sexta-feira, setembro 27

Fernando Atallaia - Entrevista

Por Natan Castro


Fernando Atallaia é um poeta, músico e blogueiro, proveniente da cena cultural de São Luís dos anos 90. Possui uma valiosa obra autoral tanto na poesia como na música, integrante de importantes grupos de poesia como (Carranca e Curare), foi membro fundador de movimentos culturais entre eles (A vida é uma festa - Reviver) e (Canto da Ema - Maiobão).

Em que momento se dá o teu encontro com os processos artísticos e de que forma isso mudou tua forma de ver e viver numa sociedade, que quase nem sempre se preocupa com o real papel da arte em seu dia a dia?


Fernando Atallaia - Bem, deixe-me lembrar. Para começar acredito que foi há muito tempo (risos) e esse encontro com o fazer artístico se deu como se dá com a maioria dos artistas, de forma gradativa, eu diria. Ninguém acorda e diz ''descobri que um sou artista''. A meu ver não há essa constatação fantasmagórica. Uma certa descoberta apocalíptica que norteia o imaginário infantil de quem quer impressionar aos outros ou a si mesmo ou então auto justificar-se por preguiça. Ser artista vai mais além, é um ofício árduo. Labuta permanente e incessante. Lembro de algumas reminiscências e tenho alguns dados. Algo como 1995, por aí. A minha principal informação sempre foi literária, os primeiros cordéis, as frases de muro, preciso ressaltar isso, embora ainda nessa época a minha ligação com a música tenha de certa forma causado uma dicotomia. Para alguns eu era aquele cara compositor, músico, cantor e tal; para outras pessoas um poeta, um artista literário. Hoje isso já está bem resolvido para quem me pensou assim por anos, acredito. Pois a bem da verdade, eu sempre compus canções e fiz literatura na mesma gradação. Sempre foi algo possível de se conciliar.

Desde muito cedo ficou bem claro para todos que tiveram contato com o teu trabalho, certo afastamento com tudo aquilo que estava sendo feito em termos de arte no Estado do Maranhão, a que se deve essa demarcação? Ou se ela não existe?

Fernando Atallaia - Na verdade nunca existiu uma demarcação e alguns afastamentos meus não foram propositais nem tampouco pensados. Eu lembro de um colega jornalista que me disse uma vez que me achava Cult ou exigente demais, coisas do tipo. Mas eu não diria afastamento. Só vi, ainda na década de 90, que era necessário que a arte literária e a música produzida em nosso estado estivesse mais descentralizada do centros que se uniformizavam como sendo a 'voz de um conhecimento artístico padrão'. Então eu acho que para quem, como eu, sempre pensou e continua a pensar na descentralização do fazer cultural era coerente que eu estivesse também na periferia. Mas digo, no pensamento periférico, inacabado e até rudimentar da construção literária, musical, cultural como um todo. Mesmo sendo eu um daqueles caras que estava ali em reuniões literárias, debates, shows autorais e outras manifestações consideradas de alto nível. Mas daí não bastava. Eu estava também nos movimentos que intentavam, mesmo que precariamente, se formar em Paço do Lumiar, São José de Ribamar e outras cidades. Movimentos de pessoas que nem sabiam ao certo o que era um Movimento, mas que tinham nos olhos a verve, a vontade de fazer acontecer. Então o meu senso estético começou a ser absorvido e absolvido por isto. Comecei a equilibrar minhas exigências intelectuais com aquela inocência pueril de quem quer mostrar algum trabalho artístico pela primeira vez, embora sabendo que este trabalho ainda não tivesse nenhuma qualidade musical ou literária. Essa flexibilidade me fez conhecer grandes artistas maranhenses que à época ainda não o eram e que hoje afirmam que eu os influenciei ou os ajudei de alguma forma.

Qual a importância de ter participado de movimentos literários e culturais como os Grupo Carranca e Curare e logo em seguida A vida é uma festa e Movimento Baluarte ? E no caso dos três primeiros qual foi o motivo do seu afastamento deles?

