quarta-feira, outubro 19

COITO ANAL - para quem tiver estômago


CLOVIS

Clovis era um homem sujo. Não falava nada sem cuspir em seguida no chão, não andava três metros sem coçar o saco e não falava uma frase que não contivesse um palavrão. Mau caráter. Um escroque de primeira. Ainda por cima agiota. Profissão que requer uma ética específica, nada amigável. Gostava de ver as pessoas pedindo. Deixava que elas implorassem. O que se obtém das pessoas que estão no fundo do poço é sempre uma surpresa. São capazes de tudo.  A todos concedia o empréstimo, contanto que estivessem dispostos a aceitar o preço, que iam dos juros a vinte por cento à humilhação mais execrável.

PEDRO

Seu Pedro era um desses alcoólatras, crias desgarradas da cirrose, que andam pelo centro em busca de cachaça. Precisava do álcool como quem precisa de sangue. Por uma dose estava disposto a tudo, inclusive, a bater na porta de Clovis e lhe pedir dinheiro. O agiota riu. Sabia que Pedro não poderia pagar sequer um empréstimo de vinte reais. Pedro insistiu. Clovis o mandou ir embora. No caso de Pedro nem a humilhação era a garantia. Aquele sujeito já estava completamente acabado.   

ANA

Ana tinha perdido uma perna num acidente de carro. Andava com ajuda de uma perna mecânica. Tinha uma vida aparentemente normal. No entanto, o fato de ser amputada dificultava a aproximação dos rapazes. Ela poderia até ter seu charme reservado, um traço de beleza diminuto aqui acolá. Mas na hora da transa sempre era um choque. Ela não poderia ficar com a perna. Se a tirasse, os parceiros sempre reagiriam negativamente, ficando um impasse no ar. Clovis, por exemplo, quando viu perna sendo deslocada, não teve outra reação senão rir. E dali por diante, toda vez que a encontrava, a chamava de perna de robô.

A PROPOSTA
O alcoólatra insistia. Todas as vezes que encontrava Clovis, pedia os malditos cinco reais. Ele respondia que não, como se o alertasse “você não será capaz de pagar”. Às vezes, apenas sorrindo, meneando a cabeça, alegava não ter dinheiro. Com seus botões Clovis tentava imaginar até que ponto Pedro seria capaz de ir em busca do álcool. A força de pensar, ele achou uma solução, um preço acessível para o viciado. No dia seguinte ele deu a sua proposta: ele daria os cinco reais, mas o velho teria que lhe dar o cu.

UM ENCONTRO CASUAL

Era noite. Ana encontrou Clovis no bar. Sentou-se ao seu lado. Ele já estava um pouco alterado pela bebida. Ana havia pintado os cabelos. Arriscara pela primeira vez usar maquiagem. Era praticamente outra mulher.  Clovis, imediatamente,  puxou assunto e, sem reconhecer o seu bode expiatório, a quem chamava de perna de robô, pagou-lhe um drinque. Eles conversaram a noite toda. Quando o bar se fechava, ele propôs levá-la ao motel. Ela aceitou veementemente. Mas antes, eles tomariam a última dose.

O COITO

Pedro aceitou. Seria enrabado em troca da cachaça. Era escravo do vício e por ele faria tudo. Disse sim como quem não mais tivesse opção. Foi ao escritório de Clovis e logo no corredor, abaixou a calças e colocou as mãos na parede. De certa forma, pensou Clovis, o velho agia com certa naturalidade. Talvez já tivesse feito isso. Talvez, a fim de que tudo corresse o mais rápido possível, decidiu facilitar as coisas e ser prático. Para Clovis nada interessava. Ele não hesitou também em abrir o zíper de sua calça e de cuspir em seu falo para que a penetração ocorresse sem dificuldade.

O CHOQUE

Quando entrou no carro Clovis já se sentia estranho. Percebia a voz pastosa. Não conseguia enfiar a chave na ignição. O corpo parecia pesar uma tonelada. Aos poucos, perdia a coordenação motora. Sentada, no banco de passageiro, Ana o observava. Ele ainda tentou colocar as mãos em seus seios, mas não conseguiu completar o trajeto. Seu braço, já dormente, caiu na coxa de Ana e fez um imenso barulho ao se chocar contra a perna mecânica. O último reflexo de Clovis, antes de sentir completamente o efeito do boa noite cinderela, foi olhar para Ana com cara de espanto, balbuciando alguns palavrões até desfalecer de uma vez.
           
            A BORRA DE SANGUE

         Ele socava o cu do velho sem pena. Conseguia sentir suas tripas sendo esmagadas. Via a merda enegrecida manchar seu pênis. Algumas borras de sangue já apareciam nas fezes. Era um diagnóstico prévio ou de úlcera hemorrágica ou de cirrose que Clovis ignorava insanamente, metendo cada vez mais forte, insistentemente, perguntando ao velho se ele gostava de ser enrabado. O velho respondia gemendo, como se soltasse pequenos balidos quase imperceptíveis.  Um cheiro insuportável ficou suspenso no ar. Uma atmosfera nefanda se instalou. Clovis estava decido a não acabar aquilo tão cedo. Iria até o fim. Iria até gozar.

NO MOTEL

Ele acorda. Ainda está atordoado. Clovis percebe que está amarrado na cama, deitado de bruços. Ele olha pelo espelho o reflexo de Ana, que se encontra atrás dele, com a perna mecânica na mão. Sua reação é pedir desculpas insistentemente. Mas Ana está implacável. Com toda força que possuí, enfia a perna no ânus de Clovis. Está tão decidida, que nem percebe os gritos do homem.  Sem piedade ela enfia a perna quase até o talo, perguntando a ele quem era a perna de robô. Ela só parou quando Clovis começou a se tremer. Pela sua boca, ecorre sangue. Já não implora por piedade. Apenas grunhe como um animal sendo sacrificado.

FINAL FELIZ

No canto do centro da cidade, o velho Pedro cantarola abraçado à sua garrafa de aguardente. Parecia que nada tinha acontecido. Tudo fora obliterado no instante em que sorveu o primeiro gole de pinga.


19/10/2011

8 comentários:

Anônimo disse...

igor,
faz um encontro entre pedro e ana, po.

diego

. disse...

Eu quis colocar ana como filha de pedro. Mas preferi deixar a coisa deslocada de tempo, unida apenas pelo contexto. Meio Amarelo Manga

valeu pela ilustração!
Abraço,
igor

Anônimo disse...

Vim aqui ler algo último antes de dormir. Obrigada, Igor, pelas referências preciosistas a um filme que nunca precisei ver, já que todos insistem em "citá-lo" com freqüência tão recorrente..

Anônimo disse...

esse negócio de precioso só me lembra senhor dos anéis. Mas, sinceramente, existe preciosismo intectual em não citar determinadas coisas 'só porque todo mundo cita'. Ora, o que que tem? Vamos prezar pela econômia de perifrases, já que poucos nesses mundo(falo dos gênios) não precisam de referências. Deixa o minino falar do filme que ele gostou, que coisa!

Anônimo disse...

Eu deixo tanto que até agradeci... RS

Anônimo disse...

VASODILATADORES

Anônimo disse...

Bukowski tremeria.

Alberto.

Anônimo disse...

Escreve mais por aqui... Teu texto virou vício, Igor.