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domingo, setembro 16

Ela tinha entre as pernas...

                                                               Fonte: Site Flickriver

Mais uma vez ele estava a pensar naquela noite, mais uma vez igual a todas as outras noites, dos últimos três anos. Podia lembrar-se do barulho da música que tocava ao fundo, do ar de fumaça e claro do perfume cálido que persistiu durante meses em suas entranhas. Era agosto e pra seu desgosto a lembrança ardia como brasa na fogueira dos dias atuais, feito um anjo caído ele percorria as esquinas daquela metrópole em busca de tudo ou nada que fizesse sentido. Algo que tivesse um início um meio e um fim, afinal a solidão é a ausência de tudo aquilo que podia ser, e para ele até então nada havia sido, por isso ele estava ali no inicio daquela noite, a procura dessa marca que preenchesse essa lacuna, que era como sombra a acompanhar seus passos na escuridão.


Uma mão tocou-lhe a costa de forma leve, muito levemente, ao virar era ela, a filha querida, o motivo de orgulho de seus pais na infância e na adolescência presenteada com a alcunha de ovelha negra. De onde teria ela saído, de onde aqueles olhos teriam vindo? Quantos caminhos até chegar ali a poucos centímetros do dele. Como num flash não era mais a esquina o local onde se encontrava, e sim uma sala grande toda envolta de branco, uma profunda calmaria ele sentia em seu interior, não havia móveis, quadros, somente o vão enorme daquele espaço e uma mulher agachada de costas para ele, vestida de negro, tipo alguém que sai por ai vestida pra matar. Até o momento nenhuma palavra, mas seus lábios encharcados estavam por conta da imagem dela, sua à libido foi ao limite quando ela virou e disse coisas com um só olhar que nenhum livro que ele havia lido tinha feito. O sinal estava dado, as margens queimavam feita a sarça, suas pálpebras pressionavam com dificuldade aqueles olhos sedentos de vida, de morte, de quase tudo, de tudo daquela mulher. Ai ela veio ao seu encontro e logo após o lapso, o vulto dela desapareceu na fluidez do tempo, e quando o psicanalista perguntou o último detalhe que lembrava, ele respondeu, ela tinha entre as pernas o mais curto caminho para o inferno.

sexta-feira, setembro 14

Bailarina


                                                                 Fonte: photo pin.



Ontem ela esteve aqui, trouxe vinho antigo e ficou por horas deitada no chão, relatando suas andanças, reclamando de minhas mazelas, das coisas que escrevo e deixo amiúde pelo chão, sua preocupação me alimenta quando ela esta ausente, no meio da madrugada sua lembrança vacila na escuridão, é quando aceito o sono sem repulsa. Ela possui trejeitos de maldade, aquele olhar que ultrapassa as coisas, mas como já a conheço há tempos sei que não é por toda assim.

Muitas vezes discutimos sobre diversos assuntos, quando contrariada vem à tona aquele castelhano lá das terras da Andaluzia e depois se pôs a chorar ouvindo alguns fados e outras epifanias. Nunca a deixo perceber minha parcela de satisfação com suas visitas, nossas vidas se entrelaçam por conta do seu viés trágico, não escolhemos esse oficio, precisamos compartilhar a primazia desta condição.

Como de praxe cantamos a capela uma antiga canção, no abraço minha lágrima manchou sua fantasia de bailarina, porém ela sorriu dizendo ter mais um motivo para lembrar-se de mim sempre que estiver bailando por ai. Antes costumava me visitar durante o inverno, porém ontem o sol clareava os quatro cantos do quarto e também o dorso do meu corpo inteiro. Para ela não sei por que tudo isso importa, verificar as plantas colocando-as ao sol, dobrar as camisetas naquela posição anterior, apalpar minha barba por fazer, lá pras tantas ela pediu que cantássemos outra canção, no meio da manhã dei a ela de presente o vigésimo nono girassol. Isso foi ontem, hoje tudo continua como ela deixou e por ela assim tudo deverá continuar.