sexta-feira, outubro 23

Entrevista do Poeta Raimundo Fontenele Por Natan Castro



Raimundo Fontenele é um poeta, natural da cidade de Marianópolis, Pedreiras, Maranhão. Poeta esse que na juventude participou ativamente de um dos mais importantes movimentos literários do século passado no Maranhão, o movimento Antroponáutica do início dos anos 70 que propunha um rompimento drástico com a tradição poética anterior, tendo como exceção nomes como José Chagas, Bandeira Tribuzzi e o grande Nauro Machado. Após esse período de ativismo cultural na capital maranhense, o poeta literalmente meteu o pé na estrada, se apropriando dessas experiências para o enriquecimento de seu fazer poético. Atualmente radicado na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, o poeta trabalha em três novos livros. Raimundo Fontenele é desses poetas que indubitavelmente a nova geração de leitores do Maranhão precisar conhecer e se aprofundar pela preocupação e pela sinceridade em que o mesmo encara a arte em suas mais diversas formas de manifestação.

A poesia sempre foi a sua principal manifestação artística, ou antes, houve um flerte com outros ramos da arte?

R – Sempre a poesia. Desde cedo, lá pelos oito anos de idade. Com essa idade principiei a leitura da Bíblia, de cabo a rabo, como se diz no jargão popular. Devo muito à influência de minha mãe, que sempre lia pra mim, contos infantis, mundos fantásticos que passei a visitar na imaginação. Mas sempre gostei de música, pintura e escultura. Esbocei alguns desenhos, mas abandonei logo. Enfim, como diz a letra do hino do Flamengo, uma vez poesia, sempre poesia.

A sua geração de escritores é exatamente aquela posterior a queda do Vitorinismo, e coincide com a chegada do Sarney ao poder no Maranhão. Quais eram as expectativas no campo da arte no estado naquele período? Sarney pegou carona na genialidade de Tribuzzi e Nauro Machado? Por fim como era a cena cultural no período da deflagração do Movimento Antroponáutica?

R - Na verdade, lembremos que o Sarney vinha de uma ala progressista da UDN, chamada de “bossa nova”.  Era visto assim meio de esquerda. Eclodido o golpe militar, em 1964, em seguida sua eleição em 1965, o Sarney foi lá ter com os milicos, como se dissesse esqueçam o outro e pensem neste de agora que quer apenas governar o seu estado e ficar de bem com vocês. E o Sarney alimentava a esperança de maranhenses cansados da truculência vitorinista, daquela forma coronelista de governar. Mais do que tudo Sarney ajudou a mudar a mentalidade: era o Maranhão Novo, “meu voto é minha lei, Governador José Sarney; quando entrar na cabine o eleitor é José Sarney pra Governador”, esses versos da sua música de campanha incendiaram corações e mentes. Havia um êxtase, uma alegria, uma efervescência com sua vitória. E ele correspondeu no primeiro momento: abriu e asfaltou estradas; um salto na Educação com o Projeto João de Barro (educação de crianças e jovens fora da idade escolar), as Escolas Bandeirantes, escolas de segundo grau de cunho profissionalizante, a criação da TV Educativa, uma das pioneiras no Brasil. Modernizou a administração pública, várias empresas estatais foram criadas, naquele momento, não como cabide de empregos, mas necessárias aos vários projetos gestados por grandes cabeças que ele recrutou para o governo. Bandeira Tribuzzi, Haroldo Tavares e tantos outros. A gente acreditava que isso mudaria também o fazer cultural. Na sequencia, como é certo que o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente ele tornou-se aquilo que mais combateu. Um Vitorino moderno, sem jagunços e três oitão, mas com práticas cujo resultado era igual: a pobreza do estado, o enriquecimento das famílias, dos amigos, dos apaninguados, o voto de cabresto, a subserviência dos prefeitos, toda essa lástima que se arrastou por mais de cinquenta anos e tornou o Maranhão um estado com o penúltimo lugar nos indicadores sociais, perdendo apenas para Alagoas.

Explique-nos de onde veio o nome do movimento e o que o mesmo propunha no campo da poesia no estado no início dos anos 70?


R – Com exceção dos poetas Nauro Machado, Bandeira Tribuzzi e José Chagas a gente respirava uma literatura bolorenta, uma coisa de vangloriar-se do passado, a chamada Atenas Brasileira da qual não se queria abrir mão e avançar. Através do poeta Viriato Gaspar conheci o poeta Luís Augusto Cassas, e também o Valdelino Cécio. Em seguida encontramos o poeta Chagas. Encontrávamos num bar que havia no canto da Viração, para beber, mostrar poemas e falar sobre literatura. E assim surgiu o Movimento Antroponáutica, cujo nome é uma homenagem ao poeta Bandeira Tribuzzi, que tem um poema cujo título é este. E passamos a cavar espaço nas colunas de jornal, com tanta dificuldade; havia o Jornal do Dia (comprado depois pelo Sarney e que tornou-se o Estado do Maranhão) onde o Jomar Moraes nos dava espaço, e o Jornal do Maranhão (da Arquidiocese), e lá nós tínhamos um crítico de cinema atilado o José Frazão que também nos dava apoio. Mais tarde surgiu o Jornal de Bolso, do Edson Vidigal, de breve existência, mas onde publicamos nossas crônicas e artigos.  E passamos a fustigar, atacar tudo que nos parecia velho e ultrapassado e que devia desaparecer: a Academia, a trova e seus trovadores, os poetas parnasianos com seus versos lamurientos. Com certo exagero, reconheço. Mas também fomos reconhecidos e passaram a prestar atenção e nos respeitar como novos artistas e criadores de um novo tempo ou de um tempo novo, sei lá. Arlete Nogueira da Cruz, Tribuzzi, Nauro, Jomar, o grande e humano Nascimento de Moraes, o Pe. João Mohana, enfim, fomos aceitos no mundo intelectual maranhense. Publicamos então a Antologia Poética do Movimento Antroponáutica. E a seguir fomos convidados a integrar um projeto da Fundação Cultural que nos publicou e mais alguns poetas na antologia Hora de Guarnicê.

Quais foram as consequências da deflagração do movimento em meio a repressão da ditadura e qual a importância do mesmo para aquela geração no Maranhão?

