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quinta-feira, setembro 15

ABoRReCenTES


DORALICE E JOÃO
JOÃO (contemplativo) - Esperei do lado de fora do consultório sentado numa praça em frente. Mães passeando com carrinho com bebês. Crianças brincando de pega-pega. Homens e mulheres fazendo Cooper. Casais passeando de mãos dadas. Velhos jogando milhos pros pombos. Nascer, crescer, multiplicar e morrer é o sentido da natureza. Tudo são passatempos dos homo sapiens para se distrair da vida. A única diferença entre nós e os animais ditos irracionais é a distração.
DORALICE (blasé) - Aquele Nerd maconheiro ainda ta aqui, será que ele esta me seguindo. Pode ser um psicopata que serra as cabeças das pessoas e joga na privada suja de bares machistas da periferia com aquela música tétrica.
JOÃO FOI EM DIREÇÃO A ELA PRÓXIMO A CALÇADA DO CONSULTÓRIO COMO SE DISTRAÍDO.
JOÃO (nervoso)- Ei...
DORALICE (fingindo surpresa) - Por que você ainda esta aqui? (Vira de ombro pra ele)
JOÃO (nervoso)- To esperando meu pai vim me buscar no carro. - Claro que menti. Queria ver aqueles olhos verdes em contraste com sua brancura.
DORALICE (curiosa e blasé)- Sei... O que o psicólogo falou com você?
JOÃO (menos nervoso) - Perguntou se eu usei maconha pra me aparecer diante dos amigos ou se foi por curiosidade?
DORALICE (blasé) - E o que você respondeu?
JOÃO(calmo) - Respondi que tinha lido uma matéria dos efeitos terapêuticos da canabis sativa na revista Mente e Cérebro e tinha me interessado.
DORALICE (surpresa) - Sério?!
JOÃO (rindo) - Mentira. Na verdade foi um amigo da escola que me ofereceu e aceitei.
DORALICE (rindo) - Ele perguntou só isso?
JOÃO (calmo) - Também perguntou sobre minha relação com meu Pai. Disse que meu pai parecia uma criança e eu tinha que fazer muitas coisas em casa; como esquentar a comida, falar com os cobradores, pagar as contas. E perguntou também sobre minha mãe.
DORALICE (mais curiosa)- E sua mãe?
JOÃO (calmo) - Disse que tinha saudades dela, mas não a odiava por ter traído meu pai.
DORALICE - Ela traiu seu pai?
JOÃO (nervoso) - Com outra mulher.
DORALICE - Como assim?
JOÃO (nervoso) - Minha mãe era artista plástica. Pintava mulheres nuas. Um dia num vernissage mamãe conheceu uma francesa.
DORALICE - Vernissage?
JOÃO (calmo) - É uma exposição.
DORALICE (blasé) - É que gosto de palavras novas. Que nunca li ou escutei. Era uma exposição de quê?
JOÃO - De quadros. Ela pintou a francesa no seu ateliê que ficava no fundo de casa.  Meu pai chegou em casa e pegou elas transando.
DORALICE (curiosa) - Que flagrante. E o que seu pai fez? Matou ela?
JOÃO - Matou ela?! Não, ela está viva.
DORALICE - É que você estava usando o verbo no passado e pensei...  O que ele fez então?
JOÃO - Chutou o quadro com a pintura das pernas abertas da francesa e não falou nada. Mamãe ainda brigou com ele dizendo que aquele quadro era uma obra prima. Na outro dia mamãe viajou para Paris com a sua musa. E você, como foi?
DORALICE - Não falei muita coisa. Não tava a fim de conversar. Falar dos meus conflitos. Sou uma bipolar ambulante.
JOÃO- Você vem na próxima consulta bipolar ambulante?
DORALICE - Acho que sim.
JOÃO - Quando vai ser?
DORALICE - Próxima quarta feira.
JOÃO (preocupado) - No mesmo dia da minha. A gente se vê. Promete que não vai se suicidar até lá?
DORALICE (riso cínico) - Não sei. Você é engraçado?
JOÃO - Isso é um elogio?
DORALICE - Acho que sim.
JOÃO - (Pensei que ia dar um beijo no rosto dela de despedida como as pessoas da nossa idade fazem normalmente. Mas ela pôs headphone e foi embora na minha direção oposta. Estranha e misteriosa. Pelo menos ela disse que eu era engraçado. Legal)

quinta-feira, setembro 8

ABoRReCenTES



CASA DE STRIPER

[ALGUÉM BUZINA NA PORTA DA CASA DE JOÃO]