Fernando Atallaia - Todo movimento cultural é importante pelas premissas que encerra em si mesmo: interação, intercâmbio e fortalecimento de sua identidade cultural, eis aí algumas delas. Tem essa coisa de ser uma grande miscelânia de ideias, contestamentos, descontentamentos e debates e nascedouros. Os grupos Carranca e Curare patrocinavam isto até certo ponto. Eu estava lá levando minhas posições. Naquela época a discussão era literária mesmo e eu pregava que lêssemos mais Crítica Literária como forma de elencar à inspiração e ao labor estético maior exigência conceitual ao criar. Tínhamos reuniões aos fins de semana e com frequência no Centro Histórico. Acho que foi quando começamos a vê maiores necessidades de uma arte literária que tivesse a chamada qualidade literária. Algumas rupturas são necessárias ao processo até para desencadear novos caminhos e eu via essa necessidade mesmo de uma conceituação teórica maior que certamente iria refletir em qualidade para os Grupo. Como consequência dessa percepção alguns descontentamentos surgiram. É que essa coisa da inspiração fácil e simplória nunca foi mesmo a minha praia, apesar de eu me regozijar com todos os partos artísticos genuínos, independentemente da deflagração do conhecimento. Nunca pensei o fazer artístico, por exemplo, a partir das academias. Agora o sujeito ficar ali olhando pra lua e dai escreve um poema e atribui à lua este mesmo poema sempre foi algo discutível e suspeito para mim, que cheguei a falar em ser este um processo de falseamento e simplificação da realidade, as vezes sem voo estético e valoração alguma. Movimentamos muito a cena cultural de São Luís e do Estado, é inegável. Lembro de minha primeira exposição de poesia pelo Carranca em 99. Foi no Departamento de Assuntos Culturais da UFMA. Um cara do Curare estava por lá. Uma das lendas da poesia da década de 70, o poeta e artista plástico Ciro Falcão recitou poemas meus nesta exposição e os caras do Carranca me apoiaram em muitas ocasiões com logística para minhas produções. Sou amigo de todos até hoje. Eu amava estar ali e acho que o Carranca deu sua contribuição à história dos movimentos culturais ocorridos no Maranhão na década de 90. Assim como ''A vida é uma Festa'', movimento que iniciamos no início dos anos 2000, o Carranca igualmente foi importante para a formação de uma consciência cultural, artística e literária que influenciou as décadas seguintes. Já o Movimento Cultural Baluarte, o MSCB, fundado em 2010, segue firme e forte com representantes em São Luís, Paço do Lumiar, São José de Ribamar, Pedreiras, Raposa e por diversos municípios maranhenses.

04 – De todos os artistas que conheço do Estado do Maranhão, você é o único que não esconde a ninguém certo fascínio com a boemia noturna, seja pela peregrinação numa busca incansável por novas expressões artísticas preocupadas com um apuro estético, ou seja, pelo papel social e sensual que garotas de programas exercem no universo masculino.

Fernando Atallaia - É que a minha geração foi e é uma geração catalisadora. Hoje vemos muitos artistas no Estado trancafiados em seus estúdios de criação escrevendo, pensando e refletindo a partir do teclado, do mouse. Na Poesia Brasileira o que faço não é um grande feito. O próprio Vinícius de Morais era o que chamo de ''notívago sonhador''. Um artista que munido de seus aparatos estéticos, poéticos e pensamentais saia a dialogar com todas as gentes. Inclusive, mulheres, prostitutas ou não. E sonhava. Sonhava no sentido estético ao decompor e dessacralizar a realidade concreta, irredutível para o mundo do sonho, onde putas podem ser primeiras-damas, virgens imaculadas e/ou vice-versa. Posso afirmar, reservadas as peculiares, que o meu processo criativo também passa por essa perspectiva. Mas com maior vigor antropológico. A noite, nessa atmosfera é um dado. Um símbolo que além de representar simbiose é catarse também. ''Noite, Putas e Poesia'', este é um poema meu só para exemplificar. Na esfera pessoal, é claro, sempre fui e sou um apaixonado por mulheres, meus relacionamentos também muito falaram e até hoje falam à minha voz artística, onde encontro na intertextualidade, assim como Chico Buarque de Holanda, a feitura e a concepção de algumas canções minhas. Agora você me cita prostitutas. Sim prostitutas. Na minha canção ''Jardins'' de 2001 digo que elas são ''virgens errantes''. Mas se eu não as tivesse ouvido, as provocado, e se não as tivesse sentido e com algumas me relacionado você pode ter certeza que eu jamais conceberia um verso tão denso e emblemático como este. Poderia sim fazê-lo, mas no meu caso , dentro do que concebo como meu laboratório criativo precisei ir aos recônditos de todas elas. Ir à fonte. E estou nessa desde 1993. Hoje temos teses de doutorado sobre o assunto, artistas cantam o assunto, mas precisamos saber se manuais não estão sendo reproduzidos em série só pelo esforço de alguns caras em quererem dominar o universo das putas ou mesmo agregar aos seus trabalhos uma visão pasteurizada da realidade dos cabarés e suas nuances. Fale de puteiros, putas e afins. Mas saiba encontrar poesia entre eles. Aí complica, porque nem todo mundo consegue, mas muita gente ainda assim anda lançando trabalhos que são no fundo  grandes equívocos, mas que são costumeiramente digeridos por um público menos avisado, o que vem ocorrendo com frequência em todo Brasil.

