quinta-feira, setembro 12

Devotos de Riba - Entrevista com o vocalista Alex Soares.

Devotos de Riba fazendo um Som no Odeon

Quem é a Devotos de Riba e como a banda se formou?
Em 2000, depois de 12 anos afastado da ilha, voltei de Recife com umas letras e uns riffs de guitarra. Já tinha umas coisas na minha cabeça, como estéticas, texturas e, uma premissa principal, tocar músicas fáceis para todo mundo se divertir. Mas eu sozinho, não me bastava. Foi aí que comecei a procurar  parcerias. Tarefa árdua. Esse lance de parceria requer sintonia entre os integrantes. Depois de anos procurando e sem obter resultados, acabei desistindo. Então, reencontrei um amigo que estava morando em Belém e, assim, surgiram os primeiros sons da Devotos de Riba. Na época tocávamos com uma bateria eletrônica, depois convidamos alguns bateras, até chegar o Marcelo, que entendeu a proposta e deu uma harmonização de bateria mais orgânica. Na guitarra e vocal, eu, Alex Soares. No baixo e vocal, Dárcio Souto. Na bateria, Marcelo Lennon. Hoje, é assim que a banda toca.

O quê significa o nome da banda?
É uma brincadeira com as coisas de São Luís. Essa terra é marcada por crenças e poder. São devotos de todos os santos, entre eles São José de Ribamar e de outro José de Ribamar (risos). Isso é a cara de São Luís.

Quais as influências musicais da banda?
As influências da banda vêm desde os rocks clássicos (Led, Black Sabatth, Deep Purple, The Who, Doors) e de outros mais modernos (Black Keys, Queens Of The Stone Age, MGMT), além de uns brasileiros como Raimundo Soldado, Roberto Carlos, Ronnie Von, Demétrius, Júpiter Maçã e Odair José. Outras influências vieram do reggae, do jazz e de qualquer coisa que seja legal, ou não.

Vocês já têm algum material gravado?
Estamos nos preparando para gravar nosso primeiro EP. Acredito que em outubro ou novembro deve estar pronto. Aguardem.

Gostaria de agradecer pela entrevista e o espaço é de vocês.
Obrigado pelo canal de comunicação e viva o rock alternativo! São Luís precisa de muitas bandas autorais, então, você que toca alguma coisa, saia da garagem e vem pra rua.

Dá um play nessa Música ( Barbie) 


sexta-feira, agosto 16

O jazz do coração

Por Maria Ligia Ueno 

E as batidas do meu coração ressoam como sinos na madrugada gelada, causando calafrios nos ouvintes solitários, causando balbúrdia nas ondas sonoras com as quais cruza. Ouvem-se com perfeição cada toque de hora, mas não é uma hora comum. A minha hora não se reúne em minutos, nem em segundos, mas em risos. E cada hora passa mais rápida ou mais lentamente, a depender da distância entre a tua presença e os meus sentidos.
E como um trem a vapor, segue quase descarrilando, deixando-se torrar pela caldeira quente em que minha linfa se transformou. Apitando próximo às aldeias, chamando teu nome com um assobio forte, quem sabe em qual delas estará?

Segue, Maquinista, segue avante, diz-lhe meu som. Ponha lenha na minha caldeira, deixe-me queimar, deixe o fogo consumir o que restou de mim.


Mera ferrovia, esta é a definição da minha esperança, e as batidas do meu coração seguem soando, trilhos afora, o que espero do futuro. Expectativas devidamente demarcadas entre duas paralelas de ferro, e estas dão a volta ao mundo.
E meus trilhos dourados, assim como os tijolos de Dorothy, levam-me ao destino, levam-se ao acaso, levam-te junto. Seguindo pelos belos campos, subindo montanhas, descendo penhascos, em alta velocidade, e apreciando a paisagem que construímos pingo a pingo, numa linda pintura pontilhista.
E meu coração direciona o som de seu tamborilar, per-seguindo outro trem, que emite outro som, outras batidas de outro coração.