PAI DE JOÃO (nem aí) - Meu filho deve ser aquele cobrador do gás, diz que eu não to em casa e pra ele passar na próxima semana.
Abri a porta e vi cara de Pedro fazendo sinais pra mim com o braço esquerdo pra fora de um carro. (como mostra a ilustração acima)

PEDRO (gritando) - João chega aí.
JOÃO (?) - O que você esta fazendo com esse carro? Você ainda não tem nem carteira.
PEDRO (sincero) – Meu pai viajou. E deixou a chave do carro. Peguei emprestado sem ninguém saber.
JOÃO- Você é doido mesmo.
PEDRO - Entra ai careta que vou te levar pra um lugar massa. Inventa uma desculpa lá pro seu pai... Bota uma calça comprida, um tênis e uma camisa legal.
Entra em casa e vai falar com seu pai que assistia um filme.
JOAO (cara de cachorro carente) - Pai...
PAI DE JOAO - Falou com ele?
JOÃO - Não, é Pedro que ta aí.
PAI DE JOÃO - De carro?
JOAO - Sim. Ele já tirou a carteira...
PAI DE JOÃO - Mas ele não é menor de idade?
JOÃO - Ele é repetente na escola. Ele já tem fez 18 anos. Vou sair com ele.
PAI DE JOÃO - Pedro fuma maconha? Foi ele que te ofereceu?
JOÃO - Não e não. (Estou aprendendo a mentir ou meu pai é retardado)
PAI DE JOÃO (um pouco preocupado) - O trânsito anda muito perigoso. Cuidado. Pede pra ele andar devagar e não vão beber.
JOÃO - Ta certo, pai. – e sorri de orelha a orelha.
Vesti a calça jeans, calcei o tênis do futsal e botei minha camisa do Spider Man e perfume alfazema em menos de dez minutos. Estou o Flash Gordon.
JOÃO – Thau pai. Depois eu assisto esse filme do Stanley Kubrick com você.
Meu pai nem prestou atenção nas minhas palavras sentada na poltrona lambendo leite condensado com os dedos. E sai fora.


NA RUA – PORTA DE CASA.
PEDRO - Porra João tu tava passando batom? Entra aí.
JOÃO - Tava convencendo meu pai, seu idiota. De sair com um louco como você. Disse que você não ia atropelar ninguém.
PEDRO - Porra! Que perfume desgraçado é esse? Bom Ar?
JOÃO – Foi tua mãe que me deu.
PEDRO - Minha mãe não usa esse fedor. Parece um guri com essa camisa.
JOÃO - Além do perfume tua mãe me deu a camisa na última noite que tive com ela.
PEDRO - Não fale assim da mãe eu não te dei essa intimidade [Risos]. Abre a porta - chaves aí Spider Man.
JOÃO - Éguas Pedro! Têm quantas gramas de maconha aqui?
PEDRO - Sei lá. Sei que tem 10 contos. E essa é da boa. Saca o cheiro dela. A maciez. A qualidade...
JOÃO (SORRINDO)- Não sabia que tu era poeta.
PEDRO - Poeta de cú é rola. Bola um pra gente aí, nerd.
Ele arrancou o carro cantando os pneus e ligou o som de Bob no carro.

