Quem nunca esteve em uma escola pública na hora do intervalo não sabe o que é barulho de verdade. A primeira vez que ouvi e participei de uma zoada como essa eu tinha 6 anos de idade e estava lá porque a crise matrimonial e separação dos meus pais começavam a repercutir em minha vida, mesmo que eu não fizesse ideia na época do que significava exatamente o pai de uma família pegar suas trouxas e sair de casa no meio da noite. De todo modo, a primeira conseqüência deste ato deles veio sobre a minha pessoa que devido aos cortes financeiros que a minha mãe começou a fazer saí da escola privada onde eu tinha no máximo 14 coleguinhas de turma para dividir quatro paredes escolares e públicas todas as tardes com agora no mínimo mais 29 coleguinhas.
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quarta-feira, junho 13
terça-feira, maio 29
Velha nova Marca
Ilustração de Tammys
Sempre
tive o hábito (ou mania, chame como quiser) de me observar por longos instantes
no espelho, principalmente antes de entrar no banho. É importante conhecer a si
mesmo: apenas eu e meu reflexo. Corpo e mente.
Mas
eu me pergunto: realmente me conheço?
E
a resposta veio outro dia quando eu fui surpreendido enquanto me observava após
ter cortado o cabelo e, num baque, descobri uma marca fincada em minha testa. Uma
suave lembrança que a catapora me deixou... Durante quantos anos ela esteve lá,
escondida, fazendo parte de mim sem ao menos ser notada?
Nos
meus cálculos, uns dezesseis.
quarta-feira, maio 16
RESERVADO aos CUTUCÕES
Meus dias estavam iguais aos do
cara da música Cotidiano do Chico Buarque. Todo dia acordar às 7h da manhã,
tomar banho, comer algo na hora do café, que não fosse tomar o próprio café,
pois diferente de todas as pessoas noturnas que conheço, eu era a única que não
me dava bem com esse bichinho preto e viciante, então a opção podia ser um
suco, um pão e uma banana. Depois, banho, uma olhada no espelho, alguns
penduricalhos adicionados ao visual, uns borrifões de perfume e por fim, sair
correndo pra garantir um espaço no ônibus.
terça-feira, janeiro 24
Tenso
Escrito no início de 2007
No meu diário de estudante
Dormi por volta de cinco horas de segunda para terça. Acordei um tanto entorpecido pelo barulho diário do despertador do celular. Minhas pernas ainda doem, levanto e não tomo banho, como de costume, e tomo meu café com excesso de leite por causa da gastrite psicossomática. Tenho uma leve discussão com minha mãe sobre meu déficit de atenção que me fez perder uma carteira de estudante universitário em via pública como narrado no boletim de ocorrência. Preciso de grana pra segunda via. E saio para o hospital sem tchau. Ela sempre me manda com ir com Deus e a Virgem Maria, mas dessa vez me mandou para o inferno. Felizmente não acredito em inferno. Não sei se caberia citar que “O inferno são os outros” a únicas palavras que sei de Sartre. Vou para a parada de ônibus com a cafeína no sangue não surtindo os efeitos esperados, pois continuo entorpecido. Entro no ônibus por volta das sete horas da manhã, como sempre fico em pé. Olhos para alguns rostos e escolhos ficar em pé ao lado de um jovem simpática, obesa, de óculos escuros. Tinha certeza que ela ia pedir minha pasta e pede.
Surge uma vaga no ônibus e corro para sentar – abro um livro sobre a morte para minha monografia - mas meu entorpecimento impede de continuar a leitura da pagina marcada feita em outras viagens. Respiro. Os olhos pra fora da janela e num turbilhão de pensamentos descubro que peguei o ônibus errado e chegarei mais atrasado. Desço pego outro ônibus. Acorda. Com outro copo de cafeína; quem sabe.
Recebo uma mensagem no meu celular de minha amiga de estágio ratificando mais ainda meu atraso e que o setor de Transplante Renal é no segundo andar no final do corredor a direita da saída do elevador.
