terça-feira, agosto 23

RUPTURA

Estou pensando em me libertar de todas as amarras e conveniências e de gozar de leve a vida, sugar o que de melhor ela tem, beijar de leve a saudade, e sonhar sorrindo com a neve em meu rosto. Em atravessar a avenida nua, despida em verdades e ter coragem de gritar, o grito mais louco. Aquele grito que minha alma urge e meus ossos cantam.
Estou pensando m viver, viver só, viver com todo mundo e de carregar o mundo nas costas, como no poema de Drummond. Estou a fim de tomar café mesmo que isso me cause uma puta dor na cabeça. E de manso escrever besteiras num papel reciclado da "Chamex". Em fazer amor por horas, com um desconhecido que conheci numa noite quente de São Luís que contrastava com o frio louco da capital insana de São Paulo. Estou pensando neste desconhecido nós dois sozinhos nos completamos sem teatros.  E ,na cara dos nossos filhos, no almoço de domingo e na briga no final do dia.
 E agora, só penso em acordar, rasgar o vestido que me veste jogar minhas sandálias fora e ser feliz só com o que meu corpo possui: prazer e solidão.

segunda-feira, agosto 22

O Sítio Piranhenga: a história que os maranhenses desconhecem

O Maranhão é riquíssimo em belezas naturais; com belas praias, dunas, rios, riachos, cachoeiras e uma diversidade que a natureza proporciona.
E belos casarões históricos seculares que atrai pessoas no mundo inteiro, sendo Patrimônio Cultural da Humanidade, mas infelizmente, tudo isso não é devidamente preservado pelo poder público e pela população local.
O nosso estado é rico também em História, que também é esquecida praticamente por todos os segmentos da sociedade, inclusive pelo Estado.
Em São Luís, há um lugar que conta um pouco da história na cidade e no Estado, que fica próximo ao centro e de fácil acesso, mas ao mesmo tempo é local inóspito por uma imensa mata que fica a beira do rio Bacanga localizada no Parque Pindorama, que poucos se atrevem a ir devido ser o bairro de periferia com o alto índice de violência, devido as mazelas sociais.
Nesse lugar está localizado o Sítio Piranhenga, que foi fundado pelo 1º morador José Clarindo de Souza, o grande senhor de escravos,  vindo de Portugal ao Maranhão no início do séc. XIX, mais precisamente em 1802, e nesse mesmo sítio foi instalado pelo fundador a fábrica de cal a base do sarnambi feito por escravos. Este material fabricado foi usado na construção de vários casarões que hoje são tombados pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).
Essa matéria-prima era levada em embarcações até o Cais da Sagração, que fica a Praia Grande, pois a estrada praticamente não existia e também era o meio mais rápido de transporte, pelo fato do sítio ficar a beira do rio Bacanga, que facilitava o comércio.
Mas com a morte do José Clarindo de Souza em 2 de julho de 1863, o sítio foi herdado pelo neto Luís Eduardo Pires, que passou a exportar o cal a base do sarnambi para Belém (PA) e Manaus (AM) em troca de madeiras na região, que eram vendidas na cidade de São Luís para as famílias mais ricas e tradicionais da Província.
O fato bem interessante do Luís Eduardo, que o mesmo aceitava as manifestações culturais popular, como tambor de mina e outros, num período que era fortemente reprimido pela polícia e a classe elitista na cidade, e essas manifestações eram feitos por via ofício em cartórios. Porque mesmo com toda a repressão da polícia, alguns integrantes da elite eram adeptos ou simpatizantes das festas populares e até mesmo de rituais religiosos, como o candomblé, que é reiterado por muitos intelectuais nas grandes universidades brasileiras, como o Sérgio Ferretti, Mundicarmo Ferretti, Ronaldo Vainfas, Hermano Vianna e outros.
Com a morte do Luís Eduardo em 1939, a casa ficou alguns anos abandonado até com a chegada da romena D. Virginia que é artista plástica e arquiteta casada com o francês Dr. Jean em 1944, a mesma fez toda a restauração do sítio, mantendo a originalidade e ao mesmo fazendo algumas inovações que resultaram numa bela combinação artística e arquitetônica.
Anos mais tarde, ela vende o sítio para o padre francês Jean Mary Maurici Lecorn batizado de João de Fátima Maranhão do Brasil, que fazia ações sociais na região do bairro de Fátima de retirar as crianças nas ruas e colocá-las a estudar e promover cursos profissionalizantes, sendo o fundador do CEPROMAR (Curso Educacional Profissionalizante do Maranhão), uma ONG (Organização Não-Governamental) que atualmente administra o sítio sem nenhum auxílio do Governo Municipal, Estadual e Federal, exceto do Governo da França para bancar a despesa da água, luz e telefone, o restante vem de doações e parcerias com outras instituições e entidades.
O sítio relembra bem o período do Brasil monárquico-escravista, com a casa grande e senzala, revestido de azulejos, com forte que contém uma escada de 97 degraus que vai a beira do rio até casa em formato de serpente enrolada e uma capela que há o mausoléu com os restos mortais do fundador do sítio, seu neto, bisneta do fundador e da D. Virgínia com as suas cinzas armazenadas numa caixa, que a mesma deixou uma carta antes de morrer pedindo para ser cremada e ficar alojada na capela.
Nesse período, era comum as famílias tradicionais serem enterradas em igrejas ou capelas nos seus próprios sítios ou fazendas, porque cemitérios praticamente não existiam, uma tradição que ainda existe em muitas cidades brasileiras que foram fundadas no período colonial e monárquico, que muitas famílias preferem manter essas tradições, no Maranhão e em especial São Luís e Alcântara não são diferentes.
Isto é respaldado por Gilberto Freyre na sua obra Casa Grande & Senzala (1933) que retrata a vida sócio-cultural nesse ambiente que viviam os escravos e senhores, que foi um dos resultantes no processo de miscigenação no nosso país na questão étnico-racial, religioso e cultural que hoje faz parte do nosso cotidiano.
O Sítio Piranhenga segue nesse contexto contado na obra, um pedaço da nossa história do Brasil e do Maranhão que a população ainda desconhece, que infelizmente não é devidamente valorizado pelo poder público, que faz parte da história de todos os maranhenses.

