domingo, fevereiro 17

Círculo


Por Lucas Quoos.


noites insones e poemas ainda úmidos da impressora à jato. cafeína e crystal castles (bandinha ruim da porra). ilustrações arrancadas de um livro infantil espalhadas no rack e uma camiseta do palmeiras comprada em 2010 por quinze reais (preço acima da média) em santo amaro na zona sul de um puteiro chamado São Paulo (também existe uma cidade com esse nome), com cheiro de mijo seco e pomba assada. desço direto em direção à um sebo chamado “Sebo” (pelo menos é o que a placa em cima dizia). acho um livro com a capa preta e rosa sob o desenho de uma arma apontada pra uma loira de salto alto, abro e leio uma frase aleatória: “Ah Louise, sua puta desgraçada, eu te amo!” ah, não fode porra. só podia mesmo ser do século passado esse livro. saio de lá e dou de cara com ela. a vaca, a filha da puta, a minha ex namorada chupadora de pirulitos POP (ainda existe essa merda?). graças à mim comprei um livro grande do Freud e pude colocá-lo descaradamente no rosto e atravessar a rua antes que… merda, ela me viu. anda anda anda. não dá mais. ela tá vindo. ê, caralho. um helicóptero podia cair em cima dela (“háa sempre a pequena chance de o impossível rolaaaaar”). 

“e aí, cara! como vai?”
“ah, não vem me foder com a tua simpatia”
“ih, ó lá, já vi que continua o mesmo mau humoradão uhhh”
“não fode, meeeu. tô indo pra casa”
“eu também”
“me mudei, to morando no Grajaú”
“mentira, acabei de passar na sua casa e a vizinha disse que você já voltava”
“ave”
“que cê tá lendo?”
“Freud”
“ave”

chegou a lotação. a porra da perua do Jd. Nakamura consegue ficar lotada até no domingo. mas como a gente pegou no terminal, deu pra ir sentado de boa. no começo foi bacana. eu curtia ficar olhando pela janela o pessoal no terminal. vendedores de salgadinho e latas de lixo. churrasco grego e sacolas do Brás. máquinas de recarregar o bilhete único e deficientes mentais pedindo esmola. uns caras dando risada alto pra chamar a atenção e uma mina silenciosa feito um monge achando que sabe algo da vida (vai que, né? / mas também foda-se). tava lindo, mas aí a ex resolveu puxar assunto.

“larguei o emprego”
“pra quê?”
“virei artista”
“duvido”
“sério, porra, leva a sério”
“duvido. me mostra”
“não dá, sou pintora agora, só pinto quadros e eles não cabem na minha bolsa”
“é (vai saber) acho que não mesmo”
“mas eu te mostro, assim que a gente chegar na sua casa”
“ok”

escondo a chave num esconderijo num tijolo quebrado perto da porta. ela foi direto nele. abriu a casa e foi pegando as garrafas de cerveja que eu tinha deixado espalhadas no quarto entre copos e uma toalha de mesa suja de geléia de uva. um ventilador esquelético e uma chuteira de futebol com os meiões dentro. desodorante rolon e Tony Hawk’s Pro Skater. deitei na cama que por incrível que pareça estava arrumada. enquanto Marina (eu ainda não tinha dito o nome dela, né?) foi pegar o tripé na sua casa, já que é minha vizinha.

Voltou.
Colocou o tripé no meio do quarto.
Começou a desenhar.
Fiquei olhando.

Terminou. Virou o tripé com o desenho pro lado da cama.

“É um círculo”, eu disse “você desenhou um círculo numa tela quadrada”
“aham, lindo né?”
“você é maluca”
“não, presta atenção. a maluquice é uma linha reta”

sábado, fevereiro 16

O canto dos Malditos (Sociedade da Grã Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10)



O CANTO DOS MALDITOS

Inicio hoje uma série de postagens falando dos álbuns e artistas considerados malditos da música brasileira, tendo em sua grande maioria fatos e peculiaridades que levaram critica e público a considera-los como sui generis, diferentes, especiais ou como desejam alguns malditos.


SOCIEDADE DA GRÃ ORDEM KAVERNISTA
 APRESENTA SESSÃO DAS 10.




No ano de 1971 nos estúdios da CBS, no Rio de Janeiro um grupo de quatro jovens artistas se reuniram para gravar aquele que talvez tenha sido o mais ousado e genial álbum da contracultura no Brasil. Raul Seixas, Sergio Sampaio, Miriam Batucada e Edy Star, foram os protagonistas de Sociedade da Grã Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10. A versão brasileira de Sargent Peppers dos Beatles, porém eles não eram um grupo, apenas se reuniram para esse álbum em especial. Há época Raul Seixas era produtor da CBS, e diz à lenda que na ausência do presidente da companhia no Brasil, que estava de viagem ao exterior, Raul teve a ideia do disco. Com produção requintada diz outra lenda que Raul acabou expulso da CBS por conta da não aceitação da direção da CBS tanto no Brasil como no exterior, segundo o mesmo Raul Seixas o alto custo da produção teria sido o estopim para sua demissão.

