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sábado, abril 20

O Canto dos Malditos - Jorge Mautner


                                                            Filho do Holocausto


Poeta, músico, filósofo e escritor para fechar a série com os malditos da MPB, falaremos de Jorge Mautner, carioca de mãe Iugoslava e pai Austríaco, segundo o próprio ele nasceu aqui no Brasil depois de um mês que seus pais fugiram do holocausto. Jorge aprendeu violino muito cedo através de um padrasto, desde cedo começa a escrever, data dos 15 anos seu livro “Deus da Chuva e da Morte” o livro compõe o inicio de uma Trilogia. Adere ao comunismo em 1962 e mantém contato com o anarquista e poeta Paul Goldman nos E.U.A, representando significativa influência em seu pensamento.

Em 1970 vai para Londres onde se aproxima de Caetano e Gil, e inicia uma forte parceria estética que dura até os dias atuais. Voltando ao Brasil começa a escrever para o Pasquim, nessa mesma época conhece Nelson Jacobina seu parceiro musical por muitos anos. Em 1974 sai o álbum (Jorge Mautner) com capa de Rogerio Duarte designer do Tropicalismo e produção de Gilberto Gil. No álbum Jorge Mautner destila toda uma forma peculiar de tratar de filosofia, engajamento politico e poética tudo num caldeirão musical, com participação de Roberto de Carvalho (Marido e Músico de Rita Lee) no inicio de carreira tocando teclados, tem ainda músicos tropicalistas como Tuti Moreno e outros. A maioria das composições desse álbum é de parceria dele com Nelson Jacobina, neste álbum se encontra a música símbolo de um movimento surgido décadas depois no Recife, denominado Mangue Beat, a música é Maracatu Atômico regravada por Chico Science que foi sucesso nacional no inicio dos anos 90.

Em 2012 o jornalista global Pedro Bial filmou o documentário “O filho do Holocausto” contando a trajetória de vida e artística de Jorge Mautner. Por representar de forma quase mitológica a resistência intelectual e musical dos anos de chumbo da ditadura até os dias atuais. Jorge Mautner possui e sempre será detentor de uma cadeira mais que cativa na Academia Brasileira dos Artistas Malditos.

Documentário "O Filho do Holocausto" - Trailler 

sábado, abril 13

O Canto dos Malditos - Tom Zé


                                                                  Estudando o Samba
Por Natan Castro

Em nada se parece a música de Tom Zé com aquilo que é produzido em termos musicais no Brasil hoje, muito menos antes. Baiano do sertão de uma cidade chamada Irará, na adolescência Tom Zé vai com a família para Salvador e inicia o ginásio, logo em seguida começa a estudar violão e mantém contato com Escola de Música da Universidade Federal da Bahia. Reza a lenda que caiu como uma luva as informações obtidas lá com os mestres Walter Stemak e principalmente o dodecafonista Joachim Koellreutter. A forma de pensar a composição e a interpretação à época teria criado forma depois das aulas na Escola. Logo depois a convite de Caetano e Gil vai para São Paulo e participa do cerne do tropicalismo, chega a participar do álbum símbolo do movimento, ainda em 1968 ganha o IV Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record, com a canção "São Paulo, Meu Amor".

Com a ida de Caetano e Gil para o exílio Tom Zé estava na turma que ficou no Brasil, porém por produzir uma música extremamente anticomercial foi aos poucos caindo no ostracismo. Mas a produção de álbuns sempre na mesma linha iconoclástica continuou a todo vapor criando clássicos como (Estudando o Samba), (Se o acaso é chorar). Foram quase duas décadas no esquecimento para no final dos anos 1980, quando da passagem do músico vocalista e mentor da lendária banda nova-iorquina Talking Heads no Brasil, o mesmo recebeu de um amigo brasileiro um vinil do álbum (Estudando o Samba) e se mostrou impressionado pelo talento do baiano, logo em seguida saia nos E.U.A toda a obra de Tom Zé remasterizada em CD. Sucesso de público e critica através do E.U.A o Brasil redescobre Tom Zé. Dizem alguns que na época Tom Zé era gerente de um posto de gasolina e havia desistido de continuar com a carreira, em 1998 Tom Zé lança (Com Defeito de Fabricação) aclamado pelo New York Times como um dos melhores álbuns do ano. O baiano tem cadeira cativa na academia brasileira dos artistas Malditos da MPB, por fazer música para se pensar não importando se será feita com ajuda de violões ou liquidificadores, para Tom Zé o que importa mesmo é a arte. 



