terça-feira, novembro 27

Narrador em Terceira Pessoa



Estava ali pra fazer uma inscrição para uma prova  de digitador. Salário mínimo. Mas bom. O prédio era enorme. Estilo Militar. Realmente lembrava muito os tempos que dormia naquele batalhão do exército e as pessoas o chamavam de peixe. Mas estava fora dali. Outra vida. Outras Portas. Mas eram tantas portas que não sabia qual era acerta pra entrar e fazer a inscrição e a pessoas que circulavam no imenso corredor também não sabiam. Decidiu entrar numa porta. Havia varias pessoas sentadas em círculo com aspecto sério discutindo algo sério ao seu ver. Homens de cérebro grande.  Pensou. Escolheu sentar e ficar ouvindo aquele papo. Alguém pediu sua opinião. Disse que tinha entrado por engano, e que não tinha nada pra opinar e queria saber mesmo era onde fazia a prova pra digitador. Alguém mandou ele ler livro e um outro disse que a prova pra digitador ficava na sala adjacente.

Saiu e ficou com a idéia fixa na cabeça: ler um livro. Na Biblioteca Pública. Pelo menos o prédio não tinha a dureza militar. Tinha imensas janelas que deixavam o vento circular pelo vazio do hall e deu seu nome e endereço pra sua permissão de tocar nos livros pra negra de cabelo curtos e sorridente na balcão de atendimento. Começou a ir pra lá e agora em outros corredores via prateleiras carregadas de livros e escolhia ao acaso. Isso foi durante quase um ano. Não passou na prova digitador e tinha tempo de sobra. Sobrevivia da pensão da sua avó. E pensava que se lesse muitos livros poderia passar pra uma faculdade e não repetir a prova para ser um mero digitador. Voltou aquele prédio e aquelas portas paralelas ao corredor. Entrou na mesma porta de um ano antes. Reconheceu alguns rostos. E ainda discutiam o mesmo assunto de forma seria. Alguém pediu sua opinião.

Ficou uns segundos calados. Mais alguns segundos e respondeu : “só sei que nada sei”. Houve um tumulto alguns se levantaram outros se espancaram outros se mataram e um pulou do prédio.

Realmente não projetou aquele reencontro com um perfil tão trágico. Pensou que tudo não passava de uma brincadeira de mau gosto. Se não era atores. Olhou pra porta e não existia mais ela. Sabia o quão fantástico estava se tornando aquilo que começou com um erro de porta.

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