Desço no centro e caminho e caminho até o Hospital que fica há uns 10 minutos. Agora com uma dor inédita num osso do pé direito que apesar das boas notas em anatomia, não me faz lembrar o nome.
Na porta do hospital ponho meu jaleco, meu status de senhor da vida e da morte. Que faz sempre as pessoas te verem e olhar para seu nome bordado com ar de respeito.
Sigo as instruções da mensagem e chego à porta de vidro do setor de Transplante Renal. Onde homens sentados numa espécie de cadeiras de espera: esperam alguma coisa que não sei. Pergunto a eles se tenho que entrar de máscara também e me respondem quase em coro que são pacientes transplantados e eles que devem entrar de máscaras: protocolos do setor que desconhecia. Provavelmente ganharam uns anos de vida de algum jovem que morreu sem estraçalhar os órgãos.
Entro e me dirijo a Enfermaria, onde encontro à amiga que passa breves informações sobre o Setor. Ponho uma máscara e me dirijo a um banho no leito ao seu lado. O entorpecimento e minhas pernas que doem são sobrepostas a uma angústia, aflição e nervosismo. Deparo-me com uma paciente jovem com morte cerebral apenas vivendo por um ventilador mecânico. Penso tomar um ansiolítico para atenuar a realidade e a taquicardia, mas resisto.
Inicio uma observação sobre aquele corpo, que um leigo diria estar vivo, ou melhor, em certo sentido está, pois defeca, urina e o coração bate ritmicamente; se diz em estado vegetativo. A enfermeira que coordena o banho no leito diz algumas coisas engraçadas e as outras técnicas de enfermagem sorriem. O que me deixa com um sentimento de raiva - não acho interessante o tratamento de um ‘morto’ com humorismo. Isso de fato é humor negro ¹.
O corpo nu, bonito, corado, uma jovem. Como soube depois pelo comentário de uma técnica de enfermagem era uma paciente já transplantada que após dois anos sofreu uma intensa dor de cabeça sem explicações clínicas que evoluiu a morte cerebral. Segundo os cientistas o cérebro que faz o eu, o espírito, trocando em miúdos: a pessoa. Então aquilo não era mais uma pessoa, apenas o corpo que pertenceu a essa pessoa.
Continuava viva apenas devido ao ventilador mecânico. Segunda a Lei não se pode desligar o ventilador mecânico, a não ser com o consentindo da família como explicou a Enfermeira de plantão: Uma Eutanásia Legal, ou talvez, esperar que o coração venha a parar. Reparo em um provável parente com as pupilas cheia de lágrimas ao meu lado querendo fugir daquilo tudo. Sumir, desaparecer, apagar, morrer também, talvez. Sou tão pequeno e inútil.
Saímos do leito e vamos pra enfermaria.
Minha amiga disse que sentiu vontade de pegá-la e balançá-la e gritar para acordá-la.
Admito que senti apenas vontade de desligar o ventilador mecânico e conversar com seu espírito. E eu que não acredito em inferno.
¹ Utilizei a expressão “Humor Negro”, mas sei da carga pejorativa. E não quis mudar as palavras do texto para deixá-los exatamente como escrevi.
sexta-feira, janeiro 20
O Psicanalista
Freud
Toque toque
Psicanalista - quem esta batendo na porta?
Entregador de Pizzas - É A PIZZA NAPOLITANA QUE VOCÊ PEDIU!
Psicanalista - Pode entrar. Tá aberta. Deixa bem em cima da escrivaninha ao seu lado. Você vai entregar outra pizza agora?
Entregador de Pizzas - Não, Senhor. Era a última. Estou super cansado.
Psicanalista - Então deite no sofá perto daquele quadro.
Entregador de Pizzas - Pode ser. Obrigado. Quem é ele?
Piscanalista - Freud.
Entregador de Pizzas - Legal.
Psicanalista – Agora imagine que acabou uma boa transa e esta super-relaxado.
Entregador de pizzas – Beleza.
Psicanalista – Fale sobre sua vida?
O Entregador de Pizzas vira Paciente.