quinta-feira, agosto 8

Z de Vingança, Marcos Magah




Por Natan Castro

Escutando (Z de Vingança) de Marcos Magah, podemos perceber que algumas coisas ali não eram pra ser, alguns arranjos repetitivos, resumindo, algumas coisas não ficaram legais nesse trabalho. Mas o que nos chama atenção no final da audição, é que querendo ou não tem uma cara a bater ali, um cara disponibilizando tudo, uma doação, uma entrega, com a sua voz ora tristonha ora lancinante. Marcos Magah canta em alto e bom som, as dores de uma caminhada que nem sempre é feliz. Acompanhado por arranjos setentistas que revisitam uma época onde a dor de cotovelo de verdade estava em alta, o teclado minimoog que eternizou as canções e Roberto e Eramos, e a postura seca dos versos que salpicam lamentos em todas as oito canções do álbum. Servem de pano de fundo da mensagem.


Existiria um paralelo entre o Punk e o Brega? Sim claro que sim, podemos imaginar que um é o extremo do outro, Marcos Magah possui um passado de militância punk em uma banda chamada Amnezia, e nos dias atuais foi acolhido nos braços das influências bregas, por que os extremos nele parecem cair bem melhor que os meios termos. Como ele mesmo fala na letra de (Dedos e Anéis) “Eu tive que me perder, para me achar”. Marcos Magah no final das contas, contando os mortos e feridos, fica no saldo porque se o Z tinha que ter um sentido, a marca da vingança chegou para explicar.



quarta-feira, julho 31

Vagabundos e Egocêntricos


Nos últimos meses o Brasil vem passando por constantes manifestações que começou por causa do aumento do preço de passagem da cidade de São Paulo e outras capitais do país em que os estudantes foram às ruas contra o aumento das tarifas.

Começou a surgir outras causas que foram reivindicadas por diferentes categorias e setores da sociedade, como a PEC (Projeto de Emenda Constitucional) – 37 que visava tirar poderes de investigação dos ministérios públicos estaduais e federal, deixando apenas para as policias civis dos estados e federal, por exemplo, conquistada a revogação da PEC, surgiram outras reivindicações que no momento é pauta de discussão na sociedade.

Entre elas é a dos médicos através dos Conselhos Regionais de Medicina nos estados (CRM´s), Conselho Federal de Medicina (CFM) e outras organizações que representam a categoria, isso começou quando o governo federal resolveu atender a reivindicação vinda das ruas que pediam mais médicos nos postos de saúde e em hospitais do SUS (Sistema Único de Saúde), principalmente nas periferias de grandes cidades, cidades interioranas e em zonas rurais.

Devido o desinteresse de muitos médicos que se recusa a trabalhar nessas localidades, o governo começou a cogitar possibilidade de trazer os médicos de outros países, principalmente os cubanos, começou daí a briga de médicos com o governo, por serem contrários a vinda destes ao país ao alegarem que os médicos brasileiros devem ser priorizados e os de fora devem se submeter a uma revalidação pelo Conselho Federal de Medicina, numa espécie de prova da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) para exercer de fato a advocacia.

Os médicos têm todo respaldo e legitimidade pra manifestar e reivindicar (algo que pouco se vê por sinal), mas eu não sou solidário com essa categoria, está certo que existem prefeituras que não pagam devidamente, dá calote (atraso dos salários) e sem contar as mínimas condições de trabalho em hospitais e postos de saúde.

A corrupção existe no SUS é a principal causa do descaso no sistema de saúde em todo o Brasil, principalmente em cidades interioranas, zonas rurais e periferias nas grandes cidades, justamente nas localidades onde há falta de profissionais da saúde, especialmente de médicos.

Contudo, reitero a minha não solidariedade a essa categoria. E porque? Historicamente e culturalmente os cursos de direito e medicina são voltados para as classes elitistas que serve apenas para o status quo ou simplesmente para ser chamado de doutor.

É comum bacharéis de direito e medicina quererem a todo e qualquer custo serem chamados de doutor, advogados e médicos ostentar a denominação sem sequer terem feito a especialização e ainda mais o doutorado, enquanto o papel social dessas profissões de fato é ignorado.

Os estudantes e bacharéis em direito quando se formam muitos só pensam apenas na ascensão social sem se importar com as injustiças, os estudantes e bacharéis em medicina, este em especial, quando se formam, muitos não querem trabalhar em postos de saúde ou hospitais do SUS.

