quarta-feira, setembro 16

Nas Entranhas da MPB: Arthur Verocai (1972)

Existiram em vários momentos da história da música, assim como da arte em geral, artistas que não foram compreendidos, quando do lançamento de seus trabalhos pioneiros. De qualquer modo, com o reconhecimento tardio desses artistas sui generis através da redescoberta de sua obra, um prazer imenso e significativo se origina, em primeiro lugar, para os artistas menosprezados, já que podem reviver sua obra e gravar novos materiais (caso ainda estejam vivos). Em segundo lugar, o benefício para a nova geração é incomensurável, uma vez que jovens músicos podem absorver as ideias/inovações desses artistas resgatados dos "mares obscuros do esquecimento". Arthur Verocai, um compositor e arranjador carioca com formação em Engenharia Civil, é um exemplo de músico, cujo trabalho foi relegado por muitos anos quase ao esquecimento. Quando enveredou-se em gravar um álbum, Verocai já tinha feito arranjos para Célia, MPB-4, O Terço, Jorge Ben Jor, Ivan Lins, entre outros. Excepcionalmente, a formação musical de Verocai perpassa pela Bossa Nova, Jazz, Música Erudita, Frank Zappa, Beatles e uma leva de estilos, que misturou em seu fazer artístico. Prova disso é o caldeirão de influências musicais apresentado no álbum homônimo, Arthur Verocai, lançado em 1972, que trataremos no presente texto.
Abrindo com majestade o primeiro disco de Verocai, "Caboclo" tem uma pitada folk, com ares de Crosby, Stills, Nash & Young, cuja sonoridade produzida pelo grupo era muito apreciada por Verocai. Há na canção a presença pioneira de sintetizadores em uma gravação de disco brasileiro. A letra, assim como as demais do disco (exceto uma) são de autoria de Vítor Martins, transborda de metáforas poéticas. A faixa seguinte, "Pelas Sombras", cantada por Luiz Carlos Batera, apresenta uma mistura de jazz e funk, com direito a um passeio melódico ao saxofone. A introdução ao piano é de uma fineza profunda. Em seguida, a instrumental "Sylvia" exala exuberância melódica, desfilando em sintonia fina pela canção, onde há violão, baixo, trompetes, flauta, percussão, violas, violinos e violoncelos. Logo depois, "Presente Grego" transborda funk e soul, tendo a companhia de uma guitarra com pedal wah-wah. A letra dessa canção tem forte referência à ditadura militar brasileira, considerada por Verocai como um cavalo de Tróia para o Brasil. A seguir, "Dedicado a Ela" (composição de Verocai com Paulinho Tapajós) tem uma das introduções mais belas do álbum. Continuando as preciosidades sonoras, a intérprete Célia canta a belíssima "Seriado". Um dos destaques do álbum é "Na Boca do Sol". Esta foi muito utilizada em samplers pelos rappers americanos, que tiraram do limbo quase trinta anos depois o álbum de Verocai. A letra singela de Vítor Martins traz à mente as saudades e lembranças da vida em cidades interioranas. A influência de Milton Nascimento - o Pelé da Música, conforme Verocai - se faz presente na canção "Velho Parente", cantada por Toninho Horta, Gilda Horta e Toninho Café; enquanto a influência da Bossa Nova comparece na faixa "O Mapa". Encerrando o álbum, o experimentalismo jazzístico toma as rédeas em "Karina", tendo em destaque a guitarra de Hélio Delmiro, o sax de Nivaldo Ornellas e o trombone de Edson Maciel.
Quando do lançamento do seu primeiro álbum solo, Arthur Verocai foi taxado até de maluco. As vendagens do disco foram irrisórias e a repercussão foi mínima no ambiente musical da época. Verocai, decepcionado, seguiu para o mundo dos jingles comerciais. A redescoberta do disco, principalmente pelos DJs e rappers americanos, trouxe uma aura de gênio para Arthur Verocai e proporcionou ao maestro e arranjador carioca um concerto em Los Angeles, com direito a lotação máxima, para executar livremente seu álbum de 1972. Com louvor, seu primeiro álbum solo, hoje em dia, é reverenciado em várias partes do mundo e, merecidamente, deve estar entre os melhores álbuns da década de 70 e da música brasileira, sem piscar os olhos.
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