Paciente – Rapaz... Eu to feliz pra caramba. Revi meu irmão depois de três anos.
Psicanalista – E como foi depois dos três ânus?
Paciente – Eu achei ele super-saudável, forte, bonito, corado. Bebemos e fumamos uns cigarros.
Psicanalista – Bonito? E fumaram uns cigarros?
Paciente – Sim... Mas era um dia especial. Ele estava bem... foi só uns cigarros e umas cervejas.
Psicanalista – Percebo que você... Pelo excesso de elogios ao seu irmão apresenta um desejo homo afetivo por ele revelando seu lado homossexual latente no seu id e o cigarro representa simbolicamente o pênis. Freud explica.
Paciente – Como assim? Que porra é essa!
Psicanalista – Que cerveja você bebeu?
Paciente – O que em haver isso? Bebi... Antarctica.
Psicanalista – Representa o sêmen congelado.
Paciente – Hã? Não, Não. Eu bebi aquela cerveja, SOL.
Psicanalista – Qual a palavra do meio de SOL?
Paciente – É... O.
Psicanalista - qual o formato da pizza?
Paciente – Redonda.
Psicanalista – Bofe! Você é gay, baitola, bicha, viado, chupa rola.
Paciente – Eu só revi meu irmão e to feliz e fumei uns cigarros e bebi uma cervejas e vim te entregar uma pizza. Que porra é essa?
Psicanalista – É a verdade, bofe. Olha vou deixar pra você meu cartão com meu celular particular e o endereço da minha casa. Liga pra mim.
Paciente – Hã? Ei cara o que ta acontecendo? Larga meu pau cara. Por que você esta abaixando a calça e mostrando a bunda. Você usa uma calcinha cor de rosa. Que porra é essa?! Vou sai daqui.
O paciente volta ser o entregador de Pizzas
Psicanalista – Relaxa...
Entregador de Pizzas – Vai tomar no cú!
Piscanalista -Ah... Eu quero.
sábado, dezembro 10
O Louco
Caminhava a longos passos pra Assembléia Legislativa exigir uma urgentíssima Reforma Manicomial, quando na Praça João Lisboa me deparei com pombos saltitando e um magro rapaz de cabeça pra baixo, listrada camisa, velhas calças, certeza que conhecia, tanto certeza que fui falar com ele.
- E ai amigo, como vai? Há quanto anos luz não te vejo.
Ele parou e reparou que falava com ele mesmo, olhou-me de barriga ao peito, digo, de pernas a cabeça.
- Seu nome não é José de Ribamar? Casado com Maria que é primo de João irmão de Pedro e vizinho de Lucas?
- Sou eu mesmo, mas não me lembro do siô não, apesar de sua cara não ser estranha.
Dei um abraço grande nele.
- É que eu sou estranho mesmo. Ele sorriu com os restos de dentes. Convidei-lhe a tomar um almoço, digo um café.
- Como vai sua rocinha no interior?
- Siô, tá dando muito agora é feijão, mandioca, joão gomes, tomate...
- E os peixes?
-... Agora da dando muito Curimatá, traira, pedra...
- E os filhos? Quantos?
Contou nove nos noves dedos (perdeu o indicador numa antiga fábrica de tecido da Camboa), Pedro, José, Juscelino, Maria... Fim de conversa, ele tava apressado atrás de um novo dedo, digo de um novo emprego. E lhe fiz uma ultima pergunta:
- Mas Ribamar me lembro muito bem que fui ao seu enterro, em 26 de fevereiro de 1984, era um chuvoso dia, lá no cemitério do Gavião.
quarta-feira, outubro 19
COITO ANAL - para quem tiver estômago
Clovis era um homem sujo. Não falava nada sem cuspir em seguida no chão, não andava três metros sem coçar o saco e não falava uma frase que não contivesse um palavrão. Mau caráter. Um escroque de primeira. Ainda por cima agiota. Profissão que requer uma ética específica, nada amigável. Gostava de ver as pessoas pedindo. Deixava que elas implorassem. O que se obtém das pessoas que estão no fundo do poço é sempre uma surpresa. São capazes de tudo. A todos concedia o empréstimo, contanto que estivessem dispostos a aceitar o preço, que iam dos juros a vinte por cento à humilhação mais execrável.
