terça-feira, novembro 3

Três é Demais: Nick Drake

Por Oluap Said
 
"Nick estava, de uma maneira estranha, 
fora de seu tempo. Quando se estava 
com ele, sentia-se que ele não era daquele século"  
(Robert Kirby)

 
Às vezes um artista, excepcional cantor e compositor, não encontra durante sua carreira no mundo da música o entendimento e a apreciação de sua obra. Raras pessoas dão valor ao seu talento e até o encorajam a seguir em frente, mas há um momento na vida que esse artista se pergunta o que está fazendo de errado. O jovem compositor inglês Nick Drake se perguntou, em certa altura da carreira, por que seus discos e sua música não eram apreciados, visto que ele tinha uma capacidade espantosa em compor canções sensíveis e em escrever letras carregadas de poesia. Além de um letrista formidável, Drake foi um violonista de toque único, com um dedilhar límpido nas cordas de um violão e técnica para lá de virtuosa, utilizando-se de inúmeras afinações. Antes de iniciar a fadada carreira musical, Nick ingressou em 1966 na Universidade de Cambridge para estudar Literatura Inglesa. O tímido e introspectivo Nick Drake era fascinado pelos poetas românticos ingleses e pelos poetas simbolistas franceses; também fascinado pelo folk inglês - principalmente por Bert Jansch, que influenciou meio mundo - e pelo blues de personas como Robert Johnson e Josh White. Descoberto num festival por Ashley Hutchings (da banda Fairport Convention), Drake foi apresentado ao produtor Joe Boyd, que já havia trabalhado com Pink Floyd e The Incredible String Band. A partir disso, Drake parte para gravar seu primeiro disco, Five Leaves Left, que foi lançado em 1969. O segundo trabalho fonográfico, Bryter Layter, saiu em 1970 e o último disco, Pink Moon, em 1972.
Fives Leaves Left abre com a sensacional "Time Has Told Me", tendo o guitarrista Richard Thompson (do Fairport Convention) e o baixista Danny Thompson (do The Pentangle). Nessa canção, já se tem uma prova do talento peculiar de Nick Drake ao violão e da sua veia poética. A voz quase sussurrante de Nick Drake só aumenta o clima pastoral e arcaico das canções. Em seguida, "River Man" apresenta um arranjo bucólico com belos violinos, pontuando o som do violão e a voz de Drake. O arranjo de cordas refinado dessa canção foi elaborado por Harry Robinson, enquanto nos restantes das faixas os arranjos orquestrais ficaram por conta de Robert Kirby. Logo depois, a introdução de "Three Hours" atesta a capacidade singular de Drake em retirar sons sublimes do violão, que ainda pode ser vislumbrada no decorrer da canção. Entre outras qualidades exibidas ao decorrer do álbum, isso o coloca junto aos grandes violonistas do folk inglês como Davey Graham, Martin Carthy, Wizz Jones e do já citado Bert Jansch. Vindo logo após "Three Hours", o arranjo de cordas em "Way to Blue" cria um colchão para que Drake exponha seu canto introspectivo. A seguir, o dedilhado finíssimo de Drake em "Day is Done" acompanha os versos recheados de angústia e melancolia. Um dos pontos altos do álbum é a majestosa "Cello Song". A poesia se faz presente nessa canção nos versos: "You would seem so frail / In the cold of the night / When the armies of emotion / Go out to fight". Continuando as preciosidades, "The Thoughts of Mary Jane" vem para acalentar os ouvidos com sua doce melodia e arranjo, enquanto o piano e o violão se comunicam harmoniosamente em "Man in a Shed". Logo depois, no dedilhar sereno em "Fruit Tree", Nick Drake prenuncia toda sua melancólica carreira nos versos: "No one knows you but the rain and the air / Don't you worry / They'll stand and stare when you're gone" (Ninguém te conhece, exceto a chuva e o ar / Não se preocupe / Eles ficarão em pé e se espantarão quando tu te fores), "Safe in your place deep in the earth / That's when they'll know / What you are really worth" (Seguro no teu lugar na profundeza da terra / É quando saberão / Que realmente tu tens valor). Para encerrar, "Saturday Sun" com ar gospel e soul finaliza Five Leaves Left com chave de ouro.
Abrindo Bryter Layter, a instrumental "Introduction" desponta com ornamentações orquestrais bastante floreadas, assim como em outras canções do álbum, que tentam afastar o clima soturno/melancólico do primeiro disco. Em seguida, "Hazey Jane II" apresenta toda uma gama de instrumentos de sopro e percussão. Depois vem o toque citadino de "At the chime of a city clock", em que Drake faz suas reflexões sobre a vida numa cidade, deixando d lado sua poética pastoral. O arranjo jazzístico nessa canção retira um pouco da característica folk de Drake. A seguir, a belíssima "One of these things first" mostra novamente o violão majestoso de Drake e um piano muito bem executado. Em ato contínuo, a melodia magnética de "Hazey Jane I"  é um nicho