Como editor de um blog (A agência de Noticias Baluarte) você vê o desenrolar da politica em âmbito politico e econômico no Estado do Maranhão?

Fernando Atallaia - A política do Maranhão é a mais óbvia do País. Não há nada indecifrável aqui. O cara que você elege para lhe representar é o seu maior concorrente. Há vários casos de que o sujeito se elege e logo compra um carro do ano. Ele sempre pensou em ter aquele carro. Então há esta e outras mesquinhezes. O político maranhense precisa provar para o vizinho que deu certo na vida. Que venceu na vida. Essa filosofia do otimista desregrado é perigosa, porque muitos são capazes de tudo para se dá bem no que chamam e justificam como ''vencer na  de vida'', uma vida concebida nos livros de autoajuda que viciam e fecham você na ideia desesperada e desesperadora do ''sucesso'' a qualquer preço. A todo custo. E o resultado desses desvios é o que causam as grandes catástrofes. Ou seja, gente que se utiliza da política para fins particulares, pessoais. Para ''vencer na vida''. Em todo o Brasil é o que rola, mas no nosso estado essa realidade ganha feições bem nativas. Aqui, há dois grupos, o da Situação e o da Oposição. Ou ainda o da Esquerda e o da Direita. O que dá no mesmo. O que os faz diferentes? Somente a posição onde estão. Os que não são Governo querem está lá. E para quê? Para ter as mesmas benesses que aqueles tem. E os que estão lá não querem cair. E porquê? Porque precisam conservar suas famílias, amigos, cachorros, gatos, fantasmas e outros objetos, utensílios no Poder. No Maranhão é assim, o negócio é rasteiro e essa coisa de mudança quando se prega é discurso vazio, porque a mudança em si é só um sintoma dessa vontade do também corromper. A mudança já vem corrompida, inclusive.

Sabemos que você possui três livros inéditos, e um total de quase duzentas canções ainda não registradas em álbuns, você pretende lançar ou ainda não chegou o momento certo?

Fernando Atallaia - Na verdade são 323 canções e em torno de 87 letras sem música e 3 livros inéditos, mas já venho publicando muita coisa no blog da Agência Baluarte, o ANB Online. Estimo que já publiquei cerca de 300 poemas e algumas dezenas de letras minhas nos últimos 2 anos. Há também vários poemas inéditos da obra homônima Ode Triste para Amores Inacabados publicados em sites e blogs de Cultura país afora, além de matérias em impressos, rádio e TV. É, acredito ser  o momento, sim. Estamos trabalhando no projeto de em breve lançar o álbum e o livro juntos. Se possível, ainda este ano. Enquanto isso, muitas canções estão disponíveis nos sites Palco MP3 e Youtube. As pessoas podem ir lá e curtir. Há no Facebook a Fanpage Fernando Atallaia e também o Blog do Fernando Atallaia, uma extensão do projeto ANB Online. Todos podem acessar, indiscriminadamente. Converso com minha equipe que trabalha comigo há 10 anos que queremos que as pessoas pesquisem. Vão lá e pesquisem. Então quando me perguntam ''onde encontrar sua obra? ''. Eu respondo: - Pesquisem que há muita coisa. Não deixa de ser uma forma de fomentar. Temos que pensar a não padronização dos meios de comunicação culturais. DVD, CD, Livro, tudo bem, ótimo. Mas a arte independentemente dos meios é também presencial em outras esferas. Infelizmente o conceito que temos no Maranhão de produção cultural e de propagação, assim bem, como de divulgação e acessibilidade foram definidos pela Indústria. Hoje reclamamos da chamada Música Comercial e somos pejorativos, quando na verdade olhamos a nossa própria obra sob a óptica deste Comercial que nos parece inferior, reprovável e ainda abominamos. É meio contraditório e mostra a fragilidade de nosso discurso que na maioria das vezes pode despencar para a infantilidade e extremismo.

Estamos a poucos dias do inicio da (Feira do Livro) de São Luís, como foi a experiência de ter tocado em uma das edições, e qual sua opinião sobre a feira como veiculo de disseminação de conhecimento no Estado.