PEDRO
Seu Pedro era um desses alcoólatras, crias desgarradas da cirrose, que andam pelo centro em busca de cachaça. Precisava do álcool como quem precisa de sangue. Por uma dose estava disposto a tudo, inclusive, a bater na porta de Clovis e lhe pedir dinheiro. O agiota riu. Sabia que Pedro não poderia pagar sequer um empréstimo de vinte reais. Pedro insistiu. Clovis o mandou ir embora. No caso de Pedro nem a humilhação era a garantia. Aquele sujeito já estava completamente acabado.
ANA
Ana tinha perdido uma perna num acidente de carro. Andava com ajuda de uma perna mecânica. Tinha uma vida aparentemente normal. No entanto, o fato de ser amputada dificultava a aproximação dos rapazes. Ela poderia até ter seu charme reservado, um traço de beleza diminuto aqui acolá. Mas na hora da transa sempre era um choque. Ela não poderia ficar com a perna. Se a tirasse, os parceiros sempre reagiriam negativamente, ficando um impasse no ar. Clovis, por exemplo, quando viu perna sendo deslocada, não teve outra reação senão rir. E dali por diante, toda vez que a encontrava, a chamava de perna de robô.
A PROPOSTA
O alcoólatra insistia. Todas as vezes que encontrava Clovis, pedia os malditos cinco reais. Ele respondia que não, como se o alertasse “você não será capaz de pagar”. Às vezes, apenas sorrindo, meneando a cabeça, alegava não ter dinheiro. Com seus botões Clovis tentava imaginar até que ponto Pedro seria capaz de ir em busca do álcool. A força de pensar, ele achou uma solução, um preço acessível para o viciado. No dia seguinte ele deu a sua proposta: ele daria os cinco reais, mas o velho teria que lhe dar o cu.
UM ENCONTRO CASUAL
Era noite. Ana encontrou Clovis no bar. Sentou-se ao seu lado. Ele já estava um pouco alterado pela bebida. Ana havia pintado os cabelos. Arriscara pela primeira vez usar maquiagem. Era praticamente outra mulher. Clovis, imediatamente, puxou assunto e, sem reconhecer o seu bode expiatório, a quem chamava de perna de robô, pagou-lhe um drinque. Eles conversaram a noite toda. Quando o bar se fechava, ele propôs levá-la ao motel. Ela aceitou veementemente. Mas antes, eles tomariam a última dose.
O COITO
Pedro aceitou. Seria enrabado em troca da cachaça. Era escravo do vício e por ele faria tudo. Disse sim como quem não mais tivesse opção. Foi ao escritório de Clovis e logo no corredor, abaixou a calças e colocou as mãos na parede. De certa forma, pensou Clovis, o velho agia com certa naturalidade. Talvez já tivesse feito isso. Talvez, a fim de que tudo corresse o mais rápido possível, decidiu facilitar as coisas e ser prático. Para Clovis nada interessava. Ele não hesitou também em abrir o zíper de sua calça e de cuspir em seu falo para que a penetração ocorresse sem dificuldade.
O CHOQUE
Quando entrou no carro Clovis já se sentia estranho. Percebia a voz pastosa. Não conseguia enfiar a chave na ignição. O corpo parecia pesar uma tonelada. Aos poucos, perdia a coordenação motora. Sentada, no banco de passageiro, Ana o observava. Ele ainda tentou colocar as mãos em seus seios, mas não conseguiu completar o trajeto. Seu braço, já dormente, caiu na coxa de Ana e fez um imenso barulho ao se chocar contra a perna mecânica. O último reflexo de Clovis, antes de sentir completamente o efeito do boa noite cinderela, foi olhar para Ana com cara de espanto, balbuciando alguns palavrões até desfalecer de uma vez.