perfeito para o arranjo rebuscado e para as dedilhadas límpidas de Drake no violão. A faixa que dá título ao disco, "Bryter Layter", é uma peça instrumental, com direito a flauta e outros instrumentos de sopro, tendo Drake no acompanhamento de base ao violão. Um dos destaques do álbum, "Fly" demonstra um lado mais pop e alegre de Drake. A seguir, a letra intimista/confessional de "Poor Boy" se harmoniza com o arranjo jazzístico, que novamente vem à tona no álbum. Logo após, uma das grandes canções de Drake, "Northern Sky", surge para levar qualquer ouvinte ao sétimo céu. A participação ilustre do ex-Velvet Underground John Cale ao piano nessa canção apenas a engrandece mais, assim como em "Fly", na qual tocou cravo e viola. Sem sombra de dúvidas, é uma das melhores letras de Drake, como atesta os versos: "I never felt magic crazy as this / I never saw moons knew the meaning of the sea / I never held emotion in the palm of my hand / Or felt sweet breezes in the top of a tree / But now you're here / Brighten my northern sky" (Eu nunca senti magia tão insana como esta / Eu nunca vi luas conhecerem o significado do mar / Eu nunca segurei emoção na palma de minha mão / Ou senti doces brisas no alto de uma árvore / Mas agora você está aqui / Iluminando meu céu do norte). Fechando o álbum, a instrumental "Sunday" tem como destaque a flauta, além do violão de Drake.
"Pink Moon", a faixa que dá nome ao álbum, abre o terceiro e derradeiro disco de Nick Drake, gravado em duas únicas sessões. Neste trabalho, Drake gravou apenas cantando, com sua voz etérea cheia de emoção, e tocando violão, exceto em "Pink Moon", em que ele também tocou o piano. De fato, Drake se desvencilhou dos arranjos orquestrais para se concentrar apenas em seu violão. Na segunda faixa, "Place to be", a força poética de Drake está mais viva que nunca, apesar de estar vivendo na época uma forte depressão, afirmando na letra que "I'm darker than the deepest sea". Em seguida, "Road" tem Drake no melhor de sua técnica de dedilhado, influenciado por nada menos que Mississippi John Hurt e Jackson C. Frank. A seguir, os versos simples de "Which will" encontram suporte na voz contida e no violão fluido de Drake. Logo depois, a instrumental "Horn" é de uma beleza suprema e serve como um interlúdio para que outras peças sonoras raras se exibam. Vindo após "Horn", "Know" é uma canção curta com apenas quatro versos simples, enquanto "Parasite" parece confirmar a melancolia profunda de Drake, estampada nos versos desesperados e sem autoconfiança: "And take a look you may see me on the ground / For I am the parasite of this town" (E dê uma olhada que você pode me ver no chão / Pois eu sou um parasita nesta cidade). Com habilidade diante das cordas do violão, Drake cria uma base perfeita para cantar "Free Ride". Logo depois, outra canção curta, "Harvest Breed", desponta no álbum, cuja letra desesperançosa talvez aponte para a morte iminente de Drake: "Falling fast and falling free / This could just be the end / Falling fast you stoop to touch / And kiss the flowers that bend" (Caindo rápido e caindo livre / Isto poderia ser o fim / Caindo rápido você parou para tocar / E beijar as flores que se curvam).  Para finalizar o excelente Pink Moon, "From the morning" lança um ar de (des)esperança no futuro de Drake: "So look see the sights / The endless summer nights / And go play the game that you learnt / From the mornig" (Então olhe, veja as paisagens / As noites infinitas de verão / E vá jogar o jogo que você aprendeu / De manhã).
É de lamentar a morte prematura de Nick Drake aos 26 anos de idade, em consequência de uma overdose de remédios antidepressivos para tratar sua depressão crônica, que ele desenvolveu durante sua curta carreira. No decorrer dos anos após sua morte, a influência e o reconhecimento da obra de Nick Drake cresceu exponencialmente. Artistas como Robert Smith do The Cure, Peter Buck do R.E.M., Stuart Murdoch do Belle & Sebastian, Jeff Buckley e Elliot Smith foram influenciados pela música de Nick Drake. Apesar da venda baixíssima dos seus três álbuns, que contribuiu imensamente para sua depressão, Drake é hoje em dia um dos artistas mais propalados no meio musical. Desde da década de 1980, o nome de Drake vem sendo propagado em programas de rádio, documentários, filmes e livros. O relançamento de seus discos e o reconhecimento tardio da crítica musical especializada ajudaram a transformar Nick Drake em um artista cult, cuja história envolta em mistério e depressão o colocam como o John Keats da música folk. Sem sombra de dúvida, Nick Drake está no Parnaso ao lado dos grandes artistas do folk moderno, como por exemplo, Bob Dylan, Van Morrison, Donovan, Joni Mitchell e Leonard Cohen.

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