terça-feira, setembro 9

Cassandra

    Lá estava eu ao cair da tarde escutando Leonard Cohen e bebendo uma boa pinga quando Cassandra chegou muito irritada após o trabalho. Há dois anos, ela trabalha em uma loja de calçados. Às seis horas da manhã, Cassandra sai para pegar o ônibus e por volta das dezoito horas ela chega em casa. Eu estava no sofá bem tranquilo. Ao se aproximar de mim, ela falou irritadiça:
- Porra! Você não faz nada além de beber e de escutar essas merdas. Muito bonito! Você fica bebendo essas porcarias o dia inteiro enquanto eu trabalho. Isso vai ter que acabar. Viu?!
    Simplesmente não falei nada. Eu esperava que ela chegasse mais doce e calma, uma vez que hoje é o aniversário da mãe dela. Pela manhã, eu tinha feito um poema para Cassandra chamado "Estrelas Dúbias". Desse jeito que ela estava, eu não poderia presenteá-la com minha criação poética. Não fiquei nenhum pouco zangado com a bronca dela. Imaginei ela se despindo, tirando aquela camisa horrível da loja, enquanto eu jogava sobre ela um pouco de vinho. Lá em casa não tinha uma garrafa de vinho, então eu teria que jogar cachaça mesmo. Ela ainda estava parada diante de mim quando me perguntou:
- Você ligou pra minha mãe? Hoje é o aniversário dela, lembra?
- Eu liguei pra ela a cobrar, mas ela não retornou, amor. - falei levando mais um copo de pinga para a boca.
- Você é um insensato mesmo. Você liga pra minha mãe a cobrar no dia do aniversário dela. É muita cara de pau! Claro, você gasta com bebida todo seu dinheiro do seguro-desemprego e não coloca a porra de um crédito nessa merda de celular.
- Meu amor, a culpa é do Rimbaud. Eu bebo assim desde dos meus dezessete anos e você já me conheceu assim. Então, vai tirando essa tua faceta de boa conselheira para cima de mim. Além disso, devo te lembrar que tua mãe não gosta de mim.
- Culpa de Rambo, nadica de nada! Você nem gosta de filmes de ação. Você fica assistindo esses filmes franceses chatos. Eu só te peço para tirar essa bunda do sofá e procurar um emprego. Eu não vou ficar trabalhando sozinha pra sustentar você, seu vagabundo. Nem a universidade você terminou. Que vida, meu Deus! Minha mãe já gostou de ti, mas agora ela não gosta mais. Simples assim.
    Eu só queria beber em paz. Pelo andar da carruagem, eu teria que me explicar a noite inteira para Cassandra. Na verdade, eu não queria explicar que eu assistia filmes suecos e não franceses, e nem falar quem foi Rimbaud. De fato, ela não compartilhava dos meus gostos literários e de Cinema. Além do mais, ela sabia que eu tinha alguns contos e iria publicar um livro; apenas eu não sabia quando. Mas isso para ela era coisa de vagabundo. No começo do nosso relacionamento, ela me apoiava muito e também gostava sinceramente dos meus poemas. Com o passar dos anos, ela mal lia minhas criações e isso me deixava bastante puto. Muita coisa mudou.

*
    Conheci Cassandra numa bela tarde. Isso já faz quatro anos. Me lembro muito bem. Eu estava indo para a casa de um amigo chamado João Paulo, que morava no Cohatrac. Toda tarde eu ia à casa dele para beber um pouco de vinho. Na rua da casa desse meu amigo eu seguia escutando uma  música barulhenta quando eu cruzei com uma loira - era Cassandra. Trocamos um olhar demorado. Depois de alguns dias, eu cruzei novamente com ela. Não perdi a oportunidade.  Perguntei-lhe as horas e depois perguntei seu nome. Que grande tolice! Conversamos durante alguns minutos, trocamos telefone e seguimos em sentidos contrários. Ela era meio patricinha, enquanto eu era um punk desajustado. A primeira vez que eu liguei, ela disse que estava "navegando" na internet. Na segunda vez, marquei um encontro com ela na frente da Igreja Católica. Ficamos na praça onde hoje em dia ocorre o Sebo no Chão aos domingos. A conversa foi bem agradável e falamos de nossas infâncias e de coisas supérfluas. Ela amou quando eu declamei um soneto de Vinicius de Moraes. Repetidas vezes eu já tinha feito isso e nenhuma das garotas que eu conheci tinha realmente gostado, mas a Cassandra ficou vislumbrada.
    Um belo dia meu amigo me emprestou a casa em que ele morava junto  com a mãe anciã. Ele me jurou que a mãe dele não estaria em casa em certa hora da noite. Ao passar do portão eu observei que a anciã estava na casa. Eu peguei o celular de Cassandra e liguei com raiva para meu amigo. Ele disse que a mãe dele estava doente e que ficaria deitada na cama. Desliguei meio contrariado. Havia uma cisterna na casa dele. A cisterna estava vazia. Vi que tinha uma escada. Convidei Cassandra para irmos lá para baixo. No início, ela ficou meio receosa, todavia ela aceitou. Eu desci primeiro. Ajudei ela na descida. Começamos a nos beijar lentamente, por algum tempo, naquela escuridão. Fiquei logo excitado e tirei a roupa dela, pois vi que ela estava muito excitada. Pedi para ela ficar de quatro. Ela gemia quando eu a penetrava. Ela gozou. Eu demorei um pouco para gozar. Ao subirmos, ela me avisou que tinha ralado os joelhos. Começamos a rir juntos. Depois desse dia, nos encontrávamos com certa regularidade. O namoro foi ficando sério, até o dia em que juntamos os trapos.
    Cassandra começou a trabalhar na loja de calçados depois de nosso casamento. Eu fazia faculdade de História na época do casamento, mas na universidade eu só bebia sem parar. Eu ia para o Sá Viana jogar sinuca e beber. Invariavelmente, eu não assistia as aulas. Morávamos em uma quitinete apertada, onde pagávamos o aluguel com bastante esforço. Às vezes, nossos pais ajudavam no aluguel e na despesa do mês. Uma certa vez eu peguei um dinheiro na casa da mãe de Cassandra para comprar alimentos. No supermercado, eu fui direto para a seção de bebidas e comprei alguns litros de vodka e whiskey. Desde desse fatídico dia a mãe de Cassandra não gostou mais de mim. Foi apenas um pequeno incidente. Então, eu decidi arrumar um emprego. Na verdade, arrumei um emprego bem modesto em uma concessionária de veículos usados. Após um ano eu fui demitido. Meu chefe alegou que eu estava chegando muito tarde no serviço. Comecei a escrever e beber com intensidade depois disso.

*
    Cassandra ainda estava postada como uma estátua diante de mim. Com as mãos na cintura, ela esperava alguma reação minha. Não sei o que aconteceu  para ela estar como um vulcão em erupção.  Acho que ela teve um dia difícil no trabalho. Ao tornar-se gerente da loja, ela descascava muitos pepinos. Como saída para tentar apaziguar o ânimo de Cassandra, perguntei como tinha sido o dia dela. No entanto, veio mais uma bronca, que eu não dei a mínima atenção. Depois da bronca, Cassandra se dirigiu enraivecida para a cozinha. Na volta para a sala, veio com um copo vazio na mão. Ela me olhou séria e disse:
- Coloca um pouco disso pra mim, seu imprestável.