A BORRA DE SANGUE
Ele socava o cu do velho sem pena. Conseguia sentir suas tripas sendo esmagadas. Via a merda enegrecida manchar seu pênis. Algumas borras de sangue já apareciam nas fezes. Era um diagnóstico prévio ou de úlcera hemorrágica ou de cirrose que Clovis ignorava insanamente, metendo cada vez mais forte, insistentemente, perguntando ao velho se ele gostava de ser enrabado. O velho respondia gemendo, como se soltasse pequenos balidos quase imperceptíveis. Um cheiro insuportável ficou suspenso no ar. Uma atmosfera nefanda se instalou. Clovis estava decido a não acabar aquilo tão cedo. Iria até o fim. Iria até gozar.
NO MOTEL
Ele acorda. Ainda está atordoado. Clovis percebe que está amarrado na cama, deitado de bruços. Ele olha pelo espelho o reflexo de Ana, que se encontra atrás dele, com a perna mecânica na mão. Sua reação é pedir desculpas insistentemente. Mas Ana está implacável. Com toda força que possuí, enfia a perna no ânus de Clovis. Está tão decidida, que nem percebe os gritos do homem. Sem piedade ela enfia a perna quase até o talo, perguntando a ele quem era a perna de robô. Ela só parou quando Clovis começou a se tremer. Pela sua boca, ecorre sangue. Já não implora por piedade. Apenas grunhe como um animal sendo sacrificado.
FINAL FELIZ
No canto do centro da cidade, o velho Pedro cantarola abraçado à sua garrafa de aguardente. Parecia que nada tinha acontecido. Tudo fora obliterado no instante em que sorveu o primeiro gole de pinga.
19/10/2011
segunda-feira, agosto 15
Despedida aos 18
- Queria te dizer uma coisa?
Dei uma inflexão séria pra que tivesse um maior efeito.
Mas estava com um cara de desapontado de fala insegura de desconcertado mexendo e coçando os cabelos absurdamente. Ela, sem dúvidas, deduziu o que eu ia falar com minha expressão de iminente desastre. Me olhava com um cara de cachorro tomando banho.
Sabe?! Dá um dó que dá uma opressão no peito e um sentimento de compaixão instintivo e repensar em tudo que vai dizer.
Respirei fundo e disse de supetão sustentando o olhar. Era importante sustentar. O mento levantado. Deveras importante sustentar o olhar. Me fingir de forte pra dizer palavras dolorosas. O ser humano é um teatro:
- Não podemos continuar mais juntos.
- Mas estou apaixonado por você. – ela não mentia. O desespero não mente.
Paixão. Paixão é o que move as pessoas?
- Dorme comigo pelo menos uma ultima noite.
Sexo. Sexo é que move as pessoas?
- Certo. – E não a adverti sobre nada.
Dormi com ela. Fiz amor (mentira). Transei com ela. Nos despedimos na cama. Não iria perder essa chance de fazer acrobacias na sua cama de casal. Devo acrescentar com cínica poesia que sua pele cabelos pernas lábios rosas menores e maiores era flores doces sem espinhos.
Sou um oportunista filha da puta?
Não!
sou piedoso?
Não.
Sou apenas um jovem desencontrado?
Também não. Droga!
Deus vai me salvar pelas minhas boas ações?
Se pelo menos acreditasse nele.
Ah... Ela tinha mais de uma década na minha frente. Ela gostava do meu charme. Dos meus músculos. Do meu órgão na linha do equador protuso. Vinha de um casamento belo e romântico e depois a decadência do Império Romano e o retorno à religião. No inicio transas em piscinas e depois de alguns anos ejaculações precoces. Foi pra religião protestante salvar o casamento. Mas deus deu palpite em vão. Uma mulher divorciada e vazia. Novidade?
- O que ela queria comigo?
Talvez encontrasse em mim uma juventude perdida.
Um riso de felicidade eterna.
Uma música.
Um filme.
Tiramos um foto juntos e um sorriso. Fomos felizes, não para sempre.
Um riso de felicidade eterna.
Uma música.
Um filme.