R - Vocês sabem. A história é feita de fatos, episódios, circunstâncias, eventos, mil acontecimentos distantes um do outro, mas que por esta força grandiosa que é a marcha da vida e da história se conjugam tudo e todos num momento único para deflagrar a coisa, seja revolucionária ou evolucionária, de reforma ou de acomodação. E por essa época aconteceu o lançamento do meu segundo livro individual, o Às Mãos do Dia, que era para ser uma coisa puramente pessoal, mas acabou transcendendo o particular e inseriu-se nessa paisagem do instante que vivíamos: a ditadura militar em todo o seu reinado e esplendor. Querendo fugir daquelas noites de autógrafos costumeiras, que achávamos até enfadonhas, decidimos que o lançamento do meu livro seria diferente. Aí a gente juntaria artes plásticas e música, e lembro do César Teixeira, do Josias, do Sérgio Habibe, do Jesus Santos, do Ciro, Ambrósio Amorim, Lobato, Tácito Borralho, tanta gente. E o lançamento aconteceu na Biblioteca Pública Benedito Leite. Na noite anterior, após tomarmos algumas cervejas, eu, Viriato, Valdelino e outros ficamos na escadaria da Biblioteca Pública conversando e só, de sarro, planejando o lançamento, e cada um saía com a idéia mais louca. Tipo: no lugar de cadeiras para as autoridades íamos colocar vasos sanitários; colocaríamos uma árvore de natal com ratos pendurados, etc.; íamos convocar mendigos, loucos, os despossuídos para tomarem as escadarias da Biblioteca quando as autoridades e convidados fossem chegando. Ah, e no coquetel no lugar de bebida alcoólica serviríamos leite, mas não em taças e sim em penicos. Novos, claro. Naquele tempo a autoridade maior dos estados era sempre o militar mais graduado, no nosso caso o Comandante do 24 BC. Alguém nos ouviu falar aquelas bobagens e levou a sério. O certo é que o Governador foi acordado pelo Comandante do 24 BC que lhe ordenou visse do que se tratava pois algo de muito grave ia acontecer. Fui chamado às pressas no gabinete do Secretário de Educação (que havia permitido que eu fizesse lá na Biblioteca, órgão da SEC, o lançamento do livro), à época o saudoso Professor Luís Rêgo, um homem boníssimo. Quando entrei em seu gabinete levei um susto, pois ao seu lado estava um Major do Exército. Pálido e trêmulo, ali sentei e o professor Luís Rêgo passou a me interrogar a cerca do lançamento e do que estava programado. Neguei tudo. Disse que era mentira. Jamais faríamos uma coisa daquelas e tal. Despachou-me dali, mas me recomendando prudência, e cuidado com o que ia acontecer, pois estavam de olho. Pela cara do oficial do exército nem precisava de me dizer mais nada.  Pois, mais tarde enquanto estava na Biblioteca em companhia do poeta Viriato Gaspar, ultimando os preparativos do lançamento,, eis que nos aparece um agente da Polícia Federal. E dirigindo-se a mim diz que estava a minha procura, e porque nada mandara o livro para a Censura, e cadê o livro e tal e coisa, e nos colocou em sua viatura fomos até onde eu residia, pegamos um livro, e enquanto eu lia, o motorista nos levou até a sede da Polícia Federal, naquela época ali na Rua Grande na altura do Ginásio Costa Rodrigues. Novo interrogatório pelo delegado de plantão. O Viriato saiu-se bem nas respostas. E quando o delegado quis saber dos mendigos (olha a subversão) que íamos levar, o Viriato disse que não tinha nada a ver, aquilo era uma peça de teatro que estávamos escrevendo e tão logo ficasse pronta levaríamos lá no Serviço de Censura. O certo é que à noite a Biblioteca lotou. Talvez até curiosos, além de meus convidados, muitas autoridades se fizeram presentes. Secretário de Educação, o Prefeito Haroldo Tavares, e lá atrás de uma daquelas colunas reconheci o agente da PF de nome Mateus, esperando que eu saísse da linha no meu discurso para me grampear. Mas o resultado prático da repressão, que é o cerne desta pergunta, é que nós, os jovens (falo dos jovens em geral e não especificamente do nosso grupo), tomamos rumos diferentes: uns foram para o comodismo da vida privada, outros foram para luta armada, e no meu caso, no primeiro momento, abandonei tudo e embarquei numa carona com os hippies e fiquei vagando pelo país uns três a quatro meses, metido no universo da Contracultura, cujo estímulos vinham da geração beat, e era uma época rica e enriquecedora, chegávamos ao desregramento de todos os sentidos, na vida e na arte, aquilo que o poeta Arthur Rimbaud profetizara um século antes. E a nossa geração foi importante porque abriu caminho pra todos vocês que vieram depois de nós. É o ciclo da vida, quer reconheçamos ou não. Ele existe. Ele é.

O que se faz necessário para que se legitime um movimento literário? Na atualidade onde muito se escreve em meio virtual, em sua opinião o virtual conseguirá um dia transpor a tradição do livro físico?   

R – No momento nós estamos num processo de mudança civilizatória muito violento. Ao mesmo tempo que tudo parece ameno, frágil, acolhedor, há algo de muito forte, viril, ameaçador. Nem creio que haja espaço para movimentos, como os de antes. Creio mesmo que isso ficou no passado. O mundo virtual prescinde disso. Cada indivíduo, por si só, é, ou julga ser, um coletivo, um movimento, uma revolução, um mundo, uma civilização. Todo o pensamento filosófico, todo o atavismo humano, tudo o que se acumulou durante séculos, quem sabe milênios, todo o inconsciente coletivo, toda a sabedoria, todo o  conhecimento representam o que neste instante? Para muitos, nada. É o fim de tudo e o recomeço de tudo ao mesmo tempo. Quanto tempo, não sei, mas o virtual transporá sim a tradição do livro físico. Não apenas a tradição, mas o próprio livro, o objeto, por mais concreto que ele seja ou queira ser.   

Como foi a decisão de deixar o estado, porque tomou essa decisão, existe uma possibilidade de seu retorno ao Maranhão?

