segunda-feira, maio 7

QUANDO A INVEJA NOS ATACA NO QUARTO DE MOTEL


           
          Estávamos lá. Ambos muito tímidos ainda. Estávamos ali para aquilo, sentido isso, mas não falando disso. Disfarçando ao máximo nossas intenções para não deixar as coisas muito na cara. Viemos, é claro, para trepar, mas nossas intimidades ainda não escalaram grandes alturas. Portanto, qualquer empolgação desavisada pode acabar com tudo aquilo, sem isso, por causa disso.
            Se ela veio até este local, era por que também queria algo a mais, ou a menos. No entanto, seu jogo consistia em dizer:
- Bem, eu estou aqui mas não sou safada, viu?
Eu, por meu turno, tentava expressar nas entrelinhas.
- Veja, eu estou doido para te comer, mas não sou um tarado, tá me ouvindo?
 A pior parte, a mais difícil, já tinha passado. O convite foi feito e aceito. É certo que sem muito mérito da minha parte, já que o nome do motel ajudou: “Depois te conto”.
- Vamos para um lugar mais reservado, que tal?
- Onde você quer me levar, hein?
- Depois te conto!
Seria bom se o nome de todos os motéis fosse trabalhado nesse sentido. Da mesma forma que o nome dos carros de luxos leva também uma pitada de luxo embutido. Nunca que um carro um-ponto-zero se chamaria “elegance”. O nome da coisa traz logo consigo aquilo que ela quer dizer para você e para os outros também. Poderíamos ter motéis chamados “Não é nada demais”, “Vamo lá?” ou “Adivinha, minha filha!”.
 Apesar de implícita a deixa do nome do motel, permanecíamos ainda apáticos, ainda estranhos um ao outro, esperando que a melhor iniciativa venha nos apanhar. Bastava um pequeno ato, diminuto talvez, que carregasse ao mesmo tempo clareza e sutileza, ou um gesto brusco, dissonante, fora do tom, que colocasse os corpos em marcha como pedal de partida de uma moto.
Enfim.
Depois do longo prefácio no bar, do entediante prólogo dentro do quarto e um curto prelúdio na cama, finalmente engendramos o coito. No entanto, sem tão grande empolgação. Nesse desconhecimento do outro, mesmo que nossa pele esteja assim, tão explícita, quase tudo é um leve fingimento:
A mulher finge que gosta e o homem finge que manda ‘v’.
Para esquentar um pouco as coisas, consegui, apesar de alguns protestos, coloca-la de quatro. Ela protelou um pouco dizendo que aquilo era muita submissão para mulher e etc. Mas acabou por aceitar. Não por submissão, mas por sentir a culpa de quebrar o clima de uma transa já tão sem tempero... Um pouco sem graça, ela acabou se virando, escondendo a cara e mostrando a bunda.
A partir de então a coisa começou a ficar boa. No entanto, quando começamos a nos soltar um pouco mais, escutamos, do quarto ao lado, um forte gemido.
- Aaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhh!!!!
 Depois, o que era um gemido passou a ser um grito.
- Aaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhh!!!!
Em seguida, conseguia-se ouvir os estalo dos tapas direcionados às nádegas e, para incrementar, o pedido antropofágico da mulher excitadíssima, humedecida, enlouquecida dizendo:
- Me come! Me come! Me Come, vai!
E tome tapa em cima de tapa!
Diminuímos até o ritmo para ficar escutando o que se passava. Mas a grande verdade é que a nossa foda estava muito sem graça e aqueles dois, eles sim, lá do outro lado da parede, estavam colocando fogo em tudo. É óbvio que se estivéssemos fazendo a mesma coisa, com mesma dedicação, obstinação e intensidade,  não nos daríamos conta da foda alheia...
- Que coisa, né?
- (Eu ri)
             Constatamos nossa impotência. Eu, como homem, me senti mais implicado nessa seara. O cara deveria ter um cacete enorme, sei lá, ou um conhecimento em piriquitismo fora do meu alcance. Ao mesmo tempo, indignado, olhava para ela, ali de boi, com aquela bunda branca, com a cabeça virada para chão esperando só a hora de ir embora. Aquela bunda branca inexpressiva. Aquela coisa imóvel, meio mole, meio apática. Aquela coisa que está exposta na vitrine, mas não tem a mínima vontade de ser vendida. Aquela bunda branca...
