sexta-feira, julho 29

a estrela de cinco pontas

Personagens:
Pai - um velho húngaro exilado no Brasil que trabalhou no ministério das comunicações em Budapeste durante os anos 40.
Filho- um jovem estudante universitário e militante.
Época:
Brasil. Fim dos anos 70. Governo de Figueiredo.
(Na casa do pai.)
É madrugada e o filho entra cansado e afoito com dezenas de panfletos debaixo do braço. Vai direto pra geladeira e toma 4 copos de água. Ouve um murmuro vindo do seu quarto e corre abrindo a porta.
Pai (brabo) - Venha cá, venha cá.
Filho (assustado) – O que aconteceu?
Pai (Chora apontando para a estrela pintada na parede) – Essa estrela matou todos os meus amigos.
Filho ( Atônito) – Mas pai...

quinta-feira, julho 28

lua querida lua

Olha pra mim quando falar com você
Não finja nunca que está prestando atenção
Por favor, lua (não sou da lua)
Gosto de você sabia?
Minguante
Nova, cheia, crescente
Com nuvens ou sem nuvens
Pela manhã quando esta de coadjuvante
E quando você não aparece
Eu fico com uma puta saudade.
Sabe? Te considero muito, respeito, admiro.
Lua querida lua
Converse comigo. Seja minha amiga, seja sincera. Não finja.

paisagem

quarta-feira, julho 27

NOVUELA MEXICANA

No capítulo anterior, Manuelo descobre que a sua amada está casada como seu melhor amigo, Herrrique (num tom normal) ou Henrrrrrrrrique (quando se tem raiva do próprio Henrrrique) e agora neste instante em  que termina oJornal Nacional e começa a novela das nove, Manuelo está prestes a tomar uma trágica decisão. Qual seria? No que implicaria? Quem seriam os envolvidos?Vocês querem que eu pare de fazer interrogações? Como vou conseguir? É um caminho sem volta? Bem, o que quer que Manuelo tenha decidido, com certeza ,não terá como voltar atrás...


 Parte III – A grande surpresa

Várias folhas de papel amassadas no chão. Uma arma sobre a mesa. Uma garrafa de vodka pela metade.

ELE – (amassando uma folha de papel. Chorando compulsivamente) – Firmina! Sua...


Ele pega a arma. Aponta para cabeça, mas se retém.


ELE – ( Com a raiva lhe serrando os dentes) Herrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrique...


Na casa dos Gonzzales. O almoço está sendo preparado.


ELA – (cortando o pimentão) Manuelo Junior!

CRIANÇA – Mamãe!

ELA – (imperativa) Manuelo Junior!

CRIANÇA – (fazendo birra) Mãe!

ELA – (ameaçando) Manuelo Junior, Manuelo Junior...


A criança sai chorando. Manuelo aparece de repente. Ele estava atrás da porta.


ELE – Firmina!

ELA – Ma.. mam... M... Manuelo?

ELE – Firmina!... Manuelo... Manuelo Junior?

ELA – (Abaixando a cabeça. Chora) Oh Manuelo!  



Henrique chega com uma sacola de compras.

O MELHOR AMIGO DE MANUELO – Firminaaa!

Ninguém responde.

O MELHOR AMIGO DE MANUELO – Firminaaa!

Silêncio. Ele entra na cozinha.

O MELHOR AMIGO DE MANUELO – Firmin... Manuelo?!

ELE – (apontando a arma para seu rival) Henrrrique!

O INIMIGO DE MANUELO – Manuelo!  


Continua

terça-feira, julho 26

Recorte

Estaria no lugar certo? Duvidou por alguns instantes. A confirmação dera-se pela presença dele, ou deles, já não tinha certeza se era um, ou alguns, mas duvidou que fossem todos. Havia se preparado para aquele momento, já sabia que encontraria hostilidade e simpatia. Serviu-se da simpatia dos garçons: uísque com algumas pedras de gelo, e aguçou hostilidades dos demais depois da segunda dose. Sim, ela preferia uísque, forte, ácido, antídoto perfeito para suportar aquela noite venenosa.