domingo, agosto 21

A BELA FIGURA DA MOÇA

Avenida Beira Mar em três momentos. Foto de Cris Lima


A bela figura da moça no ônibus era triste
Olhar petrificado,
O nada como observação

A bela figura da moça no ônibus
No meio da madrugada era venal
Na dor que escorria das retinas,
Na postura da Madona em fim de exposição

A bela figura da moça no ônibus
Era virginal,
Era louca,
Era serena,
Era mortal.

A bela figura da moça no ônibus
Só morria...
Na paisagem da cidade adormecida






sábado, agosto 20

Fome e solidão.

Para Allen Ginsberg

Eu já acordei com o calor na cara dos primeiros raios de sol de uma sexta-feira deitado num banco da integração da praia grande
Eu era apenas um garoto do subúrbio de São Luis quando ouvi Smell Like Teen the Spirit e Territorial Pissings umas duzentas vezes numa tarde do inicio dos anos noventa e resolvi naquela tarde não ser mais o mesmo garoto inseguro de um dos bairros mais tristes do mundo segundo meu velho amigo das antigas Paulo Rolim
Eu lembro de ter visto Mauricio Soares na pelada do Luis Rocha há uns dezessete anos atrás e nunca ter imaginado que junto com ele e outros sonharíamos com o ideal Raulseixista de achar que podíamos mudar alguma coisa nesse mundo
Foi no final dos anos noventa quando como de um impulso resolvi transar com minha namorada embaixo da ponte do São Francisco e achar que aquela gozada iria ser a mais diferente de todas
Acho que na segunda vez que fui a Papirus do Egito atrás de algum disco dos anos sessenta que vi Paulo Dias pela primeira vez na sessão de álbuns dos Beatles ainda lembro que ele deixava o cabelo crescer e depois nas tardes da cidade fantasma do paço iniciamos as inéditas canções simbolistas que um dia todos irão conhecer
Um dia eu troquei a tristeza do meu quarto por um banco na antiga praça defronte ao Bar Muralha do Projeto Reviver e ali naquele banco entre beijos e abraços resolvi ter um filho e mudar minha vida totalmente para melhor
Que diria meu Pai que era freqüentador do dominó apostado que rolava dentro da feirinha do Reviver sabendo que naquela época eu apenas a rodeava por achar aquele local muito pesado e hoje quando ando por lá chego a sentir sua presença
Quantas vezes fui da Deodoro ao Reviver descendo pela Rua do Sol e de olhos fechados pedia a inspiração dos mais importantes versos de minha geração


