quinta-feira, abril 18

Ismos


Ela gostava das palavras “sexismo”, “machismo” e “feminismo” e outros “ismos”. Falava com uma propriedade no assunto e gesticulava as mãos e tinha certeza que ela ia mudar o mundo um dia. Sempre parecia que ela falava para uma multidão em cima de um palanque como um político. Tipo um Hugo Chávez, um Sarney nos anos 60 ou um Lula nos anos 80. Eu escutava ali na minha e mostrava meu pau do nada e ela chupava e depois fazia todo tipo de movimentos possíveis que a natureza nos permitia com ela na sala de estar ou no quarto ou em qualquer lugar que ninguém perturbasse. Assim era a única forma de calá-la e escutar somente seus gemidos e nada de ismos. 

terça-feira, abril 16

A visita cruel do tempo





Por Natércia Garrido


“É essa a realidade, não é? Vinte anos depois, a sua beleza já foi para o lixo, especialmente quando arrancaram fora metade das suas entranhas. O tempo é cruel, não é? Não é assim que se diz?”



A visita cruel do tempo (Ed. Intrínseca), da autora norte-americana Jennifer Egan, chegou ao mercado editorial brasileiro em 2012 com sua melhor “carta de recomendação”: a de ganhador do Prêmio Pulitzer do ano de 2011 por melhor obra de ficção. Para quem não acompanha intimamente os prêmios literários mundo afora, o Pulitzer é concedido pela Universidade de Columbia (NY) desde 1917 a trabalhos publicados nas áreas de jornalismo, literatura e música.


A história gira em torno da vida de pessoas que transitam no mundo da música – esse é o pano de fundo: a indústria fonográfica e o rock’n’roll, desde a década de 1970 até os anos atuais. Mas o que se discute aqui é a metáfora clara da passagem do tempo, principalmente para essas pessoas que achavam que, por serem jovens, a vida noturna, a juventude e os efeitos das drogas nunca cessariam; ou melhor, nunca trariam consequências.


Então, em um ritmo linguístico alucinante – por isso a leitura flui como o som das batidas das bandas dos anos 70 e 80 , Egan nos faz acompanhar os vinte anos das vidas de Bennie Salazar, um executivo egoísta da indústria musical; de sua sexy assistente Sasha; de Bosco, um guitarrista decadente da explosiva banda Conduits – grande descoberta de Salazar nos anos 80; de Lou, um produtor musical viciado em cocaína e em ninfetas; e das pessoas que rodeiam esses iconoclastas. O que resta afinal...é descobrir como o tempo pode ser cruel e implacável quando aparece tão de repente.

domingo, abril 14

Rolê



Respire fundo que vai começar o rolê meu irmão sem noção de nada. A fissura bate uma dose acima do ritmo do coração. Eu preciso de um trago e não tenho nada nos bolsos, em casa, na gaveta, na cabeça. Os reacionários me perdoam, minha mãe, os cristãos, os que tem amor-próprio, os que adoram tragédias. Eu sou autodestrutivo, amor. Vocês conhecem a História do sapo e do escorpião? Não vou contar agora pra vocês eu vou é contar quanta grana tem na carteira e calçar meu tênis surrado. PARE POR AQUI SE TENHA MEDO. Foi o que li agora num muro riscado num giz no beco da esquina da Boca de Fumo do traficante que estudou comigo e largou a escola depois de enfiar um soco num professor de química e hoje ele passa me passa o bagulho em minhas mãos e eu lhe passo o dinheiro. O mundo não é lógico, mas cheio de frases de efeito e símbolos como o dinheiro. Dobrei a direita. À esquerda. Segui reto. Pulei um esgoto. Tropecei numa pedra. Sabe? Você sentir seu próprio fedor e o sangue batendo em todos seus pulsos possíveis é legal e não sei se é perigoso.  É só um trago. Tchau.

sábado, abril 13

O Canto dos Malditos - Tom Zé


                                                                  Estudando o Samba
Por Natan Castro

Em nada se parece a música de Tom Zé com aquilo que é produzido em termos musicais no Brasil hoje, muito menos antes. Baiano do sertão de uma cidade chamada Irará, na adolescência Tom Zé vai com a família para Salvador e inicia o ginásio, logo em seguida começa a estudar violão e mantém contato com Escola de Música da Universidade Federal da Bahia. Reza a lenda que caiu como uma luva as informações obtidas lá com os mestres Walter Stemak e principalmente o dodecafonista Joachim Koellreutter. A forma de pensar a composição e a interpretação à época teria criado forma depois das aulas na Escola. Logo depois a convite de Caetano e Gil vai para São Paulo e participa do cerne do tropicalismo, chega a participar do álbum símbolo do movimento, ainda em 1968 ganha o IV Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record, com a canção "São Paulo, Meu Amor".