A constatação de que ficar no Maranhão, no meu caso pessoal, era ficar me repetindo. Fazer novos movimentos? O sarneysmo começava a voltar-se para o passado. As coisas não andavam. Era preciso se abrigar sob as asas do serviço público de onde não poderíamos exercer a crítica contundente que os governantes mereciam. Não surgiram editoras e leitores que nos permitissem viver do nosso trabalho de escritor independente. Mas meu amor a esta terra, o interior de onde sou e esta ilha onde vivi tanto sonho transformado em realidade é o que importa. Porém, é difícil o retorno. Saí em 1976 e embora tenha raízes aqui, onde vivo atualmente, em Porto Alegre, no Grande do Sul, também  criei raízes. Mas quem sabe do futuro?

Consegue-se viver de literatura nesse país? Fale-nos de suas atividades na atualidade?

R – Por mais que esse governo do PT alardeie seus avanços na Educação, com programas quase todo visando a universidade, a verdade que é que o ensino vai de mal a pior, pois a educação básica foi relegada a um segundo plano. O governo é pródigo em dar bolsas , cujo critério principal é criar eleitores para o seu plano de permanência no poder. Sem uma boa educação na base que tipo de aprendizado é este dos cursos superiores! A maioria não lê e não pensa. Por isso, o quadro não se alterou muito nestas últimas décadas. Poucos vivem de literatura num país assim. Quanto a mim publico periodicamente meus livros e trabalho com revisão e preparação de textos para a editora de um amigo. No momento trabalho em três livros: um de contos, Pedaços de Alberto Caronte (título provisório), um de ensaios, Um Soco Contra o Muro (ensaios) e Crônicas do Pucumã, um pouco de história do município de São Domingos do Maranhão, onde passei minha infância e parte da adolescência, embora seja filho de Pedreiras, distrito de Marianópolis. Pretendo publicar no próximo ano. Com toda dificuldade, pois o dinheiro da Lei Rouanet é para os amigos do rei e para artistas como Luan Santana, Tico Santa Cruz, Cláudia Leite, gente que ajuda o governo, louvando-o para a massa de seus fãs e ouvintes.  

A sua poesia é tida por muitos como marginal, como você vê esse titulo?

R - Do ponto de vista deles. Do meu ponto de vista eles é que são marginais, pois estão à margem da minha poesia. rsrs Na verdade não existe arte marginal, a não ser nesse sentido que dei. Se ela critica a sociedade, os poderes instituídos (mesmo corruptos, tiranos, etc.) é considerada marginal. Mas do ponto de vista da arte, marginal é também a sociedade que aceita e se submete a um estilo de vida e de governo corrupto e de vassalagem.  Essa pecha é muito mais dirigida ao próprio artista para poder enquadrá-lo, e assim prendê-lo, deportá-lo, matá-lo, calá-lo, enfim. Porque na verdade a arte é um produto da criação humana, das emoções e dos pensamentos, de suas vivências e experiências, e que expressa, em seus signos, símbolos, significados, e até mesmo em sua concretude, expressa, dizia, a magia, o mistério, a beleza, alegria, o sofrimento, o sonho... Só um profundo imbecil para taxar de marginal esta coisa maravilhosa que é a vida humana e suas criações mais genuínas, originais e verdadeiras.

Ferreira Gullar nos fala de sua necessidade de espantar-se para que sua poesia aconteça. Como se dá esse fenômeno no seu trabalho é instantâneo ou existe um laboratório?

R – Cada um tem sua maneira de ser e de criar. O que é necessário é o talento. Em mim é uma coisa instintiva, igual a certas necessidades que temos: comer, dormir, amar, criar. O que existe é o trabalho de lapidar a criação, como o ourives que faz de uma peça de diamante bruto uma joia encantadora. E no caso da prosa é preciso dedicar tempo e muita disciplina, uma rotina de trabalho, como o expediente em qualquer empresa onde se exerce a tarefa cotidiana.

Dizem alguns que tudo de imprescindível na literatura já foi escrito, o que temos hoje como produção literária seriam apenas ecos desses períodos, nada de novo sob o sol da literatura, qual sua opinião sobre essa afirmação?

R – É do Eclesiastes essa fala: “Não há nada de novo sob sol”. Está certo. Tudo já foi dito, feito, criado. O que existe é uma forma nova de dizer, fazer, criar, nomear o antigo. Isto faz toda diferença. Se eu dissesse “fímbria” meu avô entenderia e meu neto, não. Mas barra da saia, do vestido, isto o neto entenderia. Portanto, não é pelo fato do sol ser tão antigo que ele deixa de surgir para nós todas as manhãs. Assim, vamos em frente. Até porque quanto mais obtuso e quadrado é o mundo mais necessita crer que tudo é novo, que tudo está começando aqui e agora, pois sem isto a vida e a arte perderiam o sentido. E aí, vamos fazer o quê?

O MITO

Raspar com uma faca, como se escama o peixe,
é fazer nascerem e crescerem os mitos
que não nos pertencem.
E por ser o mundo um animal sem formas,
por ele trafegam, navegam e voam
os mitos ancestrais que nos criaram,
e alimentaram em nós o dom da forma mais que perfeita.
Blasfêmia é isto: erguer-se qual um deus ferino e desalmado
para que ajoelhemos e lancemos nossa rede ao mar:
turva água de amar, pescaria insana,
e só por isso o mito permanece.
Se é para cair, sejamos justos:
o mito não é amor e não é ninguém,
apenas a imagem à semelhança desta outra
que nos devolve o espelho.

(do livro A Via Crucis de Um Poeta Sem Nome
Editora Alcance, Porto Alegre, RS, 2014)

segunda-feira, setembro 14

tomo um café preto


fumo um trevo
dois trevo 
outro café preto 
um maratá porque acabou o trevo
o pulmão reclama e minha mãe fala de tuberculose
to fudido, eu sei
e alheio

quinta-feira, agosto 13

Pirulito

I


(Lan House Star)