sábado, março 30

O Canto dos Malditos - Sergio Sampaio


                                                            O Bloco do Sampaio 

Por Natan Castro


Na dita Academia Brasileira dos Malditos, Sergio Sampaio é sem dúvidas um caso especial. Nascido em Cachoeira do Itapemirim (ES), dizem que foi amigo de Roberto Carlos na infância, esse artista diferente dos demais teve somente um grande sucesso nacional, a canção “Eu vou botar meu bloco na rua” lançada em 1972, foi um sucesso estrondoso. Teve seu primeiro disco produzido por Raul Seixas que é considerado seu padrinho musical, haja vista o convite que fez a Sergio Sampaio para participar do projeto do álbum “Sociedade da Ordem Kavernista, Apresenta Sessão das Dez” que de fato foi o seu ponta pé na vida artística. Diz à lenda que Raul Seixas à época produtor da CBS foi procurado por dois artistas, um deles o próprio Sergio e o outro Paulo Diniz. Raul Seixas teria gostado muito e o aceitado para seu cast.

Depois do sucesso com seu primeiro álbum e seu hit nacional, a mídia musical tratou de selar na imagem de Sergio Sampaio o estigma de o mais maldito de todos os malditos da MPB. Um espetacular compositor com canções intimistas recheadas de imagens poéticas, canções essas interpretadas em forma de blues, rock, samba. Dono de uma refinada técnica de violão, Sergio Sampaio sempre foi um compositor prolífico, porém dono de uma personalidade forte e teimosa, boêmio contumaz adepto do álcool e da cocaína. Sergio Sampaio viu seu parceiro Raul Seixas estourar nacionalmente com ótimas vendagens e discos geniais, enquanto ele amargava apresentações para públicos mínimos de bares do baixo Leblon. Tendo lançado mais dois discos com belíssimas canções mais com pífias divulgações por parte das gravadoras, somente depois de sua morte um fã de longas datas o cantor Zeca Baleiro junto com outro parceiro Sergio Natureza produziram um álbum em sua homenagem chamado “O Balaio do Sérgio” com suas canções sendo interpretadas por grandes nomes da MPB. Para logo depois ser lançado seu álbum póstumo chamado “Cruel”, Sergio Sampaio é sem dúvidas um artista para gerações vindouras e de fato cada vez mais suas canções são conhecidas em âmbito nacional, o que infelizmente não aconteceu com ele em vida.



sábado, março 23

O Canto dos Malditos - Itamar Assumpção


Por Natan Castro



Itamar Assumpção é um bisneto de Angolanos que saiu do Paraná no inicio dos anos setenta, rumo a capital paulista. Desde muito pequeno mostrou certo fascínio por ritmos, a principio da batucada do candomblé nos quintais de sua casa.  Diversas foram as sonoridades que forjaram sua música, algumas advindas de múltiplas influências, dentre elas Hendrix, Miles Davis e Milton Nascimento para citar alguns somente. Tais informações ajudaram a formar a cabeça multifacetada de um artista que misturou a influencia da poesia de Paulo Leminski com o que de melhor tinha na música negra mundial. Pioneiro na formação de um movimento depois chamado de Vanguarda Paulista, junto de Arrigo Barnabé e outros. A concepção de música no modo de ver do alquimista Itamar Assumpção, de certa forma estava e esta em alguns casos muito longe da aceitação geral. Talvez por isso seja constantemente taxado de maldito, ainda que nunca tenha aceitado esse rótulo, pois sempre deixou claro que era um artista popular.
 
Itamar Assumpção faz parte de uma linhagem de artistas conceituais, que ousaram se fazer independentes por natureza, muito antes da onda cyber-independente iniciada pela internet. Hoje aclamado por diversos artistas de renome e por um público minúsculo, porém cativo, como um dos grandes nomes da verdadeira MPB. Tendo lançado em sua carreira oito álbuns, todos fortemente marcados por sua genialidade e ousadia musical. Itamar Assumpção morreu em 2003 vitimado por um câncer de estomago, deixando uma lacuna enorme na dita musica brasileira feita de verdade para arte, longe dos nocivos interesses comerciais.

sábado, março 16

O Canto dos Malditos - Arrigo Barnabé (Clara Crocodilo 1980)

                                                         Clara Crocodilo
Por Natan Castro


Para falarmos de Arrigo Barnabé, é necessário, extremamente necessário falarmos da Dodecafonia. Que foi uma espécie de movimento surgido na música erudita nos anos 20, sendo criada pelo compositor austríaco Arnold Schoenberg. Dodecafonia compreende em uma série de 12 notas tocadas pelo músico, sendo que nunca são repetidas da mesma forma na mesma composição. Arrigo Barnabé é um músico e ator Paranaense que despontou no Primeiro Festival de Música Popular Brasileira da USP em 1979. Até aqui tudo seria normal, mas as canções tocadas e interpretadas por Arrigo não eram nada parecidas com as músicas convencionais que aqueles estudantes estavam acostumados a ouvir até então.