Fernando Atallaia - Foi decepcionante e a meu vê a Feira não dissemina absolutamente nada, pois esta não é a sua proposta. Na minha apresentação me deram um camarim sem luz, sem água e uma chave. Pensei: vou precisar de uma vela. Aquilo foi ridículo, mas não menos ridículo do que é a Feira em sua própria perspectiva. Em sua realidade factual, que não passa de um evento onde os artistas literários de outros estados são ovacionados, valorizados e cultuados em detrimento dos escritores de São Luís, que em tese, deveriam ser os protagonistas de todo o espetáculo. Então me deram um camarim sem luz e os altos cachês foram para quem? Ninguém precisa falar mais sobre o fato de que a gestão cultural dos governos de São Luís e do Maranhão sempre foram voltadas para os chamados ''artistas de fora''. Assim como todos sabem que quando essas instituições fazem um convite para um artista de nossa cidade para nos apresentarmos em engodos como a Feira do Livro estamos sendo naquele momento postos em terceiro, sexto, último plano, principalmente quando eles oferecem a você um cachê de migalhas(que inclusive passa meses e até anos para ser pago) enquanto que os convidados do Sul ganham em milhares e contabilizando o pacote, milhões. Dinheiro público investido lá fora. Estão nos chamando de burros. É como se precisássemos da generosidade e da alta sapiência dos ''mestres'' dos outros estados. Somos os bons alunos e nos contentamos, calados. Nós os artistas literários sentadinhos ali ouvindo palestras sobre nós mesmos. É o cúmulo. Mas o curioso, é que quem faz a história dos movimentos literários, musicais e culturais somos nós que estamos aqui e diariamente no debate. E o mais curioso ainda é que a feira se chama Feira do Livro de São Luís em vez de se chamar Feira do Livro de São Paulo, Rio, Minas, o que seria mais coerente diante da supervalorização intelectual desses estados no evento, o que escancara a alma de nossos governantes e seu desprezo por nós artistas da Grande São Luís. Não me é difícil afirmar por exemplo que o prefeito da Capital, Senhor Holandinha e a governadora do Estado, Senhora Roseana nada entendem de nossa arte literária, nada entendem de nossa Cultura à medida em que nos oferecem caraoquês armados para tentar nos convencer, subestimando talento e inteligência. Mas nos convencer  do quê? De sua desvalorização. Ambos, não valorizam a Cultura de seus artistas. Preferem os bahianos, como diria um amigo poeta. Feira do Livro de São Luís é algo que não debato mais, pelo simples e notório fato de ela não pertencer a este debate. No futuro, quem sabe, se pertencer e se se apresentar de fato como a feira do livro de São Luís terei prazer e honra em participar.

Por fim gostaria de agradecer a entrevista, e pedir que você deixe sua opinião sobre qual o real papel do artista maranhense nos dias atuais.

Fernando Atallaia - Bem, eu acredito que o papel do artista do Maranhão só ele mesmo saberá conceber a partir de suas elucubrações, aporrinhações e descontentamentos que são sempre presentes, uma vez que falar sobre o papel do artista na Sociedade é tema de uma discussão sempre pertinente, mas que não pretendo tocar agora para não me alongar demais. Mas muito se falou em união, organização dos artistas em movimentos e até em associações de classe. E eu sempre acho essas iniciativas vitais ao Fenômeno Cultural em todo e qualquer país, estado, cidade, comunidade, localidade. Sob o ponto de vista da participação ou do engajamento, o Maranhão é ainda um dos únicos estados do Brasil onde o artista teria que manter uma função social quase que obrigatória diante do não investimento e da não aplicabilidade de políticas públicas para o Setor, que é visto como diversão e dilentantismo barato pelos Governos. Eu penso que a única obrigação do artista é com sua construção artística, com seu fazer cultural. Quando ele é ferido no exercício dessa função para ir ao debate contra Governos está mais do que provado que estes Governos não o respeitam e nem tampouco o valorizam. Pior que isto: estes Governos( e aqui no caso, o do senhor Holandinha e o da senhora Roseana) não servem para sua população, sua gente, seus cidadãos. Portanto, merecem ser depostos. 

        
                                                                  Fernando Atallaia

quinta-feira, setembro 12

Devotos de Riba - Entrevista com o vocalista Alex Soares.

Devotos de Riba fazendo um Som no Odeon

Quem é a Devotos de Riba e como a banda se formou?
Em 2000, depois de 12 anos afastado da ilha, voltei de Recife com umas letras e uns riffs de guitarra. Já tinha umas coisas na minha cabeça, como estéticas, texturas e, uma premissa principal, tocar músicas fáceis para todo mundo se divertir. Mas eu sozinho, não me bastava. Foi aí que comecei a procurar  parcerias. Tarefa árdua. Esse lance de parceria requer sintonia entre os integrantes. Depois de anos procurando e sem obter resultados, acabei desistindo. Então, reencontrei um amigo que estava morando em Belém e, assim, surgiram os primeiros sons da Devotos de Riba. Na época tocávamos com uma bateria eletrônica, depois convidamos alguns bateras, até chegar o Marcelo, que entendeu a proposta e deu uma harmonização de bateria mais orgânica. Na guitarra e vocal, eu, Alex Soares. No baixo e vocal, Dárcio Souto. Na bateria, Marcelo Lennon. Hoje, é assim que a banda toca.