- E ai grande empresário?
- Beleza, Pirulito.
- Tem algum livre?
- Daqui a 5 minutos libera a dois.
- De boa.
- Como tá o trampo?
- Só tem dois meses e a parada não ta de pé ta voando meu irmão.
- A galera gosta de novidade, né cumpade?
- É visão... Visão de futuro.
- Só vive lotado. E tu que conserta e talz quando dá pau num computador?
- Hunrun.
- Sem Grilo, tu é inteligente.
- Eu me viro. Liberou lá ó. Quanto time?
- Uma hora. Bota na conta aí.
- De boa. E tu já sabe usar a net, Pirulito?
- Tu acha que sou burro. Estudei até a oitava série. Aprendo rápido as coisas. E já tem mais de um mês que vem aqui, pô.
- Cuidado com esses sites de mulher nua. Tem uns vírus doido aí que detona o computador.
- Vírus?! Então põe camisinha neles, pô! Leva eles pra vacinar. Hahahaha.
- Não é esse tipo de vírus, mané. Viu?! Cuidado com esses sites. Detona a máquina.
- Não te estressa... Hoje não to a fim de vê só buceta virtual. Quero uma de verdade. Gostei daquele negócio de bate papo.
- Não te ilude com essas minas.
- Tu vai ver como eu vou agarrar uma.
- Larga de ser menino, Pirulito, além de preto tu mora é em bairro de pobre não é no Calhau e tem mal uma bicicleta. Ninguém vai te querer. Vão logo achar que tu é traficante ou ladrão. Só se tu inventar alguma desgrenha.
- Se liga... Eu tenho minhas imaginações.
- Agora tu digita que nem uma galinha comendo milho.
- Vai tomar no cú. Veado!

(Bate Papo da Bol)

Moreno bonito diz:
Oi
Loira girl diz:
Oi
Moreno bonito diz:
Qual seu nome?
Loira girl diz:
Rosângela Maria, e o seu?
Moreno bonito diz:
Carlos Eduardo.
Loira girl diz:
 Idade?
Moreno Bonito diz:
 29
Loira Girl diz:
E você?
Moreno Bonito diz:
28
Loira Girl diz:
O que faz da vida?
Moreno Bonito diz:
 Sou enpresario.
Loira Girl diz:
 De que?
 Moreno Bonito diz:
Patrão d uma loja de carros e voce?
 Loira Girl diz:
Sou médica.
 Medica. De que?
 Dos pulmões.

- Sem Grilo, como que se chama a médica especialista em pulmões?
- Sei lá. Deve ser Pulmonologista.

Moreno Bonito diz:
Voce é pulmonologista.
Loira Girl diz:
É pneumologista

- Porra, sem grilo. Tu fala as coisas erradas. Assim eu me queimo. É pneumologista.
- Diz que tu tava no celular e escreveu sem querer errado. 

Moreno lindo diz:
Isso que quis dizer! É que tava no cel falando com um cliente e acbei escrevendo errado.
Loira Girl:
Nos devemos nos conhecer.

- Sem Grilo, saca só ela disse que quer me conhecer.
- Ou é ela é muito feia ou é louca ou os dois.

Moreno lindo diz:
Com certeza.
Loira Girl:
Como você é?
Moreno lindo diz:
 
Sou alto, fort, moreno e tenho olhos claros.
Loira Girl:
Hummm...Vc deve ser um gato!
Moreno lindo diz :
Obrigado e você?
Loira Girl:
Eu o quê?
Moreno lindo diz :
Como você é?
Loira Girl:
Ah.... Eu sou branca, não muito alta e tenho um a par de coxas...
Moreno lindo diz :
deve ser gata.
Loira Girl:
você mora onde?
Moreno lindo diz:
no bairro Paraíso e você?
Loira Girl:
eu moro no condominio Alan delon.
Moreno lindo diz :
pode ser amanhã
Loira Girl:
o que?
Moreno lindo diz :
nos ver
Loira Girl:
Hummmm...... Pode ser.

- Vou fechar a Lan, Pirulito. Da logo um thau aí. Amanhã tu bate papo. Ta tarde e galera ta assaltando mesmo. Não respeito nem mais a gente do bairro. Ta cheio de viciados filha da puta nas ruas roubando. Os caras nem respeita a gente, pô.
- Só mais uns minutos.
- E... Parece que o cara conseguiu uma mina.
- É um encontro. É alguma coisa, ela é loira.
- Só se for loira oxigenada. E me diz uma coisa... Tu ainda saca de fios, eletricidade essas coisas maluco? To precisando fazer um miau.
- Coisa ruim a gente nunca esquece.
- Essa conta de energia ta vindo muito alto. Essa CEMAR é foda! Querem me quebrar.
- Amanhã eu faço. Tu vai pagar só dez paus de conta por mês. E a casa vai cair nunquinha.
- Beleza. Faz o serviço e aí gente e acerta a tua conta aqui e te dou mais um mês de graça.
- Pô! Um mês, com esse serviço eu quero exclusividade. Melhor, vou ser teu sócio.
- Tá certo, Moreno Bonitinho. Hahahaha.
- Tomar no cú.
- Ei zezão vou fechar e... A nega do armarinho passou ai atrás de ti. Gostosa ela, hein? Ta namorando, né?
- Maluco não namora, maluco fode.
- Hahahaha. Tu tinha que ser era comediante.

II

(Casa onde mora Pirulito)

- Me dá esse revolver aqui guri. Deixa de brincar de policia e ladrão e vai estudar pra ser doutor. (chora de birra e corre reclamando pra sua avó que lava as roupas no quintal).
- Carlos Eduardo, devolve pra ele. Larga de ser menino.
- Vou precisar.
- O que cê ta aprontando, hein?
- Não te estressa senhora... – (levanta os braços pra cima como um jogador de futebol levanta num gol e beija a santa de gesso em cima da TV) - É hoje que Nossa Senhora da Aparecida olhou pra mim.
- Cê sabe que tu já pegou xadrez por treta de carros. Sorte que tu era ainda de menor. Olha que tu tem dezoito anos, cuidado. Aparecida é santa, mas não é policia.
- Larga de besteira. Passado é passado. E tu sabe que meu trampo é limpo. Limpo carro de rico de gravata. Hahahaha.
- E tu já comeu alguma coisa?
- Um cafezinho com pão.
- Desse jeito tu não engorda nunca mesmo, seco velho.
- Falo sério, senhora. Falou.
- Vai com deus e a pomba do divino espírito santo. Traz uma coisa boa pra mim.
- Nazora.