Muitos destes pensam apenas na ascensão social ou política, é comum ouvirmos frases tipo: quero ser médico pra ser chamado de “doutor” (sem ter feito o doutorado), quero ser médico pra ganhar dinheiro, quero ser médico porque quero ingressar na carreira política, seja em mandato eletivo como vereador ou deputado ou ser diretor de posto de saúde ou de hospital, mas sem precisar trabalhar ou ir ao local de trabalho, trabalhar num grande hospital privado ou simplesmente montar o seu próprio consultório.

Resumindo, grande parte dos médicos não quer trabalhar de fato na rede pública, principalmente dos interiores, zonas rurais ou periferias das grandes cidades, que se encontram a maioria dos pobres e excluídos da sociedade, vivem na condição de pobreza extrema ou abaixo da linha de pobreza.

Preferem ficar nas cidades e em áreas nobres com seus consultórios cobrando 500 reais por consulta de 30 minutos estampando um lindo sorriso colgate com os dentes brancos, ouvindo os dizeres do cliente (não paciente porque está pagando para ser consultado num ambiente privado), pega o pulso do individuo (e olhe lá quando pega) para saber o que sente e em seguida passa a receita médica e indica um outro médico para o mesmo procedimento (quando o caso não é grave) ou pede o retorno pra saber do resultado (como forma de faturar mais dinheiro ($$$)pelo serviço das consultas médicas).

Agora pegar num bisturi, fazer de fato todo procedimento que deve ser feito pra ser saber o que passa o individuo que nesse caso é o paciente, são os vagabundos que adoram desfilar nas ruas todo de branco e colocar nos ombros o jaleco, como forma de mostrar a sociedade a sua posição social, são os mesmo que se recusam a colocar as suas lindas mãos de porcelanas ao corpo do paciente banhado de sangue, fratura exposta ou vísceras do lado de fora.

Esses tipos de trabalho muitos destes não querem exercer, são insensíveis a causa humana e até aos indivíduos que clamam por atendimento antes de morrer, é comum nos hospitais públicos pacientes morrerem clamando por um atendimento diante da vista destes médicos que nada fazem e nem sequer se comovem diante da situação enferma.

Esse é o motivo destes senhores e senhoras de jaleco iràs ruas protestarem contra o governo, porque não querem trabalhar, querem continuar no seu lugar social sem contato com os que realmente precisam.

O governo federal para resolver o problema que está sendo clamado nas ruas para resolver o problema da falta de médicos, cogitou a possibilidade de contratar médicos estrangeiros, principalmente os cubanos, os conselhos e organizações da categoria de forma corporativista foram contra, o governo ouvi a reivindicação dos médicos e estudantes de medicina.

Criou o “Programa Mais Médicos” que visa ampliar o número de vagas nos cursos de medicina, principalmente nos interiores que estão instalados as universidades federais, o próprio governo nesse programa vai pagar 10mil reais para que os profissionais atuem nos interiores, zonas rurais e periferias nas grandes cidades, sendo que as prefeituras se encarregarão de garantir a moradia e alimentação, não tendo mais a responsabilidade de pagar o salário destes profissionais que são altos por sinal, comparável com outras profissões, como a de professores.

Em contrapartida, o governo através do ministério da Educação pretende reformular o curso de medicina aumentando de 6 para 8anos, sendo que 2anos será dedicado a trabalhar no SUS, principalmente em localidades que carecem desses profissionais como foi citado anteriormente.

E novamente os conselhos e organizações da categoria estão nas ruas contra o governo para protestar contra o programa, aumento de duração do curso de medicina de 6 para 8 anos e a obrigatoriedade de trabalhar nos hospitais do SUS (a principal causa da revolta) e em localidades que carecem de médicos.

Nessas circunstâncias devemos ser solidários aos médicos? Devemos estar no lado deles contra o governo? Eu estou no lado do governo em relação a problemática da falta de médicos que deve ser resolvido em imediato devido o clamor vindo das ruas com as manifestações ocorridas recentemente.
Os senhores e senhoras dos jalecos não estão nem aí pra ruas e muito menos das necessidades da população, pouco importa que a função deles é salvar vidas, sendo que o importante é o status e ascensão social e politica sem dar a importância do seu papel social na sociedade.