Das 11 canções do álbum nove são parcerias de Raul com Sergio Sampaio, o disco possui uma miscelânea de ritmos indo do rock ao bolero. Edy Star era um homossexual cantor de boleros que Raul Seixas conheceu na Bahia, Sergio Sampaio era um talentosíssimo compositor de Cachoeira do Itapemirim (ES) amigo de Roberto Carlos na adolescência, Miriam Batucada era uma cantora iniciante da mpb e do samba com uma voz bem peculiar. Com quase nenhuma divulgação por parte da gravadora sendo relançado anos depois até da morte de três deles, somente Edy Star continua vivo. Em minha opinião esse é o primeiro álbum dos grandes álbuns considerados malditos da musica brasileira, seja pela sua parcela de transgressão e por sua ousadia musical.  




quinta-feira, fevereiro 14

NOVO PAPA, QUEM VAI PAPAR ESSA?





Bom é de conhecimento de todo ser vivo, desse planeta a informação dada pelo próprio Papa Bento XVI sobre sua desistência do papado, a literal jogada de toalha da maior autoridade da Igreja Católica, se deu segundo o mesmo por conta de sua idade avançada, a qual não estaria ajudando na massiva agenda de viagens, reuniões e outros compromissos inerentes ao cargo. Por conta da inusitada vacância no papado, nós do Ponto-Continuando criamos a enquete PAPA NOVO, QUEM VAI PAPAR ESSA? Vote no lado direito do blog, ou deixe seu comentário abaixo. OBRIGADO!


quarta-feira, fevereiro 13

3 cigarros no 4º degrau


Me masturbo, às vezes, ejaculo no chão do corredor de pisos retangulares do setor de emergência. É fecundo. Fetos crescem e caminham e são esmagados por pés de psiquiatras, terapeutas ocupacionais e enfermeiros e pacientes em crise, mas o ruim é que sempre me amarram na cama e injetam um coquetel de Diazepan com Haldol e fico impregnado durante dias como um Zumbi e meus punhos ficam arranhados. Louco, não? – Falei isso dagora pra meu irmão. Estávamos sentados na arquibancada da quadra de esportes. Vocês tinham que ver a cara dele de nojo. Era dia de visitas e ele já queria ir embora. Eu disse: - Espera mais um pouco pra conhecer a Zica, a minha namorada. Ela chegou meio dopada e super calada e sentou ao meu lado, devia estar naqueles dias no submundo dos pensamentos e tão fedorenta quanto eu. A Zica teve três tentativas de suicídio e quando vê cacos de vidros quer engoli-los e tenho que persuadi-la a viver mais um pouco. Também não quero ver seu esôfago degolado e ela cuspindo sangue até a morte. Seria terrível ver meu amor morrer assim na minha frente.  Eu lhe dou esperança. Falo que a gente ainda pode transar ainda que escondido dos enfermeiros e guardas de plantão, dançar nosso ritmo, fazer artesanato & pintar na sessão de terapia e fumar muitos cigarros. Ninguém lá liga pra essas coisas inofensivas, estamos dentro do jogo deles. E, além disso, estamos protegidos por paredes e drogas pesadas. – Falei essas coisa dela e sua cara tava tapada pela mão. Mudei de assunto e perguntei se ele trouxe a carteira de cigarros que pedi. Tava cansadão de fumar US. Me passou um pacote de Free. Abri. Tirei uma carteira e 2 cigarros. Dei um pra Zica. Acendi o meu e o dela. Ofereci pra meu irmão. Ele aceitou. Tirei mais 1 da carteira. Acendi e lhe dei. Queria me dividir em dois e o outro ficar no centro da quadra de esportes pra vê aqueles três sentadinhos no quarto degrau fumando um do lado do outro e a fumaça se espalhando por ser mais leve que o ar em busca do céu. O segurança apareceu e fez sinal que a visita estava encerrada. Ele me deu um abraço meia boca. Mandou eu rezar, tomar um banho e outras coisas que esqueci. Ele mal se despediu da Zica. A Zica com certeza ia falar que ele não gostou dela. 

Livre Como Um Pirata - Cap. 3


Então chegou o inverno. Você quase bateu as botas, meu amigo. Todos ficaram preocupados, achando que sucumbiria. Foi aí que os seus problemas começaram de vez... Até então, lembro de você perfeitamente saudável. Com o frio, veio aquela infecção, você mal rastejava e eu tentava te cobrir pra te proteger do frio, mas a febre te fazia delirar e recordo bem que várias vezes você tentou me agredir. Eu entendo que você não regula muito bem da cuca, essas coisas eu relevo. Chamei o doutor. Ele te aplicou um monte de injeção e, com o tempo, você foi se recuperando, mas acho que a doença deixou muitas marcas. Foi daí que você começou a babar e a cheirar mal, e as pessoas passaram a te evitar e etc. Aí você foi ficando magro e também perdeu a maioria dos dentes, de forma que demorava muito a comer, e mal. De visitas você nunca gostou. Até um tempo atrás colocava todo mundo pra correr lá de casa. Demorou muito pra você se acostumar com a menina que ajuda a mamãe nas tarefas do lar. Pirata, pra ser sincero, acho que fui um desnaturado contigo.


Tammys