Tiramos um foto juntos e um sorriso. Fomos felizes, não para sempre.
domingo, agosto 7
Mulher-Popozuda
Decidi, vou ter que perder estes 6 quilos que me faltam para ficar popozuda. Tenho que jogar fora as barras de chocolate e o pudim que adoro depois das refeições. Ai, meu Deus, acho que não estou pronta para tanto sacrifício! Mas, tenho que lembrar do resultado no meu corpo, daquela calça bem apertadinha, daquela blusa sem marcar os pneuzinhos. Hum!Mulher Popozuda!
Sério, gente! Demorei um tempo para criar a auto-estima que tenho por mim. Tinha maior complexo com meu corpo assim... Vênus de Willendorf. Agora com o passar dos tempos tenho acreditado que é possível ser feliz e gostosa com meu corpinho longe dos padrões globais. Bom,... Até que num belo dia eu vejo o cara que gostei muito com uma Mulher-Edificio, e toda popozuda. Imagine aonde minha estima foi parar? No subsolo cheio de minhocas. Queria virar um avestruz. Mamãe, porque tive que nascer assim gordinha? Não podia ter crescido mais um pouco e virado uma mulher-fruta?
A mulher popozuda é aquela que tem lá na academia em que faço natação. Lindona, o cabelo maravilhoso (horas no formol e na chapinha para depois destruir tudo no cloro, dá para entender?), bem lisinho, o corpão, pernas bem torneadas os “air bags” de fazer inveja a qualquer carro de elite, a bumba bem durinha, sem nenhum furinho. Os caras mal conseguem nadar direito quando ela passa. E tem mais homens no meu horário da natação. Eu, apenas e um senhora de 50 anos, de mulher. E agora esta popozuda. De onde ela veio? Que droga! Eu me sentia o máximo com todas as minhas gordurinhas na piscina envolta por aqueles homens esculturais! Uma deusa! Uma Vênus! Agora, no máximo que sou uma bóia. Maldita popozuda!
Vou ter mesmo que perder este 6 quilos é o jeito. O jeito para minha saúde é obvio. Não, para competir com a Mulher-Popozuda. Tenho meus dotes. E o importante é que o mundo é grande e diverso e nele cabe: as mulheres popozudas, as edifícios, as frutas, as magrinhas e claro, as gordinhas. Como dizem os mulçumanos: “uma mulher que enche uma cama”.
Dedico este texto às todas as mulheres, sejam elas do jeito que são. O importante é ser feliz. E gente, mulher é tudo de bom.
sábado, agosto 6
Relação Neurótica
Estou pra terra assim como você esta pra lua ou vice versa. A ordem do planeta e do satélite natural não mudará a comparação na via láctea dos encontros casuais. O que quero dizer é que estamos nos circulando. Dois cachorros desconfiados se cheirando dentro de um canil.
Dou a maior bola pra você. Dou uma bola do tamanho de uma de basquete, ou maior, daquelas infantis de pula-pula que vende em parques de diversão em período de ferias. Só falta eu verbalizar um estou apaixonado – seria quase verdade ou mesmo verdade. Faço gestos excessivos com as mãos. Abuso da metalinguagem. Sei que ela ta me entendendo. Até o garçom me entende - que eu to afim de uma aproximação mais intima.
Não sei se cheguei a falar que você era “interessante”.
Não, não falei.
Mas o que quero dizer com Interessante garçom: que me interessa é óbvio. Ta em qualquer dicionário. Vou tentar expor minhas descrições físicas e subjetivas da criatura feminina a qual anda mexendo com meu órgão que bombeia sangue pra todo corpo (coração) simbolicamente lugar das emoções. Que faz um cara inseguro, carente, desastrado de pai ausente e uma mãe dominadora derrubar um guardador de palitos de dente no restaurante com o self serv a 14 reais o quilo.
Bonita? Bochechas grandes em contraste aos seus olhos pequenos, inquietos, contraditórios, quase estrábicos, bigode de suor, parece que vai se afogar a qualquer momento, sua cabeça cabe abaixo do meu queixo. Bonita? É. Como pode dizer um oftalmologista romântico: o amor é míope.
