quinta-feira, setembro 10

Nas Entranhas da MPB: 20 Palavras Girando ao Redor do Sol

Muitos artistas formidáveis são não propalados no meio musical, por mil motivos. Cátia de França é uma destas artistas sublimes que a mídia hegemônica do Brasil prefere ocultar, para a tristeza de muitos amantes da excelente música brasileira. A cantora e compositora paraibana Cátia de França - toca piano, violão, sanfona, flauta e percussão - tem, em seu trabalho de composição, uma fortíssima ligação com os escritores nordestinos José Lins do Rego, Graciliano Ramos e com o poeta João Cabral de Melo Neto. Além disso, a música nordestina de raiz tem grande impacto em seus afazeres artísticos. Participou de alguns festivais de música popular e de um grupo folclórico na década de 60, mas somente na década de 70 gravou o primeiro disco. Entrando em contato no Rio de Janeiro com outros artistas nordestinos, como Zé Ramalho e Sivuca, Cátia grava em 1979 20 Palavras Girando ao Redor do Sol - disco extremamente relacionado à poesia de João Cabral de Melo Neto.
20 Palavras (daqui por diante), produzido por Zé Ramalho (que toca viola de 12 cordas em quase todas as faixas), abre com "O Bonde". Inicialmente, cantarolando com majestade, Cátia entoa "lá vai", aí começa o ritmo fascinante produzido por instrumentos recorrentes na música nordestina, como zabumba, caxixi, agogô e triângulo. A letra traz reminiscências de José Lins do Rego. Em seguida, "Quem Vai, Quem Vem" desfila a percussão ritmada e a poética sóbria de Cátia, que utiliza trechos de poemas de João Cabral. Logo depois, a canção "20 Palavras Girando ao Redor do Sol" (com trechos do poema "Graciliano Ramos" de João Cabral), que dá título ao álbum, chega com o modo de falar dos nordestinos e com poesia pura a tilintar nos ouvidos. A terceira faixa, "Djaniras", é uma composição de autoria de Cátia com Israel Semente e Xangai. Nessa canção, há trechos retirados do Grande Sertões: Veredas de Guimarães Rosa. Destaque no álbum "Kukukaia", sucesso na voz de Elba Ramalho, tem elementos esotéricos do mundo cigano. O título da canção refere-se à disputa de liderança num grupo cigano. A canção fez parte da trilha sonora do filme "Cristais de Sangue" de Luna Alkalay. A seguir, "Itabaiana" é uma canção em homenagem ao município de Itabaiana, localizado no estado da Paraíba, enquanto "Porto de Cabedelo" transborda lembranças sutis do porto na enseada de Cabedelo, um outro município da Paraíba. Um dos pontos altos do álbum, "Ensacado" é um poema de arrebatamento, com letra do poeta Sérgio Natureza. Outro destaque, a poética "Coito das Araras", cujo título era uma fazenda em Minas Gerais, é entremeada no mundo literário do escritor Guimarães Rosa. Essa canção tem duas partes bem definidas: uma com melodia lenta, outra com melodia mais acelerada. Na canção seguinte, "Os Galos", a flauta tocada por Ricardo Mattos é de uma beleza ímpar. A próxima faixa, "Sustenta a Pisada", traz a participação de Bezerra da Silva no berimbau. Para encerrar o álbum, o baião "Eu Vou Pegar o Metrô" (composta com Lourival Lemes) apresenta a sanfona encantadora do mestre Dominguinhos.
Deve-se reverenciar calorosamente o primeiro disco de Cátia de França, onde se destacam as participações de músicos do calibre de Dominguinhos, Sivuca e Severo (na sanfona); Sérgio Boré e Chico Batera (na percussão); Lulu Santos (na Guitarra); Amelinha e Elba Ramalho (no vocal de apoio). É Impressionante que das doze composições presentes no disco, há nove com a assinatura somente de Cátia de França, enquanto as outras três foram feitas com parceiros. Em verdade, 20 Palavras é um disco emblemático na música popular brasileira e deve estar necessariamente na lista dos melhores álbuns do Brasil, ao lado dos trabalhos de Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Fagner, Alceu Valença, Geraldo Vandré, entre outros grandes nomes da música nordestina.

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