segunda-feira, setembro 29

Três é Demais: Mutantes

Para o ateu psicodélico Arnaldo Baptista

Às vezes, o Brasil não reconhece seus próprios artistas, não cultua com a devida proporção os artistas pioneiros que transgrediram o status quo e que revolucionaram o cenário musical com genialidade e inovação. Com certeza absoluta, um grupo que deve ser incessantemente venerado é os Mutantes - uma das bandas mais importantes da música brasileira ao lado dos Secos & Molhados e Novos Baianos -, que é/foi cultuado por David Byrne, Peter Gabriel, Kurt Cobain, Sean Lennon, Beck e outras personalidades do mundo afora. Com efeito, Mutantes é sinônimo de qualidade musical nos Estados Unidos e na Europa. O nome da banda adveio, por sugestão de Ronnie Von, do livro de ficção científica "O Império dos Mutantes" (La Mort-Vivant) de Stefan Wul, obra famosa no Brasil na década de 1960. Inicialmente, os Mutantes eram constituídos pelos excêntricos irmãos Baptista, Arnaldo (baixo, teclado, vocal) e Sérgio Dias (guitarra, vocal), e pela cativante Rita Lee (vocal, flauta), compondo o grupo mais inovador do rock 'n' roll tupiniquim. Por trás dos Mutantes, há duas personagens essenciais: o maestro Rogério Duprat e Cláudio César (irmão-inventor dos Baptistas). O primeiro é considerado o George Martin brasileiro e o segundo é um grande luthier e Professor Pardal que construía para a banda inúmeros instrumentos eletrônicos, tais como caixas acústicas, pedais de distorção e amplificadores. Tanto Duprat como Cláudio foram importantíssimos para o desenvolvimento musical de Rita, Arnaldo e Sérgio. Isso ajudou o grupo a rivalizar em criatividade com os grupos dos EUA e da Inglaterra. No catálogo dos Mutantes, há álbuns extremamente geniais, a começar pelo homônimo lançado em 1968 em pleno período da Psicodelia e sob o sol da Tropicália. Em 1969, veio a lume o segundo disco, dando continuidade às pérolas sonoras. Com o álbum "A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado" de 1970, Arnaldo e companhia atingiram o El Dourado da música.
Abrindo com chaves de ouro "Os Mutantes" de 1968, a composição de Caetano Veloso e Gilberto Gil, "Panis et Circenses" tem todo um mostruário de tropicalismo e irreverência. Com um arranjo fabuloso de Duprat, essa canção está entre as melhores da música brasileira. Em seguida, "A Minha Menina" - composição de Jorge Ben - é uma das canções mais conhecidas dos Mutantes pelo mundo. O próprio Jorge Ben toca violão nessa faixa, que apresenta ainda um som de guitarra bastante psicodélico de Sérgio Dias. Com a balada "O Relógio", o trio mutante arregaça as mangas em uma composição própria. O canto de Rita Lee nessa canção é bastante singelo. Na sequência, a releitura do baião de Humberto Teixeira e Sivuca, "Adeus, Maria Fulô", tem a experimentação característica dos Mutantes: canto de passarinhos, cuíca, xilofone, batidas em objetos de vidro, etc. A peculiaridade nessa canção é que não há a presença de sanfona e nem de guitarra. Caetano Veloso mais uma vez dá o ar da graça na composição em "Baby", que é um dos pontos fortes do álbum. A guitarra ácida de Sérgio Dias é o carro-chefe dessa faixa cantada por Arnaldo. Com mais uma canção autoral, "Senhor F", os Mutantes expõem o lado hilário/crítico da banda. As mudanças de ritmo também são uma marca peculiar no som do trio paulista, além do uso de instrumentos não convencionais. "Bat Macumba" (composição de Caetano e Gil), despeja ritmos de candomblé aliado à guitarra delirante de Sérgio Dias. Logo depois, Rita canta o clássico francês "Le Premier Bonheur du Jour", na qual o grupo utiliza uma bomba de inseticida para fazer papel do chimbau. Com forte experimentação no arranjo e quebras de ritmo, a nona faixa "Trem Fantasma" (composição de Caetano e dos Mutantes) abre como uma banda de pífanos. Rita canta essa canção em parceria harmoniosa com Arnaldo. A faixa seguinte "Tempo no Tempo" é uma versão de “Once Was A Time I Thought” do The Mamas & The Papas. A letra dessa versão teve ajuda do pai-poeta de Arnaldo e Sérgio, César Baptista, que faz uso constante de aliterações.  Em "Ave Gengis Khan", o solo de guitarra tresloucado de Sérgio e o teclado alucinado de Arnaldo encerram o debut. Com produção de Manoel Barembein e fortemente influenciado pelo Beatles da fase psicodélica, os Mutantes estrearam com um álbum espetacular, unindo pop e rock com música erudita (graças ao maestro Duprat). O álbum de estreia do grupo foi eleito pela revista MOJO um dos discos mais inovadores da história.