(pega a rua estreita, põe o quepe, o sol nascendo, o som de reggae, e chega à boca de fumo)

- E ai fritão[1]!
-? – (olha agitado pros lados como se a qualquer instante um policial fosse aparecer bem ao seu lado)
- Tem preta[2]?
- Pirulito!
- Não, é não tua mãe Desmaio. Ei tem preta aí?
- Só tem branca[3]. Cada cabeção meu irmão. Da boa.
- Nunca curto mais química. Essa merla é barca furada. Nunca mais me meto nessa merda. A gente fuma e caga fuma e caga e fica paranóico e paranóico.  (Acende um cigarro e ajusta bem o quepe)
- Pirulito! Deixa dois contos ai. De noite vai chegar uns camarão bonito.
- Ahhhh, pega ai cinco conto, depois eu passo aí. To com crédito na praça viu? E o Rato tem visto ele?
- Outro dia passou ai num carrão com uma loira gostosa. Ele perguntou por ti.
- Foi... Hummm...
- E tu não caiu mais no chão babando? Como é que chama a parada?
- Epilepsia... To aí tomando os remédios, pô!
- E fumando pedra... tu é um louco.
- é isso aí... Pirulito! Um dia vou sair dessa vida e limpar carro também e descer com uma boa nega pro reggae. Tu vai ver porra...
- Que nada! Fica nessa mesma requeiro guerreiro limpar carro não é essas coisas todas. Mas se eu fosse tu ia vender era pó com cal em porta de boate pra playboy otário. Pensa alto doido.

III

(Praça Dom Pedro II)

(Fuma duas carteiras de cigarro ansioso entre o escovar de pneus, lavagem de capu, porta, pára-brisa, mala e correrias e gritos disputando carros e vagas com os outros flanelinhas. O sol está muito quente e não venta. Escuta numa rádio de um carro a previsão do tempo uma mudança de tempo brusco está preste a acontecer. O encontro está marcado para nove horas num dos restaurantes mais chiques da cidade. Não consegue pronunciar o nome do restaurante, mas sabe bem onde fica - já tinha vigiado carros por lá antes de arrombarem três carros e a policia começar a chatear)
- Ei... senhor... que horas são?
- 6 horas.
- Valeu. Aquele filha da puta deve já deve ta pra sair desse prédio. (acende um cigarro e paga a flanela e dá mais limpada no pára-brisa)
(o senhor de terno e gravata sai do Palácio da Justiça no singular andar empinado falando no celular e com um cigarro entre os dedos)
- Não tenho trocado hoje nequinho. (Diz sem olhar pra ele)
- Não faz isso patrão.  (Inspira fundo e tira a arma presa entre a cueca e o calção)
-?!
- Não quero suas moedas... Quero a chave, seu celular, carteira e o terno. (solta o ar no fim da exigência).
- Tem um terno novinho num cabide dentro do carro.
-... Eeee tem calças e um sapato?
- Não.
- Oh patrão! Então me dê suas calças... E esse sapato bonito com a meia. E me arranje seus cigarros. (Ele faz o que exige)
- Não tenho mais cigarros. Era o último.
- Sem problemas...  Sua esposa é o quê, patrão?
- Como?!
- O que ela faz da vida, caralho?
- Ela é advogada.
- E tu é o que mesmo?
- Advogado do Estado.
- Nazora. Pode ficar com minhas havaianas patrão e minha bermuda. Quem sabe o senhor não ganha uma grana vigiando carro. Hahahaha.
- Preto filho da puta!
- Sou preto sim, mas não filho da puta.
Tac ( Aperta o gatilho)
- Eeeee o patrão ta se mijando na cueca. Pensou que ia morrer, né? Seu cagão. Tem sorte que essa arma é de brinquedo. Falou.
- Pega ladrão (grita o advogado).

(Entra com rapidez no e dirige pelas ruas da cidade que se ilumina pela luzes dos portes. Agora tinha um carro importado, ar condicionado pra dissipar o calor de fora e cartões de crédito de todas as cores, mas não sabe usar cartões. Liga o som Pioneer e procura uma estação de Reggae. Mas todos falam em assunto político. Desliga. Pensa em assaltar alguma coisa. - Por que não assaltar uma farmácia? Todo mundo compra remédio e uma dor de cabeça lhe perturba sempre no final do dia. Deve ter muito dinheiro no caixa. Deduz.)

IV

(Av. Daniel de La Touche)

(Para na primeira farmácia que vê – Extra Farma. E lembra-se de pôr o terno, a calça e os sapatos. Demora um tempo fazendo malabarismos pra colocar o terno a calça e os sapatos. Ao sair faz questão de se ver no reflexo do carro e percebe que ainda está de quepe. Tira e joga fora. Cospe na mão e penteia os cabelos duros e ressecados de sol. Sorri.)
- Estou bonito. Mamãe também acharia.
(Olha para o céu por causa de um relâmpago e senti um vento forte atingir seu rosto.)
- Vai chover. Esses pingos de água não vão estragar o meu encontro.
(Entra na farmácia e caminha tentando imitar o andar do patrão com as roupas exagerados para seu corpo magro e estranho para um negro queimado de sol. Pára e fica abstraído entre o vidro do balcão que separa as prateleiras repleta de caixas remédio)
- O que deseja senhor? (Uma bela voz uniformizada sai de trás de um PC lhe trazendo pra realidade)
- Quero o melhor remédio pra dor de cabeça que tem aí.
- Temos o DOFLEX [4], senhor.
- Pode ser.
- Só vendemos em cartela ou em caixa, senhor.
- Então me dê uma caixa.
(A atendente põe a caixa de DOFLEX em uma pequena bacia amarela fenestrada.)
- Você quer mais alguma coisa. Esta em promoção a VITAMINA C efervescente. Muito bom para fortalecer o sistema imunológico evitando assim gripes e resfriados. (explica numa voz mecânica e decorada)
- Ah pode ser. Me diz uma coisa... Vocês têm cigarros?
- Não senhor, aqui é uma farmácia.
- Ah... Foi mal.
- Você paga ali em um daqueles balcões.
(Pega a bacia e se dirigi com um sentimento de orgulho ao um balcão de pagamento. Nunca foi tratado com tanto respeito e educação. Tira o revólver do sobrinho sob o terno)
- Passa a grana!
-!
(a tranca do caixa registradora emperra)
- O que aconteceu?
- Senhor um pouco de calma! Eu vou conseguir abrir.
- Cuida, senão eu te mato.
- Senhor, por favor, não faça isso. Eu tenho um encontro marcado com um homem daqui a pouco.
- E eu to lá me importando com isso. É quero é a grana que ta aí dentro.
- É que ele deve ser o homem da minha vida.
- Quem é ele?
- Vocês se conheceram onde?
- Na Internet senhor. (os olhos brilham de lágrimas).
- E qual o nome dele?!
- Carlos Eduardo.
- Ele faz o que da vida?
- Consegui abrir o caixa, senhor.
- Ele faz o que da vida?
- Pegue o dinheiro, senhor.
- Ele faz o que da vida?
- Peque o dinheiro, senhor. (joga com as mãos trêmulas as cédulas presas por uma liga em cima do balcão)
- Droga! Larga de me chamar de senhor. Ele faz o que da vida? (olha pro seu crachá e ler seu nome) Responde... Rosângela!
(Ela enxuga o bigode de suor e ajeita os óculos e repara pela primeira vez aquele homem.)
- Me desculpe... Ele é dono de uma loja de...
- De que porra?! (grita impaciente)
- De carros.
- Meu deus. Que merda! Fudeu tudo. (bota a mão na cabeça)
- O que senhor?
- Sua gorda feia, vou te dar um tiro na boca pra largar de mentir... Dizendo que era gostosa, médica, loira num sei o quê, meu pau.
- O quê? Como? Não faço isso senhor! (chora aos prantos)
- Tem sorte que essa arma é de brinquedo (pensa).  Todo mundo calado ninguém se mexe. Eu vou matar essa mulher. A casa caiu, a casa caiu! Caralho! (Pega a grana o remédio e sai da farmácia)
- Merda, merda, merda.
(entra no carro e arranca)
- E esse carro? Vou levar logo no desmanche do Rato e sair dá um tempo dessa cidade.
(Põe dois analgésicos na boca e sintoniza a rádio que toca three litlle birds)