As ruas estavam luminosas. A batida do som ao ritmo do coração. O carro parecia um charuto ambulante.JOÃO - Ei cara, fiquei com raiva naquele dia. – Tinha que dizer isso pra ele. Tava engatado.
PEDRO - Que dia? ( O desgraçado nem se lembra )
JÕAO - Que você me chamou de boca virgem e que nunca transei. Falou isso na frente de uma garota, Porra.
PEDRO - Tu tava afim da garota, né? O nerd ta apaixonado.
JOÃO - Não... Estava só discutindo física com ela.
PEDRO - Aquela pequena parece um Tele-Tuber.
JOÃO - O nome dela é Jarlisse.
PEDRO - Até o nome dela é feio. Tu vai conhecer umas gatas...
Saiu da avenida. Dobrou numa esquina. Seguiu numa rua estreita. Dobrou a direita e parou em frente a uma casa com varias fotos de mulheres fazendo posses sensuais.
JOÃO - Que lugar é esse?
PEDRO - Uma banca de revistinhas em quadrinhos. É um puteiro. Uma casa striper. Tu vai deixar de ser boca virgem e vai transar uma MULHER de verdade. Vai deixar de ser um punheteiro e vai me agradecer pelo resto da vida.
Juro que comecei a suar pelas axilas excessivamente e senti uma dor de barriga. Quase caguei. Meu cú se prendeu.
JOÃO - Pedro não dá pra mim não.
PEDRO - Por que seu Nerd?
JOÃO (MENTINDO) - To namorando uma garota ai. E eu sou fiel.
PEDRO - Namorando?! Desde quando tu namora?
JOÃO - É sério.
PEDRO - Aquela Tele Tuber?
JOÃO - Não... É uma vizinha. Ela é nova na rua.
PEDRO - Qual o nome dela?
JOÃO - Doralice.
PEDRO - Tu é mesmo um cagão.
Arrancou o carro cantando os pneus e voltamos.
JOÃO - Tu já entrou alguma vez lá?
PEDRO - Meu pai me levou um dia. Bola outro aí.
JOÃO - Em falar de seu pai não é ele ali no altdoor desejando feliz dia do trabalhador?
PEDRO - Sim.
JOÃO - Aquele homem dando às mãos pra ele não é o cara que limpa a piscina em sua casa e corta a grama. O caseiro.
PEDRO - Sim. Ele tem demonstrar que esta com o povo trabalhador.
JOÃO - Pra onde seu pai viajou?
PEDRO - Pra Brasília. Tratar de negócios. Vai se candidatar a prefeito de nossa cidade. Um corrupto filho da puta que transa com putas.
JOÃO - E sua mãe?
PEDRO - Além de Einstein tu és Freud agora? Mamãe faz de conta que esta tudo bem. Fazendo posse e sorrindo nos jantares. Fazendo seu papel de madame. Vamos comer No Mcdonalds?
JOÃO - To liso.
PEDRO - O velho amigo do trabalhador me emprestou uma grana. Tu acha que tua ia transar com as gatas de graça só por que ele é cliente da antigas?

Eu e Pedro comemos oito hambúrgueres Macfeliz cinco fritas e seis copos de coca-cola e um arroto no final que fez as crianças nadando numa piscina de bolinhas sorriram e os pais nos olharem com cara feia. É que estávamos felizes e famintos depois de Mac baseados.

[DE VOLTA A MINHA CASA]

- João como foi o passeio?
- A gente foi tomar um sorvete com umas garotas.
[Meus olhos não estavam vermelhos, dessa vez não esqueci o colírio.]
- Garotas... meu filho ta crescendo.
- E o filme. Era bom? – Mudança de assunto. Não quero falar de garotas com meu pai.
- Tem uma parte que o Macon MacDowell estrupa uma mulher ao som da nona sonata de Beethoven. Com um ser um humano pode fazer um gesto tão agressivo ao som de musica tão magnífica, transcendental. Esse Kubrick é genial.
Acho que papai está precisando mais do que eu ir numa Casa de Striper.
- Vou dormir pai. Amanhã tenho prova de inglês. – que puta sono! Bye dad.