O quê significa o nome da banda?
É uma brincadeira com as coisas de São Luís. Essa terra é marcada por crenças e poder. São devotos de todos os santos, entre eles São José de Ribamar e de outro José de Ribamar (risos). Isso é a cara de São Luís.

Quais as influências musicais da banda?
As influências da banda vêm desde os rocks clássicos (Led, Black Sabatth, Deep Purple, The Who, Doors) e de outros mais modernos (Black Keys, Queens Of The Stone Age, MGMT), além de uns brasileiros como Raimundo Soldado, Roberto Carlos, Ronnie Von, Demétrius, Júpiter Maçã e Odair José. Outras influências vieram do reggae, do jazz e de qualquer coisa que seja legal, ou não.

Vocês já têm algum material gravado?
Estamos nos preparando para gravar nosso primeiro EP. Acredito que em outubro ou novembro deve estar pronto. Aguardem.

Gostaria de agradecer pela entrevista e o espaço é de vocês.
Obrigado pelo canal de comunicação e viva o rock alternativo! São Luís precisa de muitas bandas autorais, então, você que toca alguma coisa, saia da garagem e vem pra rua.

Dá um play nessa Música ( Barbie) 


sexta-feira, agosto 16

O jazz do coração

Por Maria Ligia Ueno 

E as batidas do meu coração ressoam como sinos na madrugada gelada, causando calafrios nos ouvintes solitários, causando balbúrdia nas ondas sonoras com as quais cruza. Ouvem-se com perfeição cada toque de hora, mas não é uma hora comum. A minha hora não se reúne em minutos, nem em segundos, mas em risos. E cada hora passa mais rápida ou mais lentamente, a depender da distância entre a tua presença e os meus sentidos.
E como um trem a vapor, segue quase descarrilando, deixando-se torrar pela caldeira quente em que minha linfa se transformou. Apitando próximo às aldeias, chamando teu nome com um assobio forte, quem sabe em qual delas estará?

Segue, Maquinista, segue avante, diz-lhe meu som. Ponha lenha na minha caldeira, deixe-me queimar, deixe o fogo consumir o que restou de mim.


Mera ferrovia, esta é a definição da minha esperança, e as batidas do meu coração seguem soando, trilhos afora, o que espero do futuro. Expectativas devidamente demarcadas entre duas paralelas de ferro, e estas dão a volta ao mundo.
E meus trilhos dourados, assim como os tijolos de Dorothy, levam-me ao destino, levam-se ao acaso, levam-te junto. Seguindo pelos belos campos, subindo montanhas, descendo penhascos, em alta velocidade, e apreciando a paisagem que construímos pingo a pingo, numa linda pintura pontilhista.
E meu coração direciona o som de seu tamborilar, per-seguindo outro trem, que emite outro som, outras batidas de outro coração.


quinta-feira, agosto 8

Z de Vingança, Marcos Magah




Por Natan Castro

Escutando (Z de Vingança) de Marcos Magah, podemos perceber que algumas coisas ali não eram pra ser, alguns arranjos repetitivos, resumindo, algumas coisas não ficaram legais nesse trabalho. Mas o que nos chama atenção no final da audição, é que querendo ou não tem uma cara a bater ali, um cara disponibilizando tudo, uma doação, uma entrega, com a sua voz ora tristonha ora lancinante. Marcos Magah canta em alto e bom som, as dores de uma caminhada que nem sempre é feliz. Acompanhado por arranjos setentistas que revisitam uma época onde a dor de cotovelo de verdade estava em alta, o teclado minimoog que eternizou as canções e Roberto e Eramos, e a postura seca dos versos que salpicam lamentos em todas as oito canções do álbum. Servem de pano de fundo da mensagem.


Existiria um paralelo entre o Punk e o Brega? Sim claro que sim, podemos imaginar que um é o extremo do outro, Marcos Magah possui um passado de militância punk em uma banda chamada Amnezia, e nos dias atuais foi acolhido nos braços das influências bregas, por que os extremos nele parecem cair bem melhor que os meios termos. Como ele mesmo fala na letra de (Dedos e Anéis) “Eu tive que me perder, para me achar”. Marcos Magah no final das contas, contando os mortos e feridos, fica no saldo porque se o Z tinha que ter um sentido, a marca da vingança chegou para explicar.



quarta-feira, julho 31

Vagabundos e Egocêntricos


Nos últimos meses o Brasil vem passando por constantes manifestações que começou por causa do aumento do preço de passagem da cidade de São Paulo e outras capitais do país em que os estudantes foram às ruas contra o aumento das tarifas.

