terça-feira, dezembro 3

A Trilogia das Cores e o Cinema Metafísico de Kieslowski


Por Paulo Dias
         Krzysztof Kieslowski foi o responsável, ao lado de Andrzej Zulawski, Roman Polanski e Andrzej Wadja, pela ascensão do cinema polonês no cenário mundial. A carreira inicial de Kielowski está vinculada aos documentários com teor político sobre a classe proletária inserida no sistema socialista-comunista da Polônia. Fato é que o diretor e roteirista polonês destacou-se somente em âmbito internacional com sua obra monumental “O Decálogo” - uma série composta por dez filmes curtos baseados nos Dez Mandamentos bíblicos. Com efeito, dois filmes da série transformaram-se em longas-metragens de sucesso: “Não Amarás” e “Não Matarás”.
         Conceitualmente, Kieslowski representa um cinema de detalhes e com foco metafísico, entremeado com as questões sociopolíticas de seu tempo. O cineasta polaco tinha uma verve cinematográfica perfeccionista e interessava-se por encontros casuais, aleatórios. Sobretudo, o cinema de Kieslowski se sobressai sui generis nos fins da década de 1980 e no início dos anos 1990 com vários filmes geniais e inesquecíveis realizados em sequência. De fato, a urgência em filmar alucinadamente e sem interrupções acarretou ao cineasta um infarto fulminante aos 54 anos de idade em 1996. Apesar do anúncio de sua aposentadoria em 1994, Kieslowski estava trabalhando em uma trilogia baseada na “A Divina Comédia” do poeta italiano Dante Alighieri – projeto este que veio a lume por meio de outros diretores. Desnecessário dizer que sua morte foi uma perda irreparável para o mundo do Cinema e para os amantes da La Sept Arte.
         No catálogo cinematográfico de Kieslowski, além dos supramencionados há os filmes excepcionais: “Sorte Cega”, “A Dupla Vida de Verónique”, “A Liberdade é Azul”, “A Igualdade é Branca” e “A Fraternidade é Vermelha”. Os últimos três compõem a conhecida “Trilogia das Cores”. Não raro, os filmes de Kieslowski são esculpidos em detalhes metafóricos e simbolistas, transbordam de cenas memoráveis na medida em que jorram um mosaico de pluralidade metafísica, capturando o real - e o enigmático - da vida e lançando irremediavelmente em nossos olhos a beleza mais sublime que há no cinema de qualidade. Cada filme de Kieslowski é um caleidoscópio de sensações!

          O primeiro filme da “Trilogia das Cores” é o excepcional “A Liberdade é Azul” (Bleu, 1993). Este é um drama com enfoque em Julie (interpretada brilhantemente por Juliette Binoche), que é a esposa/viúva de um compositor encarregado em compor o “Concerto da Unificação da Europa”. Julie perde o marido e a filha em um acidente automobilístico. Em consequência disto, ela tenta se desprender de todas as lembranças que os evoquem, desfazendo-se dos bens materiais e da música do marido. O silêncio se alastra pela película e os diálogos são demasiadamente escassos, contudo as cenas dizem tudo através do rosto expressivo de Binoche, capturando o desespero da personagem em sua tentativa de cortar todos os vínculos com o passado. À medida que tenta se desvincular dos sentimentos de perda, Julie se prende mais em sua própria liberdade, descobrindo que a liberdade total de nada vale ao perder suas memórias matrimoniais e recordações maternas. É importante mencionar a cena bem arquitetada na qual Julie está dentro da piscina em uma posição fetal que simboliza o renascimento. No mais, vale destacar a belíssima trilha sonora de Zbigniew Presnier e a fotografia de Slawomir Idriak pautada no azul.