Eu tiro o exemplo de mim mesmo, sou professor da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) pelo Programa Darcy Ribeiro, trabalho nas cidades de Balsas, Barra do Corda, Grajaú e Loreto, essas cidades ficam entre a região central e sul do Maranhão, bem distante da capital que a viagem de ônibus dura em média 12 horas, sendo que em Balsas a distância é maior podendo chegar a 15 horas de viagem e menor é Barra do Corda podendo durar apenas 10 horas.

Eu sou um dos poucos que mora em São Luís que se dispõe a viajar toda semana pra trabalhar nessas localidades (ainda fui chamado de louco por alguns por achar que não valeria a pena ou por ser arriscado), a maioria preferem ficar em São Luís na via crucis ao acordar cinco da manhã para sair de casa as seis pra pegar ônibus extremamente lotado em que as pessoas te apertam, imprensam, esfregam, pisam no seu pé, empurra, esbarra e sai do ônibus e chega ao local de trabalho suado, roupa amassada, manchada e suja, exausto e estressado, sendo que sai de casa bem humorado e com a roupa bem passada e limpa.

Eu mesmo já passei por isso diversas vezes quando saia de casa para ir ao trabalho, dizia pra mim mesmo que isso não era vida pra mim, ficar preso num transito engarrafado atrasando o tempo da viagem e o horário de chegar ao trabalho, tendo que assinar o ponto e se passar do horário e limite de tolerância levava o carimbo no lugar da assinatura, e se levasse três carimbos levaria uma falta e um falta resultava no desconto do salário entorno de 50 a 60 reais, para um pobre trabalhador que recebe um salário mínimo é uma humilhação.
Eu no meu caso dei um basta a essa humilhação, mas há colegas que eu conheço que prefere ficar na via crucis ou nessa humilhação, trabalhar em duas ou três escolas diferentes para receber ao menos uns 2 mil reais por mês, que as vezes nem chega a esse valor por causa do imposto de renda e outros impostos como a previdência, por exemplo, chega em casa estressado e mal humorado, e passa a semana toda desse modo.

E ainda assim se recusam a ir trabalhar no interior, mesmo sabendo da vantagem de ganhar mais com o salário e ajuda de custo, e quando vai é pra perto ou menos longe, se falta médicos no interior do Brasil e particularmente no Maranhão, falta também professores.
O Programa Darcy Ribeiro (PDR) gerenciado pela UEMA é pra qualificar os docentes e formar professores que já atuam na área, mas que não tem diplomação de nível superior e são impedidos de atuar nos outros níveis de ensino, como fundamental e médio.

Porque muitos dos professores que atuam no ensino, são do ensino básico e abre espaço para os que não atuam na educação pra se qualificar com os curso de nível superior na área de licenciatura, essa é a finalidade do PDR em muitas cidades do Maranhão, como Loreto que tem 10 mil habitantes, que carece não só de médicos mas também de professores.

Há outros programas desse gênero como a PARFOR (Programa de Aperfeiçoamento e Qualificação de Professores) que é gerida por instituições de ensino superior em todo o Brasil nas unidades federativas, como a UFMA (Universidade Federal do Maranhão) e IFMA (Instituto Federal do Maranhão), por exemplo, a UFMA tem outro programa que é o PROEB (Programa de Qualificação de Professores do Ensino Básico), todos esses programas citados são pra qualificar os professores com cursos de nível superior na área de licenciatura, e em especial nas cidades interioranas que há maior carência de profissionais da educação.

Porque vocês acham que as prefeituras vivem promovendo concursos a torto e a direita para os cargos de professor? É só por causa da pressão dos ministérios públicos estaduais e federal? São Paulo que é o estado mais rico da federação, que detém mais da metade do PIB (Produto Interno Bruto) nacional e os paulistas faz questão de alimentar o slogan “A locomotiva do Brasil”, tem a carência de 60 mil professores na rede pública em todo o estado, o governo paulista vai abrir o seletivo pra contratar de imediato 50 mil professores.

A prefeitura de Imperatriz – MA deixou o edital aberto por dois anos (desde 2011) para a vaga de médico pediatra com o salário de 30 mil reais, devido o desinteresse de profissionais da área, o edital foi cancelado, e Imperatriz é a segunda maior cidade do estado com a estimativa de 250 mil habitantes.