[1] Diz-se do usuário de merla: substancia fabricada com a pasta de cocaína. 
[2] Giria que quer dizer o mesmo que Maconha.
[3] Gíria que quer dizer o mesmo que Merla.
[4] Marca de analgésico composto por dipirona sódica, paracetamol e cafeína.

segunda-feira, agosto 10

Caso Renato Archer e Rodrigo Gularte

No primeiro semestre neste ano aconteceram duas execuções de morte envolvendo brasileiros a mando do próprio estado, e não foi o estado brasileiro que praticou a execução, foi o estado indonésio no outro lado do mundo em que os brasileiros Renato Archer e Rodrigo Gularte foram executados.

Essa execução foi aplicada por condenação penal, ou seja, pena de morte, na Indonésia o crime de tráfico de drogas é sumariamente condenado à morte por fuzilamento de acordo com a lei do país, e a maioria da população local apoia essa lei e a condenação com pena de morte.

A comunidade internacional através da imprensa, organizações como a ONU (Organização da Nações Unidas), chefes de estado como o presidente da França François Holland, da Austrália, Filipinas, Inglaterra com o primeiro ministro David Cameron, Holanda e outros chefes de estado foram contrários a pena de morte dos dois brasileiros e outros estrangeiros por tráfico de drogas.

E por outro lado, várias pessoas foram favoráveis a pena de morte, inclusive aqui no Brasil, classe política de alguns segmentos como o Jair Bolsonaro foi favorável a execução dos traficantes na Indonésia, e aproveitou o contexto para justificar a prática da pena de morte no Brasil.

O outro fator que acirrou a discussão entre os prós e os contra a execução dos dois brasileiros condenados, é que os mesmos foram flagrados portando quilos de cocaína dentro de uma prancha de surfe no aeroporto do país, e passaram dez anos presos respondendo pelo crime, foi o pedido de clemência do governo brasileiro nos governos Luís Inácio Lula da Silva (2003-2006/2007-2010) e Dilma Roussef (2011-2014/2015-2018), esta última a atual presidente.

Muitos criticaram a postura do governo por estar defendendo os dois traficantes, eu não entrarei no mérito de ter acertado ou não em defender a vida dos traficantes, porque antes de qualquer coisa, devemos compreender que atitude do governo brasileiro ser contrário a execução foi devido o pedido das famílias dos condenados que durante anos pediram ao Palácio do Itamaraty (sede do Ministério das Relações Exteriores do Brasil) tomar o posicionamento na tentativa de reverter a decisão do governo Indonésio.

A presidente Dilma Rousseff é a chefe de estado, ela governa e representa não só os brasileiros que aqui vive no país, mas também os brasileiros que vivem no exterior, ou seja, ela não poderia de forma alguma ficar na neutralidade diante da situação dos brasileiros, o governo do Brasil tinha a obrigação de acompanhar de perto as investigações antes da execução, e de garantir a reversão caso houvesse provas de eventual inocência dos mesmos.

A presidente da república e o governo do Brasil agiu correto em tomar o partido em favor dos dois brasileiros para averiguar o crime cometido, pedir clemência ao governo indonésio através de cartas para que não houvesse execução por fuzilamento e penalizar de outras formas sem tirar a vida dos condenados, não significa intervenção do governo brasileiro e nem desrespeito a soberania indonésia como muitos interpretaram.

Até porque os Estados Unidos, União Europeia e a própria Nações Unidas costumam enviar tropas militares aos países em conflito em nome da democracia e o combate ao terrorismo, desrespeitando maioria das vezes os governos locais e a soberania de um povo, e muitos encaram isso com naturalidade, portanto, é cinismo e cara de pau acusar o governo brasileiro de intervir ou ferir a soberania da Indonésia e seu governo.

E não foi apenas o governo brasileiro tomou o partido, outros chefes de estado e a própria Nações Unidas (ONU) foram também contrários a execução, o assunto sobre a pena de morte está sendo bastante discutida em todo o mundo, especialmente na Europa, e estão querendo abolir, enquanto no Brasil os desinformados, manipuladores da informação e opinião e os lacaios travestidos de intelectuais querem que a pena de morte seja implantado.

E quero deixar bem claro aqui que eu não sou solidário aos traficantes brasileiros, posso me solidarizar as suas famílias que não podem responder por crimes, e estavam apenas protegendo o ente querido seu independente do ato praticado.

E antes de solidarizar a família dos traficantes, vou solidarizar as famílias e especialmente as mães dos traficantes aqui no Brasil, especialmente nos bairros de periferia em que os pobres e negros acabam sendo induzidos para o mundo do crime e as suas mães mais tarde choram pelos seus corpos ensanguentados e estirados no chão crivado de balas ou fuzil.

