quarta-feira, setembro 17

Uma Vida de Rilke

     Há alguns anos, fui com um amigo a um sarau de poesia à noite no Centro Histórico de São Luís. Levei para recitar um dos meus melhores poemas que eu tinha escrito até aquele momento. O sarau seria num prédio antigo. Tinha sido organizado por um poeta das antigas que objetivava reerguer a cena poética na capital maranhense. Havia muitos poetas, escritores e entusiastas. Quase todos tinham copos de bebida na mão. Meu amigo Artur e eu levamos uma garrafinha de Sapupara. Notei também que havia uma senhora já de idade avançada, beirando setenta anos. Na hora marcada, o sarau começou com a recitação de um poema bem vagabundo. Aplaudiram com entusiasmo, mas pensei instantaneamente que merda era essa que estavam aplaudindo. Alegremente, o poeta que havia recitado o poema falou sobre sua trajetória na poesia. Atentei que ele não falou em momento algum de bebida. Fiquei logo desconfiado desse pseudopoeta, já que Artur e eu tínhamos na cabeça o lema de Baudelaire: "Embriagai-vos, sem cessar! De vinho, de poesia, ou de virtude, como achardes melhor". O dito poeta nem estava embriagado de vinho nem de poesia. Sua única virtude era estar embriagado de hipocrisia. Falei em voz baixa para Artur:
- Cara, vamos sair daqui. Vamos beber no Senzala.
- Espera um pouco, Estefânio. Há outros poetas que vão recitar. Temos a noite toda pra beber. Além disso, fomos convidados para recitar. - Artur falou já abrindo a garrafinha de Sapupara e me passando um copo de vidro com a boca quebrada.
    Em seguida, um poeta bem jovem, tão jovem quanto Artur e eu, recitou um belo poema com teor social à ilha de São Luís, que eu gostei muito. A senhora anciã aplaudiu com vigor. Olhei para ela e sorri. Ela me respondeu com um sorriso forçado. Artur estava perto de um poeta obeso que recitaria o terceiro poema. Esse poeta obeso se levantou com dificuldade. Deu um gole ligeiro na bebida que estava em seu copo. Acendeu um cigarro e começou a recitar uma elegia, que quase me fez chorar de raiva. Artur me beliscou e disse com fúria nos olhos:
- Mais uma dessa e vamos para o Senzala. Eu juro!
    Houve uma pausa para que os convivas no recinto pudessem interagir. Eu me aproximei de um cara que estava com uma garrafa de vinho na mão. Pedi para ele colocar um pouco no meu copo com cachaça. Depois, passei a vista pelo local. A senhora anciã estava me encarando fixamente. De novo, eu sorri para ela. Ela respondeu erguendo um leque bem florido. Vi que Artur estava atacando uma poetisa - velha conhecida das nossas jornadas noturnas. Ele tinha um grande tensão nela. Enquanto isso, aproximei-me da anciã, estendendo minha mão e apresentando-me. Ela falou:
- Você gosta muito de anéis, meu jovem. - Ela olhou para a minha mão com anéis nos cinco dedos. - Eu me chamo Cícera. Você vai recitar?
- Sim, serei o último. Meu amigo irá recitar antes de mim. - Falei olhando para o leque dela. Estendi a bebida para ela. De pronto, ela recusou. Acho que foi uma vacilada minha. Após um pouco de silêncio, ela perguntou:
- Onde você mora, meu jovem?
- Eu moro no Paço do Lumiar. Sou um poeta, um bardo. Na verdade, sou um goliardo. Saio a cantar o vinho e as mulheres. Também, critico a Igreja e ando em bibliotecas públicas. - Respondi sereno. Dei uma golada na bebida misturada. Fiz uma cara feia quando a bebida desceu pela garganta.
- Goliardo? Eu conheço a história dos goliardos. Eu fui professora de História da Universidade Federal por muitos anos. Você parece uma pessoa interessante, meu jovem. - Ela disse abanando-se com o leque, já que fazia calor no recinto. Artur se aproximou, colocando mais Sapupara no meu copo.
- Artur, quero te apresentar Cícera. - falei enquanto Artur enchia meu copo. - Cícera, quero que você conheça meu amigo Artur. Ele também é poeta.
- Muito prazer, Artur. Estefânio me disse que você vai recitar daqui a pouco. - Falou educadamente Cícera, abanando-se novamente.
- Sim, vou recitar um poema erótico. Se a senhora não se importar, vou falar muito em buceta na hora da minha recitação. - Artur falou sem qualquer decoro.
- Eu não me importo, meu filho. Fique à vontade. - disse Cícera elegantemente.
    O intervalo recreativo estava quase acabando. No recinto, propagavam-se risos cavalares. A alegria da bebida tinha se disseminado. Voltamos para os nossos respectivos lugares. A bebida misturada não me agradou muito, então dei logo uma golada para acabar com tudo. Espontaneamente, Artur colocou mais Sapupara no meu copo. Cícera foi para a sacada. Talvez para pegar um pouco de ar. O próximo a recitar seria Artur. Vi que Artur foi meio cambaleante para o centro do recinto. Tínhamos já "madrugado" no dia seguinte. Ele recitou o poema erótico olhando para a poetisa tesuda. Quando Artur acabou, houve aplausos calorosos. Eu assoviei fortemente. Meu assovio ecoou pelo recinto. Em seguida, eu levantei para declamar meu poema. Comecei gesticulando bastante. Era um poema surrealista-escatológico com grande impacto visual. Chamava-se "Apocalipse de Dante". Quando eu terminei, me joguei no chão simulando uma possessão xamânica como Jim Morrison fazia nos shows do The Doors. O pessoal presente no sarau aplaudiu, mas acharam minha atitude um pouco extravagante. Ao voltar para meu assento, Artur falou:
- De onde tu tirou esse poema, cara? Puta que pariu! É um poema do caralho.
- Eu tive uma visão sobre o fim do mundo. - respondi meio suado.
    O sarau acabou. Alguns falaram comigo na saída. Naquele momento, eu só queria ir para o Senzala, jogar sinuca e beber até começar o Tambor de Crioula na praça da Faustina. Cícera veio me cumprimentar. Ela me falou que meu poema tinha causado um certo medo nela. Após uma conversa fiada, ela pegou meu telefone. Na despedida, ela me presenteou com o leque. Depois disso, Artur e eu partimos sem demora para o Senzala.