Foi durante uma das diversas crises de gastrite que senti vontade de cagar e tive que pegar a esquerda pela transversal que ia dá na São Pantaleão porque somente lá havia um banheiro com aquele aroma cortante de produto de limpeza e aproveitei pra escrever um poema que depois desceu junto a merda de uma crise gástrica
Quantas vezes tive que desistir do copo de refrigerante do cachorro quente de hum real da Praça da Alegria por culpa das maiores vespas do mundo que davam rasantes em meu copo e nem sequer um outro copo de brinde eu ganhava
Quantas vezes me apaixonei pelas universitárias da Uema quando eu devia ter uns 12 anos e achar ultra-poético os livros sobre diversos assuntos que elas apertavam sobre seus seios inertes
Foi numa tarde em meados dos anos 2000 que interei com Alerrandro Lanuci a compra de uma vodca maldita e por conta da bendita atravessamos a noite no lendário Bar de Leny na velha Cohab tocando MPB e Rock anos oitenta junto com um exímio violonista e lá pras tantas da madrugada apareceu um artista decadente freqüentador de bares decadentes cantando Lobão com apenas duas notas musicais
Caramba foi o que eu disse quando estive pela primeira vez em cima da escadaria ao lado do teatro João do Vale na segunda metade do ano de 1997 e fiquei imaginando no horizonte a chegada dos franceses com as belas embarcações
Foi numa das poucas vezes que senti vontade de chorar de emoção quando numa manhã de inverno embaixo de um orelhão da praça do reviver pude ver um sol tenro brilhando nas pequenas gotículas de chuva que caiam bem na minha frente de forma inclinada defronte ao Bar Antigamente
Eu assisti o último show da banda Sarcoma no bar mais Underground do mundo numa rua escura do São Chico chamado Bar do Bento e fui embora sem um tostão no bolso ao lado de Bruno Azevedo e outros metaleiros e punks discutindo música numa Van salvadora da madrugada
Eu vi as melhores cabeças da minha geração largando o ideal de mudar o mundo através de uma banda ou através de uma história genial publicada em um livro ou qualquer coisa parecida indo para as filas de banco de emprego porque nossos filhos e nossas mulheres chegaram a chorar de fome e solidão por conta do tempo que sempre nos exige algo mais.

10 de Novembro de 2009.