Eu não critico a atitude do governo do Brasil em defender os brasileiros executados na Indonésia, como também não condeno a ação do governo indonésio em executar os réus por crimes de tráfico de drogas que no país é crime e passível a execução máxima, ou seja, a pena de morte, e o mundo todo tem conhecimento disso e obviamente os traficantes.

Nesse episódio o que mais me enoja não foi o papel da presidente e muito menos do governo brasileiro, pois os mesmos agiram com obrigações de uma chefe de estado, representar e proteger os brasileiros no exterior, seguindo os trâmites legais, diplomáticos e bilaterais que envolveu o governo de dois países, mas o papel da imprensa brasileira em querer sensibilizar a opinião pública e incitar os mesmos a ficarem contrários a execução dos brasileiros.

Renato Archer e Rodrigo Gularte são de famílias de classe média alta no Rio de Janeiro – RJ e Curitiba – PR respectivamente, estudaram nas melhores escolas, sempre tiveram do bom e do melhor e nunca faltou nada para os mesmos, e mesmo assim resolveram entrar para o mundo do crime.
O mais revoltante foi o programa da TV Globo exibido aos domingos, Fantástico, que deu cobertura no caso Rodrigo Gularte que retratou a vida do indivíduo desde a sua infância, apesar de uma vida confortável, retratou que o condenado sofreu com a separação e ausência dos pais e ter sido criado por parentes principalmente avós, e ter sofrido muitas doenças entre elas a depressão que o levou ao mundo das drogas, de usuário a traficante e posteriormente a esquizofrenia, e usou isso para livrá-lo da execução, porque a lei do país não permite a  execução de pessoas que apresentam doenças mentais, mas contudo foi em vão porque o governo alegou que na época do crime praticado, o Rodrigo estava em sã consciência do seu ato.

A matéria sensacionalista da emissora em comover a opinião e a sociedade em geral sobre o caso, mostra o quanto a emissora e todas as outras são tendenciosas, hipócritas e manipuladoras, onde a falta de ética e honestidade no mundo jornalístico são regras.

Quantos traficantes oriundos das periferias de todo o Brasil em sua maioria são pobres e negros que desde a infância não tiveram oportunidade em estudar nas melhores escolas, sofreram com ausência dos pais, famílias desestruturadas, falta de oportunidades e convivendo com a violência e a criminalidade em suas comunidades não tem as suas vidas ceifadas todos os dias em todo o país?
Quantas mães e familiares não choram por seus corpos ensanguentados, estirados no chão crivado de balas e fuzis? A imprensa retrata a vida desses traficantes para sensibilizar a opinião pública?

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), 77% dos jovens na idade 15 a 29 anos são vítimas da arma de fogo, ou seja, morrem de tiros motivado pela violência em razões variadas, seja pela polícia, criminosos e traficantes, e este número apontado pelo instituto, as vítimas são justamente os pobres e negros que vivem nas periferias onde a violência e o crime reinam nas localidades que vivem.

A mesma imprensa que tentou sensibilizar a opinião pública contra a execução dos traficantes brasileiros na Indonésia, é a mesma que induz a opinião e a sociedade serem favoráveis a pena de morte e reduzir a maioridade penal para 16 anos através dos programas policiais em que os apresentadores defendem abertamente.
Apesar da mortalidade dentre os jovens pobres e negros no país serem altíssima, de acordo com o IBGE, a classe política quer reduzir a maioridade penal para reduzir a criminalidade com balas e fuzis em vez de pinceis, quadros brancos e garantir oportunidades aos jovens.

Renato Archer e Rodrigo Gularte de acordo com a cor da pele, eram brancos e de famílias branca, um detalhe mais interessante para a imprensa induzir a sociedade serem contrário a pena de morte aos mesmos, enquanto defende a pena de morte e a redução da maioridade penal aos ladrões de galinha em sua maioria pobres e negros. Coincidência não?

Na véspera da execução, uma das condenadas a fuzilamento junto com o brasileiro Rodrigo escapou da morte porque horas antes uma pessoa compareceu à delegacia para a inocentar a mesma, ela é da Filipinas que no momento não me recordo o seu nome, passou anos alegando ser inocente e a justiça mesmo assim não acreditou.

A pessoa que compareceu à delegacia em seu depoimento disse que a cocaína havia sido colocando dentro da sua mala sem ela perceber horas antes de embarcar da Filipinas a Indonésia, se esta pessoa não fosse a delegacia para prestar o depoimento e provar a sua inocência, seria executada sem conseguir provar a inocência, mas afirmando ser inocente do crime não cometido.

O estado indonésio livrou-se de cometer o maior de todos os crimes, o de executar a pessoa inocente, Estados Unidos gradativamente está abolindo a pena de morte em seus estados, porque o estado americano está reconhecendo que muitas das vítimas foram condenadas inocentemente, e o processo de julgamento foi cometido por sucessivas falhas pelos magistrados.

Um dos casos evidente foi o caso de uma vítima mais jovem ser condenado a pena de 
morte, ele tinha 14 anos e acusado de ter matado as duas crianças, no decorrer do processo até a sentença, o jovem não teve direito ao advogado que lhe foi negado, ficou incomunicável com a sua família e teve o direito de apenas ficar calado durante o julgamento para que não fosse usado contra si.

Passados mais de 70 anos, ocorrido nos anos 1940, eu não me recordo o nome da vítima (Me desculpe!), a parente das crianças relatou que o jovem morto na cadeira elétrica não foi o autor do assassinato das duas garotas, a família do jovem ao tomar conhecimento começou a processar o estado e o processo reaberto para averiguação, com a constatação da inocência do condenado, o estado reconheceu o erro e consequentemente indenizar a família da vítima.

E há um detalhe que deve ser colocado, a vítima condenada a morte nos anos 1940 aos 14 anos era negro (De novo William, lá vem você com história de racismo, achar que tudo é racismo, você tem preconceito a si mesmo, auto preconceituoso e complexo de inferioridade), e as duas crianças assassinadas eram meninas e brancas, os magistrados que o julgaram com sucessivos erros em que a vítima não teve o direito a defesa, foram motivados por racismo que também estava impregnado nos poderes, inclusive no judiciário, caracterizando o racismo institucionalizado, num contexto em que os negros dos Estados Unidos eram segregados através das leis e o corte jurídica era praticamente formado por brancos. E este caso não é isolado, há muitos casos semelhante ocorrido nos Estados Unidos ao longo dos anos que estão sendo reinvestigado, e os réus condenados sendo inocentados, estando mortos ou vivos.