Começou a surgir outras causas que foram reivindicadas por diferentes categorias e setores da sociedade, como a PEC (Projeto de Emenda Constitucional) – 37 que visava tirar poderes de investigação dos ministérios públicos estaduais e federal, deixando apenas para as policias civis dos estados e federal, por exemplo, conquistada a revogação da PEC, surgiram outras reivindicações que no momento é pauta de discussão na sociedade.

Entre elas é a dos médicos através dos Conselhos Regionais de Medicina nos estados (CRM´s), Conselho Federal de Medicina (CFM) e outras organizações que representam a categoria, isso começou quando o governo federal resolveu atender a reivindicação vinda das ruas que pediam mais médicos nos postos de saúde e em hospitais do SUS (Sistema Único de Saúde), principalmente nas periferias de grandes cidades, cidades interioranas e em zonas rurais.

Devido o desinteresse de muitos médicos que se recusa a trabalhar nessas localidades, o governo começou a cogitar possibilidade de trazer os médicos de outros países, principalmente os cubanos, começou daí a briga de médicos com o governo, por serem contrários a vinda destes ao país ao alegarem que os médicos brasileiros devem ser priorizados e os de fora devem se submeter a uma revalidação pelo Conselho Federal de Medicina, numa espécie de prova da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) para exercer de fato a advocacia.

Os médicos têm todo respaldo e legitimidade pra manifestar e reivindicar (algo que pouco se vê por sinal), mas eu não sou solidário com essa categoria, está certo que existem prefeituras que não pagam devidamente, dá calote (atraso dos salários) e sem contar as mínimas condições de trabalho em hospitais e postos de saúde.

A corrupção existe no SUS é a principal causa do descaso no sistema de saúde em todo o Brasil, principalmente em cidades interioranas, zonas rurais e periferias nas grandes cidades, justamente nas localidades onde há falta de profissionais da saúde, especialmente de médicos.

Contudo, reitero a minha não solidariedade a essa categoria. E porque? Historicamente e culturalmente os cursos de direito e medicina são voltados para as classes elitistas que serve apenas para o status quo ou simplesmente para ser chamado de doutor.

É comum bacharéis de direito e medicina quererem a todo e qualquer custo serem chamados de doutor, advogados e médicos ostentar a denominação sem sequer terem feito a especialização e ainda mais o doutorado, enquanto o papel social dessas profissões de fato é ignorado.

Os estudantes e bacharéis em direito quando se formam muitos só pensam apenas na ascensão social sem se importar com as injustiças, os estudantes e bacharéis em medicina, este em especial, quando se formam, muitos não querem trabalhar em postos de saúde ou hospitais do SUS.

Muitos destes pensam apenas na ascensão social ou política, é comum ouvirmos frases tipo: quero ser médico pra ser chamado de “doutor” (sem ter feito o doutorado), quero ser médico pra ganhar dinheiro, quero ser médico porque quero ingressar na carreira política, seja em mandato eletivo como vereador ou deputado ou ser diretor de posto de saúde ou de hospital, mas sem precisar trabalhar ou ir ao local de trabalho, trabalhar num grande hospital privado ou simplesmente montar o seu próprio consultório.

Resumindo, grande parte dos médicos não quer trabalhar de fato na rede pública, principalmente dos interiores, zonas rurais ou periferias das grandes cidades, que se encontram a maioria dos pobres e excluídos da sociedade, vivem na condição de pobreza extrema ou abaixo da linha de pobreza.

Preferem ficar nas cidades e em áreas nobres com seus consultórios cobrando 500 reais por consulta de 30 minutos estampando um lindo sorriso colgate com os dentes brancos, ouvindo os dizeres do cliente (não paciente porque está pagando para ser consultado num ambiente privado), pega o pulso do individuo (e olhe lá quando pega) para saber o que sente e em seguida passa a receita médica e indica um outro médico para o mesmo procedimento (quando o caso não é grave) ou pede o retorno pra saber do resultado (como forma de faturar mais dinheiro ($$$)pelo serviço das consultas médicas).

Agora pegar num bisturi, fazer de fato todo procedimento que deve ser feito pra ser saber o que passa o individuo que nesse caso é o paciente, são os vagabundos que adoram desfilar nas ruas todo de branco e colocar nos ombros o jaleco, como forma de mostrar a sociedade a sua posição social, são os mesmo que se recusam a colocar as suas lindas mãos de porcelanas ao corpo do paciente banhado de sangue, fratura exposta ou vísceras do lado de fora.

