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terça-feira, outubro 8

O meu coração


Por Maria Ligia Ueno


As saudades reverberam meus sentidos, meu tato busca tua pele, minha audição, tua voz. E quanto tempo ainda minha imaginação, miscigenada com nossas memórias, hão de te fazer as vezes, hão de ter que segurar meu coração, hão de absorver as lágrimas que insistem em aprender a voar? 

As saudades causam terremotos em meus cílios, os quais buscam no horizonte algum caminho para o céu. Meus olhos abalroados pela vista infinita se fixam no chão, buscando as migalhas de pão deixadas na última caminhada.

As saudades fazem solução da minha garganta, dissolvendo minha respiração e retardando o bombeamento de sangue para minhas mãos... Estas se encontram letárgicas, aguardando a vivacidade de outrora para quando se encontrarem nas suas costas. 

As saudades delineiam o contorno do meu rosto, cometendo graves expressões e apontando formas e atos novos para meu semblante. Este sorri pelas lembranças e resta nostálgico pelo presente. 

As saudades me chamam e brincam com meus sentimentos, e transformam tudo em desejo; O desejo de te ver de novo.

domingo, março 31

Por causa da chuva



Por Natan Castro
                                                                                                                                   The Rain Song by Led Zeppelin on Grooveshark

Hoje acordei cedo e fui tomar café na padaria, tive que pegar um guarda-chuva, pois estava chovendo, chuva fina daquelas que molha bem mais que uma tempestade e segundo minha mãe pode causar um resfriado fortíssimo. Depois que estava no meio do caminho fiquei me perguntando por que havia tomado essa decisão de ir tomar café na padaria, ainda que lá fora estivesse chovendo, eu até podia ouvir a chuva batendo no plástico do guarda-chuva, podia além do som que saia do fone de ouvido. Pensando bem era pra eu ter colocado uma música que falasse da chuva, são diversas trilhas voltadas para a chuva, a chuva parece a mim um carma, um momento onde a força suprema obriga todos os seres deste planeta a refletir, mas pensando bem antigamente, falo há uns séculos atrás era bem certo isso, porém com a industrialização as pessoas meio que foram perdendo o medo da chuva, olha só “medo da chuva” é uma letra do nosso maluco beleza predileto, mas é isso com a invenção do carro esse tal receio foi meio que desaparecendo, mas não totalmente ainda existem pessoas que se lembram de fazer um café para aguardar a chuva passar, é um ato que além de reflexivo é também por parte da natureza de purificação. Eu antes acreditava de fato que quando chovia, era porque a cidade já não sustentava seus sacrilégios, pecados e toda a sorte de coisas ruins. Eu hoje acordei cedo e fui tomar café na padaria, mas de fato ainda não sei por que, talvez tenha sido por causa da chuva.

domingo, fevereiro 3

Espelho Quebrado


Por Lucas Quoos

eu escrevo porque escrever é cuspir na cara de Deus. é impossível ser submisso à qualquer coisa e, ao mesmo tempo, escrever. não consigo compreender a escrita de outra forma senão “eu” sendo o centro do mundo. megalomania? bem, que se dane. escrevo por retaliação, pra me vingar de ter que viver uma vida sabotada. pra que mais escreveria? já não vejo mais utilidades pra tantos livros no mundo. não fosse a minha estupidez, minhas loucuras, restos estúpidos de noites num quarto pequeno e só, livros, paredes, vinho, não escreveria. se eu me sentisse bem, completo, conhecedor de mim mesmo - não escreveria. ainda se eu houvesse matado os demônios, mas ao invés disso, os alimento mais ainda. escrever não tem nada a ver com Deus - exceto pelo fato de competirmos com ele - mas sim com o inferno. a escrita só prospera verdadeiramente naqueles que estão à beira do abismo, sendo abraçados pela escuridão, seduzidos por uma vertigem magnífica. escrever é não condizer consigo mesmo, é bater de frente num espelho já quebrado.

sábado, janeiro 12

Cimento curado




Todos os dias eu acordo, e deixo dormir os pensamentos que não se calam à noite. Eu levanto, eu tomo café, eu sinto a brisa fria da manhã. Molho o rosto e sinto a água hidratar meu ânimo.  Eu sinto os sabores, sinto cheiro... Tudo como no tempo em que eu era eu criança acordando pra ir para a escola.

Mais um dia foi vivido e morto no crepúsculo. Talvez amanhã eu possa respirar o mesmo ar da infância. Mas maldade também amadurece, e nós matamos a inocência. Já não existe mais a leveza do tempo do recreio feliz, em que era divertido ver calcinhas coloridas das saias descuidadas. No tempo em que até a maldade era pueril. Sinto saudades de me sentir inocente. Mas a toda hora tentar roubar a inocência que ainda existe em mim. Eu ouvi palavras fáceis, de línguas cruas que escamam espinhos.