quinta-feira, agosto 18

Paulinha quer fuder


O olhar ingênuo e o corpo franzino e a pele com espinhas revelavam sua imaturidade, mas não sua libido. Tocava-se todos os dias quando ia dormir ou no chuveiro escutando rock roll, mas nunca achou satisfatório. Viu varias cenas de sexo subtendidas nas novelas e filmes da televisão antes da meia noite quando ia dormir pra ir cedo pra escola. Mas nada de fato. Apesar de que um dia chegou cedo da escola e abriu a porta do quarto de seus pais e viu um em cima do outro gemendo.
- Isso é sexo?!  - Duvidou. E fechou a porta.
...
Matou aula com as amigas também virgens e foram para a suíte de um motel e ficaram comendo chocolate, sanduiches e bebendo os refrigerantes do frigobar, enquanto olhavam closes de xoxotas e paus na TV de plasma deitadas numa cama oval. Algumas riam. Outras achavam nojento. Paula mordia os lábios até que sangrou. Estava decidida em romper seu hímen.
...
- É só uma festa de aniversário seu Carlos e dona Mariana – Mentiram suas primas.
Era uma Rave. Passou dez horas dançando Trance. Não sabe mesmo como conseguiu. Desconfiou que aquela pílula rosa com um sorriso que uma prima lhe ofereceu junto com um pirulito no meio do transe eletrônico influenciou bastante. Conheceu um cara.
- Oi
- Oi.
- Legal a festa.
- Legal.
- Vamos ali?
Era definitivamente ele. Corpo musculoso e óculos Rayban. Lembrava seu ídolo cinematográfico Brad Pitt. Suas primas a incentivaram bastante. - Vai lá! E Brad Pitt lhe guiou calado e cheio de mistério pra seu carro importado e abriu a porta chaves.
-?
- É cocaína.
-!
Enrolou uma nota de dez reais e aspirou cinco carreiras seguidas do pó. Paula nunca havia visto aquilo; Um ataque convulsivo com baba descendo pelo queixo do seu Brad Pitt. Lembra-se que a festa acabou e uma ambulância chegou. Ainda teve que prestar depoimento na delegacia. Informaram depois que foi overdose. Foi logo liberada e por sorte seus pais não souberam de nada.
...
Passou dias e dias deprimida. Isolada no seu quarto. Ouvindo no seu headphone Bebel Gilberto e Sonic Youth. Só saia pra escola. Até que recebeu uma ligação surpreendente. Era Julinha uma amiga de infância que há tempos não via. Estava numa onda hippie e lhe convidou pra ver as ondas do mar, a lua, contar as estrelas e perguntou qual era seu signo e que ia gravar uma coletânea de Reggae pra ela.
- Poxa! Saiba que isso foi um telefonema astral e não por acaso. Houve uma conspiração da natureza. Você vai sair da deprê. Tenho certeza
- Meu signo é Virgem.  Respondeu antes de ela desligar. Literalmente. Refletiu.
...
Foi à praia com a galera alternativa. Seria ali entre a areia e a luz do luar. - Que romântico! Pensou.  Julinha lhe deu as boas vindas queimando um incenso de erva doce pra atrair energias positivas e apresentou um amigo de cabelos rastafáris. Ele falava sobre astrologia, Civilização Maia, Mestre Irineu e o Universo. A galera ria e pulava no mar e gritavam: - Aí é O filho de Bob. Ele fumou várias bombas prensadas da pernambucana que tamanha foi larica que comeu praticamente todo o sanduíche de frango e latas de Coca-Cola que Paula trouxe e depois caiu na areia explicando um bando de coisas que ela se esforçava pra entender.
- Porra! Eu só quero fuder. Não importa seu cabelo fedido ou quem é Mestre Irineu! - O filho de Bob arrotou e dormiu.
No outro dia com muita raiva e sem a menor paciência arrumou suas roupas e foi embora sem se despedir do Filho de Bob que ainda dormia e de Julinha que fazia Ioga na beira da praia.
...
Desistiu das primas e de Julinha, mas não das masturbações. Ainda queria transar apesar dos insucessos e voltou a escutar suas músicas, isolada no quarto ainda mais deprê. Um dia voltando da escola foi apresentada a um primo desconhecido da baixada maranhense de acento cantado e jeito manso que ia passar uns dias na sua casa. Iria seguir a carreira de seminarista. Sua mãe e seu pai receberam lhe com o maior respeito e carinho e Paula com desdém.
- E quem sabe ainda faz o casamento da minha filha! - Exclamou o pai orgulhoso lhe abraçando.
- Deus te ouça! Olha? Eu trouxe uma boa farinha d’água seu Carlos. E eu mesmo ajudei a fazer. E Curimatá também dona Mariana. Eu mesmo pesquei.
- Que bonito! Rapaz esperto. – Disse Dona Mariana também orgulhosa.  
- Ó... – Ironizava Paula.
Ofereceram o quarto dela pra ele dormir, pois só viam bondade nos olhos singelos do futuro padre. Foi o cúmulo. Paula teve uma histeria por causa daquela invasão de privacidade, mas acabou cedendo depois de muita insistência e a promessa de pagarem o passaporte e o avião ao show do Pearl Jean no Morumbi.
- Era só uma semana. – Repetiu pra si.
...
Foram dormir e o futuro padre não conseguia cair no sono. Desabafou que não queria ser padre, pois não entrava na sua cabeça o Celibato.
- O que é Celibato? - Questionou no escuro, curiosa.
- É abstinência sexual - Respondeu encabulado.
- Abstinência? - Paula estava mais curiosa.
- Não fazer aquilo que nossos pais fazem no quarto à noite para gerar bebês - Respondeu cheio de rodeios.
- Hum.
Paula estava se interessando por aquele rapaz manso. Seria ele. Pulou na sua rede e ele correspondeu com grande experiência. Era melhor que qualquer imaginação, filme pornô, novela, ou masturbação.
...
- Você já tinha feito antes?
- Comecei com as cabritas do quintal e depois passei a ir todos os finais de semana na Clotilde.
- Clotilde?!
- Um cabaré bonzinho lá na beira da BR que corta minha cidade.
- Entendo...
- Paula?!  Ainda sobrou aquele Curimatá gostoso que sua mãe fez pro almoço?
- Sim. Fica aí. Eu vou buscar.
- E num esquece a farinha.
- Ok.

quarta-feira, agosto 17

O MIOLO DA ESTÓRIA – Por um pouco de originalidade

            É bom presenciar a concepção e o produto final de um espetáculo, sobretudo, quando não foi feito para fins empresariais, ou para a conclusão de mais uma disciplina do curso de teatro, onde vemos, no primeiro, a trama obtusa do capitalismo, e no segundo, a acrobacia do conceito. Teatro, de fato, apenas a carapaça, pois quem atua mesmo são outros fatores (as velhas Xerox da universidade e as campanhas publicitárias)  que estão fora do mérito da cena. Na peça O Miolo da Estória vemos que o prisma da autoria é irradiado a todo instante e que o resultado não é um processo hermético que nunca termina ou a lavagem cerebral promovia pelo Marketing, é um produto independente: uma obra de arte a ser analisada a fundo  e um trabalho que merece todo apoio financeiro.