Esses tipos de trabalho muitos destes não querem exercer, são insensíveis a causa humana e até aos indivíduos que clamam por atendimento antes de morrer, é comum nos hospitais públicos pacientes morrerem clamando por um atendimento diante da vista destes médicos que nada fazem e nem sequer se comovem diante da situação enferma.

Esse é o motivo destes senhores e senhoras de jaleco iràs ruas protestarem contra o governo, porque não querem trabalhar, querem continuar no seu lugar social sem contato com os que realmente precisam.

O governo federal para resolver o problema que está sendo clamado nas ruas para resolver o problema da falta de médicos, cogitou a possibilidade de contratar médicos estrangeiros, principalmente os cubanos, os conselhos e organizações da categoria de forma corporativista foram contra, o governo ouvi a reivindicação dos médicos e estudantes de medicina.

Criou o “Programa Mais Médicos” que visa ampliar o número de vagas nos cursos de medicina, principalmente nos interiores que estão instalados as universidades federais, o próprio governo nesse programa vai pagar 10mil reais para que os profissionais atuem nos interiores, zonas rurais e periferias nas grandes cidades, sendo que as prefeituras se encarregarão de garantir a moradia e alimentação, não tendo mais a responsabilidade de pagar o salário destes profissionais que são altos por sinal, comparável com outras profissões, como a de professores.

Em contrapartida, o governo através do ministério da Educação pretende reformular o curso de medicina aumentando de 6 para 8anos, sendo que 2anos será dedicado a trabalhar no SUS, principalmente em localidades que carecem desses profissionais como foi citado anteriormente.

E novamente os conselhos e organizações da categoria estão nas ruas contra o governo para protestar contra o programa, aumento de duração do curso de medicina de 6 para 8 anos e a obrigatoriedade de trabalhar nos hospitais do SUS (a principal causa da revolta) e em localidades que carecem de médicos.

Nessas circunstâncias devemos ser solidários aos médicos? Devemos estar no lado deles contra o governo? Eu estou no lado do governo em relação a problemática da falta de médicos que deve ser resolvido em imediato devido o clamor vindo das ruas com as manifestações ocorridas recentemente.
Os senhores e senhoras dos jalecos não estão nem aí pra ruas e muito menos das necessidades da população, pouco importa que a função deles é salvar vidas, sendo que o importante é o status e ascensão social e politica sem dar a importância do seu papel social na sociedade.

Eu tiro o exemplo de mim mesmo, sou professor da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) pelo Programa Darcy Ribeiro, trabalho nas cidades de Balsas, Barra do Corda, Grajaú e Loreto, essas cidades ficam entre a região central e sul do Maranhão, bem distante da capital que a viagem de ônibus dura em média 12 horas, sendo que em Balsas a distância é maior podendo chegar a 15 horas de viagem e menor é Barra do Corda podendo durar apenas 10 horas.

Eu sou um dos poucos que mora em São Luís que se dispõe a viajar toda semana pra trabalhar nessas localidades (ainda fui chamado de louco por alguns por achar que não valeria a pena ou por ser arriscado), a maioria preferem ficar em São Luís na via crucis ao acordar cinco da manhã para sair de casa as seis pra pegar ônibus extremamente lotado em que as pessoas te apertam, imprensam, esfregam, pisam no seu pé, empurra, esbarra e sai do ônibus e chega ao local de trabalho suado, roupa amassada, manchada e suja, exausto e estressado, sendo que sai de casa bem humorado e com a roupa bem passada e limpa.

Eu mesmo já passei por isso diversas vezes quando saia de casa para ir ao trabalho, dizia pra mim mesmo que isso não era vida pra mim, ficar preso num transito engarrafado atrasando o tempo da viagem e o horário de chegar ao trabalho, tendo que assinar o ponto e se passar do horário e limite de tolerância levava o carimbo no lugar da assinatura, e se levasse três carimbos levaria uma falta e um falta resultava no desconto do salário entorno de 50 a 60 reais, para um pobre trabalhador que recebe um salário mínimo é uma humilhação.
Eu no meu caso dei um basta a essa humilhação, mas há colegas que eu conheço que prefere ficar na via crucis ou nessa humilhação, trabalhar em duas ou três escolas diferentes para receber ao menos uns 2 mil reais por mês, que as vezes nem chega a esse valor por causa do imposto de renda e outros impostos como a previdência, por exemplo, chega em casa estressado e mal humorado, e passa a semana toda desse modo.