As palavras fluíam através de sua voz segura e agradável enquanto o choro do malte parecia incomodar o passeio que os demais realizavam pela carta de vinho. Na curva, ela e seu copo. Silenciou-se.

A noite prosseguia aborrecida com as conversas que calavam a música entre pessoas e garrafas vazias. Os brindes eram inexistentes, até o santo fora esquecido. Este não saberia apreciar o vinho, escolher a safra, seguir os rituais catedráticos das vinícolas, como cheirar a rolha, segurar a taça com maestria, sacudindo-a antes de sentir o aroma e enfim degustar. Jamais derramariam o do santo no chão. Lugar luxuoso, ambiente inóspito e pessoas indiferentes. De fato o santo estaria nos botequins com os passarinhos e suas águas entre poesias, cheiros e sabores.

Na terceira dose, o gelo beijava-a com doçura tocando-lhe os lábios. O copo demorava cada vez mais a retornar a mesa, enquanto as sinuosas taças de vinho, abandonadas, soberbamente, o observava. Estariam elas enciumadas por não serem tocadas, por não sentirem o calor daquela boca, a maciez de suas mãos, e, sobretudo a admiração dos seus olhos? Permaneceu em silêncio. O malte percorria suas veias provocando-lhe um leve torpor pelas frágeis palavras que circundavam aquela mesa quadra. Entre uma dose e outra, água... talvez o que de mais puro houvesse entre a mesa e as cadeiras, o gelo não, esse se misturava ao malte e continuava a furta-lhe beijos cada vez mais ousados chegando a tocar a ponta de sua língua macia...assim como seus lábios. A língua já não se continha, desfilava sensual sobre os lábios sugando o malte que escapara do copo deixando rastros em sua boca... Já estava na quarta dose.

Garrafas vazias sobre a mesa, muitas pessoas vazias sobre as cadeiras cenário perfeito para a  futilidade proporcional ao preço do vinho consumido e apreciado com refinamento. As taças suntuosas inquietaram-se. Frases suicidas começaram a ser vomitadas sobre a mesa. Ela, impávida, ouvia, embora tentasse se distrair com o gelo que nadava no uísque.

A primeira frase cortou-lhe os pulsos, não acreditava estar ali. Recolhera as mãos. O gelo sozinho continuava o movimento. A segunda a asfixiara. Passou a mão direita pelo pescoço como se procurasse a corrente inexistente para se enforcar, como não percebera isso antes? A terceira, uma adaga no coração! A mão escorregara pelo decote chegando a tocar o próprio seio na tentativa de estancar o sangue que se espalhara em todo o ambiente, o que lhe segurava? O despedaçar da taça de uma mesa vizinha, a trouxe de volta. Os cacos estavam espalhados por todos os lados.

As taças vazias sorriam e espelhavam seu rosto incrédulo. O lápis preto que contornava perfeitamente seus olhos poderia saltar em linha enquanto sua língua sarcástica costurava a boca de algumas pessoas num esforço sobre humano de lhes fazer um favor, era como se prendesse o botão que fugira de sua casa para nunca mais sair.

Bebida e inteligência; aperitivo e prato principal; um estimulante, o outro afrodisíaco, juntos, potencialmente destrutivos, sobretudo na presença de desconhecidos. Ela sutilmente sedutora e fatalmente educada. Levantou-se bruscamente sob o olhar controlador das taças, beijou o gelo longamente, pegou a bolsa que dormia sobre a mesa e pediu licença.As cadeiras arrilhiaram-se. Era possível ouvir o burburinho das taças. Caminhou lentamente e sem dizer nada a ninguém, abriu a porta da gaiola de ouro e foi em busca dos passarinhos, de suas águas e de todos os santos.

O silêncio trincou as taças. Nada a segurou, nem o copo de uísque. O gelo derretera.


Alice Nascimento

alice por alice

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