segunda-feira, abril 23

Universidade?

No fim do mês de março deste ano (2012) através do Ministério da Educação pelo Conselho Nacional de Educação homologou a UNICEUMA (Centro de Ensino Unificado do Maranhão) a status de universidade, nada contra a titulação dada a instituição. Mas que critérios foram exigidos para que dessem a titulação?
O UNICEUMA foi fundada em 1990, é inquestionável que entre as particulares do Maranhão é a mais que oferece uma estrutura acadêmica no aspecto físico-predial invejável (me refiro a do Renascença), superando inclusive a UFMA (Universidade Federal do Maranhão), IFMA (Instituto Federal do Maranhão) e UEMA (Universidade Estadual do Maranhão), mas somente isso.
Alguém conhece algum projeto de pesquisa desenvolvido pela instituição ou alguma outra instituição de ensino particular do Maranhão? UNICEUMA ou alguma outra instituição particular estão longe de serem de fato universidades, porque mesmo com todo o descaso do Estado, governantes e reitores das universidades públicas federais e estaduais aqui no Maranhão ou em qualquer outro estado da federação, ainda são as referencias para os estudantes que querem ingressar por terem o melhor quadro de professores, e principalmente haver inúmeros projetos de pesquisas e extensão que contribui para o desenvolvimento cientifico e tecnológico que beneficia toda a sociedade. E ressaltar que as universidades públicas não forma somente mão de obra qualificada para o mercado de trabalho, mas cidadãos, formadores de opinião e ser críticos.
Nada contra quem estuda ou estudou nas instituições privadas, e muito menos deixar entender de quem estuda seja menos capaz a aqueles que estudam ou estudaram nas instituições públicas. Pelo contrário, isso dependerá do empenho individual de cada um. Porque eu conheço pessoas que não são poucas que estudam ou estudaram nas particulares são bem capacitados nas áreas que se formaram.
Mas uma coisa deve-se deixar bem claro, a única função dessas instituições privadas aqui no Maranhão e também em todos os estado da federação é uma só: vender diploma... Pagou passou... Tá pagando? Tá com diploma em mãos.
No Brasil são pouquíssimas faculdades privadas que tem o tripé que é o ensino, pesquisa e extensão, que são a PUC (Pontifícia Universidade Católica), Mackenzie, Estácio de Sá, FGV (Fundação Getúlio Vargas) e algumas outras. Eu desconheço algum projeto de pesquisa desenvolvido pelo UNICEUMA e outras faculdades privadas no Maranhão, somente alguns projetos de extensão e mesmo assim é pouco e limitado.
As faculdades americanas como Harvard, por exemplo, desenvolvem projetos de ensino, pesquisa e extensão, é comum estudantes pobres que vivem na periferia em cidades americanas terem ingresso nas instituições através das bolsas de estudos e inserir em modalidades esportivas que tenham afinidade e talento, seja o basquete, vôlei, futebol, natação, atletismo e outros, e grande maioria desses estudantes são negros e estrangeiro-imigrantes.
As faculdades privadas como UNICEUMA no caso, até que eu saiba, não desenvolve esses projetos, pois para os mesmos  que importa é dinheiro que os estudantes possam pagar, devido a essa ambição desenfreada, o governo federal criou o PROUNI (Programa universidade para todos) com o caráter de comprar as vagas ociosas dessas instituições pra garantir o ingresso de estudantes pobres que não vêem perspectivas de ingressar nas universidades públicas, pelo fato de não terem o aprendizado comparado aos que estudaram em melhores escolas que em maioria são particulares obviamente. Se não fosse o PROUNI, as vagas continuariam ociosas e os estudantes pobres continuariam na sem perspectivas de estudarem numa faculdade de ensino superior.
Nada contra o UNICEUMA ter agora o status de universidade, mas o Ministério da Educação através do Conselho Nacional de Educação deveria colocar critérios para essa instituição, mas quem sabe agora com essa titulação, que a mesma faz questão de propagar em toda a cidade em outdoors e nos comerciais de TV e rádio que é a única particular do Maranhão ser uma universidade comece agora fazer projetos de ensino, pesquisa e extensão para o beneficiamento não apenas aos estudantes, mas para toda a sociedade maranhense que ainda carece de grandes pesquisadores e estudiosos.
Porque não basta apenas qualificar mão de obra para o mercado de trabalho, mas também cidadãos, formadores de opinião, ser críticos e contribuintes para a mudança de uma sociedade melhor.

Um par de cadeiras e de tênis

Metal Open Air - Amadorismo, Vergonha e Amor ao Heavy Metal.