Se no estado mais rico da federação há carência de profissionais na educação da rede pública, imagine no Maranhão, o estado mais pobre e representa os piores índices sociais do país? Eu percorro o Maranhão toda semana, já viajei de uma cidade a outra em pau de arara, e conheço bem a realidade que vive a população em localidades distante das sedes dos municípios.

É esta realidade que os profissionais da saúde não querem vivenciar e nem mesmo os professores, o último seletivo da UEMA pro PDR que esteve aberto o edital para as inscrições, era pra ser até o dia 10 de julho e foi prorrogado para o dia 19.

Porque eles prorrogaram? Eu mesmo fiz a divulgação intensa do seletivo na minha página pessoal do facebook pela internet e incentivando muitos colegas a se inscreverem, e mesmo assim serão poucos que eu conheço irão se inscrever (espero que eu esteja enganado nessa vez), preferindo ficar em São Luís na via crucis pegando todos os dias ônibus lotado, enfrentando o transito engarrafado, trabalhar em duas ou três escolas numa espécie de autoflagelo e auto exploração para ganhar pouco ou receber 5 ou 10 reais hora/aula em algumas escolas que nem sequer oferece condições de trabalho e de ensino.

Diante da realidade que está posto, eu não sou solidário a esses médicos e reconheço as intenções do governo de reverter esse problema, que é o resultado das manifestações que estava acontecendo nas ruas de todo o Brasil.

Porque chama os médicos de vagabundo? Não é comum confundir o trabalhador e pai de família com o vagabundo? O sujeito não pode ficar desempregado que logo a sociedade o condena e o chama de vagabundo. Porque não chamar os médicos também dessa forma ou confundi-los com os vagabundos? Esses senhores e senhoras de jaleco não são dignos de serem chamado de doutores, nem que uns tenham feito o doutorado.

Se para uns, lecionar é um gesto de amor, em que o professor não pode tanto reivindicar por salários, porque os médicos estão nas ruas então contra o governo, sendo que a iniciativa é contratar mais médicos para trabalhar nos interiores com os salários astronômicos (10 mil reais)?

Cadê a compaixão, o amor e a solidariedade com o próximo desses médicos? Eles também devem trabalhar por amor, tanto quanto os professores, porque a função deles é salvar vidas e garantir o bem estar do próximo, num gesto de humanidade, sensibilidade e respeito acima de tudo.

Encantado ( Performance )


Por Vinicius Viana


Baseada nas rodas de Tambores do Maranhão, “Encantado” é um espetáculo, que mostra a beleza visual e corporal em um conjunto de expressões sagradas, que a partir da teatralidade e da dança, através do batucar constante que varam as noites, partem para uma coreografia pulsante enfatizando a ligação entre os pés descalços e o terreiro, gingados pelos cantos entoados para passar do corpo vivo ao transe em um personagem vivo e transmitir um vocabulário com gestualidades que evidenciam a ligação entre a terra e o céu, o universo como todo. Podemos considerar como um fenômeno rompendo com o espaço e o tempo, e vislumbra-se onde palco é a tradição e tudo se torna encantado.



Fotos: Indra Nogueira

terça-feira, julho 30

Sonhos

Estava presa num lugar que parecia um quarto. Era todo branco e claro. Havia uma cama, um grande espelho que eu desconfio ser uma janela de observação, um relógio de parede antigo e uma saída para ar. O banheiro, fechado durante a madrugada e obsessivamente limpo, tinha duas portas, uma dava para o meu quarto, a outra, para o mundo. Era minha única comunicação e, para meu azar, era também surda e muda.

Não sei quanto tempo fiquei desacordada. Minha última lembrança foi de bater o carro na madrugada de uma sexta-feira contra um poste. Eu havia bebido com amigos e perdido o controle numa curva. Meus ferimentos estavam bem limpos e toda manhã ao meu lado estava dois comprimidos com a indicação "TOME-ME".