Vejamos bem nessas canções ele fazia a junção da Dodecafonia com a Musica Popular Brasileira, ou seja, dois extremos o erudito e o popular. Junte-se a isso a letras que não diria “cantadas”, mas “contadas”, como se fosse uma leitura de uma HQ ou um Gibi, mas em alto e bom som. Todo seu fascínio pelos quadrinhos e sua formação erudita formada em São Paulo. Representou em 1980 um tipo de bomba, com efeito, retardante e alusivo, foi mais ou menos isso que o publico daquele festival sentiu quando começou aquela sonoridade inédita até então. Um misto de vaias e aplausos levaram esse público aos poucos a se acostumarem com o que estavam ouvindo.

Arrigo Barnabé era naquela época o principal nome de um movimento interessantíssimo chamado Vanguarda Paulista, que tinha outros como Itamar Assumpção, Grupo Rumo e Língua de Trapo para citar alguns. A temática das metrópoles e suas inconstâncias eram pano de fundo para essa galera. Até hoje o disco Clara Crocodilo de Arrigo Barnabé é reconhecidamente apontado pelos críticos como a sonoridade mais autêntica no Brasil desde a Tropicália. 



sábado, março 2

O Canto dos Malditos - Loki? Arnaldo Baptista




Por Natan Castro.

Para se falar do primeiro álbum de Arnaldo Baptista, esse gênio da música, precisamos falar um pouco dos Mutantes. Logo depois de Caetano e Gil terem deixado à Bahia e se encontrarem em meio à profusão cultural do eixo (Rio – São Paulo) no final dos anos sessenta, os dois iniciaram conversas sobre como poderiam interferir na Cultura Popular Brasileira, que segundo eles à época necessitava de uma renovação em termos estéticos principalmente. Havia a principio somente ideias, após eles se depararem com a turma dos Mutantes, ai sim eles tiveram a certeza de que as modificações poderiam começar. E de fato foi isso que aconteceu os Mutantes foram à banda de acompanhamento em diversas apresentações dos Tropicalistas, e também eles por si só representavam musicalmente o próprio movimento desencadeado por Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Os Mutantes foram e são até hoje a banda mais criativa e autêntica não somente do Brasil, mas também do mundo inteiro. Haja vista o global reconhecimento que a banda vem tendo nos últimos quinze anos na critica musical especializada ao redor do mundo. Arnaldo Baptista junto de seu irmão Sergio Dias e a cantora Rita Lee, representavam o núcleo criativo dos Mutantes. Depois de alguns geniais álbuns feitos com essa formação, aconteceu uma grande baixa no inicio dos anos setenta. Rita Lee a musa do rock nacional resolveu deixar o barco, por não estar de acordo com o caminho musical que os demais músicos resolveram trilhar, era o inicio dos anos setenta e o rock progressivo estava no auge com grandes bandas como Yes, Pink Floyd, Ermerson&Lake&Palmer, a sonoridade deles estava se definindo progressiva também, diferente dos áureos tempos onde a banda misturava MPB e Beatles produzindo uma sonoridade totalmente autoral.


Loki – 1974

Arnaldo Baptista era à época da saída namorado de Rita Lee, logo depois o namoro teve seu fim. E Arnaldo iniciou um longo período de nuvens negras em sua vida, vejam bem nuvens negras por conta da desilusão amorosa e os intensos usos de drogas, dentre elas principalmente ácido lisérgico. Porém sua genialidade musical ainda com problemas pessoais continuaria intacta, em 1974 ele lança pela Philips (Loki) seu primeiro álbum. O disco está e deve continuar na lista de malditos da musica brasileira, com bastante propriedade. Neste álbum o músico canta toda sua dor em versos vezes melancólicos, vezes dolorosos e alguns até de difícil compreensão. Somente ao piano, com acompanhamento de Liminha (Mutantes) no baixo, bateria de Dinho (Mutantes) e participação nos backing vocals de Rita Lee sua ex-namorada e segundo alguns responsável por seu momento de instabilidade psicológica durante muitos anos. Nos versos Arnaldo Baptista canta suas memórias de grandes momentos, pede perdão por seus erros e em alguns outros deixa bem claro toda sua carga de sofrimento, por conta do término de sua banda e do seu namoro. Um dos maiores registros musicais de um gênio da música mundial, reverenciado por pessoas como Kurt Cobain (Nirvana) e Sean Lennon (Filho de John Lennon).

