domingo, junho 26

A afogada

A deriva, tu te vais
No rio da lembrança
E na margem, logo atrás,
Grito através da distância.

Mas te afastas, lentamente,
E em meu curso desesperado
Te recupero brevemente
No espaço por mim deixado

Te afundas por instantes
Na correnteza severa
Tocando os galhos flutuantes
 Tu hesita e me espera

E com a face escondida
No vestido sem vaidade
Temendo que seja percebida
E a vergonha e a saudade

Não passas de um barco em pedaços
Cadela jogada ao longo das águas
Mas permaneço teu escravo
E mergulho em tuas mágoas
Quando se finda a memória
E o oceano do esquecer
Despedaça nossa vida e história
Sem que possamos nos reaver

Livre adaptação de La Noyée, de Serge Gainsbourg
Por Igor Nascimento


sábado, junho 25

Um flâneur no Rio


Por Cris Lima
Era perambulando pela cidade que o flâneur tornava-se livre. Livre para compor seu leque de desejos. Era vagando pelas ruas dantes sem luz, que ele tentava enxergar por entres os paralelepípedos, pelo lixo, pelas vitrines a inspiração para a melancolia e o tédio que adornavam a vida moderna. “A rua se torna moradia para o flâneur que entre fachadas dos prédios, sente-se em casa tanto quanto o burguês entre suas quatro paredes. Para ele, os letreiros esmaltados e brilhantes das firmas são um adorno de parede tão bom ou melhor que a pintura a óleo no salão do burguês.”(BENJAMIN, 2003 p. 35).
O flâneur que passeava, nos bulevares, “comum”, como todos, parecia misturar-se a multidão para dela extrair o que mais de frívolo existisse. Além de fazer sua observarão patológica do seres que habitavam as ruas, o flâneur almejava, também, buscar um certo distanciamento dos acontecimentos observados por ele.
O Rio de Janeiro do início do século XX ofereceu condições, por assim dizer, patológicas, para o surgimento desta figura que passeava de modo inteligente pelas ruas. João do Rio foi o nosso flâneur. Apesar do calor, da aparente mestiçagem da população do Brasil, tão diferente da cidade-modelo, Paris. A arte de flanar instaurava-se na capital da recente república brasileira. O olhar lançado por João do Rio à cidade era o mesmo de Baudelaire sobre sua Paris. Afinal, ambas, foram banhadas pela onda da Modernidade, da Velocidade, da Artificialidade.
O ato de vagar, ou melhor, de divagar pela cidade recém modernizada, fazia com que João do Rio encontrasse nos redutos mais longínquos, por entre becos, botequins, vielas, aqueles seres marginalizados pelo progresso, que nos salões da “Belle Époque“ carioca não cabiam. Contudo, em seus contos e crônicas, tipos como prostitutas, cafetões, ladrões, assassinos, jogadores, alcoólatras, suicidas, homossexuais tinham lugar privilegiado no teatro da realidade da cidade moderna. Era nas ruas cariocas que nosso flâneur defrontava-se como os homens mecanizados pelo progresso dos seus automóveis a enfeitarem, com fumaça a paisagem urbana do início do século XX. “O automóvel é o símbolo do novo tempo, avassalador e vertiginoso, trazendo consigo alterações radicais na fisionomia urbana”. (RODRIGUES. 2003, p.130)
Era através da distração de forma inteligente que o flâneur brasileiro captava para si a crônica da vida cotidiana. O sujeito passeava quase que vertiginosamente, sentia o tédio e a melancolia de ser envolto pela uniformidade que a modernidade trazia. Era congestionando-se pelas pessoas na Rua do Ouvidor, frequentando o Teatro Municipal que, João do Rio desenhava as figuras mais excêntricas de seus contos, buscando assim, mostrar o que hoje parecemos viver a frivolidade da cidade moderna, o simulacro da vida urbana, o corre-corre em busca do capital, a crise de valores, a depressão, o sentimento de niilismo diante das coisas.
A urgência da vida parecia criar parasitas, vermes, tal como, já descrevia Kafka em seu livro A metamorfose. A degradação psicológica e física do homem moderno que se encontrava perdido em sua vida de consumo e que achava refúgio no suicídio.
A modernidade fazia da rua um labirinto de possibilidades ao “homem das multidões” perde-se ou encontra-se diante de uma vitrine, ou dentro de uma galeria, ou num café a contemplar por cima a vida miserável da metrópole burguesa.
Coube a João do Rio, nosso flâneur, descortinar a falsidade vivida pela sociedade carioca, desvendar a vida de aparência que importava tudo; gestos, falas, andares, costumes europeus. O mundo visto por João do Rio era a representação do riso falso da moça no bulevar a flertar com o janota de cartola, o cumprimento “cortês’’ do banqueiro, feliz por acertar mais um negócio.
O Rio de Janeiro no início do século apresentava ares de uma grande feira, onde tudo era possível de ser negociado, e o flâneur ávido por observação vislumbrava paciente, quase indolente, talvez inebriado pela fumaça dos automóveis a vida agitada da cidade.