São Luís, 21 de Abril de 2012.


Desde a manhã da quinta feira, os veículos de comunicação alertavam para cancelamentos de importantes bandas do Head Line do Metal Open Air. Até ai tudo bem esses imprevistos acontecem com todos os festivais, na manhã da sexta feira fiquei sabendo de problemas com a estrutura do festival, devido a algumas reclamações dos Headbangers que lá estavam para o primeiro dia, uma delas a área de Camping prometida na propaganda pelos promotores do festival, não existia o local reservado para isso estava sendo infelizmente o estábulo para cavalos do parque independência, outras reclamações sobre falta de comida para o público, banheiros interditados, risco de corte da energia que alimentava a aparelhagem de som dentre outras coisas.

domingo, abril 22

Cardume.

Nada mais inquietante que uma página em branco. Nada mais inquietante que o jornal da manhã quando se é a notícia. A interpretação lúdica ou literal do mesmo texto, a versão dos fatos e o fator psíquiquico, tudo mundo inquietante.
Minha imagem é qualquer coisa abstrata, pintada com tinta fluorescente, que me dê o benefício da falta de insensibilidade alheia, que brilha no escuro de um poço fundo.
Eu sou um artista. Posso não ser compreendido ou ser aclamado gênio por meros traços infantis. Mas se ainda assim o quadro permanece branco, minha arte residirá apenas na moldura. Odeio a perfeição, e qualquer obrigação de dar certo. E porque me empenho tanto pra dar certo, é que odeio mais.
Ouvir música é bom, é como dissipar pensamentos desordenados, pensamentos são carregados, eles têm energia. O som da chuva é uma boa música.
Voltei todo molhado do céu e ainda não me curei da pneumonia. Por dias fiquei sentado em frente a uma cachoeira observando peixes voadores lutarem por águas tranqüilas.
Vi meus pensamentos revoltos, nadando no contrafluxo da razão. Correntes do sul, rosa-dos-ventos, pontos cardeais, qualquer norte sem direção... nadam livres, nadam em cardumes, invasivos.
Minha pele é úmida, isso me refresca o pensamento. Meus pensamentos nadam livres, e nem a malha mais fina consegue deter. Escarro sangue, pensamentos não fecundados. Tento não tremer o frio da chuva que cai aqui dentro.
Eu sou um rio temporário, que corre para a calha mais funda. Afundo, me afogo e nado. Nada parece conseguir me represar. Se chove, transbordo pelas ideias ciliares, e volto arrastando os com fúria os sonhos que não germinaram, os que morreram com sede.
Quando chega a estiagem, engrosso meu caldo. O cardume se espreme e começa a devorar aqueles mais mansos, aqueles mais fracos, que vivem no raso. Sou mar de peixe grande.