Aquela bunda branca merecia uma porrada!
Um belo tapa: pá! Daqueles que se defere contra o carro que não pega, contra a TV que não sintoniza. Uma tatuagem de cinco dedos para que as engrenagens rolassem, para que ela rebolasse e gemesse, dizendo “Mete! mete! Mete!”.
Levantei a mão. Ergui o punho como que reunisse toda a energia na ponta dos dedos. Como que, pelo tecido fino que fica debaixo das unhas, absorvesse todo o espírito das fodas que ainda circulavam naquele quarto, todos os gritos de prazer que ficaram impregnados nas paredes, todos os fluídos que foram derramados naquele colchão surrado e ungido, todos os dias, com desinfetante...  Minha mão, sobrecarregada da mais pura sacanagem, mirando a bunda dela como a mira de um míssil prestes a tudo explodir. Minha mão desce de uma vez!
- PEGA, SUA SAFADA!
O tapa atingiu em cheio. Pá! Com certeza ela, que não esperava nada disso, gostou daquilo, justamente por isso. Com certeza o outro casal, lá do outro quarto, parou a putaria para ouvir o estrépito, como se fossem pego desprevenidos com o som de um trovão. Pá! Era disso do que essa foda de merda precisava. Pá! E de repente ela se vira e me diz toda molhadinha:
- TU TÁ FICANDO DOIDO?! TU TÁ FICANDO DOIDO, FILHO DA PUTA!!!
Silêncio...
Sabe aquele silêncio inquietante que se dá no teatro quando a peça não sai do lugar, quando o ator nada expressa e que uma tosse, vinda lá plateia, chama mais nossa atenção do que o espetáculo em si? Foi esse silêncio que quebrou toda a dinâmica da coisa.
Ela logo se levantou e colocou a calça. Eu pedia desculpas e, desconcertado, procurava minha cueca pelo chão. Senti vergonha de estar ali, completamente nu, enquanto ela vestia suas roupas como se construísse uma barricada entre nós.
- Vamos embora!
- Calma, vou pedir a conta...
Felizmente a demora da conta esfriou o transporte de raiva.
Ficamos calados, olhando para parede e escutando os gemidos intermináveis do outro lado. Aquela mulher, no mínimo, estava sendo esquartejada por um piroca! Não era possível! Era inumano tudo isso!... Querendo ou não, estávamos sendo oprimidos, humilhados com toda aquela volúpia que não respeitava a ninguém! Absolutamente ninguém!
...
A conta não chegava. A situação estava insuportável. Estava decidido a sair daquele quarto e reclamar com o gerente, pedindo para que intervisse em situações desse tipo ou que, no mínimo, colocasse um isolamento acústico na parede.
 Não aguentando, liguei para recepção, com a língua ardendo para descer o cacete em cima de todo mundo para compensar, talvez, Freud explica, o cacete que não desci nela.
- Recepção, boa noite!
- Olha! É uma vergonha um motel como esse não ter nenhum controle sobre os seus clientes! É uma puta falta de respeito a gente ter que ficar ouvindo o foda dos outros! Tenha certeza, minha filha, que esse motel de merda vai se entender com o PROCON!
- Você está em qual quarto senhor?
- No quinze! No quinze!
- Merda!...
- ?
Ela não respondeu diretamente para mim. Apenas afastou o telefone da boca e gritou, com uma entonação de quem já estava cansada de repetir várias vezes a mesma coisa:
- Oh Jeremias! Jeremias! Vai no 10 e desliga a porra da TV que deixaram mais uma vez ligada!  

2 comentários:

. disse...

liberei muita serotonina com seu texto.
vc esta inventado um novo estilo de escrita: comedia-sacanagem....porra karaio vou tentar ilustrar.

Dieguito

joakingson disse...

Isso comprova minha teoria: foda hetero é que nem novela, só tem final feliz na televisão hahaha!