        O segundo filme da “Trilogia” é a comédia (ou humor negro?) “A Igualdade é Branca” (Blanc, 1993), centrado na história de Karol (interpretado por Zbiniew Zamachowski) – um polonês azarado que vive em Paris como cabeleireiro. Depois que sua esposa Dominique (vivida por Julie Delpy) pede o divórcio, ao alegar não consumação sexual no casamento, Karol é abandonado e sem lenço e documento começa a pedir esmola no metrô. Ao conseguir retornar para a Polônia em uma mala, Karol dá a volta por cima, almejando uma vingança inusitada contra a ex-esposa. Ainda apaixonado, Karol tenta alcançar a igualdade que não conseguiu em Paris. Na busca pela igualdade plena perante Dominique, Karol descobre que nem todos os homens são iguais nem diante da lei e nem do amor. De maneira recorrente, a cor branca é perseguida pela fotografia (vide as cenas focalizando a neve), ao passo que a trilha sonora, novamente de Presnier, baseada no clarinete é bastante suave e melancólica.


    O monumental “A Fraternidade é Vermelha” (Rouge, 1994) é o terceiro filme da trilogia de Kieslowski. O petardo fílmico tem como ponto de referência a personagem Valentine (na interpretação estupenda da belíssima Irène Jacob), uma jovem modelo de Genebra que atropela a cadela de um juiz aposentado (o sempre excelente Jean-Louis Trintignant). A partir desse acontecimento, a vida solitária e amargurada do ex-juiz, cujo passatempo é escutar as conversas telefônicas dos vizinhos, se transforma com a presença da fraternal Valentine. Paralelamente, temos a história de Auguste (um aspirante ao posto de juiz), que transita pelos mesmos lugares de Valentine e inclusive vive próximo ao prédio dela. Entretanto, os dois personagens não se encontram até o final da película e nos faz indagar se Auguste era o juiz aposentado no passado, haja vista que vários pontos pessoais entre eles coincidem: a traição amorosa, a página aberta de um livro, etc. Uma cena bastante sugestiva é a que enquadra um maço de cigarro e um copo quebrado, simbolizando o rompimento amoroso de Auguste. A fotografia de Piotr Sobocinski, destacando os planos abertos, é sensacional e, sem dúvida, é um dos destaques do filme.

         A “Trilogia das Cores” foi baseada nas cores da bandeira da França: o azul representa a liberdade, o branco a igualdade e o vermelho a fraternidade. O projeto da trilogia tinha como objetivo uma homenagem aos 200 anos da Revolução Francesa e, também, a comemoração da unificação da Europa por meio da União Europeia. É deveras notável como Kieslowski (junto ao roteirista Krzysztof Piesiewicz), com uma cosmovisão arguta e filosófica, conseguiu transpor os lemas da Revolução para um contexto atual e humanista. Conforme a professora da PUC Andrea França, os lemas da bandeira francesa transcorrem nos três filmes e os personagens kieslowskianos acolhem o acaso como meio de trilhar novos rumos, refletindo o olhar do diretor polonês sobre a vida e o mundo (vide os extras dos DVDs da Versátil). Há referências na trilogia a alguns filmes como, por exemplo, “O Desprezo” de Godard e “Sociedade dos Poetas Mortos” de Peter Weir. Em relação às premiações, “A Liberdade é Azul” ganhou os prêmios de melhor filme, fotografia e atriz (Juliette Binoche) no Festival de Veneza; “A Igualdade é Branca” recebeu o Urso de Prata (no Festival de Berlin) como melhor diretor para Kieslowski; “A Fraternidade é Vermelha” recebeu merecidamente as indicações de melhor filme, fotografia e roteiro original no Oscar, no entanto foi perseguido no Festival de Cannes. Numa perspectiva de conexão, a cena de uma idosa que tenta colocar uma garrafa em uma lixeira ocorre nos três filmes, contudo somente no terceiro filme, que representa a fraternidade, a idosa é ajudada por Valentine. Vale ressaltar o fechamento da trilogia com a cena que mostra os personagens dos três filmes como sobreviventes de um naufrágio no Canal da Mancha, simbolizando as várias nacionalidades europeias como a francesa, polonesa, inglesa e suíça.
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