Com a ida de Caetano e Gil para o exílio Tom Zé estava na turma que ficou no Brasil, porém por produzir uma música extremamente anticomercial foi aos poucos caindo no ostracismo. Mas a produção de álbuns sempre na mesma linha iconoclástica continuou a todo vapor criando clássicos como (Estudando o Samba), (Se o acaso é chorar). Foram quase duas décadas no esquecimento para no final dos anos 1980, quando da passagem do músico vocalista e mentor da lendária banda nova-iorquina Talking Heads no Brasil, o mesmo recebeu de um amigo brasileiro um vinil do álbum (Estudando o Samba) e se mostrou impressionado pelo talento do baiano, logo em seguida saia nos E.U.A toda a obra de Tom Zé remasterizada em CD. Sucesso de público e critica através do E.U.A o Brasil redescobre Tom Zé. Dizem alguns que na época Tom Zé era gerente de um posto de gasolina e havia desistido de continuar com a carreira, em 1998 Tom Zé lança (Com Defeito de Fabricação) aclamado pelo New York Times como um dos melhores álbuns do ano. O baiano tem cadeira cativa na academia brasileira dos artistas Malditos da MPB, por fazer música para se pensar não importando se será feita com ajuda de violões ou liquidificadores, para Tom Zé o que importa mesmo é a arte. 



terça-feira, abril 9

Lado a Lado: a Teledramaturgia deve ser reprisada em horário nobre



No dia 8 de março foi exibido o último capítulo da novela da rede globo, lado a lado, bem diferenciado em relação as demais teledramaturgias que já foram exibidas pela emissora.

A novela mostrou a história do Brasil no período pós-monárquico-escravista e inicio da república, recheado de excelentes atores, entre eles, o Lázaro Ramos, Camila Pitanga, Marjorie Estiano, Tiago Fragoso, Patrícia Pilar, Milton Gonçalves e muitíssimos outros, com personagens sociais que viveram no período citado.

A teledramaturgia focou nas duas personagens: a Laura Vieira interpretada por Marjorie Estiano e a Isabel por Camila Pitanga. Duas mulheres com realidades bem distintas, a primeira filha de barões, escravocratas e falidos produtores de café que tinham poder e status no regime imperial-monárquico-escravista, a segunda filha de escravos, não tinha perspectivas pelo fato de ser pobre e negra, apesar da abolição do sistema escravagista, sofria cotidianamente o preconceito e a discriminação racial, que forçava a exercer somente a profissão de doméstica.

Realidades distintas, as duas personagens resolveram lutar contra o preconceito e as injustiças, mulheres além do seu tempo e do pensamento de uma sociedade conservadora e reacionária, mas ao mesmo tempo mesquinha e hipócrita.

A personagem Laura Vieira, personificava uma mulher inconformada a submissão feminina ao machismo masculino imposta pela sociedade, umas das atitude foi pedir o divorcio ao marido, o Edgar Vieira interpretado pelo ator Tiago Fragoso, numa época em que o divorcio era inadmissível e a mulher carregava todo o sentimento de culpa, principalmente por ser solteira ou rejeitada pelo marido.

Outro fator considerado escândalo para a sociedade nesse período, era a da mulher trabalhar fora de casa, principalmente nas profissões consideradas degradantes, como no caso da Laura que trabalhou numa sapataria como atendente em que ela teve que abaixar-se para colocar os sapatos nos pés dos clientes, causando o constrangimento a sua mãe, a Constância ou a Baronesa da Boa Vista, por não aceitar a sua filha trabalhar nessas condições e não ser alvo de chacotas das senhoras e da alta sociedade carioca.

Perdeu o emprego de professora numa escola de freiras quando foi descoberta que era divorciada, foi hostilizada em todas as repartições onde frequentavam as senhoras da alta sociedade, foi trabalhar de secretária para o amigo do seu pai, que também é senador da república, sofreu tentativa de abuso sexual pelo amigo do seu pai, mas se passou a culpada por tudo, porque o pensamento da sociedade naquele período é se ela fosse casada e estivesse em casa cuidando do lar, dos filhos e do marido, nada disso havia ocorrido.

Daí você vê a ojeriza ao trabalho, que não está associada somente aos pobres e malandros, a própria elite também tinha aversão ao trabalho, principalmente nas profissões destinada aos pobres, no caso, a imensa maioria de negros e ex-escravos.