Impulsiva (pode me beijar de repente ou sair correndo).
Diz que adora dormir. Digo que adoro o ócio. Digo mais ainda que as pessoas trabalham pra terem ócio.
Você faz um contra-comentário que não buscam o ócio, são apenas forças de trabalho alienadas que bebem cerveja no fim de semana. Apenas um entorpecente exclama.
Uma socialista com seus desgostos teóricos sobre o capitalismo selvagem.
Entorpecente: Me faz lembrar sinais vermelhos. Buzinas. Trânsito engarrafado. Que agonia. Já estou fazendo cara de azedo e dando tremeliques. E claro, o meninos escurecidos cheirando cola de sapateiro doidões limpando vidro de carros que vão pra praia felizes. Eles são de outro mundo. Outra espécie. Selecionada pela evolução urbana. Darwin não previu os zumbis psicotrópicos do século 21.
Você fala sobre que seu signo tem ascendente em leões. Que é mandona e só trabalha sobre pressão. Nunca foi ao cabeleireiro. Seus longos cabelos ondulados negros pontiguados escorrem distraídos pela costa atingindo o cóccix.
Disse que achava bonito, lindo, magnífico (esse adjetivo eu não falei) seu cabelo. (Gosto de elogiar). Meus elogios não são pretensiosos, às vezes, sim.
Não pergunta muito sobre mim. Quando pergunta não olha nos meus olhos. Olha pra janela, pro alface, pro teto, pra dentro de si... Tipo assim garçom ela pergunta do nada acabando uma fala: e tu?
Eu respondo: E eu... sei lá.
Tiro meus óculos. Gosto de minhas pupilas sem meus óculos. As lentes escurecem a qualquer sinal de sol ou lâmpada ou qualquer coisa que emita luz. Sou um vampiro moderno. Tenho caninos pontudos, como galinha ao molho pardo, e tenho angustia a luminosidade. E adoro uma jugular. Mas ainda não tive coragem de tal prática antropofágica no pescoço branco e curto da garota garçom.
Será que vamos dar rock, bossa nova, musica clássica ou tropicalismo?
Por enquanto só diálogos, monólogos, silêncios que não chegam a lugar nenhum. Eu falei isso pra ela:
Nós falamos e falamos e falamos (ela fala o triplo de mim) e não chegamos a lugar nenhum.
Sabe o que ela me respondeu garçom se levantado olhando para as horas no seu celular fora de moda indo pagar seu almoço com pouco carboidrato e muita salada e proteínas:
E Precisamos chegar a algum lugar... Em tom de interrogação e espontaneidade.
Perversa essa garota querido garçom explorado por um pequeno burguês que nem sabe que significa burguês, mas sabe que compra carne de segunda.
Garçom! Uma flecha medieval envenenada cruzou meu peito derramando sangue por todo o restaurante. O nobre cavaleiro aqui caiu do lustroso cavalo suspirando com os braços estendidos e a mão e os dedos contorcidos dando os últimos suspiros. Humilhado.
Garçom onde está o antídoto? Onde esta minha auto-estima? Meu ego? Minhas expectativas?
O amor não é happy end garçon. É Shakespeare.
Resumindo (sem metáforas exageradas ou um aforismo prepotente) fiquei sem jeito. O que ele entende por e precisamos chegar a algum lugar?
Será que um beijo demorado numa praça com o nome de um poeta romântico arborizada de tardizinha vendo o degradê do por do sol sentado num banco de concreto não se enquadra no seu e precisamos chegar a algum lugar?
Sua psicologia complicada merece um estudo de caso . Seu cérebro deve ser retirado do crânio e estudado cada fragmento durante séculos por vários cientistas da alma pra descobrir o que quer dizer com e precisamos chegar em algum lugar?
Vou exercer um pouco de especulações:
Um fora indiscreto. O pessimismo influenciou nessa.
Um mistério. Ela é um romance e ainda estou lendo o prefácio.