sábado, setembro 3

ABoRReCenTES


MICTÓRIO
Estava com uma amiga da escola discutindo a teoria do heliocentrismo e a força da gravidade.
Quando alguém chega batendo insistentemente minhas costas.
PEDRO (chilado e cínico) - Ei seu nerd, boca virgem e que nunca transou na vida.
O desgraçado me humilha com palavras chulas na frente de uma garota. Que vontade de matá-lo, ou melhor, chutá-lo.
JOÃO (muita raiva)- O que é Pedro?
Pedro puxa João pela farda da escola.
JOÃO- Tu já tá chilado, cara?
PEDRO (chilado) - Não?!É a tua mãe, Einstein. Fumei um quando vim pra essa merda.  Vamos fumar outro?
JOÃO (blefando) - Parei.
PEDRO (chilado e curioso) - Parou, por quê?
JOÃO - Meu pai descobriu.
PEDRO (chilado) - Seu pai não grila. Seu um pai é um corno bem original.
JOÃO (muita muita raiva) - Porra! Não fala assim dele!
Fui embora pra sala de aula injuriado com vontade de chutar alguma coisa (Interessante meu pai também faz isso quando está com raiva – deve ser hereditário). Queria chutar o saco de Pedro e deixá-lo impotente pro resto da vida. Retornei. Entrei no banheiro – não tinha ninguém - e chutei o mictório. Caralho! Quase racho dedão, mas o mictório de porcelana rachou em vários pedaços espirrando água e irrigando todo o banheiro.
Corri pra sala de aula.  
MEIA HORA DEPOIS - A diretora entra na sala.
DIRETORA (demoníaca) - O banheiro masculino está inundado. Alguém quebrou o mictório.  Está todos os rapazes suspensos caso o responsável não aparecer. (mais demoníaca) Seu bando de aborrencentes.
Pedro estava no fundo da sala de óculos escuros. E começou a rir e caiu no chão e levantou as mãos.
PEDRO (ainda chilado) - Essa fui eu.

quinta-feira, setembro 1

ABoRReCenTES

DORALICE
A consulta estava marcada para 4 horas da tarde cheguei com meia hora de antecedência. Falei com a secretária, cabelos meios brancos e tinha uma verruga abaixo do queixo. Uma bruxa. Percebi que ela me olhou de relance meu aspecto: como se procurando algum distúrbio. Alguma loucura.
Admito que tenho olheiras, mas isso não deve ser loucura, só noites mau dormidas lendo Alan Poe.
Só tem uma pessoa na sala de espera sentada no sofá lendo uma revista. Deve ser um pouco mais velho que eu.
Espinhas no rosto como estalactites vermelhas. Suas pernas estão agitadas. Tá de chinelas e uma camisa meio desbotada. Ridícula. Usa óculos. Magro, cabelos curtos, lisos, pretos e despenteados. Feio. Concentrado em alguma matéria da revista. Cheio de arranhões no cotovelo e nos joelhos. Nerd.
Sentei do lado dele com e pus meu headphone no ouvido.
JOÃO
Conversa com a secretária. Toda de preta. Meio gordinha. Branca demais. Acho que não gosta de sol. Tirou os óculos escuros. Seus olhos são verdes. Bonitos. Um fone no ouvido. Uma garota meio Dark. Teve ter minha idade. Lá vem ela. Vou voltar pra revista. Senta ao meu lado.
To a fim de falar com ela.
SEGUNDA CONSULTA
JOÃO - Vou falar com ele, não ainda não.
TERCEIRA CONSULTA
DORALICE (niilista) - Ele cutucou no meu braço. Será que ele é doido? (Tirei o headphone e levantei as pestanas numa expressão de que é?)
JOÃO - Você gosta de Biologia?
DORALICE- Não, gosto de Literatura. Por acaso, você é epilético?
JOÃO (nervoso) - Por quê?
DORALICE - Tenho um primo que cai no chão se tremendo e fica babando que nem um cachorro com raiva. Se arranha todo. Ele é epilético.
JOÃO ( nervoso)- Tenho esses arranhões é por que eu sou goleiro de futsal e o chão é de cimento. E não gosto de usar joelheiras e cutoveleiras.
DORALICE (niilista)- Foi mal. E eu não gosto de futebol - Você ta lendo o quê?
JOÃO (nervoso)- É uma matéria sobre a decodificação do genoma humano. No futuro podemos descobrir quem já vai ter câncer, infarto e outras doenças através de um simples exame de sangue.
DORALICE (niilista)- Legal. (Ele é um nerd)
JOÃO (nervoso)- Você ta escutando o quê?
DORALICE (niilista) - Smashing Punpkins, 1979.
JOÃO (nervoso) - Legal. (nunca ouvi falar)
DORALICE (menos niilista)- Você conhece?
JOÃO (menos nervoso) - No.
DORALICE (curiosa e niilista) – Humm... Por que você esta aqui?
JOÃO (calmo)- Meu pai me pegou fumando maconha. Disse que isso era uma porta aberta pra eu usar drogas mais pesadas como a cocaína.
DORALICE (blasé)- Quer dizer que você é um Nerd maconheiro.
JOÃO (nervoso) – Mais ou menos isso... E você?
DORALICE (niilista) - Eu?!
 JOÃO (curioso) - Sim, você. Por que você ta no psicólogo?
DORALICE (blasé) - Por que mamãe acha que estou depressiva e posso me suicidar.
JOÃO (mais nervoso) - Que dizer que você pode cortar os pulsos a qualquer momento?
DORALICE (blasé)- posso cortar meu pulso no primeiro impulso.
JOÃO – (Voltei a ler o Galileu e ela voltou a escutar sua música freak)
SECRETÁRIA (frígida)– João de Ribamar Silva, por favor, é a sua vez.
JOÃO (olhando de soslaio para Doralice ) – Ei?!
DORALICE ( fingindo surpresa) - O quê?
JOÃO - Tira o headphone (Foi o que eu falei através de gestos com as mãos) - Vou entrar. (Apontei com a ponta da boca pra porta)
DORALICE (niilista) - Bom azar. Todo mundo diz boa sorte.
JOÃO (apaixonado) - Foi sorte te conhecer e azar eu esta aqui.
DORALICE - (niilista). Também.
JOÃO (mais apaixonado) - Qual seu nome?
DORALICE ( sorriu depois de 5 meses) - Doralice.
JOÃO (mais e mais apaixonado)- O meu é João. Thau.