Colegas de Foda

Hey now!
All you sinners!
Put your lights on! Put your lights on!
Hey now!
All you lovers!
Put your lights on! Put your lights on!
Miguel e Carlinhos tinham se conhecido através de amigos comuns, numa roda de cerveja, vendo futebol. Miguel era vascaíno e gay assumido, Carlinhos, flamenguista e raparigueiro profissional. Miguel, na verdade, nem gostava muito de futebol, mas gostava de homem, e homem macho, desses que cospem no chão e coçam o saco com ar de cafajeste, e que lugar melhor para encontrar desses espécimes, hoje em dia infelizmente nada raros, que numa roda de cerveja, vendo futebol? Normalmente, Miguel não buscava ali mais que sexo causal e fortuito, mas, naquele dia, foi diferente. Miguel se apaixonou por Carlinhos assim que o viu. Carlinhos, apesar de ser machista, não era homófoba, e, com o tempo, os dois acabaram cultivando uma amizade cheia de companheirismo e afetividade, que deixava o resto da turma desconfiada da heterossexualidade de Carlinhos. Mas ele não se importava, não iria deixar uma amizade tão bacana que nem aquela se acabar por causa de intriga da oposição, como ele dizia, de modo que, com o tempo, os dois viraram unha e carne um do outro. Porém, essa amizade causava muito sofrimento a Miguel, principalmente quando ele tinha que ouvir as confidências de Carlinhos sobre suas conquistas com as mulheres, tudo porque Miguel continuava amando pateticamente Carlinhos. Para Miguel, aquele era o homem de sua vida.
Uma noite, os dois tinham derrubado sozinhos uma garrafa de uísque num bar, e saíram de carro para um outro bar, num movimento bem conhecido da geração risca-faca. O rádio do carro estava ligado baixinho. Começou a tocar "You're My Number One", com Enrique Iglesias e Sandy & Junior.
♫ I've kissed the moon a million times...
Danced with angels in the sky...
No caminho, Carlinhos, que vinha dirigindo, encostou o carro, e disse, puxando o freio de mão:
- Cara, eu tô com uns problemas aí...
- Sério, cara? Quê que é?
- É minha mina... Ela me disse que... eu não faço ela gozar...
- Hum, fez Miguel. Há quanto tempo?
- O quê?
- Há quanto tempo ela não goza contigo, ela disse?
- Disse, essa vaca... Diz que faz uns seis meses.
- Seis meses!!! Caralho... Mas tu não chupa ela não? Me disseram que com mulher é assim, é melhor o cara dar logo o orgasmo dela – porque, agora, elas querem gozar – antes mesmo de largar pau nela. É como diz aquela música, "you gotta lick it, before you stick it", tem que chupar antes de meter, "bará-rará-ra-bum!! Bará-rará-ra-bum"!
- Rapá, eu chupava, mas ela não gostava de retribuir... Aí é foda...
- E aí tu simplesmente parou?
- Foi...
♫You bring me up when I'm' feeling down...
You touch me deep, you touch me right...
- Deixa eu te dizer uma coisa sobre as rachas: nenhuma delas, a não ser se for puta, chupa pau direito. Ou, pelo menos, não tão bem quanto um viado. Parece que elas têm nojo, sei lá...
- Pode crer, as poucas vezes que ela me chupou, ela fez mal e porcamente, parecia mesmo que ela tava era com nojo, sei lá!
♫Troquei mistérios no amanhecer...
Entre os anjos e você...
- Mas aí é que tu devia ter entrado e conversado com ela a respeito. Ah, mas eu esqueci, vocês tão numa relação heterossexual judaico-cristã, onde o conveniente é manter tudo envolto num manto de silêncio e segredos.
- Tu é foda. Eu já conheço esse teu discurso. Mas tu acha que eu não sei que minha mina quer gozar também? Eu posso não ter falado nesse assunto, mas eu me dedicava pra caralho pra dar prazer pra ela, mesmo eu já tando a fim de leitar, eu ficava lá, me segurando, pra ver se dava pra ela esse tal de orgasmo, e ela vem e me diz que não adiantou nada? Foda-se. Passei a meter nela sem dó nem consideração pelos sentimentos dela, só usando o corpo dela pra gozar.
- Como se tu tivesse só te masturbando com o corpo dela...
- Isso.
♫You bring me up when I'm' feeling down...
You touch me deep, you touch me right...
- Bom, o que eu posso te dizer é que, se eu tivesse no lugar dessa racha, eu ia te chupar pra caralho, mano. Ia ficar horas babando nesse teu cacete, engolindo ele todinho, e esfregando minha língua pelo corpo da tua rola, de cima a baixo, enquanto ela ia se agasalhando na minha boca e beijando minha goela com a boquinha da cabecinha...
♫You make me wicked, you make me wild...
- Que porra é essa, Miguel?
- Ainda não acabei. Depois que teu caralho tivesse molhadão com a minha baba, eu ia ficar socando uma punheta irada nele enquanto lambia e engolia tuas bolas, primeiro uma, depois a outra, e, finalmente, engolia as duas ao mesmo tempo, sem parar de te punhetar gostoso...
Apesar da música, que ia terminando, um silêncio ia se impondo no carro depois dessa pérola da retórica pornográfica de Miguel, mas Carlinhos interrompeu esse silêncio, dizendo, meio envergonhado, meio excitado:
- Caralho... Fiquei de pau duro aqui. Ninguém nunca me chupou assim...
♫You bring me up when I'm' feeling down...
You touch me deep, you touch me right...
- Isso não me surpreende. Coisa mais sem graça deve ser uma foda de héteros...
- É agora, Miguel!
- Agora o quê?
- Eu quero experimentar essa parada. Dá cá um beição aqui, porra...
Carlinhos puxou a cabeça de Miguel de encontro à sua, mas este resistiu e recuou, dizendo:
- Nada a ver. Isso entre nós não pode rolar. Não desse jeito.
♫ 'Cause, baby, you're my number one...
Miguel, apesar de ser bicha safada, era extremamente romântico. Na sua cabeça, ele tinha idealizado esse momento com todas as cores ilusórias das letras das músicas estilo "house" da cultura gay pop – e, diga-se de passagem que é contraditório que músicas cujas letras falam de amor sejam feitas especificamente para serem tocadas em dark-rooms, onde o que o impera é a total ausência de qualquer sentimento mais nobre – e teria sido inadmissível para ele permitir que o seu sonho de estar com Carlinhos se concretizasse daquela maneira suja e escrota, no desconforto de um carro, no perigo de uma rua escura, trazendo, no dia seguinte, todas as conseqüências desagradáveis que seguem um ato cometido por impulso, no meio da embriaguez do uísque. E ainda mais com Sandy & Junior de fundo. Por causa dessa filosófica contradição dos termos, ele se negou a beijá-lo.
- Deixa quieto, doido, disse Miguel.
♫ 'Cause, baby, you're my number one...
Carlinhos, porém, não estava a fim de deixar quieto. Ele pegou Miguel à força e tascou-lhe um beijo desesperado na boca. Miguel resistiu no começo, tentou escapar, mas Carlinhos era mais forte que ele, e Miguel acabou desistindo e se deixando beijar. Mas, coisa estranha: à medida que Carlinhos o beijava, Miguel ia sentindo uma espécie de incômodo, não com os braços musculosos que lhe apertavam, ou com o barba mal-feita que lhe machucava a face, mas com a boca que lhe beijava de maneira tão desastrada, lambuzando, com uma língua muito mais humidecida de saliva que o aconselhável, a parte externa dos lábios e, erro fatal, chegando mesmo a ultrapassar sua fronteira, deixando no bigode ralo de Miguel um rastro de cheiro nojento de baba que imediatamente subiu às narinas de Miguel e lhe fez ter vontade de vomitar. Se não tivesse bebido tanto, talvez Miguel tivesse sido capaz de segurar o vômito, mas não foi o caso. Ele se soltou de Carlinhos num movimento brusco, abriu a porta e começou a chamar raul sem a menor cerimônia.
No rádio, começou a tocar "November Rain", do Guns'n'Roses. Fazer o quê, programação da madrugada é assim, só lentinhas pra machucar os corações apaixonados. Ainda mais quando eles estão vomitando a paixão.
♫When I look into your eyes
I can see a love restrained...
Quando Miguel acabou de vomitar, uns dois minutos depois, todo suado, Carlinhos olhava para ele, atônito.
       ♫So if you want to love me