A princípio achei que eu estivesse numa ala nova de um hospital, No entanto, as portas trancadas e um gás sonífero exalado toda meia noite não deixavam qualquer dúvida de que eu me tornei uma cobaia de experimentação. O que me exaure dia após dia são minhas lembranças: o que será que aconteceu com meu noivo? Como será que vai meu chefe? O que aconteceu? Essa última dúvida faz meu cérebro se contorcer filosoficamente afim de responder coerentemente essa questão. Já cheguei a beira da loucura achando que eu teria sido abduzida por óvnis, até mesmo cheguei a pensar que fui sequestrada, mas essas são possibilidades não eram passíveis de veracidade.

O que me chamava a atenção era como eu não tinha nenhum contato com outros seres vivos. Notei nesse tempo em que já estou que há um trabalho enorme para que eu não tenha nenhum tipo de comunicação com nada que se mova e seja vivo. Pelo jeito a sala que estou é vedada para áudio, mesmo com a saída na parede, por onde vêm minhas refeições, não consigo escutar nada. Não tenho nenhum contato visual, e acho que sou monitorada 24 horas por dia, porque, certa madrugada que acordei, o banheiro estava trancado e ouvi barulho de esfregões e água corrente. Gritei por socorro, mas de nada adiantou, ou melhor, só percebi outra dose de gás sonífero sair pela saída de ar.

Só o que me consolava eram meus sonhos. Certa noite, sonhei que estava num jardim colhendo flores, de repente eu era criança de novo e havia um parque de diversões enorme na minha frente.. Fui correndo brincar no gira-gira, mas ele começou a se tornar um furacão e, num instante, eu estava no centro dele. Então uma face apareceu sob o furacão e me disse: CORRA. Eu corri, mas passei a andar em círculos e percebi que um exército de coelhos assassinos me perseguiam com adagas e espadas. Consegui chegar ao meu quarto e lá me tranquei. Corri deitar debaixo do meu cobertor e quando dei por mim estava coberta de aranhas, meu cobertor não passava de uma grande teia. Acordei aterrorizada.

Eu perdi a conta dos dias que eu passava lá. Eles eram tão iguais que não fazia diferença se eram um ou dois, mas pareciam semanas e meses. Simplesmente o tempo parou para mim, não havia mais calor ou frio, não havia mais chuva ou sol. Eu me tornei pálida e meus olhos escuros ficaram ainda mais destacados no meu rosto. Usava sempre uma camisola branca. Mas eu não perdi a vaidade. Um dos meus passatempos é de refazer a camisola até ela parecer uma outra roupa. E meu “guarda-roupa” ia ficando a cada dia mais diversificado.

Reparei que estava ficando gorda, reclamei que queria fazer exercícios. No dia seguinte apareceu uma bicicleta ergonométrica. Estranhei o fato. Queria testar melhor. Então passei a reclamar e pedir de tudo. No dia seguinte lá estava a coisa reclamada anteriormente. Era inacreditável. Certa vez resolvi pedir amigos, então uma pessoa, quando eu acordei, dormia numa cama ao lado. Comecei a chorar. Era inacreditável.

Comecei a perguntar a essa pessoa. Quem era, o que havia acontecido, desde quando estava ali. Andréa era como ela se chamava. Tinha dois filhos, estava lá fazia algum tempo e coincidentemente desejou a mesma coisa que eu no dia anterior. Coincidência? Ela tinha por última memória estar no hospital, num quarto e estar sendo anestesiada para fazer uma cirurgia. Quando ela estava só também apareciam dois comprimidos com a mesma indicação. Depois que nos encontramos passou-se a não aparecer mais qualquer comprimido.