segunda-feira, agosto 29

ABoRReCenTES


TRATO

Pedro e eu tínhamos um trato. Ele era péssimo em Geometria Analítica, Leis de Newton, Revolução industrial e Teorias sobre Evolução. Eu dava pesca pra ele e ele me arranjava à maconha. Me ensinou a bolar (outra palavra nova no meu dicionário) e tragar direito e me deu seu colírio “isso é pra pingar depois no olho e não deixá-los vermelhos” e um cd gravado do Bob Marley . “Saca esse som João. Tu vai viajar ainda mais.” – e ria com sua cara de bêbado.
Depois do jogo trágico. Cheguei em casa e me dirigi automaticamente ao meu quarto. Botei o Bob. Acendi o baseado e fiquei viajando se a vida era um caos completo ou se as estrelas tinha alguma lógica no universo.
Alguém batia no meu quarto. Apaguei o negócio e aspergir bastante perfume no ar e abaixei o som.
MEU PAI (gritando do outro lado da porta) - João há meia hora estou batendo nessa porta. Esse som tá muito alto. Não to conseguindo assistir meu filme. Que cheiro é esse, hein?
Acho que o cheiro ultrapassou as barreiras físicas de concreto do quarto. Abri a porta com os braços pra cima como um suspeito sendo atuado em flagrante por um policial me justificando logo:
EU (um pouco nervoso) - É lavanda de alfazema, eu to com chulé...
MEU PAI (mais nervoso) - Botava talco.
EU - Não tenho. O cheiro é a advindo da fusão entre chulé e alfazema.
MEU PAI (apontando para meus olhos) - Estão vermelhos.
(Me esqueci de botar o colírio) A acusação era visível.
EU  - Pequei conjuntivite.
MEU PAI - Mentira, João de Ribamar (quando estava com raiva usava meu nome e sobrenome) Eu conheço muito bem esse cheiro. Eu fumei maconha no Movimento Estudantil na Universidade e trabalho também com pacientes drogados. Você não me engana. Você esta usando maconha, João de Ribamar?
EU - Que isso pai? Sou o melhor aluno da turma... Por que eu ia fazer isso?
MEU PAI - Não sei. Você que deve saber.
Meu pai é gente boa (Tenho pra mim que ele se masturba mais do que eu) Mora só eu e ele. Ele é Enfermeiro e trabalha num hospício. Meus pais são separados. Minha mãe o deixou por outra mulher (é sério). Foi algo traumatizante pra ele. Me lembro que passou quase um ano sem se relacionar intimamente com outra mulher. E depois desse fato fatídico ficou viciado em filmes. Não sei ainda qual é a relação. Se é que existe. Traição e se tornar cinéfilo.
EU (Na maior cara de pau) - Papai, maconha é legal... Eu tenho altas idéias.
Papai nunca me bateu na vida, mas posso dizer que ele estava com muita raiva naquele momento. E sempre que está com raiva chuta alguma coisa. E chutou. A porta do meu quarto. 
MEU PAI (super zangado) - Olha isso é uma porta aberta pra outras drogas (e chutou mais uma vez a porta do meu quarto) Tem muitos pacientes no hospício que começaram assim e terminaram viciados em cocaína e outras drogas pesadas. Ficaram pinel da cabeça, entendeu? (Fazia gestos imitando um doido enquanto dava o sermão).
(EU) - Pai isso faz parte da vida de um adolescente... É uma fase de descobertas... Você mesmo dagora falou que já fumou.
(MEU PAI) - Na minha época não era assim. Fumei já na universidade e era cabeça feita.
(EU) - Cabeça feita...?
(MEU PAI) - Maduro... Eu tenho um amigo do tempo da faculdade que trabalha com adolescentes assim. Você vai conversar com ele.
(EU) - Ele fumou com você na universidade, no movimento estudantil?
(MEU PAI) - Não! Ele era muito cristão e não gostava de política.
(EU) - Se é para o bem da humanidade eu converso com ele.
(MEU PAI) - Bem pra você. E a o hospício já ta cheio de humanidade que começaram assim.