Eu acordo todo dia e faço da vida uma prece silenciosa. Bastaria o meu perdão, bastaria viver minha crença.  Minha penitência é ser tratado como gente grande o tempo todo. É ver meu menino exigido ter sido ser adulto no tempo em que eu não sabia ser. No tempo em que eu não tinha obrigação de ser. Obrigação de ser!

Eu me dispo da minha matéria, confesso minhas culpas. Veja, eu me desnudei, e gostaria de poder me mostrar assim sempre. Mas certas verdades ferem o pudor, e os olhares só enxergam o sexo no corpo, como se caíra a folha da parreira, e eu devesse me cobrir e ser expulso.   Eu morro hoje, sem o veneno que bebi no tempo eu que não tinha obrigação de ser puro. Em que não haviam instituído o pecado para mim.

Todos os dias eu acordo, e nenhuma sobra me segue. Eu chego a ter certeza de saber quem eu sou. Eu gosto de quem eu me tornei. Eu caminho para a luz que eu escolhi e a sombra ficou pra trás. A luz cria sombras e deforma a imagem real. A luz nas palavras dos sábios que nasceram gente grande, é a treva. Os que esqueceram que foram crianças, são os infanticidas do passado.

Meu tempo é hoje, estou nu. Vejam o quiserem ver. Quero mostrar que tenho coração, que existe vida nova em mim, que o ar que invade hoje meu pulmão, já não encontra nenhuma molécula da década passada.

Veja, eu tenho olhos castanhos, que já viram muito mais do que possam imaginar, muito mais do que eu queria ter visto. Pernas e meus caminhos, braços e tantos abraços, e apertos de mão, face a face. Eu ouvi ladainhas, eu ouvi misérias, eu ouvi gemidos, muitos provocados por mim. Ouvi pedidos de socorro, eu estendi a mão, eu repeti erros históricos, como um mantra.

Eu estou nu, venta e faz frio, mas quero que me veja assim mesmo trêmulo. Não existe roupa, e nenhuma matéria onde coisa alguma esteja inacessível.

Eu quero mostrar minhas marcas, tudo o que ficou gravado em mim. Podes ver o quanto quiser, e podes preferir desacreditar. Pode parecer uma pintura feia, um quadro muito abstrato. Gente não se faz de forma métrica. Talvez alguns panos devam mesmo estar em preto em branco. Eu te ofereço meus rascunhos e podes usar a tinta que quiser. Só não posso mudar o que já foi pintado.

Não peço a ninguém que me entenda inocente. Mas eu ainda sei sonhar. Eu acredito em gente grande, e tenho coragem de ficar nu quando sentir que devo. Um dia pensei que minha história podia ser escrita com tinta permanente, e tenho feito. Um dia eu pensei que tudo que escrevi a lápis, eu poderia apagar. Mas eu seria metade páginas em branco, e tudo escrito depois, se derramaria e viraria um borrão confuso e insustentável. Eu ainda sei sonhar. Eu acredito no amor. Eu sempre amei, eu sempre quero.E sou a soma de tudo que vivi. Não creio que poderia ser diferente. Não vejo porque ter sido.

Sobre os pecados cometidos, talvez neste momento eles me reclamem ao inferno. “Mas eu não acredito em deuses que nunca dançaram”. Quem é o meu inquisidor? Quem é que pode fazer da minhas confissões uma sentença, quando eu me faço livre a ponto de ficar nu?

Eu sou mais que os pensamentos vivos, e os sepultados também. Nenhuma lembrança me que me acusa, me faz sentir indigno de mim. Línguas inflamadas me perturbam é verdade. Mas eu me ouço muito bem.

Eu acredito que as pessoas possam ainda acreditar. Que não estamos todos engessados no hoje. Seria duro demais. Eu acredito, que eu possa querer ficar nu, sem sentir o medo da eminência do apedrejamento. Eu acredito que eu não precise esvair até a última gota, pra lavar a honra daqueles que vivem e procuram insultos em todos os tempos.

A história é um construtor, um substrato, e o tempo das escolhas é hoje. O cimento que sofreu cura não se adere a mais nada, mas o maciço dos escombros serve de alicerce. As grandes obras, sempre nascem dos escombros, do cimento curado.

Eu acredito nas palavras, nas palavras de quem amo. As palavras que tiram a roupa. O amor me despiu. Não é fácil ser gente, ser gente racional. É que os sentimentos, eu sei, são muitos fortes.