E ainda assim se recusam a ir trabalhar no interior, mesmo sabendo da vantagem de ganhar mais com o salário e ajuda de custo, e quando vai é pra perto ou menos longe, se falta médicos no interior do Brasil e particularmente no Maranhão, falta também professores.
O Programa Darcy Ribeiro (PDR) gerenciado pela UEMA é pra qualificar os docentes e formar professores que já atuam na área, mas que não tem diplomação de nível superior e são impedidos de atuar nos outros níveis de ensino, como fundamental e médio.

Porque muitos dos professores que atuam no ensino, são do ensino básico e abre espaço para os que não atuam na educação pra se qualificar com os curso de nível superior na área de licenciatura, essa é a finalidade do PDR em muitas cidades do Maranhão, como Loreto que tem 10 mil habitantes, que carece não só de médicos mas também de professores.

Há outros programas desse gênero como a PARFOR (Programa de Aperfeiçoamento e Qualificação de Professores) que é gerida por instituições de ensino superior em todo o Brasil nas unidades federativas, como a UFMA (Universidade Federal do Maranhão) e IFMA (Instituto Federal do Maranhão), por exemplo, a UFMA tem outro programa que é o PROEB (Programa de Qualificação de Professores do Ensino Básico), todos esses programas citados são pra qualificar os professores com cursos de nível superior na área de licenciatura, e em especial nas cidades interioranas que há maior carência de profissionais da educação.

Porque vocês acham que as prefeituras vivem promovendo concursos a torto e a direita para os cargos de professor? É só por causa da pressão dos ministérios públicos estaduais e federal? São Paulo que é o estado mais rico da federação, que detém mais da metade do PIB (Produto Interno Bruto) nacional e os paulistas faz questão de alimentar o slogan “A locomotiva do Brasil”, tem a carência de 60 mil professores na rede pública em todo o estado, o governo paulista vai abrir o seletivo pra contratar de imediato 50 mil professores.

A prefeitura de Imperatriz – MA deixou o edital aberto por dois anos (desde 2011) para a vaga de médico pediatra com o salário de 30 mil reais, devido o desinteresse de profissionais da área, o edital foi cancelado, e Imperatriz é a segunda maior cidade do estado com a estimativa de 250 mil habitantes.

Se no estado mais rico da federação há carência de profissionais na educação da rede pública, imagine no Maranhão, o estado mais pobre e representa os piores índices sociais do país? Eu percorro o Maranhão toda semana, já viajei de uma cidade a outra em pau de arara, e conheço bem a realidade que vive a população em localidades distante das sedes dos municípios.

É esta realidade que os profissionais da saúde não querem vivenciar e nem mesmo os professores, o último seletivo da UEMA pro PDR que esteve aberto o edital para as inscrições, era pra ser até o dia 10 de julho e foi prorrogado para o dia 19.

Porque eles prorrogaram? Eu mesmo fiz a divulgação intensa do seletivo na minha página pessoal do facebook pela internet e incentivando muitos colegas a se inscreverem, e mesmo assim serão poucos que eu conheço irão se inscrever (espero que eu esteja enganado nessa vez), preferindo ficar em São Luís na via crucis pegando todos os dias ônibus lotado, enfrentando o transito engarrafado, trabalhar em duas ou três escolas numa espécie de autoflagelo e auto exploração para ganhar pouco ou receber 5 ou 10 reais hora/aula em algumas escolas que nem sequer oferece condições de trabalho e de ensino.

Diante da realidade que está posto, eu não sou solidário a esses médicos e reconheço as intenções do governo de reverter esse problema, que é o resultado das manifestações que estava acontecendo nas ruas de todo o Brasil.

Porque chama os médicos de vagabundo? Não é comum confundir o trabalhador e pai de família com o vagabundo? O sujeito não pode ficar desempregado que logo a sociedade o condena e o chama de vagabundo. Porque não chamar os médicos também dessa forma ou confundi-los com os vagabundos? Esses senhores e senhoras de jaleco não são dignos de serem chamado de doutores, nem que uns tenham feito o doutorado.

Se para uns, lecionar é um gesto de amor, em que o professor não pode tanto reivindicar por salários, porque os médicos estão nas ruas então contra o governo, sendo que a iniciativa é contratar mais médicos para trabalhar nos interiores com os salários astronômicos (10 mil reais)?

Cadê a compaixão, o amor e a solidariedade com o próximo desses médicos? Eles também devem trabalhar por amor, tanto quanto os professores, porque a função deles é salvar vidas e garantir o bem estar do próximo, num gesto de humanidade, sensibilidade e respeito acima de tudo.