                                                                   ***

    Comecei um relacionamento com Cícera. Achei curioso que ela não tinha filhos. Ela morava na Ponta da Areia, em um apartamento muito chique. Eu me mudei para lá com grande desgosto dos meus pais. Dali por diante, Cícera seria minha mecenas. Ela iria me abastecer com bebida, enquanto eu iria abastecê-la com sexo. Não me importava nem um pouco com os amigos e parentes de Cícera que me chamavam de gigolô. Eu fazia tudo isso pela poesia, simplesmente pela poesia. Tinha no meu pensamento que depois eu sairia a vagar pela Europa. Para falar a verdade, eu objetivava uma vida de andarilho, tal como a vida de um dos meus poetas prediletos: Rainer Maria Rilke. Eu queria ter uma vida de Rilke.
    Mas a vida é dura. Passei por poucas e boas. Cícera exigia muito de mim. Era sexo pela manhã, tarde e noite. Ela tinha um vigor extraordinário para uma senhora da idade dela. Apesar disso, o relacionamento era proveitoso para mim. Culturalmente, Cícera era muito versátil. Por exemplo, ela me apresentou o jazz de Chet Baker, o chorinho de Joaquim Callado e a música clássica de Sergei Rachmaninoff. Com sinceridade, o relacionamento também era proveitoso para Cícera. Por exemplo, eu acompanhava ela ao banco quando ela ia receber a aposentadoria.
    Um certo dia, para minha surpresa, Artur me visitou à noite. Cícera tinha ido a uma festa de aniversário de uma amiga. Eu não quis ir. Preferi ficar no apartamento. Vendo-me, Artur falou com espanto:
- Cara, tu tá muito magro. Tu tá parecendo aquele cara do filme "O Operário". Desse jeito tu vai sumir, goliardo.
- Sim, eu já emagreci 8 quilos em quatro semanas. Cícera vai me matar de tanto sexo. Tô comendo muito ovo de codorna. - Falei passando as mãos pelas minhas costelas.
- Tá louco, Estefânio! Ela é uma "sexogenária"? Ela é maníaca assim por sexo?
- Tô falando a verdade, Artur. Só falta ela ser sadomasoquista. - Artur sorriu. Perguntei-lhe. - Tu quer alguma bebida?
- Sim, como não. O que tem aí de bom?
- Tem vodca, uísque e champanhe.
- Porra, tu subiu de nível mesmo. Antes tu bebia só cachaça com alto teor etílico. Quem te viu, quem te vê. Eu quero vodca, Sir. - Falou Artur balançando a cabeça. Eu servi a vodka para mim e para Artur. Um instante depois, eu falei:
- Cara, fazia um bom tempo que eu não te olhava.
- É mesmo. Temos que ir no Senzala. - disse Artur passeando os olhos pela sala do amplo apartamento.
- Sim, com certeza. Qualquer dia iremos. Hoje eu não posso, pois eu tô recuperando as energias. Se eu morrer tu já sabe que quero meu velório ao som de "The Killing Moon" do Echo and The Bunnymen e o enterro ao som de "The Eternal" do Joy Division
- Posso te dar um conselho, Estefânio? Larga essa velha. Ela tá te matando, cara. - Artur me advertiu como um bom amigo. Em seguida, eu retorqui com profunda sinceridade:
- Eu não posso, Artur. Sinceramente, não posso deixar Cícera agora. - Ao responder, pensei na vida de Rilke. - Faço tudo isso pela poesia, simplesmente pela poesia, meu irmão.
    Realmente, a vida é dura mesmo...