REFERÊNCIAS:

BAUDELAIRE, Charles. Sobre a Modernidade.Org: Teixeira Coelho Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2004.
BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas III: Charles Baudelaire: Um Lírico no Auge do Capitalismo. 3 ed. – São Paulo Editora brasiliense,2000.
CUNHA, Helena Parente. Melhores contos de João do Rio. São Paulo: Global, 2001.
BROCA, Brito. Naturalistas, Parnasianos e decadentistas: vida literária do Realismo ao Pré-Modernismo. Campinas, SP. Unicamp. 1991.

Noite de outubro


Chovia. Uma chuva fina, porém constante. Ela acordou no meio da noite com o barulho da chuva batendo na janela do quarto. Olhou para o lado. Ele não estava lá. Ele nunca mais estaria lá. Pensou em como a cama parecia grande e espaçosa sem ele. Em como as noites pareciam mais longas sem as conversas antes de irem dormir. Pensou que nunca mais ouviria a sua voz ou sentiria o seu cheiro. Nunca mais o abraçaria, o beijaria nem faria amor com ele. Nunca mais ririam das mesmas piadas e se divertiriam juntos ou brigariam sobre de quem é a vez de lavar a louça. Pensou que nunca mais o ouviria sentar-se ao piano e tocar Chopin. Ele morreu. Ele morreu e ela não pôde fazer nada para impedir que isso acontecesse. Sentiu raiva. Raiva dele. Por que ele saiu de casa mais cedo justamente naquele dia? Por que ele não saiu no horário de sempre. Ele não devia ter partido. Ele não podia ter partido. Ter partido sem ela. Como pôde tê-la deixado sozinha?
Um choro. Um choro agudo. Não. Ela não estava sozinha. Forçou-se a sair da cama e caminhou em direção ao berço. Afastou o mosquiteiro e pegou aquela pequena criaturinha nos braços. Aquele pequeno pedaço de gente. Pedaço dele. Dela. Deles. Sentou-se na cadeira de balanço e deu-lhe de mamar. Ela estava afoita sugava o leite de maneira aflita, quase desesperada. Era apressada como o pai. Gostaria que ele a tivesse conhecido, pensou. Ele seria extremamente ciumento, a protegeria de tudo e de todos. O pensamento a fez sorrir. Lembrou-se que a única coisa a qual a sua sanidade se ateve foi a esse pedacinho dele que ela carregava em seu ventre. Um fruto do amor de ambos.
Ela levou a mão ao pescoço e acariciou as alianças que levava penduradas ali. Sim, ele havia morrido, mas não estava morto. Pelo menos não completamente. Uma parte dele ainda vivia em cada canto daquela casa, em cada canto daquele quarto. Uma parte dele ainda vivia naquela doce menina que agora dormia em seus braços. Ele ainda vivia em seu coração e viveria ali para sempre. Lá ele nunca morreria.
Começou a embalar-se na cadeira e deixar as lágrimas cairem. Pegou o controle do som e apertou o play. Deixou que a música de Chopin invadisse e inundasse o quarto. Ele não havia conhecido a filha, mas a filha o conheceria. Ela garantiria isso.