” Teatro, de fato, apenas a carapaça, pois quem atua mesmo são outros fatores (as velhas Xerox da universidade e as campanhas publicitárias)  “
           

A linguagem utilizada pelo autor/ator, que enraíza o linguajar simples e popular, e a clareza das ideias do texto e da encenação, fazem desta peça um fragmento lírico da realidade nua e crua. Na fala do João (Lauande Aires), presenciamos o retrato do quotidiano, o trabalho duro que paga enquanto o corpo fica de pé e abandona assim que não pode mais contar com os braços do trabalhador, ao mesmo tempo, os bastidores do Bumba Meu Boi é exposto e, lá, vemos a brincadeira sendo descaradamente vendida, trocada por votos, apoiada enquanto eles podem ver, em cada brincante, um eleitor em potencial. Tais aspectos estão inseridos em um enredo simples e linear: a história de João, que quer ser um cantador, mas é o miolo do boi, peça importante para brincadeira, no entanto não visto e nem reconhecido pelos demais. O desejo de ser cantador é descartado imediatamente pelo dono da brincadeira. Frustrado, ele abre mão ser o miolo, no entanto ele fura o pé em um acidente e corre o risco de não mais trabalhar e de nunca mais poder brincar debaixo do boi.
Este é clímax da história e neste ponto habita o conflito: com o pé infeccionado, ele não tem mais de onde tirar o seu sustento, ao mesmo tempo, ele também está impossibilitado de dançar, a partir daí a figura do trabalhador explorado se encontra com a do brincante excluído e ambos fazem uma promessa para São Pedro para obter a cura.

Colocando o personagem nesta situação, o autor expõe dois olhares sob a brincadeira e o brincante: o primeiro, severo e crítico, fala sobre a sociedade, o trabalho duro e desumano, além disso, o espetáculo do auto do boi tendo que ser vendido e subordinado à políticos; o outro, fala de um aspecto esquecido e negligenciado da brincadeira, hoje em dia, tida mais como atração turística do que como algo que surge, sobretudo, da religião, do ritual, da pantomima, e não de grupos, ensaiados e coreografados, com brincantes esculpidos, às vezes, em academias.
Através da encenação, paradoxalmente,  Lauande Aires mostra que o brincante não é um simples ator e que o boi não é apenas um espetáculo. A realidade está presente e tem um hálito horrível que não deve ser ignorado em função da apresentação e seus recursos plásticos. Desta forma, ao decorrer da peça, podemos perceber a todo instante este desmascaramento quando vemos os elementos típicos do bumba meu boi sendo transformados em ferramentas da construção e os instrumentos de trabalho tornando-se elementos da festa: Um tamborim, vira um prato de comida, uma colher de pedreiro, vira uma colher de sopa, a escada, funciona como uma casa, latas de tinta se transfiguram em baldes e praticantes, duas peneiras de areia, juntamente com uma pá, montam uma bicicleta. O cenário não é inerte à cena, ele faz parte do jogo, ele transcende o sentido singular e constrói a cena. O deslocamento do significado dos objetos (re)utilizados reafirmam o drama e inserem-se dentro do contexto do espetáculo.
            Desta forma, a peça O Miolo da Estória que apesar do caráter fictício, poderia muito bem se chamar “O miolo da História”, pois busca uma forma de retratar a realidade por detrás daquilo que é propagandeado, os bastidores do brincante e do trabalhador, o sofrimento que não é mostrado e que não cabe nos cartões postais. O miolo do boi, da realidade, do brincante, do ajudante de pedreiro, do homem humilde e rústico, do ser humano que brinca, que crê, que chora, o miolo da sociedade que carrega baldes e mais baldes de concreto, que constrói com seu suor edifícios altíssimos, todavia, permanece nos escombros desta sociedade desigual e impiedosa. Estes pés escondidos por debaixo de um boizinho enfeitado e alegre que esconde mãos calejadas e um rosto sugado pelo cansaço, se movem, não só na brincadeira, mas no dia-a-dia dos centros urbanos: os Joãos que carregam o boizinho enfeitado, carregam também a grande cidade edificada.
            Portanto, O Miolo da História surge como um espetáculo autoral e dinâmico. É claro que nada surge do nada e que, obviamente, o autor deve ter se baseado em inúmeros teóricos e pensado em tirar algum para si, no entanto, diferentemente das inúmeras montagens de Brecht e das campanhas de educação para o trânsito e diabo a quatro, conseguimos ver, apesar das influências, uma peça original, um produto único, diametralmente oposto a sensação do “mais um novo mesmo teatro”.