No Brasil apesar da morosidade e a impunidade em maioria dos casos do poder judiciário, contradição das leis e da constituição federal, a lei garante ao réu o direito à ampla defesa e a inocência até provar o contrário, baseado das leis vigentes no nosso país, o Renato Archer, Rodrigo Gularte e os outros condenados de outras nacionalidades tiveram de fato o direito à ampla defesa?

Porque a filipina que seria condenada só escapou da morte por causa da testemunha, será que ela também teve o direito de fato a ampla defesa mesmo estando presa pelo crime que não cometeu? Não havia a possibilidade de as pranchas terem sido trocadas? Pois tanto o Renato e o Rodrigo utilizavam as pranchas e dentro delas foram encontradas a cocaína. Pois os mesmos tinham a plena ciência que no país em que estavam o crime de tráfico de drogas é sumariamente combatido com pena de morte pelo estado/governo. Será que eles seriam tão corajosos de portar drogas nesse país sabendo da condenação num eventual flagrante?

Não estou defendendo os traficantes, o que quero colocar é que a pena de morte não é a melhor solução para coibir as práticas de crimes, pena de morte aqui no seria um desastre, só seria condenado os pobres, negros e ladrões de galinha, as cadeias continuam sendo exclusivas a essas camadas que citei anteriormente.
Os ricos e brancos (rico claro, o branco pobre pode se enquadrar aos negros e ladrões de galinha) não irão a cadeia, e se for a cadeia, terá a cela exclusiva se isolando dos demais ou a prisão domiciliar, veja a Operação Lava Jato deflagrado pela polícia federal, os bandidos do colarinho branco estão presos nas dependências do prédio da polícia federal em Curitiba - PR e outros em prisão domiciliar, ou seja, estão presos em suas próprias residências.

Jamais irão a cela onde estão os demais criminosos que cometeram variados crimes, 
desde o roubo de uma galinha a assassinato, como ocorre nas penitenciarias do nosso país, em que os presos provisórios se juntam aos já condenados pela justiça, o Brasil continua sendo o país da impunidade, para os bandidos do colarinho branco claro.

A operação lava jato está longe de decretar o fim da corrupção e principalmente a impunidade neste país, as classes dominantes continuará por muito tempo desfrutando e beneficiando-se da corrupção nas repartições públicas e toda a sua estrutura como o corporativismo, tráfico de influências e clientelismo/troca de favores.

A história está aí para provar, Joaquim José da Silva Xavier, Tiradentes, foi enforcado, esquartejado e teve as partes de seu corpo exposta em praça pública para servir de exemplo para todos os demais que ousar rebelar-se contra a metrópole, no caso Portugal, mas foi sozinho condenado, enquanto os demais foram perdoados ao se livrar do enforcamento e o Joaquim Silvério dos Reis foi premiado ao delatar as autoridades da coroa o plano de uma eventual revolta para livrar o Brasil a condição de colônia.


Essa revolta ficou conhecida como a Inconfidência Mineira, foi orquestrada pelas elites da colônia que não queriam mais ser dominados pelo estado português, o Tiradentes que participava do movimento era o único pobre no seleto grupo da elite escravocrata, agrária e que estavam lucrando com a extração e contrabando do ouro. Entendeu agora o porquê o Tiradentes foi enforcado e esquartejado em praça pública? A sua prisão ocorreu em 1789, o enforcamento e esquartejamento em 1792. De lá para cá pouca coisa mudou neste país, no que diz respeito a cadeia e a punição de eventuais crimes. Apesar de sermos todos iguais perante a lei, de acordo com a nossa constituição federal.

quarta-feira, julho 15

Mossa

Por Mariana Matilda

A noite, teimosamente, me quer a dormir
Mas, desperta, estou fora de casa.
Ficaste na tua,
Em uma cláusula de pequenas compleições, chéri.
Larga de tais flancos.

A noite anda ao revés,
claríssima sob(re) as pálpebras.

Observa-me a dançar,
Fissura-te o átomo.

O calor não ajuda,
faz suar, esgota.
Ó, trópicos infernais,
em vós não há reais alentos,
canções de ninar ou a diplomacia dos santos.

A madrugada abafada
torna-se um tango
sedento de desejos
já fartos de ocultos.

Tu sonhas mal, darling,
sonhas temor.
Buscas verdades indubitáveis
em meio a tantas predileções —
Onde estão tuas vitais perdições?

Mas há um nome que teu corpo quer pronunciar.
Para invocá-lo,
suaviza-te os lábios
Mas continua o desejo
no céu da boca.
A ideia é engolir
para não deixar sair
nem um vil grão de desejo

Encerras em ti o incontrolável vazio
nas coisas banais.

Deixas descambar
em meio à cinza das horas
os vãos da equação.

Lembra-te da pura e puta humanidade, cariño.
Pelo nascer, o Sol se inclina,
Faz moldura onde passa.
Deixa-o.
Ele está escrito na eternidade.
Tu, não.

— queiramos a delícia de sentir o reles empirismo palpável e não plausível do tango.

quarta-feira, julho 8

Câncer

Por Tayna Guerra
                                        
                               Em meia luz beija-me de novo.

           E descobre os caminhos inóspitos que trilham as estrelas do meu céu.

                      Mãos traçam linhas tortas, os arrepios pelo corpo


                         mostram o efeito causado pelo seu cheiro.

                         Nessas linhas defeituosas me lembro de ti, 


                   do toque de seu corpo, das marcas que você deixou

                  como se quisesse me lembrar que por aqui deixou morada.

               Causando estrago a boca traça caminho de vermelhos beijos,


                                      me arrancando suspiros.

             Com essa sua vontade me olha, e massageia minha alma.

         Olha-me com esses olhos límpidos cor de mar, repletos de vontade 


                           e me deixa com um sorriso de bem amada.

           Mas nem por um instante pense que uma noite basta pra me saciar,


                               minha sede é fonte sem tamanho.