Vanessa Soeiro Carneiro

Bailarina

Ontem ela esteve aqui, trouxe vinho antigo e ficou por horas deitada no chão, relatando suas andanças, reclamando de minhas mazelas, das coisas que escrevo e deixo amiúde pelo chão, sua preocupação me alimenta quando ela esta ausente. no meio da madrugada sua lembrança vacila na escuridão, é quando aceito o sono sem repulsa. Ela possui trejeitos de maldade, aquele olhar que ultrapassa as coisas, mas como já a conheço há tempos sei que não é por toda assim.
Muitas vezes discutimos sobre diversos assuntos, quando contrariada vem à tona aquele castelhano lá das terras da Andaluzia e depois se pôs a chorar ouvindo alguns fados e outras epifanias. Nunca a deixo perceber minha parcela de satisfação com suas visitas, nossas vidas se entrelaçam por conta do seu viés trágico, não escolhemos esse oficio, precisamos compartilhar a primazia desta condição.
Como de praxe cantamos a capela - A canção da mais alta torre - no abraço minha lágrima manchou sua fantasia de bailarina, porém ela sorriu dizendo ter mais um motivo para lembrar-se de mim, sempre que estiver bailando por ai. Antes costumava me visitar, durante o inverno, porém ontem o sol clareava os quatro cantos do quarto e também o dorso do meu corpo inteiro, para ela não sei por que tudo isso importa; verificar as plantas colocando-as ao sol, dobrar as camisetas naquela posição anterior, apalpar minha barba por fazer, lá pras tantas ela pediu que cantássemos outra canção, no meio da manhã dei a ela de presente o vigésimo nono girassol. Isso foi ontem, hoje tudo continua como ela deixou e por ela assim tudo deverá continuar.

Natan Castro.

sexta-feira, junho 24

O sentimento de mudança e dias melhores chegaram ao país?