Andréa e eu tivemos a mesma idéia. Queríamos conhecer mais gente. Pedimos. Quando o relógio bateu a meia noite ainda estávamos jogando truco, em vez do gás sonífero, a porta do banheiro deu um estalo. Foi então que eu e Andréa não sabíamos o que fazer. Comecei a sentir desespero, uma espécie de agonia. Alguém iria entrar por aquela porta. Não aguentei. Andréa disse que não, que eu devia ficar longe da porta, mas não consegui. Dentro do banheiro havia dois vestidos de festa, um com meu nome e o outro com o de Andréa. Vestimos e eu fui adiante. A outra porta também estava destrancada e eu a abri.
Havia um salão enorme com um bifê. E muitas portas, incontáveis. Imaginei que todas davam para um banheiro que daria para outros quartos em que estariam outras pessoas jogando truco ou vendo TV a cabo. Comecei a gritar. Pouco a pouco as outras portas foram se abrindo desconfiadas, o salão foi enchendo de pessoas como nós. Algumas choravam, outras gritavam.
Eu comecei a entender o que acontecia. Era um mecanismo de reintegração social, mas todas as pessoas tinham que passar por um ritual antes. Mas porquê? E será que eu estava certa? Já havia me enganado antes, mas algo me dizia que desta vez eu estava certa. Talvez fosse o desespero por uma resposta a tudo aquilo, talvez fosse apenas um sonho, talvez eu ainda estivesse na batida, estava sendo socorrida e minha mente divagada pelo que estaria para acontecer e não pelas minhas lembranças. Essa última hipótese me incomodou, e se eu estivesse morrendo enquanto tudo isso acontecia?
Tudo fazia sentido! Não havia frio ou calor, tudo que eu desejava aparecia. A planta do lugar teria que ser redesenhada milhares de vezes para que toda aquela construção fosse verdadeira. De onde teriam surgidas aquelas pessoas? Era tudo fruto de uma mente cansada e debilitada. Eu mesma era fruto. Será que minhas memórias eram minhas? Quando cheguei nesse ponto parei de questionar. Eu tinha que manter uma certeza, eu sou eu e minhas memórias são minhas.
Me lembrei da festa. Eu estava agora no centro sendo olhada por todos. Estava nua... meu vestido havia se dissolvido. As pessoas pareciam não me enxergar nem me escutar. Eu tentava contar a elas o que estava acontecendo, mas não conseguia. Comecei a chorar, me dava por vencida. Eu não queria continuar ali. Queria voltar ao meu quarto. Quando cheguei lá outra surpresa.

Meu quarto só tinha novamente a cama, o relógio, a saída de ar e o espelho. Tentei voltar para a festa, talvez eu tivesse errado de quarto, mas todos os quartos eram iguais, todos eram o meu, não importa que porta eu tentasse. Me joguei exaurida na cama, não havia nada que eu pudesse fazer, então, lembrei de Andréa, ela talvez poderia me ouvir. Corri de volta para a festa, mas quando saí já não era mais o salão.
Era um local diferente. Tive medo de sair, senti que ia conseguir as respostas que tanto precisava, acabei voltando para o meu quarto. Fui dormir. Quando acordei estava naquele mesmo local. Era também todo branco e claro, mas não havia mais nenhuma porta. Era como se fosse um jardim inextensível, mas sem flores, apenas um tapete branco. Da névoa surgiu um homem.

O homem veio até mim e me disse: Carol, sei que você tem muitas dúvidas, mas antes eu preciso te mostrar um coisa que tudo se resolverá. Então tudo começou a girar em volta de nós dois. E num instante estávamos num enterro. Eu parei para olhar as pessoas, estava enjoada, queria vomitar, mas não sabia o porquê. Passei a olhar nos rostos das pessoas. Vi meus familiares, meu noivo, todos de luto e chorando muito. Não senti a falta de ninguém, me perguntava quem teria morrido.

Eu fui abduzida? Perguntei a ele. “Não, Carol, olhe mais atentamente que você terá as respostas que busca. Você sabe o que aconteceu, apenas está negando”. A hipótese era muito louca para ser verdade, eu percebi que eu teria que achar a resposta dentro de mim e sozinha. Cheguei perto do meu noivo e ele pareceu me encarar. Dei um abraço forte nele, mas comecei a escorrer. Percebi que eu não posso tocar ninguém. Por quê? “Você sabe o porquê, Carol. Pare de negar e encare os fatos, veja por quem pranteiam e rezam”.

Cheguei perto do túmulo e quase desmaiei. Comecei a gritar e chorar, enlouquecida, enraivecida. Tudo começou a fazer sentido. Era eu que estava ali, mas não era eu, porque eu estava aqui. Eu morri? “Sim, Carol, você morreu”. Então, enquanto as respostas vinham na minha cabeça, todas aquelas pessoas, mortas, eu senti que tudo novamente rodava, pobre Andréa, ela tinha dois filhos, cheguei numa sala de jogos onde havia várias pessoas, a maioria idosos, uma festa para mortos.