quarta-feira, julho 22

Crônicas de Amores Noturnos

III. Uma Noite no Anel Viário

       Era uma noite suave, suave como uma navalha afiada pele adentro. As estrelas sussurravam mansamente no céu em colapso e as árvores dançavam ao som do vento quente. A noite prometia. Promessas de prazer acampavam as ruas e esquinas. E pensar que, numa sexta-feira à noite, eu estava em casa, num quarto macilento, deitado em uma cama de solteiro. Que tristeza!
         Na minha cama dura, eu estava descansando de uma jornada de trabalho massacrante num stand de vendas, quando um amigo de longa data, chamado Simplício, me ligou. Ele me convidou para beber no Anel Viário, um lugar repleto de bares que tocavam brega e reggae do bom, onde motoristas de coletivos e operários em geral vão desfrutar a noite. Em alguns bares (na verdade, parecem mais com quiosques), havia mesas de sinuca. Devo confessar que sinuca é um dos meus vícios prediletos. Eu já perdi muito dinheiro em apostas, jogando sinuca até o amanhecer. Em outras ocasiões, eu ganhei também, para lamentação dos meus adversários. Nossa! Quando Simplício disse que queria jogar sinuca, eu pulei da cama como um raio. Esqueci, na certa, o cansaço e fui correndo tomar um banho. Poxa! Seguindo para o banheiro, lembrei que prometi para mim que iria dar um tempo na bebida. Nos últimos tempos, eu parecia Ben Sanderson, do filme Despedida em Las Vegas, com direito a vômitos constantes, amnésias alcoólicas e vexames aleatórios.
        Sem pensar muito, liguei imediatamente para um mototáxi. O mototaxista era um conhecido meu. Marquei com ele a hora e, ouvindo Velvet Underground no toca-discos, fui me vestir às pressas, já que o Anel Viário fica um pouco distante de minha casa. Tropecei, saindo do quarto, nos livros de Henry Miller e Rubem Fonseca amontoados no chão. Na hora marcada, ouvi as buzinas de uma moto na frente de casa. Saí, mas antes eu dera comida para meus peixes ornamentais. Subi na moto. No caminho, o mototaxista e eu conversamos bastante. Aliás, Raimundo, o mototaxista, me despejou durante o trajeto todos seus problemas familiares. Ele pretendia se separar da esposa, alegando o ciúme extremo da companheira. É a vida como é!
          Ao chegar no Anel Viário, falei para Raimundo colocar a viagem na conta. Segui diretamente para o bar, onde Simplício e eu costumamos beber. Simplício já estava conversando numa mesa com a garçonete. Ela era bonita para os padrões do Anel Viário. Simplício levantou quando me viu. Apertou minha mão e me convidou para beber uma cerveja gelada. Cumprimentei com bastante afinco a nova garçonete, chamada Joana. Juro que me encantei pelos olhos serenos de Joana. Acho que a antiga garçonete foi despedida ou algo do tipo. Agora, Joana era a dona do pedaço.
          Reparando a intimidade cadente entre Joana e Simplício, vi que o danado já estava em vias de fato para conquistar Joana. De vez em quando, ele sussurrava algumas coisas no pé do ouvido dela. Ave Maria! Nunca conheci um sujeito que conquistou mais garçonetes como Simplício. Ajuda demais os olhos verdes dele. As garotas dizem que ele parece com John Travolta. Ele é viciado em chorinho e música clássica. Um dia, ele me contou que transou com uma dona ouvindo a nona sinfonia de Beethoven. Putz! Me lembrei na hora de Laranja Mecânica. No toca-discos do carro dele, só se ouve música clássica. Curiosamente, ele vive falando para todo mundo que a música clássica aumenta em 5% a inteligência de um indivíduo. Vai saber!
           Fiquei triste quando vi que a mesa de sinuca estava ocupada. Havia dois indivíduos pálidos jogando de maneira bem tosca, sem qualquer técnica ou habilidade. Enquanto isso, aproximou-se de nossa mesa um cara vendendo relógios, celulares e canivete. Eu sabia que todos os objetos eram resultado de roubo. O cara insistiu na venda, dizendo que precisava alimentar quatro bocas. Na verdade, fiquei deveras interessado no canivete multiuso, mas eu não tinha condições de comprá-lo. Por fim, argumentei firmemente para o cara que eu não tinha nenhum puto no bolso e que Simplício pagaria a conta do bar ou deixaria pendurada. Quando o cara dos objetos roubados fui-se embora, Simplício falou comigo:
- Porra, José! Não dá corda para esses caras. Eles são um saco. - enchendo, logo em seguida, seu copo quase vazio.
- Que nada, Simplício! É um passatempo conversar com gente assim.
          Joana levantou-se para atender uma mesa. Após uns minutos, ela trouxe mais uma garrafa de cerveja para nossa mesa. Ao colocar cerveja no meu copo, Joana falou-me radiante:
- José, no final do meu expediente, vamos sair nós quatro. Uma amiga minha está vindo pra cá. O nome dela é Sônia.
- Oba! Tô dentro! Tudo que eu quero é comida, diversão e arte. - Simplício deu um leve sorriso, depois que eu falei.
- Acho que vamos para a Litorânea. - falou Simplício, passando a mão na cintura de Joana. 
           Quando os dois sujeitos saíram da sinuca, convidei Simplício:
- Você está pronto para uma surra?
- Se eu perder pra ti hoje, eu mudo meu nome!- Enquanto Simplício falava, Joana passava a mão nos cabelos lisos dele. Cara de Sorte! Vai ser sortudo assim na China!
           Levantamos e transportamos a cerveja e os copos para a sinuca. Escolhi um bom taco. Passei giz e me dirigi para recolher as bolas que Simplício jogava em cima da sinuca. Simplício deu partida. Sempre jogamos, até os dias atuais, par e ímpar. Tiramos a bola um. Quem encaçapar a primeira bola, fica o jogo inteiro responsável em derrubar as bolas do domínio, ou seja, se ele encaçapar uma bola ímpar, ele tem que derrubar todas as bolas ímpares durante o jogo, enquanto eu tenho que me virar para derrubar todas as bolas pares com o objetivo de vencer. A mira de Simplício é infalível. Toda vez eu tenho que dificultar o jogo dele, armando meu jogo com inteligência e perspicácia. Eu gosto realmente é de armar minhas bolas bem próximas à boca da caçapa e colocar Simplício em maus lençóis, encurralando-lhe sem dó.
           O jogo estava empatado em quatro a quatro, no momento em que Sônia chegou. Largamos a sinuca e nos dirigimos para nossa mesa. Joana me apresentou Sônia. Dei-lhe um beijo no rosto, dizendo-lhe que foi um prazer imenso conhecê-la. Sônia era uma morena clara, cabelos encaracolados, com altura mediana e belos seios. Não era nenhuma oitava maravilha do mundo, mas valia a pena. Puxei uma cadeira para que ela sentasse próximo a mim. Servi-lhe um copo de cerveja. Com os quatro sentados naquele bar às altas horas, não sei porquê me veio à mente o filme Noite Vazia. Já era hora da Joana fechar o bar. Joana foi fazer a contabilidade com a dona do quiosque, enquanto eu perguntava algumas coisas básicas para Sônia: Quantos anos você tem? Onde você mora? etc.
           Após quase cinquenta minutos, Joana terminou o serviço de contabilidade. Entramos no carro e partimos para a Litorânea. Fomos para o fim da Litorânea. Simplício dirigiu com lúcida embriaguez. Ao chegar no ponto pretendido, Sônia e eu descemos, Simplício e Joana ficaram dentro do carro a ouvir alguma peça de Liszt. Convidei Sônia para ir à beira da praia deserta. Peguei a mão dela. Ficamos nos encarando. De repente, não mais que de repente, dei-lhe um beijo avassalador. O beijo durou alguns minutos sob a lua desnuda sem nuvens. Comecei a tirar minhas roupas ao me aproximar mais da água, que já batia nos meus pés. Joana me seguiu no empreendimento. Fiquei de cueca e ela, de calcinha e sutiã. Caímos lepidamente na água. Estávamos um tanto embriagados. Uma onda derrubou Joana. Ela emergiu, caindo num riso cavalar. Eu lhe abracei, beijando seus lábios carnudos docemente. Ficamos excitados... Não demorou muito para que transássemos ali mesmo dentro da água, esquecidos de todos e do mundo.