Por William Washington de Jesus*
Desde 1500, o Brasil sempre foi governado pelas elites que sempre estiveram no poder, gozando das regalias e privilégios fazendo-os imunes a quaisquer penalidades as leis vigentes, em detrimento da maioria do povo que sempre foi e é massacrado para manter os interesses pessoais. Vários intelectuais retratam essa realidade como o Caio Prado Jr., Lima Barreto, Raymundo Faoro e muitíssimos outros.
Um país com a forte doutrina cristã, influenciado especialmente pelo catolicismo que prega ideologicamente a preservação da família e da propriedade privada, conjugado com a moral e os valores, transpassando a uma sociedade fortemente patriarcal e conservadora que ainda nos dias de hoje é fortemente propagado.
A polícia e as demais forças armadas que foram usaram a força para reprimir todas e quaisquer manifestações que atente a lei e a moral vigente, sempre aplicou aos mais necessitados, oprimidos e marginalizados na sociedade e defendendo os interesses das classes dominantes.
Este é o Brasil que predomina nos dias de hoje no século XXI do ano de 2011, entretanto, este ano corrente entrou para a história no nosso país em virtude das decisões mais polêmicas tomadas pelo STF (Supremo Tribunal Federal), que causou a ira de alguns segmentos da sociedade.
Numa delas foi a união civil dos homossexuais, que causou revolta de católicos e protestantes, como foi citado anteriormente, a sociedade brasileira carrega conceitos e doutrinas cristã, a outra foi a liberdade ao militante-guerrilheiro de esquerda Cesare Battisti, acusado pelo governo da Itália pelo suposto assassinato de quatro indivíduos no país na década de 70.
Sendo que o governo italiano pediu a extradição do comunista, que o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva negou o pedido do governo e o STF legitimou a decisão do ex-presidente da república, que havia sido pedido em 2007 e foi protelado até o último dia de governo, no dia 31 de dezembro de 2010, causando revolta da Itália e dos militantes de partidos de direita de ambos os países, afetando as relações bilaterais, sendo que o governo italiano entrou com o recurso no Tribunal de Haia (a Corte Jurídica Internacional) na Holanda para processar o Brasil pela decisão.
E a última foi a decisão da mesma suprema corte brasileira em legitimar a marcha da maconha, essas três decisões foram inéditas, parafraseando a frase do Lula “Nunca na história deste país”, a suprema corte tomou decisões que vão contra os princípios das classes dominante, isso pode ser considerado uma derrota para os grupos políticos conservadores direita, a igreja católica e protestante e todos os seguimentos que condenam essas decisões.
Mas a pergunta é que não quer calar. Quais as razões o STF tomou essas decisões? Historicamente nunca tomou decisões favoráveis a essas questões. Mas uma coisa é certa, mesmo com todo o aparato repressor policial do estado e indivíduos aos homossexuais, o movimento GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais eTransexuais) durante anos carregou essa bandeira de luta para obter os mesmos direitos que os heteros.
A não extradição do Cesare Battisti para o governo da Itália foi uma demarcação política e ideológica pra ressaltar que o Brasil é governado por esquerdistas com a doutrina marxista, sendo a raiz ideológica do Partido dos Trabalhadores (PT), enquanto os italianos são governados por Silvio Bellusconi que representa a direita mais conservadora no país, ignorando as relações bilaterais de vários anos, considerada nações amigas com a relação diplomática bastante amistosa.
A legalização da marcha da maconha que sempre foi reprimida pela grande imprensa neste país e igrejas, sempre foi tratado como caso de polícia (vide o fato recente em São Paulo), foi legitimada pela suprema corte brasileira.
Todas essas decisões foi o fruto de anos e anos de luta a custa de muito sangue derramada e vidas ceifadas que defenderam a causa, mas isso tem a contribuição do atual governo e do antecessor (Dilma Roussef e Lula respectivamente)?
O PT desde a sua fundação e os demais partidos de esquerda junto com os movimentos sociais de vários segmentos, sempre defenderam os direitos dos homossexuais, aborto, legalização da maconha (ou no mínimo leva o debate dentro e fora da academia), liberdade aos presos, torturados dos regimes ditatoriais e de governos de direita, refugiados e muitos outros.
Apesar das contradições que é o governo do PT, mas ficando bem claro que eu não defendo o governo petista, mas deve reconhecer ou no mínimo levar em consideração algumas ações deste governo que deve ser bastante debatida, como no caso, essas decisões tomadas pelo STF, porque de forma ou outra, o governo teve grande influencia nas decisões, apesar do Poder Executivo e Judiciário são independentes em determinadas questões, garantindo assim o regime republicano e democrático (a principio).
É de grande importância levar isso ao debate, tentar compreender no que está por trás dessas decisões, e ressaltar que os movimentos sociais têm sim forma política, mesmo sendo uma sociedade extremamente conservadora que é controlado por aqueles que sempre estiveram no poder e usavam o aparato estatal pra defenderem os seus interesses.

*Bacharel em História (Historiador) pela Universidade Federal do Maranhão

PAI NOSSO, PROTEGEI-NOS DE NÓS MESMOS

Nenhum pecado dito no confessionário será perdoado através de orações.  Em pires do rio, goiânia, o padre pede apenas que plantem árvores, árvores, e árvores...e quando os brotinhos estiverem prontos todos os penitentes, em procissão, irão para uma área desmatada da cidade plantá-los. algum dia quando suas folhas, troncos e raízes estiverem grandes,  ouvirão das estrelas um segredo que jamais contarão aos homens, que o céu é verde, cheio de plantas e animais.


eliseu cardoso