             Then darlin' don't refrain...
- Quer dizer que eu te dou nojo?, perguntou Carlinhos, com um sorriso nervoso, depois de um longo silêncio.
- Não é nada disso, disse Miguel, ofegando. Me dá uma balinha de menta aê, fera...
♫Sometimes I need some time...on my own
Sometimes I need some time...all alone
Uhhhh, everybody needs some time...on their own
Uhhhh, don't you know you need some time...all alone
- Tem um halls aqui, peraê...
- Valeu... Cara, o problema é que..., disse Miguel, pondo a bala na boca.
- É que o quê?
- É que...
- Fala logo, caralho!
- Tu beija mal.
- O quê!?
- É, tu beija mal. Mas isso, na verdade, é bom. Eu tava apaixonado por ti, por isso não queria fuder contigo dessa forma, digamos, improvisada. Mas teu beijo meio que me fez desapaixonar de ti.
- E isso é bom porque...?
- Porque, agora que tu não é mais o amor da minha vida, eu posso fuder contigo em qualquer lugar, em qualquer situação. Na verdade, agora, quanto mais escroto o lugar e a situação, mais tesão eu vou ter e mais prazer eu vou te dar.
♫And when your fears subside
And shadows still remain, uhhhh, yeah!
I know that you can love me
When there's no one left to blay-yayhhh
So never mind the darkness
We still can find a way
'Cause nothin' lasts forever,
Even cold November rain
- Ah, é?, disse Carlinhos, depois de outro longo silêncio.
- É, respondeu Miguel.
No rádio, "November Rain" entrava naquela parte final, em que as guitarras, os teclados e a percussão adquirem um andamento furioso.
- Tem um aterro sanitário bem ali, disse Carlinhos, num tom de quem sugere algo assim como quem não quer nada.
- Toca pra lá, disse Miguel, decidido.
Na manhã seguinte, um urubu, esta criatura pavorosa que é como o mendigo das aves de rapina, rastreando o aterro sanitário em busca de um café da manhã, teve seu paladar inusitadamente refinado pelo férreo sabor de um líquido leitoso, que, com montanhas de lixo por testemunhas e a aurora rubra por juiz, tinha sido cuspido da boca de Miguel, alguns minutos antes, em cima do pedaço de carniça que a ave de rapina ora degustava, depois de ter sido depositado naquela aconchegante conjuração de lábios e maxilares em abundantes jatos expelidos do falo latejante de Carlinhos...