terça-feira, outubro 28

Gabriela chorava tempestades


    Na aurora melancólica, no momento em que o sol desperta ébrio no horizonte, Gabriela chorava tempestades lembrando de sua infância, de sua infância carcomida por tristezas e por mágoas bordadas no mármore da memória. Ela não teve um mar para vislumbrar e nem pegadas na areia macia da praia para desmanchar ao cair da tarde. Seu pai foi bastante rude. Constantemente ele pedia-lhe sempre que ela beijasse os pés anciões e que lavasse trapos imundos. Ela ainda tinha que cortar as unhas dele em joelhos num chão irregular. 
 
    Apesar das amargas tarefas, brotava nela os sonhos mais esplêndidos, quando a noite surgia vestida em diamantes. Ela gostava de pensar na lua incendiada. Um dia ela sonhou que sereias cantavam junto com os galos roucos numa madrugada rósea.

    Ela só desejava encontrar um caramanchão ou pelo menos um jardim formoso com flores exalando perfumes exóticos. Ela só almejava navegar em veleiros velozes, que cortam feitos navalhas o véu do mar. 
 
    Gabriela não podia brincar. O pai carrasco não deixava. Uma corda poderia encontrar suas costas, caso ela desrespeitasse o ancião. Todavia, tudo mudou no dia em que Gabriela encontrou um livro de poesia esquecido em um armário.  A vida brotou radiante a partir desse momento iluminado. Era o Poema Sujo.

    Depois da doce leitura, que fez escondida do pai em um sótão abandonado, poemas jorravam de sua cabeça. Ela passava noites em claro a rabiscar versos. Amanhecia em sonhos. E dali em diante, ficava sempre a contemplar o nascer do sol, assim como estava fazendo no instante em que chorava tempestades.