sábado, fevereiro 23

O Canto dos Malditos - (Ou Não) Walter Franco


                                                             Capa do Álbum 
                                                                                                               Por Natan Castro


Falar de (Ou Não) de Walter Franco para quem nunca ouviu talvez seja uma missão quase impossível, tamanha a genialidade dessa obra. Tenho dito de uns anos pra cá que os grandes álbuns da música pop em geral, no futuro serão estudados nos compêndios e enciclopédias assim como estudamos hoje as partituras de Beethoven e as pinturas de Van Gogh ou Picasso. Walter Franco é um artista sui generis dentro da MPB, disso não tenham dúvidas. Filho de um político, ele preferiu seguir a carreira de artista, músico. Mas vejam bem não é um músico da música popular brasileira do qual a maioria esta acostumada a ver, Walter Franco é um artista ousado, visceral ou diria até mais, um iconoclasta como poucos nesse pais. 

Walter Franco já tinha participado de alguns festivais da virada dos anos sessenta para os setenta. E em 1973 com produção rebuscada do produtor dos Tropicalistas o maestro Rogério Duprat, ele lança (Ou Não) em meio a uma ditadura ridícula onde a náusea artística era altamente prejudicial ao poder estabelecido. O disco é um dos poucos registros na história da música mundial tendo como pano de fundo a estética do concretismo, seja nas letras ou até nos silêncios, vazios sonoros, arranjos inspiradíssimos. E por conta da citação ao concretismo chamou a atenção dos poetas concretos de São Paulo, com boas criticas e desdém na mesma medida, o primeiro álbum de Walter Franco até hoje para alguns é difícil de engolir. Caetano Veloso em seu livro (Verdade Tropical) disse que esse álbum é bem melhor que o seu Araçá Azul lançado com pretensões parecidas. Como disse no inicio do texto tentei fazer a missão quase impossível de descrever essa obra prima da nossa música, mas devo dizer-lhes que só ouvindo e tirando suas próprias conclusões terão a ideia do que eu tentei falar.

sábado, fevereiro 16

O canto dos Malditos (Sociedade da Grã Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10)



O CANTO DOS MALDITOS

Inicio hoje uma série de postagens falando dos álbuns e artistas considerados malditos da música brasileira, tendo em sua grande maioria fatos e peculiaridades que levaram critica e público a considera-los como sui generis, diferentes, especiais ou como desejam alguns malditos.


SOCIEDADE DA GRÃ ORDEM KAVERNISTA
 APRESENTA SESSÃO DAS 10.




No ano de 1971 nos estúdios da CBS, no Rio de Janeiro um grupo de quatro jovens artistas se reuniram para gravar aquele que talvez tenha sido o mais ousado e genial álbum da contracultura no Brasil. Raul Seixas, Sergio Sampaio, Miriam Batucada e Edy Star, foram os protagonistas de Sociedade da Grã Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10. A versão brasileira de Sargent Peppers dos Beatles, porém eles não eram um grupo, apenas se reuniram para esse álbum em especial. Há época Raul Seixas era produtor da CBS, e diz à lenda que na ausência do presidente da companhia no Brasil, que estava de viagem ao exterior, Raul teve a ideia do disco. Com produção requintada diz outra lenda que Raul acabou expulso da CBS por conta da não aceitação da direção da CBS tanto no Brasil como no exterior, segundo o mesmo Raul Seixas o alto custo da produção teria sido o estopim para sua demissão.

Das 11 canções do álbum nove são parcerias de Raul com Sergio Sampaio, o disco possui uma miscelânea de ritmos indo do rock ao bolero. Edy Star era um homossexual cantor de boleros que Raul Seixas conheceu na Bahia, Sergio Sampaio era um talentosíssimo compositor de Cachoeira do Itapemirim (ES) amigo de Roberto Carlos na adolescência, Miriam Batucada era uma cantora iniciante da mpb e do samba com uma voz bem peculiar. Com quase nenhuma divulgação por parte da gravadora sendo relançado anos depois até da morte de três deles, somente Edy Star continua vivo. Em minha opinião esse é o primeiro álbum dos grandes álbuns considerados malditos da musica brasileira, seja pela sua parcela de transgressão e por sua ousadia musical.