terça-feira, junho 11

Ode para Cruz e Sousa

Por Paulo Dias


I
Quando os violões chorarem novamente à noite
Com a lua despontando no horizonte febril
As formas vagas da escuridão irão cantar
Para aqueles que dormem dentro de sonhos vãos
E as árvores despertarão de um longo descanso
Esse será o momento para que as dores findem
E como um rio os sorrisos passarão inertes
Lembrando as lágrimas perdidas pelo chão
E um resplendor surgirá no alto da colina
Para que nossos olhos contemplem incontinentes
Uma nova aurora exalando fragrâncias supremas
Que até as virgens sentirão em seus corpos
A verdadeira essência de um desejo desconhecido
Que entorpece a mente em momentos intemporais
Agora me deixe, ó poeta, cantar tua glória
Em traçar as mais belas linhas que meus olhos já viram
Palavras rebuscadas cheias de perfumes sonoros
Erguidas como muralhas imponentes e intransponíveis
II
Eu te vejo placidamente no monte Parnaso
Abraçado com a musa Inspiração em longos abraços
Galgando o palácio do Saber em passos cadentes
Com o vento bravio em tua face passando como onda
Que avança palpitante invadindo todo o cais
Tu, ó poeta, enfrentaste os leões da ignorância
Feito um gladiador sem temor num coliseu em ruínas
O preconceito veio furioso ante teus pés
Para te lançar em abismos cavados pelas mãos
Daqueles que queriam te enterrar no esquecimento
Entretanto tu seguiste no furacão da hipocrisia
Banhado no néctar da poesia tão resplandecente
Muitos quiseram te vencer e ver teu fracasso
E como um cisne tu cantaste até chegar a morte
Nessas horas estivais declamo teus poemas
Tão majestosos que fico ligeiramente sem alma
Pois minh’alma voa com tuas palavras no crepúsculo
Onde um sol clamoroso se levanta como um rei
III
Sigo com o coração arfante com os broqueis
Que em minhas mãos pesam como montanhas
Medito diante do extenso mar da dificuldade
Que se abriu feroz e sorrateiramente à tua frente
Ó acrobata da dor! Um supremo desejo te moveu
Para ultrapassar este mundo incauto e enfadonho
Somente as estrelas ébrias se encantaram
Com tua majestade e com teus sonetos fascinantes
Ouço teus versos sonoros sendo declamados à noite
Por arcanjos descrentes que vagam em ruas sujas
Procurando o vinho quente que alimenta a alma
Quero ouvir na madrugada as sinfonias do ocaso
Quando minhas lembranças efêmeras forjam a saudade
Na qual os dias nascem com coisas perenes
Que se desgastam com o passar rápido das horas
Mas o que eu quero é o aprazível e o inefável
Eu quero é as formas claras de luares e os faróis
Para iluminar meu caminho perante os chacais
IV
Um luar de lágrimas lança-se contra nós
E uma tempestade surge nas infinitas praias do desejo
Mesmo assim percorremos os vales do preconceito
Com os corações soluçantes como tantos vulcões
Que jorram lavas contra as nuvens brancas
É desta maneira que vivemos com os violões chorosos
Lançando música serena neste mundo inebriante
E apenas a música acalma nossas almas estranhas
Que voam em céus rubros à procura de outras harpas
Assim seguimos com violões plangentes nas mãos
Ouvindo choros ao vento e cânticos lamentosos
Canções de guerra, de amor e de marinheiros
Que soluçam com saudades de seus doces lares
Ó Dante negro! Fecunde estes versos com tua inspiração
Jorre música nestes versos que te cantam
Pois em vida tu não sentiste as glórias merecidas
Apenas um amigo fiel cumpriu a promessa
Que teus versos fossem celebrados com ardor
Sob o sol que nasce para iluminar teu túmulo
Ó poeta! Quando os sons dos violões irão findam?