    O segundo trabalho de inéditas dos Mutantes de 1969 é uma continuação criativa do primeiro álbum. O trio afastou-se da dupla Caetano-Gil para se aproximar do tropicalista Tom Zé. Iniciando o álbum com "Dom Quixote", novamente com a ajuda do pai-poeta de Arnaldo na letra repleta de aliterações, o arranjo de Duprat mergulha na temática quixotesca. A guitarra excepcional de Sérgio Dias é um dos destaques nessa faixa. Na sequência, "Não Vá Se Perder Por Aí" é uma composição de Raphael Vilardi e Tobé, dois velhos conhecidos do trio mutante. Essa canção tornou-se clássica na mãos do grupo, com direito a um som espetacular de guitarra por parte de Sérgio Dias e um trabalho fino de vocal de Rita e Arnaldo. Em seguida, "Dia 36" apresenta o efeito eletrônico na voz de Rita criado por uma engenhoca de Cláudio César. O rock psicodélico-caipira "Dois Mil e Um" é uma joia seminal, que mistura viola caipira com guitarra. Nessa composição dos Mutantes e Tom Zé, Rita e Arnaldo em parte cantam de forma a reproduzir o modo de falar caipira.  Na sequência, a cativante "Algo Mais", ecoando paz & amor, traz as conhecidas mudanças de ritmo e o trabalho competente de vocal do grupo. Para muitos, "Fuga N° 2" é uma das melhores canções dos Mutantes. Isso muito se deve ao arranjo esplêndido de Rogério Duprat. Depois, há a releitura mutante da canção eternizada por Celly Campello, "Banho de Lua" - hino da jovem guarda. A faixa "Rita Lee" tem influência velada dos Beatles enquanto a lisérgica "Mágica" é uma fusão de sons extravagantes, tendo no final referência explícita a "(I Can't Get No) Satisfaction" do Rolling Stones. Com mais uma composição creditada a Tom Zé e Mutantes, "Qualquer Bobagem" é uma peça de ouro de quilate infinito. Rita, com sua técnica no vocal, canta gaguejando essa canção acompanhada com o teclado rasgante de Arnaldo. Para finalizar o álbum, "Caminhante Noturno", de autoria de Rita / Arnaldo / Sérgio, é uma canção muito "viajante" e com letra poética. No álbum com a produção novamente de Barembein, há a participação do baterista Dinho Leme (irmão do comentarista de corridas automobilísticas Reginaldo Leme) e do baixista Liminha, que viria a ser um grande produtor musical.
O terceiro álbum do grupo paulista é "A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado", lançado em 1970. A abertura realizada por "Ando Meio Desligado" desfila a guitarra de Sérgio alinhada com a percussão de Naná Vasconcelos. O teclado freak de Arnaldo também faz parte do show, além do vocal magnífico de Rita. Preste atenção ao final no solo estupendo de guitarra. Em seguida, "Quem Tem Medo de Brincar" apresenta o vocal criativo de Rita, as mudanças de tempo característicos e as experimentações sonoplásticas da banda. Em "Ave, Lúcifer" - um verdadeiro poema -, os Mutantes fazem referência ao famoso livro de Dante Alighieri, "A Divina Comédia". Na sequência, "Desculpe, Babe" é uma das melhores canções da carreira da trupe mutante. Tudo funciona em perfeição nessa faixa: a guitarra de Sergio, os vocais de Arnaldo e de Rita e a percussão novamente de Naná Vasconcelos. "Meu Refrigerador Não Funciona" dá dicas da futura sonoridade calcada no rock progressivo que a banda embarcaria nos anos vindouros. Parece que no vocal Rita faz uma homenagem a Janis Joplin. O trabalho instrumental nessa canção é de causar arrepios. A próxima faixa, "Hey Boy", é um rock no feitio da década de 1950, criticando a vida burguesa inútil dos jovens. A canção da dupla Roberto-Erasmo, "Preciso Encontrar Urgentemente um Amigo", entra no álbum para mostrar a versatilidade de Sérgio Dias na guitarra e o teclado majestoso de Arnaldo. A regravação com toque hilário de "Chão de Estrelas" - clássico de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa - é um dos momentos altos do álbum. A começar pelo canto choroso de Arnaldo, a experimentação ocorre em sintonia com a letra. Logo depois, "Jogo de Calçada" não deixa o som diminuir e nem a qualidade. O início dessa faixa aparenta um ritmo de capoeira, enquanto "Haleluia" parece com um hino psicodélico. Para encerrar o álbum, "Oh Mulher Infiel" é uma jam session alucinada e caótica, na qual Arnaldo dilacera o órgão Hammond e Sérgio ejacula sons titânicos de sua guitarra envenenada, acompanhados pela bateria nervosa de Dinho e o baixo de Liminha. Um verdadeiro Gran Finale. O álbum bastante autoral da banda foi produzido por Arnaldo Sacomani e tendo efetivamente Dinho Leme e Liminha como integrantes constantes não creditados. De fato, esse álbum está entre os melhores da produção dos Mutantes, com um desfile formidável de canções laboriosamente esculpidas. Arnaldo e companhia se superaram técnica e criativamente no genial "A Divina Comédia ou ...".
Sem sombra de dúvidas, Mutantes está entre as grandes bandas da história. A mistura de rock com música brasileira (tal como samba, baião, música caipira, etc.) e arranjos eruditos fazem deles um dos grupos mais originais e criativos do mundo, levando em conta que se encontravam no Brasil mergulhado na Ditadura Militar, que podava energicamente os artistas naquele momento negro de nossa história. Com efeito, Mutantes não devia em nada comparado aos grupos estrangeiros. Verdadeiramente, eles fizeram uma música universal, que merece ser cultuada nos quatro cantos do mundo e principalmente com mais intensidade no próprio Brasil. A influência dos Mutantes na música brasileira é avassaladora. Artistas e bandas como Pato Fu, Mopho, Chico Science & Nação Zumbi e Zeca Baleiro (só para citar alguns) devem imensamente aos Mutantes. Também, cantoras como, por exemplo, Fernanda Takai e Paula Toller devem favores eternos ao talento inconteste de Rita Lee. Indiscutivelmente, Mutantes é uma das maiores criações artísticas do Brasil.
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