ABoRReCenTES


FINAL DO CAMPEONATO DE FUTEBOL ENTRE ESCOLAS

Eu e Pedro fumamos um baseado antes do jogo – pra entramos confiantes e tranquilo (Segundo as palavras de Pedro) Jogávamos em casa e precisávamos apenas de um empate.
Não sei se isso influenciou o primeiro gol que levei por baixo das pernas, e dois gols no canto direito, ainda pulei, mas cheguei atrasado, ou melhor, lento. O canto direito sempre foi meu ponto fraco e o pé de esquerdo de Pedro? Estava péssimo, torto. Mas não o de Garrincha. Deu só quatro chutes pro gol. Um pra arquibancada, um no teto da quadra, um nas mangueiras e outro... Que acertou a trave.  Ainda foi expulso o miserável, chegou atrasado numa dividida e quase quebrou a perna do pivô adversário que avançava pelo meio. Acho que estávamos meio doidões nesse jogo. Essa é a verdade. Pior do nosso técnico que arrancou os poucos cabelos que lhe restavam.
O importante é competir – ironizou Pedro – Temos a medalha de prata. (Louco)
Pensei que o técnico ia dar um murro nele. (Eu dava)

sábado, agosto 27

ABoRReCenTES

JOÃO E PEDRO FUMAM MACONHA
O primeiro cigarro de maconha foi aos 16 anos de idade. Detalhe, eu ainda tenho 16 anos de idade. Quem me ofereceu foi um amigo que joga futsal comigo. Pedro. Ele é ala esquerda e eu goleiro. Foi na hora do recreio. Ele disse se eu tava a fim de curtir uma “viagem”.
Vindo de Pedro sabia que não ia discutir sobre a via láctea.
Fumamos atrás da quadra de esportes, onde a paisagem de imensas amendoeiras, mangueiras e outras árvores favoreciam aquela minha primeira pratica ilícita (não vou mencionar os bombons de chocolate enfiados dentro cueca no supermercado nas Americanas). Nos entocamos por trás de um tronco de árvore. Ele tirou um papel enrolado de loteria com o bagulho. Palavra nova no meu dicionário.
PEDRO (empolgado) - Esse é do bom nerd. Sem química. Natural.
Arrancou um pedaço de papel do seu caderno (agora descobri pra que servia seu caderno) onde ainda pude ver que tinha uma equação do segundo grau em lápis [Responderia com facilidade aquela equação]. Segurei o papel e ele pôs uns matinhos verdes e cheirosos. Desviou bem e depois enrolou como um cigarro e usando a saliva da língua pra colar.
Não sei por que, mas as árvores pareciam se mexer e as cores estavam mais nítidas, fortes... O sinal tocou e nos despertou e fomos lentamente pra aula de história rindo de uma piada besta que ele contou:
- Você sabe a piada do pinto que não tinha bunda? Foi peidar e explodiu.
Engatei a palavra nos pensamentos “explodiu” e racionei:
- Se a teoria de evolução de Darwin é uma evidência incontestável e o big bang – a grande explosão é uma hipótese plausível. Essas teorias refutam definitivamente a criação do cristianismo de Deus. Essa História de Adão e Eva é puro conto de fadas Pedro.
PEDRO (chilado) - Essa maconha te deixou mesmo viajante.
Pedro era mesmo um maconheiro sem cérebro. Ainda bem que sabia chutar bem com a perna esquerda. Sua ganhota era certeira.

