sábado, outubro 4

Ode para Dylan Thomas

I
outubro vem sangrando no horizonte embravecido
raios e trovões anunciam mortes e entradas ao longe
na tempestade apenas escutamos os murmúrios das flores
que exalam um estranho perfume que nos embriaga
e o vinho antes doce agora amarga em nossas bocas
estamos nas dobras do mar em naufrágios constantes
lentamente jazendo a observar tantas catástrofes
o mundo por certo é um lugar por demais perigoso
criminosos vagam sem piedade nos olhos à luz da lua
trazendo em seus espíritos a chama intensa da morte
nas ruas rios de sangue passam pela sarjeta imunda
agora reina em nossos domínios a intemperança
pois o futuro é amplo e cheio de dor e dúvidas
por isso ó poeta quero somente ler teus poemas
carregados de palavras cortantes como navalhas
quero admirar sem cessar teu verbo tão alucinante
em que teus versos aparentam estar iluminados
pelo sol imperioso que brota no litoral longínquo
II
vejo a lua enfurecida a iluminar os amantes
que seguem de mãos dadas e acorrentados pelo amor
outrora eu sentia um repúdio tão voraz
percorrendo em fúria inebriante minhas veias
agora posso sentir um jovial sentimento
dominando-me por estes dias tão levianos
ó poeta! ainda posso vislumbrar em meu coração
a arte taciturna que me conduz pelas noites
onde solitário eu traço tantos destinos solenes
ardentemente eu espero alguma inspiração
para poder bordar perfume em papéis avulsos
que são carregados pelo vento da discórdia

trabalho sem recompensa assim como tu ó poeta
e sem ninguém a admirar meus versos rudes
no entanto sigo com desejo pelas ruas desertas
ouvindo o choro dos amantes abandonados
e não paro para lamentar os tempos idos
pois sei que o sangue de meus sonhos percorre
ainda embravecido as minhas veias mais ínfimas
III 

almejo tantas vicissitudes e estradas ao pôr do sol
qualquer verão que me dilacere totalmente
ou simplesmente um beijo pudico no rosto
vou gritar ó poeta nestas noites silenciosas
até o irromper da luz onde nenhum sol brilha
vou correr pelos campos insensatos da paixão
e pular em lagos límpidos ao entardecer

desejo com ardor ó poeta tuas páginas de espuma
teus versos únicos traçados em noites invernais
buscarei teus poemas nos desertos e nos prados
minha jornada terá êxito e clamarei aos céus
que tua poesia se propague pelos quatro cantos do mundo
pois tuas linhas irradiam beleza e verdade
tenho a sina de um nômade a vagar pelas areias
sonhando serenamente sob a lua de asfalto
sei que encontrarei abismos e pântanos
mas não esmorecerei diante de tantas dificuldades
pois eu sou um argonauta em busca dos versos d'ouro
IV 

outubro é verdadeiramente o mês mais sublime que há
os ventos nesta época arrastam lembranças febris
para o recanto mais escondido do meu coração
ó quantas emoções me aguardam lá na esquina
tenho que apenas louvar estes dias de outubro
já que as árvores festejam ao passar do vento
nada irá me levar aos portos da melancolia
vou somente reverenciar os pássaros cantantes
que voam livres nos céus mais azuis
nem gaiolas de pensamento irão prender
meus voos sob as encostas mais afastadas
nem ouvirei salmos e rouxinóis dos mortos
que descansam em mausoléus esplendorosos

talvez eu encontre o eterno movimento
que há por trás de tua poesia iluminada
lembro uma noite que eu sonhei sem jactância
com tua declamação diante de um oceano em luto
ó poeta! quando a morte perderá seu domínio?


Paço do Lumiar, 2005