Despedimo-nos depois de pegar um pé-de-moleque de brinde do almoço com o dono do estabelecimento.
Temos que marcar um encontro. – afirmei sem dúvidas.
Ela responde afoita: - a gente se marca.
O que ela quis dizer com a gente se marca?
Vou exercer mais um pouco de especulações:
Segundas intenções. Admito que o otimismo influenciou nessa.
A gente se marca... “Quero ficar no seu corpo feito tatuagem...”. Foi só Chico Buarque que me veio à memória musical.
Beijos desconcertantes no rosto de despedida ao sol do meio dia com o estômago cheio.
Thau
Thau
sexta-feira, agosto 5
O normal de sempre
Antes de eu acordar, quero dizer, antes de acordar a maioria das pessoas, ela já deve está de pé. Quando a vi pela primeira atrás do balcão percebi suas olheiras e a cara de sono, cara de quem deve ter dormido umas poucas horas, talvez três horas. Dei um bom dia a ela e ela me deu outro bastante forçado e grudento, talvez tenha esquecido de escovar os dentes, por que senti um hálito de quem não escovou.
As semanas foram passando e sua expressão estava bem melhor, não tinha mais aquela olheira e hálito, o sorriso era espontâneo e soube seu nome: Jardenia. Nome totalmente esquisito, diz que foi a mãe que deu. Vai saber de onde tirou esse nome.
Passou a me dar bom dia antes de eu dar bom dia.
Um dia, acho que era segunda feira, estava alegre demais para o normal de sempre. "O normal de sempre" era três pães massa grossa e dois massa fina. Disse que estava grávida de dois meses e gostaria de um filho homem e receberia o nome Jordoso, segundo ela, mulher dá muito trabalho. Agora estava explicado o sorriso mais largo. Talvez essa coisa de botar nome esquisito deve ser hereditário. Dei meus parabéns e ainda pensei em dizer que ia ser o padrinho, mas preferi ficar calado, vai ver que ela leva a brincadeira a sério. Um estudante que ainda depende dos pais pra pegar ônibus não deve ser padrinho de ninguém.
Passei um mês sem comprar pão, é que meus pais passaram um mês economizando para pagar a TV de 14 polegadas. Substituímos o pão por bolacha de água e sal.
Não sei o que aconteceu com Jardenia neste um mês, pois a encontrei cabisbaixa e muda, muito pior do que no primeiro dia. Não me deu bom dia e nem um sorrisinho, ao menos forçado. Sua barriga ainda continuava do mesmo tamanho e não falou mais de filho. Talvez alguém da família tenha morrido.
As semanas foram passando e sua expressão estava bem melhor, não tinha mais aquela olheira e hálito, o sorriso era espontâneo e soube seu nome: Jardenia. Nome totalmente esquisito, diz que foi a mãe que deu. Vai saber de onde tirou esse nome.
Passou a me dar bom dia antes de eu dar bom dia.
Um dia, acho que era segunda feira, estava alegre demais para o normal de sempre. "O normal de sempre" era três pães massa grossa e dois massa fina. Disse que estava grávida de dois meses e gostaria de um filho homem e receberia o nome Jordoso, segundo ela, mulher dá muito trabalho. Agora estava explicado o sorriso mais largo. Talvez essa coisa de botar nome esquisito deve ser hereditário. Dei meus parabéns e ainda pensei em dizer que ia ser o padrinho, mas preferi ficar calado, vai ver que ela leva a brincadeira a sério. Um estudante que ainda depende dos pais pra pegar ônibus não deve ser padrinho de ninguém.
Passei um mês sem comprar pão, é que meus pais passaram um mês economizando para pagar a TV de 14 polegadas. Substituímos o pão por bolacha de água e sal.
Não sei o que aconteceu com Jardenia neste um mês, pois a encontrei cabisbaixa e muda, muito pior do que no primeiro dia. Não me deu bom dia e nem um sorrisinho, ao menos forçado. Sua barriga ainda continuava do mesmo tamanho e não falou mais de filho. Talvez alguém da família tenha morrido.
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