ABoRReCenTES

DORALICE ESTÁ COM DEPRESSÃO
(MÃE) – (preocupada) - Doralice o que esta acontecendo com você?  Passa horas nesse quarto, carrancuda, sem sair - a mais de mês você esta... Estranha – ouvindo essas músicas estranhas, sem se alimentar direito, você vai ficar fraca, anêmica... Olha, olha?! Você está pálida...  Suas notas na escola não estão muitas boas, com exceção de literatura e português.
Mamãe ainda analisa meu boletim escolar. Que coisa anacrônica pra minha idade.
Não respondia nada (A músicas estranha que ela se refere é rock progressivo). Tinha apenas uma vontade incontrolável de chorar. E chorava no quarto trancado quando ela sai. É raro ela se retirar de casa, quando faz isso, é pra ir pra feira ou fazer algum pagamento e tem a missa de domingo e almoços esporádicos na casa da sua sogra. Não passa mais nesses programas mais de 4 horas, ou seja, ela passa de 20 a 24 horas em casa, ou seja, a maior parte do tempo. Dona de casa exemplar e perfeccionista. Obsessiva. Gosta de tudo brilhando, arrumado e cheiroso, isso tudo no superlativo. Quanto ao meu pai. Não sei muito sobre ele. Sei que é um advogado criminalista e como afirmava “advogar para ladrões, estelionatários, traficantes dava bastante lucro, apesar de ser na metade, uns 50%, são causas perdidas” Sinceramente penso mesmo que meu pai é um cara sem escrúpulos. Mas como ele sempre justificava: “Alguém tem que defender esses caras, ainda por cima são eles que pagam nossas contas, nosso almoço, sua escola minha filha”.  E apontava para mim com o gafo na mão e um sorrisinho malandro com um fiapo de carne entre os dentes. Pobre do bode expiatório aqui. Apesar da cara feia de minha mãe católica - no fundo daquela expressão malograda eu tenho absoluta certeza que ela consente com as afirmações canalhas do seu marido.
 Ultimamente ele chegava mais tarde em casa.
(PAI) - (ansioso) - A violência aumentou muito na cidade, são os efeitos do progresso urbano, e proporcionalmente os nossos lucros. – Meu pai sempre tinha uma defesa com boas estatísticas. E terminou a frase dizendo que ia trocar de carro por um mais moderno. E ia comprar o baixo que tanto pedi. Aí e eu sorri. Poderia defender agora até homicidas. Brincadeirinha.
Então um dia minha mãe abriu sem bater a porta meu quarto. E lá estava uma adolescente em lágrimas escutando The Cure.
Sentou ao meu lado. Pegou minha mão e disse que ultimamente tinha visto um programa de TV onde entrevistaram um psicólogo famoso. Ele dizia que a adolescência era uma fase conturbada de intermediação para a vida adulta. Essa fase gerava muitos conflitos na cabecinha dos adolescentes. E era comum alguns terem quadro de tristeza e acabar fazendo besteiras. Ela queria dizer mesmo era depressão com tristeza e suicídio com fazer besteira. Mamãe é cheia de eufemismos. E terminou a explanação dizendo:
Mãe (doce)- Doralice, marquei uma consulta com um ótimo psicólogo que minha amiga me indicou. Quero dizer em primeira mão que você não é louca, mas como disse o cara da TV é preciso, às vezes, um acompanhamento de um terapeuta. Você pode ir? Já marquei a consulta. Tá bom minha gatinha?
Odiava quando mamãe me chamava no diminutivo. Sei que era carinhoso. Mas não sou mais uma criança. Sou apenas uma metamorfose ambulante cheia de conflitos.
Dei apenas um sinal afirmativo com a cabeça. Pedi pra ela sai e aumentei mais o volume de Boys Don`t cry.