certo isso, porém com a industrialização as pessoas meio que foram perdendo o medo da chuva, olha só “medo da chuva” é uma letra do nosso maluco beleza predileto, mas é isso com a invenção do carro esse tal receio foi meio que desaparecendo, mas não totalmente ainda existem pessoas que se lembram de fazer um café para aguardar a chuva passar, é um ato que além de reflexivo é também por parte da natureza de purificação. Eu antes acreditava de fato que quando chovia, era porque a cidade já não sustentava seus sacrilégios, pecados e toda a sorte de coisas ruins. Eu hoje acordei cedo e fui tomar café na padaria, mas de fato ainda não sei por que, talvez tenha sido por causa da chuva.

sábado, março 30

O Canto dos Malditos - Sergio Sampaio


                                                            O Bloco do Sampaio 

Por Natan Castro


Na dita Academia Brasileira dos Malditos, Sergio Sampaio é sem dúvidas um caso especial. Nascido em Cachoeira do Itapemirim (ES), dizem que foi amigo de Roberto Carlos na infância, esse artista diferente dos demais teve somente um grande sucesso nacional, a canção “Eu vou botar meu bloco na rua” lançada em 1972, foi um sucesso estrondoso. Teve seu primeiro disco produzido por Raul Seixas que é considerado seu padrinho musical, haja vista o convite que fez a Sergio Sampaio para participar do projeto do álbum “Sociedade da Ordem Kavernista, Apresenta Sessão das Dez” que de fato foi o seu ponta pé na vida artística. Diz à lenda que Raul Seixas à época produtor da CBS foi procurado por dois artistas, um deles o próprio Sergio e o outro Paulo Diniz. Raul Seixas teria gostado muito e o aceitado para seu cast.

Depois do sucesso com seu primeiro álbum e seu hit nacional, a mídia musical tratou de selar na imagem de Sergio Sampaio o estigma de o mais maldito de todos os malditos da MPB. Um espetacular compositor com canções intimistas recheadas de imagens poéticas, canções essas interpretadas em forma de blues, rock, samba. Dono de uma refinada técnica de violão, Sergio Sampaio sempre foi um compositor prolífico, porém dono de uma personalidade forte e teimosa, boêmio contumaz adepto do álcool e da cocaína. Sergio Sampaio viu seu parceiro Raul Seixas estourar nacionalmente com ótimas vendagens e discos geniais, enquanto ele amargava apresentações para públicos mínimos de bares do baixo Leblon. Tendo lançado mais dois discos com belíssimas canções mais com pífias divulgações por parte das gravadoras, somente depois de sua morte um fã de longas datas o cantor Zeca Baleiro junto com outro parceiro Sergio Natureza produziram um álbum em sua homenagem chamado “O Balaio do Sérgio” com suas canções sendo interpretadas por grandes nomes da MPB. Para logo depois ser lançado seu álbum póstumo chamado “Cruel”, Sergio Sampaio é sem dúvidas um artista para gerações vindouras e de fato cada vez mais suas canções são conhecidas em âmbito nacional, o que infelizmente não aconteceu com ele em vida.



sábado, março 23

O Canto dos Malditos - Itamar Assumpção


Por Natan Castro



Itamar Assumpção é um bisneto de Angolanos que saiu do Paraná no inicio dos anos setenta, rumo a capital paulista. Desde muito pequeno mostrou certo fascínio por ritmos, a principio da batucada do candomblé nos quintais de sua casa.  Diversas foram as sonoridades que forjaram sua música, algumas advindas de múltiplas influências, dentre elas Hendrix, Miles Davis e Milton Nascimento para citar alguns somente. Tais informações ajudaram a formar a cabeça multifacetada de um artista que misturou a influencia da poesia de Paulo Leminski com o que de melhor tinha na música negra mundial. Pioneiro na formação de um movimento depois chamado de Vanguarda Paulista, junto de Arrigo Barnabé e outros. A concepção de música no modo de ver do alquimista Itamar Assumpção, de certa forma estava e esta em alguns casos muito longe da aceitação geral. Talvez por isso seja constantemente taxado de maldito, ainda que nunca tenha aceitado esse rótulo, pois sempre deixou claro que era um artista popular.
 
Itamar Assumpção faz parte de uma linhagem de artistas conceituais, que ousaram se fazer independentes por natureza, muito antes da onda cyber-independente iniciada pela internet. Hoje aclamado por diversos artistas de renome e por um público minúsculo, porém cativo, como um dos grandes nomes da verdadeira MPB. Tendo lançado em sua carreira oito álbuns, todos fortemente marcados por sua genialidade e ousadia musical. Itamar Assumpção morreu em 2003 vitimado por um câncer de estomago, deixando uma lacuna enorme na dita musica brasileira feita de verdade para arte, longe dos nocivos interesses comerciais.